quarta-feira, outubro 17, 2018

Faço 41 anos hoje

E é difícil lidar com a demonstração de amor que logo de manhã recebo da minha mulher e dos meus filhos, e que continua ao longo do dia por tantos e bons amigos que Deus me deu. Sou injustamente amado além do que devia e mereço e isto tem um nome teológico: graça. A caminho da igreja vínhamos a ouvir o Leonard Cohen e na canção "Anthem" estão umas linhas que queria partilhar convosco: "Ring the bells that still can ring/ Forget your perfect offering/ There is a crack in everything/ That's how the light gets in." O Cohen, sendo judeu, não era cristão mas percebia perfeitamente a lógica de precisarmos de um sacrifício além de nós mesmos, em forma de corpo, uma vez que todas as nossas tentativas saem rachadas - e é nessa imperfeição que Jesus, a luz da graça divina, entra. Entretanto, acabei de saber que Deus chamou o João Tomaz Parreira à sua presença. O João era meu amigo e dos pouco poetas evangélicos do nosso país. Eu devo-lhe muito, por tantos caminhos que abriu para mim e muitos. Sei que ele também gostaria destas linhas do Cohen. Um abraço forte de consolo a todos na amada Família Parreira.

terça-feira, outubro 16, 2018

Back

The podcast is back and this one's on fire! Here's the thesis: we, evangelical christians, underestimate the Church because we don't love Jesus enough. Go listen, friends!

sexta-feira, outubro 12, 2018

O Henrique Raposo e o João Miguel Tavares

São aqueles amigos que nunca podem faltar quando a Igreja da Lapa se mete em Fins-de-Semanas Cheios. A conversa não precisa de estar planeada para acontecer.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Quem é português

E não lê o Observador? Imaginem por isso o privilégio de termos recebido o ano passado o Rui Ramos e o Miguel Pinheiro. Para cristãos que acreditam na predominância da Palavra, é fundamental conhecer os lugares onde vamos buscar as palavras que nos descrevem a actualidade. Se neste ano fazemos uma pausa de organizar o Fim-de-Semana Cheio na Lapa, é porque para o ano queremos isto e mais ainda.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Mesmo em ano de pausa

Aos Fins-de-Semana Cheios na Lapa nunca faltou rock'n'roll - Tony Fortuna e Samuel Úria não nos deixam mentir!

terça-feira, outubro 09, 2018

Quando conversar parece uma actividade em vias de extinção

Creio que de há um ano para cá, o ambiente de discussão entre as pessoas, muito à custa das redes sociais, tornou-se ainda mais hostil. Para isto contribui uma maneira mais frágil de olharmos para o mundo, sobretudo concentrada nas questões políticas como se elas fossem as que realmente traduzem a realidade como ela é. O fenómeno Jordan Peterson não é casual porque uma das suas forças é avisar que as questões políticas são importantes mas elas não devem ter a pretensão de esgotar tudo o que há para compreender. Não deveríamos ser capazes de entender o universo também a partir da psicologia, da teologia, ou de outras tradições de saber que parecem atropeladas pelas urgências da política do aqui e do agora?

Qualquer eleição parece, por isto, uma questão de vida ou de morte, uma divisão entre os maus, que nos levaram para a ruína, e os bons, que nos vão salvar do caos em que estamos metidos. Posições políticas extremam-se e pessoas juram novas e infindáveis guerras sociais. Não é só com o Trump, o Brexit, os novos líderes europeus desalinhados ou o Bolsonaro. É connosco em Portugal, também, ainda que daquele jeito mais tímido e desconfortável com palavras claras que tende a caracterizar-nos. Com os juízes da "extrema-direita americana" há certezas de abuso sexual, com os nossos Ronaldos até as vozes mais feministas aconselham calma. Enfim.

A Igreja da Lapa passou a última meia década a acreditar que vale a pena conversar. Vale a pena conversar ainda mais quando conversamos com quem discordamos. A nossa fé na conversa só existe porque, enquanto cristãos reformados, temos fé inabalável na Palavra: a que se fez carne em Jesus, no mesmo estilo como se revelou produzindo as Escrituras, e a que deve ser usada como um encontro até com os nossos adversários. A esta convicção tornada em eventos chamámos os "Fins-de-Semana Cheios na Lapa" e em 2018 não fazemos um porque queremos no futuro fazer mais e melhor e para isso uma pausa é necessária.

No entanto, guardámos alguns vídeos das conversas do ano passado para partilhar convosco este ano. O de hoje é um dos meus preferidos porque ilustra na prática que, quando conversamos, levamos essa vontade aos que podem estar mesmo distantes de nós a nível de valores. Como acreditamos em milagres da Palavra, acreditamos no milagre de chegarmos à palavra com quem tanto discordamos. Pessoalmente, nunca votaria no partido de Francisco Louçã, mas acredito que não só posso conversar com ele como até aprender. Se Jesus gastou tanto tempo com pessoas que não acreditavam nele, que desculpa arranjarão os seus seguidores para se recusarem a fazer o mesmo?

Por fim, não nego que aquilo que acontece no fim de cada uma destas conversas é o mais especial: orar por quem conversamos. E tu, que te dizes cristão: oras pelos teus adversários para que os possas amar, bem como Jesus nos ensinou a  fazer?

segunda-feira, outubro 08, 2018

Para a semana

Vou juntar uns amigos para, a pretexto da reedição do "IV" (está quase, está quase), conversarmos acerca das coroas da música portuguesa. Será na quarta-feira, 17 de Outubro, às 17.30h no Mercado de Arroios com entrada livre. Se tivermos em conta que nesse dia faço 41 anos, podem sempre passar por lá para me darem um abraço. Não me importo nada.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Estar no fundo do mundo para encontrar Deus", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, outubro 01, 2018

Casamento da Rebeca e do Manel, 29 de Setembro de 2018

Marcos 3:31-35
«31 Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo [Jesus]. 32 Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: “Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura.” 33 Então, ele lhes respondeu, dizendo: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” 34 E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. 35 Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.”»
Estamos num casamento e o texto bíblico que vos trago, pelo menos à primeira vista, não diz nada sobre o assunto. Mas sendo um texto que fala da família de Jesus, vamos esperar que possa falar também alguma coisa acerca da família que nesta tarde a Rebeca e o Manuel passam a ser.
Quando este episódio se deu, Jesus estava num momento especial da sua vida. Tinha começado o seu ministério público há relativamente pouco tempo e a sua popularidade estava a tornar-se, como agora se diz, viral. Os discursos que fazia e sobretudo os milagres que realizava davam que falar na Galileia, a zona norte de Israel de há dois mil anos. Antes de Jesus chegar a um lugar, já esse lugar estava agitado por ele. Como geralmente costuma acontecer com fenómenos de celebridade, abrem-se rapidamente duas reacções: alegria e aceitação, e rejeição e antagonismo.
Neste caso, os adversários de Jesus tinham chegado a um ponto de desamor tal que, como conta o início deste capítulo 3, já conspiravam para matá-lo. E é preciso ter conta que eram adversários unidos numa coligação abrangente e com grande competência – aquilo que planeavam tornava-se o que provavelmente ia mesmo acontecer. Eram religiosos conservadores e progressistas, fariseus e herodianos ou saduceus, que costumavam ser inimigos uns dos outros mas que, desde a chegada de Jesus, tinham descoberto uma coisa em comum: odiavam mais Jesus do que se odiavam uns aos outros. Por isso, tinham arranjado maneira de trabalhar juntos a favor da morte dele. Não há nada como um bom ódio em comum para juntar pessoas diferentes.
Criado um ambiente destes, não seria de estranhar que à família de Jesus, a mãe dele e os seus irmãos e irmãs, acabasse por chegar algum zunzum. O que é que se calcula que uma família faça quando se sabe que um dos seus integrantes corre risco? Naturalmente, que o defenda. E era isso que aqui estava a acontecer. Com todas as boas intenções, a mãe de Jesus e seus irmãos e irmãs estavam a ir ter com Jesus como quem lhe quer dizer: “acalma-te lá com o que andas a fazer porque se não ainda te magoas”.
A resposta de Jesus parece um pouco torta e indicia algo como: deixem-me em paz porque a minha verdadeira família é feita daqueles que fazem a vontade de Deus. Será que Jesus está a desprezar a importância da família e do bem que geralmente ela nos quer? Gostava de tentar responder e, a partir daí, inspirar todos nós aqui, principalmente a Rebeca e o Manuel no dia em que se tornam uma família.
1. Jesus, parecendo que estava a tratar mal a sua família, estava também a ensinar que mais importante do que uma família evitar perigos aos seus membros, é ela fazer a vontade de Deus. Rebeca e Manuel (e especialmente Manuel, enquanto homem da família): é importante vocês lutarem para se livrarem um ao outro de perigos, mas o mais perigoso é livrarem-se de cumprir a vontade de Deus.
Hoje o que não falta é famílias que vivem fechadas na sua própria segurança, tomando qualquer princípio ou atitude que vá além da protecção física como um disparate. Rebeca e Manuel: ter fé em Cristo é saber que viver seguro não é necessariamente viver com Deus. Jesus não viveu seguro e acabou executado numa cruz. Claro que todos aqui desejamos uma vida feliz para vocês e, de preferência, livre de crucificações. Mas é preciso reafirmar que uma vida verdadeiramente feliz é a que cumpre a vontade de Deus e não a que se esgueira de tudo o que parece um problema. Tenham fé em Jesus! Sejam uma família corajosa!
2. Jesus, parecendo que estava a tratar mal a sua família, estava também a ensinar que nenhuma família dura por fugir das dificuldades, mas por ter fé em Deus. Rebeca e Manuel: há famílias que deixam de ser famílias até chegar uma dificuldade maior, mas a família que vocês devem ser responde às dificuldades, sejam elas maiores ou mais pequenas, com fé.
Hoje o que não falta é famílias construídas sobre a ideia de que a felicidade é a ausência de dificuldades, tomando a exposição a um sofrimento maior como uma prova de que o prazo de validade dessa família já chegou ao fim. Rebeca e Manuel: se Jesus tomou um sofrimento tão grande como a cruz para provar o seu amor por nós, olhem para os sofrimentos que vão enfrentar com a mesma atitude: uma oportunidade para dependerem da graça de Deus ao ponto de sofrerem um pelo outro por amor. Tenham fé em Jesus! Não tenham medo de sofrer juntos porque Jesus vai estar convosco!
3. Jesus, parecendo que estava a tratar mal a sua família, estava também a ensinar que a família humana, num casamento entre um homem e uma mulher, é uma ideia de Deus para vivermos como família dele, que é uma ideia ainda melhor. Rebeca e Manuel: à medida que permanecerem juntos a partir da confiança que têm em Deus, permanecerão também juntos do próprio Deus.
Hoje o que não falta é famílias cuja união é só entre as pessoas que delas fazem parte, perdendo a oportunidade de se unirem ao próprio Deus. Rebeca e Manuel: vai ser óptimo vocês viverem em união um com o outro, mas, acreditem, ainda será melhor viverem, através da vossa união, unidos com o próprio Deus. É quando estamos unidos ao Criador que nós próprios somos feitos elo de ligação da criação de muitos mais. Que vocês possam ficar em comunhão com Deus de uma maneira que se amam ao ponto de se multiplicarem e de expandir esse amor àqueles que Deus vos confiar, seja dentro das portas do vosso lar, seja fora.
Que Deus vos abençoe.



terça-feira, setembro 25, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Querer ser visto é uma maldição; ser visto é a nossa salvação", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, setembro 19, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Um teste completo ao cidadão do Reino de Jesus", pode ser ouvido aqui.

terça-feira, setembro 11, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Por uma Teologia da Inimizade", pode ser ouvido aqui.

terça-feira, setembro 04, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Jesus a tornar a pior ofensa na melhor coisa que te acontece", pode ser ouvido aqui.

Ouvir

O sermão chamado "Quem presta contas a quem: a vida a mim ou eu a Deus? A tentação mortal da vingança" pode ser ouvido aqui.

terça-feira, agosto 14, 2018

Ouvir

Se baseares o teu possível relacionamento com Deus em termos que te parecem sempre razoáveis, provavelmente não será com Jesus que te relacionarás. Se quem estabelece a razoabilidade é o crente em relação a Deus, então esse crente é o seu próprio deus. Certamente que não é fácil seguir Jesus, mas toma o seu exagero como o maior investimento espiritual que pode existir em ti. Não tenhas medo. Os exageros de Cristo apenas significam que a nossa circunstância é exageradamente desesperada ao ponto de precisarmos de ser validos por alguém que não nós, e um alguém especial ao ponto de ser Deus.

O sermão de Domingo passado, chamado "Sem exagero não há Cristianismo", pode ser ouvido aqui.

terça-feira, agosto 07, 2018

Uma palestra

A busca pelas origens no protestantismo é mais uma vontade de regressar ao adorador hebreu do que ao filósofo grego.

quarta-feira, julho 25, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Como Arrancar Olhos e Cortar Mãos", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, julho 18, 2018

Não sendo, é como se fosse da seita

[Comecei a escrever este texto em Janeiro. Hoje em dia demoro muito tempo a escrever alguns textos. Entretanto, a sua validade em termos de pertinência mediática, expirou. Mas não expirou a importância das coisas que estou aqui a tentar organizar no meu pensamento. Por isso, e como todo o atraso, leiam-no e façam por defender o mais importante: a nossa liberdade religiosa que é um modo de tornar a vida de todos mais livre, mesmo a dos não-religiosos.]

Em primeiro lugar, a razão porque não pertenço à Igreja Universal do Reino de Deus é a mesma porque não pertenço à Igreja Católica Apostólica Romana: as duas confiam que Deus dirige a Igreja fundamentalmente através de homens. No caso da primeira, fazendo uma mistura do que parece ser um princípio evangélico de autoridade da Bíblia com a importância de visões dadas por Deus aos líderes; no caso da segunda, fazendo uma mistura da autoridade da Bíblia com a tradição, representada na autoridade eclesiástica (e no Papa em particular). Quer a IURD quer a ICAR confiam, ainda que através de estilos diferentes, que a voz do líder é a voz de Deus. Neste sentido, elas são próximas e, consequentemente, distantes da tradição reformada protestante. IURD e ICAR são igrejas mais optimistas no processo de confiarem na liderança do que as igrejas evangélicas.

O que crê um cristão evangélico como eu? Crê também que Deus usa as autoridades eclesiásticas mas que elas não estão ao nível da autoridade da Bíblia. Simplificando muito e usando uma dicotomia que me parece razoável para os efeitos desta distinção breve: interpreta-se o que as autoridades eclesiásticas podem e devem ser a partir da Bíblia, e rejeita-se a ideia de que são as autoridades eclesiásticas que interpretam o que a Bíblia é e deve ser. Por muito que possa custar admitir, quer Edir Macedo quer o Papa Francisco desempenham para os seus rebanhos um papel de guia que nunca um pastor evangélico como eu deve desejar. Não sou neo-pentecostal nem católico romano porque tenho a Bíblia como o guia suficiente e eficaz para a minha fé, a uma escala que o catolicismo e a IURD não concebem para si. Os homens são importantes mas, à semelhança do princípio que já temos no Velho Testamento (e, portanto, no Judaísmo), submetem-se à palavra escrita. Reduzindo ainda mais o argumento: para a tradição hebraica, neste sentido continuada no protestantismo: a palavra vale sempre mais do que as pessoas.

Logo, se o meu propósito é apreciar os riscos da liderança da IURD em derrapagens perigosas expostas pela comunicação social, creio que é íntegro dizer que o princípio que leva ao despiste pode também afectar o motor da Igreja Católica Romana (não deixa de ser curioso o debate actual numa comunicação social mais inteligente e internacional acerca do rapto de um menino judeu chamada Edgardo Mortara no Século XIX, porque tinha sido baptizado secretamente por um padre, rapto esse apoiado pelo Vaticano de então e ainda hoje defendido por muitos católicos romanos). A partir do momento em que cabe a homens ter uma palavra última acerca do que o cristianismo realmente é, papel esse que se sobrepõe às afirmações claras das Escrituras, está criada a possibilidade de haver adopções ilegais no Portugal do Século XXI e de raptos na Itália do Século XIX. Será assim tão diferente a raiz da questão?

Em segundo lugar, lamento a pressa da comunidade evangélica portuguesa em vir a público afirmar que a Igreja Universal do Reino de Deus não faz parte da Aliança Evangélica Portuguesa. É um facto: a IURD não faz parte da AEP e, parece-me, justificadamente. Os princípios da IURD, como já mencionei, não assentam num princípio de autoridade e suficiência das Escrituras. Mas o problema não é esse. Pior do que a IURD querer passar por evangélica é os evangélicos não quererem ter nada a ver com a IURD. Como assim?

Creio que pior do que a IURD querer ser evangélica é os evangélicos não quererem nada com a IURD, porque aumenta um problema pior e mais grave que afecta evangélicos oficiais e não-oficiais que é uma escassa liberdade religiosa em Portugal. Ou seja, a pressa dos evangélicos em dissociarem-se da IURD é mais parte da doença do que da cura. Em Portugal, e aceitem a minha simplificação, a Igreja Católica Romana possui o monopólio da respeitabilidade religiosa. Este país que tem quase 900 anos continua a ter dificuldade em realmente respeitar outra religião que não seja aquela que participou no processo da sua origem. É certo que não éramos portugueses se o Papa não nos tivesse permitido ser (porque era assim que a política funcionava então), mas isso não deve significar que quase nove séculos depois só a religião do Papa possa ser respeitada - e infelizmente é isto que, em grande escala, continua a acontecer em Portugal.

Não vi uma única das reportagens da TVI porque, como regra geral, não confio na cultura religiosa dos jornalistas portugueses. Sei que é uma generalização mas creio-a profundamente justificada pela realidade. Do mesmo modo como não confio na cultura religiosa dos jornalistas que escrevem sobre o suposto ultra-conservadorismo católico romano numa capa recente da Visão, não confio na TVI para mostrar a realidade da IURD. Não me entendam mal: se a TVI descobriu um caso de polícia, parabéns! Bom trabalho. Metam os vilões no xilindró. Mas a questão é que quando a TVI descobre um caso de polícia na IURD o resultado prático é muito maior do que aquele que se situa nos tribunais judicais: nos tribunais da opinião pública toda a expressão religiosa não-católica fica pintada com as cores berrantes da "seita".

Sei por experiência que, de cada vez que a comunicação social vai falar sobre a IURD ou qualquer outro movimento mais excitado para os tristes padrões lusitanos, é de mim também que estão a falar. A prova é que os evangélicos passam a vida a justificar-se nas manhãs seguintes às noites em que reportagens destas passam na TV. Por isso quero dizer aos meus irmãos evangélicos: não julguem que pelo facto de a IURD não fazer parte da AEP, nós estaremos a ser poupados de alguma coisa. Aliás, é precisamente este esquema de "querer ser poupado" que deve ser denunciado e combatido. Nós evangélicos temos de perder o instinto imediato de, diante da exposição de qualquer falcatrua feita por uma minoria religiosa como nós somos, dizermos: "nós não somos desses!" Permitam-me ir mais longe: tirando as falcatruas, quero que me ponham no mesmo saco da IURD e de qualquer outra minoria religiosa olhada com suspeita.

Bandidagem é para ir para a prisão. Mas aquilo que é considerado esquisito em termos de religião é a casa em que habito no meu país. Não me interessa se os lumes da opinião pública se acendem agora contra a IURD ou mais tarde contra o Opus Dei (uma espécie de excepção dentro do catolicismo no que diz respeito à sua conturbada relação com a comunicação social) - se há um povo a ser queimado por não encaixar na religião respeitável da maioria, contem-me com ele. Se o facto de a minha moradia destoar do bairro participa no processo de ter menos liberdade, então podem crer que a prisão de uns hoje será a minha prisão amanhã. Logo, neste circo à volta da IURD o pior que acontece não é bandidagem dos pastores - é a redução real do já escasso respeito que os portugueses dão às minorias religiosas.

Em terceiro e último lugar, a preocupação de todos os evangélicos e de todas as pessoas de bem, tenham uma identificação religiosa ou não, é nestes momentos colocarem-se prioritariamente do lado da liberdade religiosa. A devida prisão para os bandidos não pode falar mais alto do que a liberdade dos crentes e é isso que não deixa de acontecer no imaginário português - "estas igrejas são todas uma quadrilha". Poucas ou nenhumas vozes se têm preocupado em levar o cartaz correcto para a manifestação. O povo alinha mais facilmente no linchamento de uns trafulhas do que na protecção de um direito. O mesmo povo que volta e meia gosta de nas redes sociais meter a frase de Martin Niemoller: "Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar."

Esquisitões da IURD: quando vierem para vocês, quero estar convosco. Antes de ser português, sou provavelmente da seita.



terça-feira, julho 17, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Adulterar no Coração", pode ser ouvido aqui.

Nas bancas

T. S. Eliot e Ezequias são exemplos na tarefa de tentar pôr a casa em ordem diante de um fim certo. O que pode ser salvo só se salva com a ajuda preciosa das lágrimas, que podem ir onde a força política não chega. Do mesmo modo como Eliot sabia que a cultura só sobrevive com culto, Ezequias arrancou vida à sepultura com chorosa oração. Pólis e prece: redima-se assim o Ocidente e qualquer outro canto terrestre. Faltam lágrimas aos nossos políticos e falta política às nossas lágrimas.

Na revista Ler. Comprem e leiam!


quinta-feira, julho 12, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Jesus chama-nos à amizade e à reconciliação com todos?", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, julho 04, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Os homicídios que não cometi mas confesso", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, junho 18, 2018

Segunda-feira é dia de um milagre no coração
em dois minutos e meio. Hoje, Jesus choca as pessoas quatro vezes. Vê porquê.

sexta-feira, junho 15, 2018

Novidades!

Dez anos não é muito mas também não é coisa pouca se o que estiver em causa for a oportunidade de celebrar um disco que se tornou um encontro de muitos amigos. Quando o Tiago Guillul lançou no início de 2008 o seu "IV", estavam em 15 canções um aglomerado de novos músicos que em comum tinha sobretudo a zanga com uma música portuguesa que parecia pouco lhes tolerar a língua. Os ilustres desconhecidos de então, além do Tiago, eram nomes como Samuel Úria, Manuel Fúria, João Coração, Bernardo Barata e Jorge Cruz (que trazia uma história mais antiga e mais complicada) - isto só para citar uma mão cheia. O engraçado é que, à medida que o "IV" alastrou, aumentou o número de amigos que se juntaram àquela estranha e animada caravana (e, sendo sinceros, o de inimigos também).

O B Fachada foi um deles. Apesar de ter o seu caminho anterior independente, meses depois teria o seu próprio disco pela FlorCaveira, "Viola Braguesa". Ora, numa reedição do "IV" que se deseja celebração rija, haverá espaço: - para o disco original remasterizado, - para um disco de sobras (porque o Tiago estava em híper-actividade na altura e de 30 canções gravadas escolheu apenas metade para o alinhamento final), - e para um disco das canções regravadas por amigos (que irão do Fachada ao Benjamim, passando pelo Jorge Cruz, Luís Severo, Filipe Sambado, Filipe da Graça, entre muitos outros).

Na FlorCaveira a amizade é um valor e por isso é especial que a primeira canção a ser lançada, desta edição que chegará em Setembro, seja agora a afachadada "Canção de Natal". O Verão está à porta? Então metam-lhe uma estrela no topo.


quarta-feira, junho 13, 2018

Acredito em pessoas preocupadas com a alegria

[O meu amigo Jacinto Lucas Pires convidou-me para ler e apresentar, junto com o Rui Tavares, o seu livro "A Gargalha de Augusto Reis", acabadinho de sair e que vocês podem comprar em qualquer boa livraria. No lançamento partilhei esta meia-dúzia de ideias.]

1. "A Gargalhada de Augusto Reis" não é um livro qualquer. O Jacinto escreveu um livro que joga com elementos de grandeza dos quais foge. O que quero dizer com isto? Olhemos para os ingredientes: há um poeta e professor que também tinha sido político, do tempo do Estado Novo e com ligações a ele, que é Augusto reis; há, décadas depois, um jovem negro da Amadora que se forma em Direito, e cresce obcecado por um poema encontrado no lixo desse mesmo poeta do Estado Novo, que é Djalma Santos; e há uma cineasta entalada, tentando equilibrar memórias negativamente exageradas do nosso passado político nacional com uma espécie de esperança nos pobres que se constroem a si mesmos por emancipação intelectual, que é Sofia Bessa. Até há o próprio Salazar a entrar em cena. Isto na América era mais uma "novel" a tentar superar as angústias existencialistas do Século XX. Aqui, e porque o Jacinto assim parece não o desejar, dá um livro que podendo prometer uma magnum opus, se certifica que não cai nessa concretização.

2. Talvez uma razão que não permite que "A Gargalhada de Augusto Reis" seja um romance triunfal, no sentido de querer resolver o mais difícil de resolver, seja a convicção do Jacinto de que somos um país de eufemismos. A determinada altura, e logo no arranque do livro, ao falar-se sobre o dia da revolução, o Jacinto escreve: "Na confusão daquele dia, é impressionante o silêncio que resiste" (pág. 17). Na relação que temos com as palavras, seria improvável atribuirmos a elas o poder de tratarem num curativo final e eficaz aquilo que dentro de nós suscita mais facilmente a protecção de um eufemismo do que a coragem de uma afirmação concreta.

3. Isto não significa que n'"A Gargalhada de Augusto Reis" não encontramos a crença no poder de as palavras nos darem esperança. Como escreve, a pretexto do episódio em que Djalma encontra o antigo poema, Jacinto diz que: "a dificuldade em atravessar aquelas frases para o que elas guardam atrás delas é a prova de que aquilo não é uma coisa qualquer. (...) A estranheza daquelas palavras é para ele a garantia de que há ali algo mesmo raro e importante" (pág. 44). A partir do momento em que um miúdo lê algo assim, algo que se recusa dar completamente a entender ao mesmo tempo que mostra transportar algo valioso, está nascida uma vontade de, pelo menos, arriscar em querer mexer no assunto. Rapidamente o Djalma tenta fazer poesia, por sinal, mazinha "mas esses versos falhados haviam posto algo em movimento" (pág. 45).

A importância das palavras vem também em forma de pergunta: "Não corremos o perigo de tornar a linguagem tão neutra que, no fim de contas, tudo possa ser uma coisa e o seu contrário?" (pág. 133). Ao mesmo tempo, há uma graciosa referência a Camões que nos oferece uma natureza literária para o Portugal que somos, "o grande poeta zarolho nadando com um braço de fora para salvar o poema da nação. (...) Um herói que salva palavras; que povo descenderá de tal gesto?" (pág. 193).

3. N'"A Gargalhada de Augusto Reis", Djalma re-urbaniza a cidade por onde circula memorizando textos. Diz assim: "Porque não tem livros e tudo o que lê lê na biblioteca, Djalma dos Santos anda com os seus poemas preferidos na cabeça durante muito tempo. Sem querer, começa a ligar versos ou títulos, poetas ou géneros de poesia, a lugares do seu percurso habitual" (pág. 51). À medida que decora poemas, as ruas passam a organizar-se a partir dessa memória literária. Esta imagem é fortíssima e inspiradora, para alguém, que como eu, tenta o mesmo com textos bíblicos. No fundo, esta é, ela própria uma imagem bíblica: se Deus criou todos os lugares pelo poder da palavra, é no mínimo justo que os reconheçamos também por esse mesmo poder.

4. A figura do padre Jesuíta, António Frateira, traz um dilema religioso interessante: se, por um lado, sabemos do equívoco que é "crentes que confundem seriedade com tristeza" (pág. 68), e que ele ajuda a dissipar, por outro, ele é um prontíssimo e talvez precoce tradutor de uma realidade que parece sempre difícil de ser entendida pelos mais simples.

5. É nessa mesma dificuldade de compreender a realidade que Sofia Bessa, a documentarista, se encontra, encarnando bem a angústia da geração de novos adultos, muito incapazes de lidar com pessoas realmente diferentes. Quando realiza o seu documentário sobre  Augusto Reis, o homem de indistintas ligações ao Estado Novo, luta com a tarefa de "pintar o retrato do inimigo - para depois tentar amá-lo?" (pág. 130). Nós, que hoje temos informação sobre tudo e sobre todos, não estaremos a fazer de toda essa informação um afastamento prévio de tudo o que nos parece estranho? A lente de Sofia quer ver mas, por vezes, parece que quanto mais vê, menos percebe.

6. Por fim, quero falar no elemento que a contracapa já traz como "spoiler", como dizem os miúdos agora: a alegria. Esta é a verdadeira luta deste livro e, eventualmente, do próprio Jacinto. É uma rica luta, apetece acrescentar. A determinada altura o Jacinto escreve: "A partir da morte do seu amor, as palavras foram-se tornando opacas para ele. Perderam a possibilidade de ser preenchidas de mundo, de surpresa, de vida e começaram a mirrar" (pág. 212). "A Gargalhada de Augusto Reis" é, nessa qualidade de erupção (a gargalhada é mais a alegria a espirrar do que a falar), mais um livro sobre procurar a alegria do que propriamente sobre encontrá-la. Quer-me parecer que esta é uma grande oportunidade para nós lermos atentamente o Jacinto. Pessoalmente, eu acredito em pessoas preocupadas com a alegria.


segunda-feira, junho 11, 2018

Segunda-feira é dia de um milagre no coração

em dois minutos e meio. O desta semana explica rapidamente porque o perdão dos pecados é a super-cura.

quinta-feira, junho 07, 2018

OUVIR PORTUGAL – ENCONTRO CDS (4 de Junho de 2018)

[Na segunda-feira passada estive num encontro promovido pelo CDS para se conversar sobre as questões políticas da cultura. Senti que, em grande parte, fui desiludir aquela gente esperançosa. Não tenho qualquer solução para as questões do 1% do orçamento do Estado para a cultura porque, como lá disse, sou relativamente agnóstico em relação à cultura. Não sei se acredito assim tanto na existência da cultura, pelo menos como ela é falada pela maioria dos políticos. Valeu-me a generosidade das pessoas, que me ouviram sem me apupar, sobretudo da Raquel Abecassis, do Diogo Belford Henriques e da Assunção Cristas. Também me valeu o facto de ter conhecido o actor André Gomes, a enérgica Catarina Valença Gonçalves e o realizador de cinema Joaquim Sapinho (acho que eu e o Joaquim fizemos click). Segue o texto que serviu de base à minha bem-intencionada mas provavelmente intervenção-sabotagem do programa previsto.]
Estar num encontro com o título “Ouvir Portugal” pode ser intimidante. Afinal, com cinco convidados, quase pode parecer que me cabe, no mínimo, a responsabilidade de representar quantitativamente 20% por cento da população portuguesa. Tenho medo de haver alguém que possa esperar da minha parte esse nível de eco responsável. Não vou ser capaz de o fazer.

Por outro lado, também me intimida o facto de este “Ouvir Portugal” ser mais particularmente “sobre cultura” e eu, ao contrário da maior parte das vezes, estar identificado, não como pregador ou pastor evangélico que sou, mas como músico, que também sou. Faz-me lembrar quando a minha filha mais velha, a Maria, começou na escola a ter de preencher a minha profissão e preferia colocar músico em vez de pastor. Não fujo de que músico também vou sendo, mas, mal por mal, sinto-me mais à vontade na pele do lobo do que na pele do cordeiro. Creio que concordarão que os músicos, e os artistas no geral, tendem a ser politicamente mais vistos como vítimas, e os pregadores como potenciais opressores – calha bem porque raramente gosto de fazer parte dos bons.

Por isso perdoarão a batota que vou fazer. Apesar de estar identificado como músico, e este evento ser sobre a cultura, vou dar a volta e usar uma definição de cultura que serve melhor as minhas preocupações religiosas. Para isso, vou pôr-me à sombra do T.S. Eliot e do seu livro “Notes Toward A Definition Of Culture”.

Segundo Eliot, o pensador americano tornado inglês, não há desenvolvimento de uma cultura sem o desenvolvimento de uma religião, e vice-versa. Isto não significa necessariamente a dissolução da boa separação entre Estado e Igreja (interessantemente, valor defendido pela confissão a que pertenço, os Baptistas, há mais de 400 anos). Eliot sabia que quando, por exemplo, há atrito entre a política e a religião, isso mostra que essa cultura se tornou mais complexa - e essa complexidade e diferenciação geram níveis culturais diferentes. Por exemplo, nas artes, à medida que uma sensibilidade cresce, outra pode diminuir - não dá para haver todas as áreas a desenvolverem-se ao mesmo tempo. O que retira a quem governa a preocupação de promover um programa de nivelamento cultural dos cidadãos. Claro que, ajudados por Eliot, podemos entender o saudável que é um Estado preocupar-se com uma alfabetização obrigatória sem que isso signifique uma política cultural igualitarista - geralmente esta última tende a ser uma especialização das ditaduras.

Eliot preocupava-se com dois erros que são dois extremos opostos: achar que a cultura pode sobreviver sem religião, e achar que a religião é melhor quando se purifica dos supostos males da cultura. Ele escrevia: “A sensibilidade estética deve estender-se à percepção espiritual, e a percepção espiritual deve estender-se à sensibilidade estética, antes de nos sentirmos capazes de julgar acerca da decadência, do diabolismo ou do niilismo na arte (Aesthetic sensibility must be extended into spiritual perpection, and spiritual perception must be extended into aesthetic sensibility and disciplined taste before we are qualified to pass judgment upon decadence or diabolism or nihilism in art)”. Eliot tinha uma cabeça boa, não acham? Parece-me que sim. Embora pode ser que haja alguns que pensem que já nos estamos a aproximar do domínio de um sermão.

O valor que quero sublinhar em Eliot nesta tarde é a ideia de que a nossa cultura é sempre o modo como vivemos a religião que temos, mesmo que essa religião não tenha o nome de religião, mas seja simplesmente o quadro de valores em que cremos. O que não podemos negar é que a palavra “religião” tem vindo a ganhar uma carga complicada para uma cultura que, creio, foi em grande parte produto dela. A prova é que até para um partido tido como conservador, como o CDS, as questões “religiosas” se tornam difíceis de lidar. Ora, como pastor evangélico, vou usar de uma liberdade que é a confissão de pecados. Geralmente a confissão auricular católica romana é privada e prudente, mas, como protestante que sou, posso dar-me ao luxo do oposto: vou aqui, diante de todos, confessar publicamente o pecado de andar a votar no CDS nos últimos anos. E é daqueles pecados complexos porque tenho ficado com alguns problemas de consciência.

Tenho votado no CDS porque, dentro dos partidos políticos portugueses, parece-me aquele que, ainda assim, consegue assumir alguma relação entre culto e cultura: há aqui alguma tradição de não ser pecado misturar convicções religiosas com convicções políticas. Mas algumas das vitórias da esquerda, que parecem vir com o carimbo do irrecusável progresso civilizacional, como a despenalização do aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo, têm permitido que gente como eu, que continua a tê-las como prejuízos morais, só possa ser tolerada como os descendentes actuais do Diácono Remédios. E já nem no CDS parece haver grande espaço para Diáconos Remédios como, à falta de melhor referência, pessoas como eu possam ser comparadas. Sim, a minha vantagem como pregador do evangelho é que não somente acredito em absolutos morais como sou pago para os defender: é uma união interessante entre liberdade religiosa e liberdade de mercado.

Ironicamente, parece haver um consenso oficioso que junta as elites culturais às causas típicas da esquerda para criminalizar na opinião pública a possibilidade de qualquer perspectiva dissonante. Ou seja, reconheço que o meio artístico, precocemente convicto da sua abertura de horizontes, e em Portugal blindado por uma espécie de mentalidade sindical, é hoje dos meios mais hostis a qualquer dissonância ideológica. Por isso, e apesar de haver quem me considere artista, talvez seja mais fácil confiar num político do que num colega das artes. Mal por mal, os políticos passam a vida a mudar de posição.

Para quem pode, na sua liberdade, usar termos como “absolutos morais”, pode também dar-se ao luxo de ser meio apocalíptico. Já conversei sobre este assunto com a Assunção Cristas e com o Adolfo Mesquita Nunes, em conversas na Igreja que sirvo, na Lapa (e que podem ser vistas no YouTube): está o CDS pronto e interessado em valer quem hoje assume a forma provavelmente mais ousada e polémica de liberdade artística e de expressão que é a religiosa? Se os detentores das auto-proclamadas conquistas civilizacionais, como a despenalização do aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo, olharem para vozes discordantes como a minha, e as legislarem como crimes de ódio, quem nos vai valer? A minha experiência política não é grande, mas já vi na internet um deputado do PS, uma filha de um Presidente da Assembleia da República e uma ex-namorada de um ex-Primeiro Ministro insinuarem que vozes como a minha não deveriam ser permitidas numa rádio pública, isto tudo a pretexto de uma canção minha que, passando na Antena 3 tomava a liberdade de falar sobre um “maricas que reinava com a t-shirt dos Suede”.

Termino resumindo: a minha proposta para a melhor cultura do CDS deve ser um compromisso com um dos modos mais ameaçados de liberdade artística que é a religiosa.


Ouvir

Como podemos ser moralmente superiores aos Fariseus? Porque a nossa superioridade moral tem o tamanho do perdão dos nossos pecados. A nossa superioridade moral é, paradoxalmente, o reconhecimento da nossa miséria moral sem Jesus. E este paradoxo é a cura mesmo: Jesus quer que os habitantes do seu Reino sejam moralmente superiores aos Fariseus porque aquilo que garante a entrada no Reino não é a justiça com que os seus habitantes aí merecem entrar, mas a misericórdia com que o Rei Jesus aceita a entrada deles. A superioridade moral dos discípulos de Jesus tem o contorno de uma cruz, porque é na cruz que esta transacção entre a nossa culpa e a justiça de Jesus é feita.

O sermão de Domingo passado, chamado "Quanto maior és moralmente, mais humilde ficas", pode ser ouvido aqui.

terça-feira, junho 05, 2018

Segunda-feira é que é o dia de um milagre no coração em dois minutos e meio

Mas como ontem havia o artigo do Observador, vejam hoje.

No Observador

O Observador publica uma entrevista comigo. Foi um privilégio ter o Bruno Vieira Amaral a fazer-me perguntas. Leiam aqui: https://observador.pt/especiais/tiago-cavaco-a-minha-geracao-e-mais-intolerante-em-termos-religiosos/!

sexta-feira, junho 01, 2018

Walter White

Quando eu e a Ana Rute acabámos de ver o Breaking Bad foi completamente diferente de todas as outras ocasiões em que acabámos de ver uma série de televisão. Já vimos e gostámos muito de várias séries (tenho dado conta disso ao longo do tempo no blogue). Mas o Breaking Bad foi mais do que uma série - no meu caso, não é exagerado dizer que teve a ressonância de um momento de iluminação pessoal. A história do Walter White não foi uma coisa que vi no ecrã mas foi alguma coisa que vi em mim.

Isto aconteceu em Dezembro do ano passado, quando terminando a revisão do livro "Milagres no Coração", fiquei entusiasmado para gravar um disco com o mesmo nome. O impacto daquela noite de Domingo em que vimos os quatro últimos episódios de seguida, indo contra a nossa rotina, deu-me uma certeza para segunda-feira: tenho de registar o que sinto em som. Teoricamente tentaria fazer uma canção. Mas o formato de canção pareceu-me constranger aquilo que vinha mais como uma desabamento. Já escrevi centenas de canções na vida e acredito no poder delas. Mas a canção tende a pedir algum poder de contenção, de compromisso com algum tipo de forma que, no caso daquilo que eu queria falar sobre o Walter White, me parecia injusto. Eu não queria arredondar poeticamente o efeito do Breaking Bad em mim - eu queria cuspir aquilo cá para fora o mais rápido possível, mais numa lógica de choro irrefreável. Porque era de lágrimas mesmo que se tratava.

É certo que há uma tradição musical de spoken word, é certo que curto para xuxu o Mark Kozelek. Mas esta coisa chamada "Walter White" que meti no disco não se quer sentar propriamente no sofá que esses dois encostos permitem. No disco é uma invasão emocional que desestabiliza o alinhamento e, por isso, esperei dos poucos ouvintes que ainda têm paciência para os meus discos alguma estranheza e até alguma censura. Curiosamente, tem funcionado ao contrário. O objecto esquisito tem sido o mais elogiado. O que me deixa mesmo contente. Acho que consegui transmitir alguma da coisa do impacto da história do Walt.

Ontem fiz uma espécie de postal ilustrado em movimento para a canção. Não é bem um videoclip. É mesmo aquilo que mostra: ontem a família Cavaco foi à praia, skatando, passeando, jogando à bola e mergulhando, e esse tipo de momentos em família dão-me uma felicidade que associo ao poder da história do Breaking Bad. Arranjei um telemóvel com uma câmara nova e gravei partes que juntei e pus em preto e branco. É simples e é assim que me parece bem. Não vou dar mais explicações sobre a canção porque, como lá digo, explicar mais é estragar o modo como ela aconteceu. É verdade que continuo com saudades do Walter White. É verdade que o Walter White me faz amar mais Jesus porque, eu não sou muito diferente dele e, por causa disso mesmo, valorizo o facto de haver alguém que tenha morrido para me poder salvar da minha maldade que, à semelhança da do Walter, pode tornar-se monstruosa, havendo um momento de maior fraqueza em que julgo poder tomar nas minhas mãos a solução para um sarilho maior do que eu.

Chega de sermões. Ouçam a canção e vejam as imagens bonitas da felicidade da família Cavaco.

quinta-feira, maio 31, 2018

APRENDER A ESCREVER (Encontro Refletir, 30 de Maio de 2018)

Quero começar por lutar contra uma dicotomia infeliz que, em grande parte, teima em persistir dentro de muitos cristãos evangélicos. Essa dicotomia separa letra do espírito, e inspira-se numa leitura apressada de 2 Coríntios 3:6, que diz: “porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. Não sendo o meu propósito pregar-vos este texto, não resisto a deixar que o contexto enxote leituras preguiçosas.

Na segunda carta de Paulo aos Coríntios um dos assuntos é a existência de supostos novos super-apóstolos que diziam que Paulo estava ultrapassado. Creio que não é exagerado colocar esta oposição entre Paulo e os seus acusadores nestes termos: estes últimos apresentavam o seu ministério praticamente em termos de super-poderes, como se o verdadeiro apostolado fosse uma capacidade especial. Ora, Paulo faz nesta carta uma viagem que parece uma montanha-russa para dizer que, mesmo no campo das capacidades especiais, os adversários de Paulo ainda tinham muita sopinha para comer. No capítulo seis isto é ilustrado no currículo inultrapassável de sofrimentos, e no capítulo 11 o mesmo vem em dose renovada, com menção ao topo dos topos, em termos de experiências espirituais: o arrebatamento aos céus, fosse ele em espírito ou corpo. A ideia era basicamente esta: mesmo que a questão fosse colocada em termos de capacidades ou experiências pessoais, ninguém batia Paulo.

Neste sentido, a “letra” do verso 6 do capítulo 3 não pode ser dissociada do que Paulo rejeita, de uma interpretação da fé completamente centrada no indivíduo e naquilo de que ele é capaz. A “letra” era para os legalistas o seu super-poder, do mesmo modo que os novos apóstolos demonstrariam os seus poderes espirituais especiais muito superiores aos de Paulo. No caso dos legalistas, eles não são pessoas que respeitam a lei de Deus, mas pessoas que a tornam pequena à medida dos seus próprios interesses. O legalista domina astutamente a lei, em vez de se deixar dominar pela lei. Actualizando, o legalista ou o super-apóstolo é um cristão que domina a parte do cristianismo que lhe agrada, impedindo que seja o cristianismo a dominá-lo a ele. A “letra” é o domínio que lhe é conveniente.

É a esses a quem Paulo tem de lembrar que esse tipo de selecção interesseira da lei, essa “letra”, é mortal. Porque é uma letra que dispensa o seu autor, o próprio Deus que se revela através do Espírito Santo nos escritores da revelação. Devemos compreender isto de uma vez por todas: o legalista, a pessoa centrada na “letra”, é alguém que faz de uma escolha selectiva da lei de Deus um modo de se afirmar a si mesmo, e não um modo de afirmar o autor da lei que é Deus. O futuro do legalista, ou de qualquer pessoa que age selectivamente com a fé, é a morte porque sem Deus não temos vida.

Quero fazer uma ligação a outro texto bíblico, que serviu de refeição do sermão passado que preguei, nas palavras de Jesus no Sermão do Monte (5:17-20): “17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. 20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”.

Assim muito rapidamente, há aqui alguns valores que quero sublinhar para a nossa reflexão:

1. Para Jesus, o seu Reino (o grande assunto do Sermão do Monte) constrói-se como cumprimento do passado e não como rejeição dele. Simplificando muito, diria: qualquer expressão cristã que desdenha o valor da tradição cristã, desdenha do futuro do próprio Reino de Deus.

2. Jesus liga o cumprimento de regras éticas que são independentes de nós (ou a lei, se preferirmos) à experiência completa do seu Reino. Simplificando muito, diria: qualquer expressão cristã que valorize a experiência subjectiva sobre verdades morais objectivas é uma obliteração, ainda que inconsciente, da vivência plena do Reino de Deus.

3. Jesus reconhece o empenho nas pessoas que falham na compreensão fundamental da lei, tornando-se legalistas, como os Fariseus. Simplificando muito, diria: qualquer expressão cristã que não procure um empenho maior do que o empregue por aqueles que a rejeitam, perde a oportunidade de experimentar o Reino de Deus na intensidade desejável por Jesus.

Porque começo com uma introdução potencialmente tão chata o assunto “Aprender a escrever”? Porque receio que nos faça bem, como ponto de partida, reconhecer que, enquanto cristãos evangélicos, temos caído em alguns erros:

1. Temos nutrido, ainda que sem querer, uma cultura que olha com suspeição para toda a leitura e escrita, que não estejam estritamente ligadas à fé. Nesse sentido, alimentámos um anti-intelectualismo que, ironicamente, nos torna vulneráveis a qualquer coisa que não aprendemos a ler. Debaixo da ideia certa de valorizar a leitura a Bíblia acima de qualquer outra, frequentemente metemos nela tudo o que lá não está porque não sabemos ler o resto. Dizendo à bruta: não aprendemos a escrever porque temos medo de ler. Desdenhamos da tradição milenar de escritos cristãos e de outros, como se o passado fosse desligado do Reino futuro. Neste erro mais facilmente caem os fundamentalistas.

2. Por outro lado, e talvez no outro extremo, alimentamos uma tendência anti-dogmática como se o reconhecimento corajoso e formal de verdades absolutas fosse contrário ao plano de Jesus para o seu Reino. Tomamos a teologia e o estudo sistemático da Escritura como um terreno que diminui a liberdade do Espírito, como se a revelação escrita fixa na Bíblia não fosse trabalho da liberdade do Espírito Santo. Jesus levou a teologia a sério ao ponto de discuti-la logo aos doze anos com os mestres em Jerusalém e ao longo de toda a sua vida, mas nós consideramo-nos mais espirituais do que o próprio Cristo, como se ele desperdiçasse com ninharias um tempo que nós não temos. Empobrecemos a nossa coragem teológica andando a reboque das tendências externas à Igreja, disfarçando o nosso medo pós-moderno de humildade epistemológica. A este podemos chamar o erro dos relativistas e das suas diversas auto-denominadas pós-teologias.

3. Como sugestão de superação deste impasse, quero resumir a minha proposta. E, como podem antecipar, a solução será sempre Cristo. Claro que reconheço o erro que tão bem o Apóstolo Tiago apontou, de sermos apenas ouvintes da palavra e não cumpridores. Venho de um contexto calvinista em que é elevado o risco de policiamento teológico desgarrado de uma experiência humilde e concreta de Jesus nas nossas vidas. Conheço bem a atracção do legalismo porque o meu coração é tendencialmente legalista. Mas também sei que o relativista cai no mesmo erro, apenas usando a outra face da moeda. Quer o legalista, quer o relativista concentram a sua fé em si mesmos: o primeiro, no que faz; o segundo, no que não precisa de fazer. O legalista faz para ser é bom; o relativista, como já é bom, não precisa de fazer. Não vos falo nem do legalista nem do relativista, mas da palavra viva que é Jesus. Cristo é a salvação do legalista e do relativista e ele manda-nos fazer um melhor trabalho do que qualquer um deles. Logo, temos de estar atentos ao que se escreve à nossa volta.

O cristianismo é uma fé da palavra. É da palavra que tudo acontece. Nem é justo dizer que é uma fé de palavra e acção porque só pode haver acção se houver palavra. Génesis 1 e João 1 explicam-nos que é a palavra que cria tudo. Vivemos numa época que diz que as palavras são aquilo que os homens quiserem fazer delas, mas nós sabemos que, na verdade, os homens é que são feitos pela palavra. Numa fé assim não dá para desvalorizar leitura e escrita porque de cada vez que alguém lê ou escreve está a manusear a célula fundamental de tudo o que existe: a palavra. A palavra é importante ao ponto de, tendo criado tudo, se ter tornado, ela mesma, criatura em Jesus Cristo. A palavra é o mais importante porque Cristo, sendo a palavra feita pessoa, é o mais importante. O sentido da nossa existência é caminharmos em direcção ao dia em que a palavra, em tudo o que tem de físico, nos mostrará o seu rosto. A palavra é uma pessoa tão boa que merece que a adoremos por toda a eternidade. O Apocalipse descreve a presença desta palavra junto de nós, Jesus Cristo, com uma potência tal que o sol é uma fraca iluminação comparado com ela (Apocalipse 22:4-5). Temos de desprezar a dicotomia que separa a palavra da acção – com Cristo, a segunda é sempre consequência da primeira.

Foi o cristianismo, herdeiro do Judaísmo, que valorizou a escrita e a leitura como nenhuma outra religião. Fazendo uma ligação muito directa, deixem-me perguntar: como é possível que pastores e líderes cristãos sejam pessoas de pouca leitura e pouca escrita? Não me interpretem mal. Não estou a dizer que todos temos de nos armar em intelectuais. Mas, de facto, todos temos de ser leitores capazes porque ser cristão é, basicamente, saber ler. O cristão lê que Cristo, a palavra que encarnou, é Deus. Neste sentido, a salvação é sempre uma leitura. Não é casual que o Judaísmo tomasse a capacidade de um menino saber ler como um início da sua verdadeira capacidade moral. É, por isso, especialmente chocante, que a fé da palavra passe por uma religião que tem medo suscitar a leitura dos crentes.

Num mundo feito pela palavra de Deus, tudo é texto. O universo é um texto e até nós, como criaturas criadas pela palavra, somos textos. Escrever ou ler é apenas viver. A questão não é aprender a escrever. Escrever já todos escrevemos, mesmo que sem colocarmos coisas no papel. A questão é ganhar consciência do tipo de textos que estamos a escrever. Basta acordar pela manhã e respirar, que esse já é um texto que estamos a encarnar. A questão é escrevermos os nossos textos, vivermos as nossas vidas, numa direcção concreta de encontro com a palavra encarnada que é Cristo.

Quero sugerir algumas pistas simples, depois de uma reflexão que quis que fosse mais teológica e filosófica. Vamos tentar encarnar sugestões práticas? E agora vou sentir-me mais à vontade para me espalhar ao comprido.

1. Escrever bem é um dom. Nem todos somos grandes escritores. Como a Bíblia nos ensina, tudo nos é dado, para que ninguém se orgulhe. Logo, se tens um dom de palavra, que passe pela oratória ou pela escrita, lembra-te de que vais ter de prestar contas a Deus por aquilo que, sendo dele, ele te emprestou aqui. Se é o teu caso, o que tens produzido na tua vida com o dom da palavra que te foi dado? Toma em consideração a ligação entre passado e futuro que Jesus valoriza no seu Reino. Que herança da palavra estás pronto para deixar aos que vêm a seguir a ti?

2. Se é certo que nem todos temos o dom da escrita, todos escrevemos. O que tens tu decidido escrever numa era em que muitos mais se lêem uns aos outros? Eu, que tenho pecados terríveis nesta área no meu passado, quero encorajar-te: escreve para enfatizares que te vais encontrar com o verbo vivo que é Jesus. Pega-te com os outros, pega-te contigo mesmo antes ainda, mas em todas as pegas que te meteres faz por honrar o encontro futuro com Cristo. Pastores e líderes, sejamos corajosos e cautelosos com o que escrevemos, por exemplo, nas redes sociais. A nossa influência é real e teremos de prestar contas dela.

3. Quando escrevemos o que vivemos, é como se tivéssemos de viver novamente o que escrevemos com o órgão da meditação aceso. O cristianismo deu no Ocidente uma tradição de memórias e confissões, de romances e aventuras, porque escrever é viver outra vez com mais consciência. Tens essa prática de escrever sobre o que vives? És capaz de colocar em escrito a confissão de um pecado, uma oração, uma determinação de mudança? Encorajo-te a isso. O tema deste encontro é a Intimidade – não há verdadeira intimidade com Deus, connosco próprios e com os outros sem uma meditação séria e a escrita é uma arma nessa batalha.

4. Para os pastores, e respeitando aqueles que seguem uma onda mais pentecostal, encorajaria a pelo menos escreverem topicamente os seus sermões. O sermão é tragicamente um género literário abandonado pelos seus maiores cultores, os cristãos evangélicos protestantes. Certamente que a maioria não publicará os seus sermões em livro, mas um sermão escrito é uma fonte de escrutínio, de reescrita, de reciclagem, de correcção (quando necessário), de exortação à distância, entre outros aspectos. Continuo a ficar humildemente surpreendido com o efeito da publicação de alguns dos meus sermões, anos depois de terem sido pregados. Pastores, os vossos sermões deveriam ser o rosto público do vosso ministério porque a fé vem pelo ouvir e há muitos mais hoje que podem ouvir, através da tecnologia digital.

5. Se tivesses de citar dez livros que mudaram a tua vida, além da Bíblia, conseguirias? Não precisas deles para entrar no Céu, mas talvez dês melhor testemunho do Céu aqui na terra se, com a ajuda destes livros, ganhares uma linguagem comum com aqueles que precisam da palavra eterna e ainda não a ouviram. Dou dez dos meus, com uma pequena frase descritiva.

- "The Screwtape Letters" de C.S. Lewis

Viver muito com Deus deve levar-nos a perceber um pouco do diabo.

- "Confissões" de Agostinho

A maneira de escrever uma auto-biografia é descobrir a história de Deus na nossa própria história.

- "Pensamentos" de Pascal

Há obras inacabadas que não acabam de nos inspirar.

- "Huckleberry Finn" de Mark Twain

A viagem do jovem Huck é um circuito de ternura digno de um homem completo.

- "Ortodoxia" de Chesterton

O cristianismo é a fé dos paradoxos.

- "Complete Short Stories" de Flannery O'Connor

Ficções de uma autora cristã no território do diabo.

- "Temor e Tremor" de Kierkegaard

A história de Abraão e Isaque nunca mais será a mesma.

- "Institutas" de Calvino

A fé é mais do que pensar, mas pensar faz parte da fé.

- Correspondência com Erasmo de Martinho Lutero

Lutero é o apóstolo da polémica redentora.

- "Sermões" do Padre António Vieira

Portugal tem um dos maiores pregadores da história e os portugueses não o querem ouvir.

Aprender a escrever é natural para quem foi criado pela palavra e salvo pela palavra. Cristo é tudo e a nossa leitura e escrita devem afirmar isso mesmo. Que Deus nos ajude a todos!

quarta-feira, maio 30, 2018

Vontade


terça-feira, maio 29, 2018

Ouvir

O legalismo, que é uma selecção astuta daquilo que na lei nos agrada, não se combate com relativismo. Há muita gente a cair hoje neste erro. Como vêm o mal do legalismo julgam que a solução é o seu inverso, o de rejeitar uma moral absoluta ou algo que pareça dogmático. O relativista combate o legalista com menos ainda do que o seu adversário. Mas a solução para a parcialidade, que é o legalismo, é a integridade. O legalismo combate-se com integridade, com perfeição. A solução é mais e não menos, e por isso não é de estranhar que Jesus diga que o nível dos que o seguem deve estar acima do nível dos Fariseus (no verso 20: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”).

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.