terça-feira, junho 28, 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de "O Nascimento de uma Nação" de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte II

Não é possível querer ser um evangélico português com alguma capacidade de auto-reflexão sem perceber de puritanismo. E com isto não sugiro que temos de ter diplomas em história da religião para sermos competentes no exercício da nossa fé (o que nos torna competentes no exercício da nossa fé é o Espírito Santo). Simplesmente limito-me a reconhecer o óbvio, que é perceber um pouco do passado para termos a ideia que as coisas não caíram dos ceús aos trambolhões. Ao contrário do que hoje acontece em largas regiões do evangelicalismo, a fé reformada nunca sugeriu desligar-se da história para viver um cristianismo mais puro (como se os outros que nos antecederam fossem uns ímpios, e nós fôssemos uns iluminados). Logo, o desafio para um cristão evangélico português é assumir humildemente que viver a sua fé com profundidade pode passar por reconhecer as origens estrangeiras da tradição religiosa a que pertencemos.

Frequentemente os cristãos evangélicos portugueses são como adolescentes em busca da sua personalidade, convictos de que quanto mais diferentes forem dos progenitores, melhor. Por isso mesmo, um dos sonhos teen típicos dos cristãos evangélicos portugueses é o de um cristianismo evangélico tipicamente português. Desculpem colocar as coisas de uma forma tão radical, mas no dia em que descobrirem um cristianismo evangélico português avisem-me que emigro para Espanha. Mantendo ainda as coisas em termos curtos e grossos: se queres um cristianismo tipicamente português, ele já existe há mais tempo que existe Portugal e chama-se catolicismo romano. Evangélicos adolescentes: enxerguem-se e cresçam.

Ser um cristão evangélico português com uma relação saudável com a sua fé é viver em harmonia com o facto de se pertencer a uma tradição religiosa que é sobretudo de travo anglo-saxónico. Com se diz lá nas terras deles: deal with it. Isso quer dizer que somos obrigados a piorar o sentimento de estranheza que a maior parte dos portugueses tem connosco? De modo algum. Simplesmente quer dizer que estamos em paz com o factor mais importante da nossa fé não ser o conforto que sentimos com a história da nossa tradição religiosa, e quer dizer que estamos em paz com o facto da nossa tradição religiosa ter efectivamente uma história pouco ou nada portuguesa. Gente adulta tende a saber viver conciliada com a sua história. Sim, somos estrangeirados - e daí?

Logo, esta minha longa queixa é apenas para vos dizer que às vezes o melhor modo de percebermos quão abençoadamente esquisitos podemos ser é ler essa esquisitice na pena de outros. Ora, ler o Mário Avelar falando sobre literatura americana é perceber que não há Estados Unidos da América sem os puritanos. Um evangélico português que lê o Mário Avelar é ajudado a perceber que aquilo que faz dele esquisito em Portugal, é o que faz com que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos. Com isto não estou a dizer que os Estados Unidos são uma nação evangélica, mas estou a apenas (a ser mais um) a dizer que os Estados Unidos são uma nação nuclearmente influenciada pelos puritanos. Por outro lado, um português não-evangélico que lê o Mário Avelar acaba, ainda que por tabela, a receber uma lição sobre os evangélicos que também existem no seu país. Todos ficam a ganhar lendo o Mário Avelar (perdoem-me a quadrinha).

(Continua.)

[Ontem o Marcos Mateus comentava o meu texto alertando que outras denominações evangélicas em Portugal foram fruto do trabalho missionário de outros países, como a Escócia e a Inglaterra no caso das chamadas Igrejas dos Irmãos, e não dos Estados Unidos. Sem dúvida. Podíamos também mencionar os suecos e as Assembleias de Deus, para termos mais um exemplo (ou os suíços e a Acção Bíblica, e por aí fora). O ponto fundamental da minha argumentação não contesta as origens missionárias de outros países. O ponto fundamental da minha argumentação, e que será mais visível na terceira e última parte deste texto é que, mesmo quando a influência missionária protestante não foi directamente americana, a cultura evangélica que é recebida e desenvolvida em Portugal é decididamente influenciada pela cultura americana. Isto porque a cultura americana é nos Séculos XIX e XX (e sobretudo XX) aquela que representa o lugar onde o movimento evangélico, ainda que tendo manifestações plurais pelo mundo fora, foi mais fértil e capaz de ser importado para outros lugares.]

segunda-feira, junho 27, 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de "O Nascimento de uma Nação" de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte I

A minha tese é: se és um evangélico português e não percebes a cultura americana, estás metido num sarilho. Isto porque um evangélico português é geralmente alguém educado num choque cultural entre os Estados Unidos e Portugal. Isto porque as igrejas evangélicas portuguesas são sobretudo resultado do trabalho missionário americano (e mesmo quando são resultado de trabalho missionário brasileiro, antes os evangélicos brasileiros tinham sido formados pelos evangélicos americanos). Ora, se és um evangélico português que não percebe de cultura americana, então não te percebes a ti mesmo grande coisa.

Outra parte da tese: se és um evangélico português, é provável que percebas pouco da própria cultura portuguesa. O facto de teres sido educado no choque cultural entre Estados Unidos e Portugal contribui decididamente para que, apesar de seres português e te sentires parte da cultura do teu país, acabes por não ser nem grande português nem, obviamente, grande americano. Logo, se és um evangélico português e não percebes a cultura americana, estás metido num sarilho e estás metido noutro sarilho que é julgares que percebes a cultura portuguesa quando, na realidade, não percebes. Basicamente, se és um evangélico português, estás sempre tramado (o que não tem de ser uma coisa má).

Se fosse eu a ler este texto ficava irritado com o tom dos parágrafos anteriores. É compreensível. Mas para que os danos da forma não danifiquem o conteúdo, sugiro que pensemos em cristãos evangélicos que tenham contribuído significativamente para a cultura portuguesa. Não há. E não haver não tem de ser uma tragédia (Deus não quer que os cristãos evangélicos portugueses se preocupem prioritariamente com contribuições para a cultura portuguesa, Deus quer que os cristãos evangélicos portugueses se preocupem prioritariamente com a salvação dos seus próximos, que provavelmente serão na maioria portugueses). Todavia, como a ausência de referências sublinha, o diálogo entre evangélicos e a cultura portuguesa é uma conversa de surdos. Das poucas vezes que venha a acontecer, o mais provável é que os interlocutores estejam a falar línguas diferentes mesmo tendo em conta que o idioma usado é o português.

Nós, evangélicos portugueses, precisamos desesperadamente de entender como os outros não nos entendem. E é aqui que entra o livro fantástico chamado "O Nascimento de uma Nação - nas origens da literatura americana" de Mário Avelar. O Mário Avelar é o único académico português que conheço que sabe usar a palavra puritano. Vou mais longe: o Mário Avelar é das poucas pessoas que conheço em Portugal que sabem usar a palavra puritano (infelizmente, nem os evangélicos sabem usar a palavra). Por que é que o Mário Avelar sabe usar a palavra puritano? Porque tem o hábito saudavelmente puritano de estudar. O Mário Avelar estuda os puritanos e por isso sabe do que fala quando fala deles. Permitam-me neste texto uma fuga literária para o sermão: caro leitor, sabe do que fala quando usa a palavra puritano? Provavelmente não. Você não sabe. Vá estudar.

(Continua.)



terça-feira, junho 21, 2016

Mais agenda, agora no Porto



Ouvir

Se a fé tem a ver com tudo na tua vida, ligares-te a uma pessoa que não a tem é ofereceres-lhe uma versão morta de ti mesmo.

O sermão de Domingo passado, chamado "Esdras arranca os cabelos", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, junho 20, 2016

CASAMENTO DA SARAH E DO HUGO Lavre, 18 de Junho de 2016
Génesis 12:1-8

I
Sarah e Hugo, se Abraão acreditou que podia dar origem a um país, mesmo sabendo que a sua mulher Sara não podia ter filhos, lembrem-se que a base do vosso casamento não é o que vocês sabem sobre vocês próprios, mas o que vocês sabem sobre Deus. Hoje vocês não casam baseados nas certezas que têm sobre quererem estar casados. E entendam-me bem: não estou a dizer que a vontade que têm de casar não é importante. Se não fosse, não teriam de dizer um “sim” vigoroso daqui a uns minutos quando vos perguntar se se aceitam um ao outro como esposos. O que estou a dizer é uma coisa um pouco diferente. Se vocês confiarem em Deus, o vosso casamento vai ser tão real nos momentos das certezas como nos momentos das incertezas. O chão do vosso casamento não vai ser a certeza que têm acerca um do outro, mas a confiança que têm em Deus. E, acreditem, dessa confiança em Deus nascerá muita certeza acerca um do outro. Mas a confiança em Deus é a causa, e a confiança um no outro é a consequência, não o contrário. Ter fé não é ter certezas primeiro para confiar depois; ter fé é confiar primeiro e depois ter as certezas que daí nasçam.
II
Sarah e Hugo, se Abraão não ficou à espera que Deus lhe desse filhos para só depois obedecer ao que lhe era pedido, lembrem-se que a capacidade para estarem casados vem depois da confiança que têm em Deus. Hoje vocês não casam porque vos é reconhecido que são capazes de estarem casados. Deixem-me dizer com todo o amor que me é possível: vocês não percebem nada de casamento e vocês não sabem no que se estão a meter. A vossa capacidade para estarem casados é, a partir da vossa experiência, zero. Ainda por cima, vocês correctamente não viveram juntos antes nem experimentaram antes de casar as coisas do casamento, como quem verifica se é capaz de estar casado. E deixem-me dizer com todo o amor que me é possível, a quem hoje vive assim e connosco está, experimentando antes do casamento aquilo que pertence ao casamento: mesmo que julguem estar a experimentar antes do casamento aquilo que ao casamento pertence, a vossa capacidade de ficarem juntos é igualmente zero. A prova é que grande parte das pessoas que faz antes do casamento aquilo que costumava pertencer apenas ao casamento, sente-se mais livre para se separar (é consultar as estatísticas). Sarah e Hugo, vocês vão conseguir ser fiéis ao casamento, não à custa do vosso talento para a fidelidade, mas à custa de Deus ser fiel e ter sido ele a inventar o casamento. Quanto mais confiarem em Deus, mais pessoas de confiança serão um para o outro. Quanto maior a vossa fé, maior a vossa capacidade de estarem casados.
III
Sarah e Hugo, se a vida de Abraão teve de mudar tanto para que as promessas que Deus lhe fez se cumprissem, lembrem-se que no vosso casamento não é importante continuarem a ser quem são, mas o contrário. Hugo, para que continues casado com a Sarah, muitas vezes vais ter de ser um Hugo diferente. Sarah, para que fiques casada com o Hugo, muitas vezes vais ter de ser uma Sarah diferente. É preciso que sejamos outros para que fiquemos casados com a mesma pessoa. Da mesma maneira como o casamento está na Bíblia como uma semente de eternidade, Deus vai ensinar-vos a a acreditar numa vida diferente daquela que já têm para se manterem juntos. Quem só quer acreditar no que vê, não precisa casar. É quem casa que precisa de acreditar no que não vê. Estar casado é uma lição de fé. Casar é confiar.
IV
Sarah e Hugo, se Abraão e Sara foram um casal estéril que deu origem a uma nação, lembrem-se que do vosso casamento pode nascer o que agora vos parece impossível. No vosso casamento vocês serão frequentemente tentados a dizer: já não é possível continuar casado. Uma das coisas que o vosso casamento vos vai fazer pensar e sentir é que há ocasiões em que ser fiel aos votos que fizemos no casamento é impossível. Mas não acreditem nisso quando pensarem e se sentirem assim. Porquê? Porque vossa vida foi transformada por alguém que provou que é possível ser fiel até quando temos todas as razões para não sermos. Desta perspectiva, Jesus tinha todas as razões para não dar a vida na cruz pelos nossos pecados. Afinal, ele nunca fez nada errado - nós é que fizemos. No entanto, Jesus foi fiel à promessa que Deus nos tinha feito, de arranjar uma maneira de tratar do mal que somos e fazemos através do sacrifício de um inocente. Sarah e Hugo, o vosso casamento será uma árvore de deliciosos frutos impossíveis sempre que vocês permaneçam em comunhão com o vosso salvador Jesus Cristo.
Que Deus muito vos abençoe.


(Fotografia da Sara Falcoeiras).

sexta-feira, junho 17, 2016

Agenda

Quero tocar à altura da qualidade deste poster do Silas Ferreira. Marquem na agenda!




quinta-feira, junho 16, 2016

Sabem aquele texto que escreveram há meio ano, que é daqueles que exige concentração, e que encaixa que nem uma luva no aqui e no agora e que não vai fazer nada de bom pela nossa popularidade? Ei-lo.

Há maneiras diferentes de chegar a um lugar bonito que é o lugar onde a liberdade é defendida. Uma primeira maneira de chegar a esse lugar bonito é defender a liberdade por uma razão moral: devemos ser livres porque a liberdade faz parte da dignidade com que Deus criou os homens. Do mesmo modo como Deus é livre, os homens devem ser livres. Uma segunda maneira de chegar a esse lugar bonito é defender a liberdade, não por uma razão moral, mas por um relativismo: devemos ser livres para que ninguém possa impor uma moral (na prática, até isto é uma visão moral mas por uma questão de economia de tempo vou poupar-vos de desenvolver este ponto). Como nesta segunda maneira se acredita que não há valores absolutos, a liberdade é o melhor para garantir o direito a cada um relativizar de acordo com a sua consciência. O lugar é bonito para ambos mas a maneira como a ele se chegou é completamente diferente.

Isto quer dizer que ocupamos o mesmo lugar bonito tendo chegado lá através de caminhos bem distintos. Eu fico contente por viver num país onde a liberdade é importante. E fico contente porque enquanto a liberdade for um valor, sei que estou mesmo num lugar bonito. Se eu cheguei a este lugar por ser cristão, outros chegaram a ele pelas razões inversas. Há quem esteja comigo neste lugar bonito que é onde se defende a liberdade precisamente porque acha que a liberdade é das melhores coisas para evitar ser cristão. Reparem na ironia: eu acredito na liberdade como uma consequência de ser cristão; há quem acredite na liberdade para não cair na consequência de ser cristão.

Dentro das pessoas que defendem a liberdade mais como um relativismo que como uma razão moral, umas estão à esquerda e outras estão à direita. Como não deve constituir grande surpresa, fico com a impressão que a maior parte das pessoas que à direita defendem neste país a liberdade o faz mais por relativismo que por razão moral. É isto que explica a anedota de haver pessoas identificadas com o catolicismo romano que na hora h o metem na gaveta para optarem por princípios civicamente mais populares. Na prática, acaba-se a afirmar que a liberdade em que acreditamos funciona melhor na temperatura do relativismo do que na temperatura da moral. A ironia é que a pessoa que se julga mais dada à liberdade por aprovar em termos cívicos coisas que a sua religião reprova, só torna a liberdade em que crê mais pequena - a liberdade em que crê funciona a partir da sua capacidade pessoal de relativizá-la a pretexto de circunstâncias especiais, em vez de crer numa liberdade que é maior ainda que o nosso discernimento útil e socialmente conveniente dela.

Para as pessoas que a esta altura eventualmente se assustam, julgando que acreditar na liberdade como um valor moral pode levar-nos ao perigoso caminho do casamento entre a Igreja e o Estado, eu diria: vão estudar. E estudem a história do protestantismo em particular. A minha confissão religiosa, os baptistas, há mais de 400 anos que defende a separação entre a Igreja e o Estado, contra romanos e reformados, e levou muita pancada por isso mesmo. O que a defesa da separação entre a Igreja e Estado não pode ser é a separação entre a liberdade e a moral. Porque a liberdade como valor só pode ser defendida absolutamente se ela for um absoluto moral. E o absoluto moral que nos levou felizmente a separar a Igreja e o Estado não tem a ver com desprezar o que a Igreja diz, mas precisamente o contrário (é a Igreja que defende que os homens devem ser livres como consequência de o Criador deles ser livre também). Não é por acaso que a separação entre Igreja e o Estado aconteceu em países com igrejas. Já pensaram por que razão um conceito semelhante não saiu de culturas não-cristãs? Devemos às igrejas (e uso o termo precisamente no plural porque creio que é no plural que deve ser entendido o conceito das comunidades locais de cristãos ao longo de toda a história) a separação entre a Igreja e o Estado, não ao Estado. A prova, creio, está depositada precisamente no facto de que as experiências menos saudáveis de separação entre Igreja e Estado terem acontecido nos lugares onde o Estado quis tomar o lugar da Igreja (a França revolucionária, a Rússia bolchevique e a Alemanha nacional-socialista).

Termino permitindo-me ser um pouco apocalíptico e pragmático. Os lugares onde a liberdade está a ser afirmada, não por razões morais mas por razões de relativismo moral, serão lugares onde não só a liberdade religiosa será perseguida como acabará a ser perseguida a própria liberdade. A liberdade religiosa será o primeiro alvo a abater, por razões de não se adequar à defesa da liberdade como um relativismo. O chamado casamento homossexual vai finalmente revelar a sua verdadeira plumagem, que não é a das paradas coloridas nas ruas centrais da cidade. O chamado casamento homossexual vai ser a razão que poderá colocar na prisão pessoas que, como eu, não o tenham como um bem precisamente por se opor a uma moral absoluta. Cada vez mais se estabelecerá o ponto de que não pode haver liberdade para aqueles que condenam moralmente o que o Estado aprovou, e por isso teremos como criminosos todos os que tenham objecções morais ao relativismo estatal oficializado. Ter objecções à prática homossexual será cada vez mais visto como razão suficiente para punir quem assim pensa. Em nome do relativismo serão os defensores da moral os monstros. Porque na prática, os relativistas só se relacionam bem com a liberdade até ao ponto em que ela possa ser relativa à sua moral subjectiva. Os relativistas detestam morais absolutas.

Resumindo muito: eu, que faço depender a minha crença na liberdade da minha crença em Deus, terei a minha liberdade ameaçada por aqueles que fazem da liberdade a única coisa divina, à falta de melhor alternativa. Isto não é lenga-lenga religiosa para crédulos. Isto é, como os americanos dizem, cheirar o café e ver as notícias. Este lugar bonito que é onde se defende a liberdade vai começar a dar espaço a coisas muito feias não tarda nada.



quarta-feira, junho 15, 2016

Ouvir

Esdras percebeu que confiar em Deus não é não preparar-se para os males que podem vir. Se eu confundir confiar em Deus com não ter de ser exposto à possibilidade do mal vir até mim, na prática acabo a querer ter Deus para me ter a mim sempre são e salvo. Se a tua fé depende de o mal não acontecer, és o teu próprio Deus.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, junho 09, 2016

Agenda

Gastem 25 segundos a ver isto e a guardar espaço na vossa agenda.

quarta-feira, junho 08, 2016

Nesta sexta-feira

Há uns tempos escrevi como tinha ficado impressionado com a cultura de serviço da igreja da Casa da Cidade. Uns tempos depois ouvi o Pr. João Martins pregar um sermão especificamente sobre o assunto do serviço e fiquei convencido: a Igreja da Lapa precisa de o ouvir.

Na maior parte das vezes, os aniversários da igreja são ocasiões da pompa possível, em que as formalidades podem ser maiores. E não sou contra isso. No aniversário do ano passado, por exemplo, como tínhamos um baptismo e como íamos receber muitas pessoas que nos visitavam, estávamos todos aprumadinhos. Este ano não precisa de ser diferente mas há uma diferença.

Neste aniversário queremos assumir que, sendo a festa uma coisa que gostamos, devemos aproveitá-la para pensarmos no que precisamos de corrigir. E reconhecemos que a Igreja da Lapa, estando cheia de bênçãos de Deus, tem ainda músculos de serviço fraquinhos.

Há uma explicação para isto. Na sua maioria, somos uma igreja de jovens casais. Isto é óptimo porque infelizmente uma grande parte das igrejas evangélicas está envelhecida. Mas o facto é que famílias jovens são sobretudo famílias tão absorvidas nas suas rotinas e ansiedades, que conseguirem aparecer no culto de Domingo já lhes sabe a milagre. Por causa deste fenómeno, uma igreja de jovens casais é uma igreja que demora muito a conseguir aquecer para trabalhar em favor de pessoas fora do seu núcleo familiar.

O Pr. João Martins tem uma experiência notável de servir outros. Durante anos foi o responsável pelo Desafio Jovem, que luta contra a toxicodependência, e nos últimos tempos pastoreia a jovem igreja da Casa da Cidade. O que ele vai pregar da Palavra de Deus está ligado ao que Deus tem feito graciosamente na sua vida. E nós queremos ouvir Deus ouvindo o Pr. João Martins. Estamos certos que vai valer muito a pena e gostávamos que se juntassem a nós.



terça-feira, junho 07, 2016

Ouvir

Querer ser de confiança sem confiar na palavra de Deus é confiar em nós próprios como solução dos nossos problemas. (...) Os milagres do Diabo são sempre assim: uma maneira de arranjar que os nossos problemas sejam resolvidos sendo nós um pouco mais do que já somos, ou tendo nós mais do que já temos. (...) O Diabo quer momentos de sucesso em que nós somos o centro, Jesus prepara-nos para confiarmos em Deus até nos momentos de sofrimento.

O sermão de Domingo passado, chamado "Para que sejas de confiança, tens de confiar na Palavra de Deus", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, junho 03, 2016

On laziness

William Truax is reading my book on laziness and translating some parts of it.

“The promising future of the Christian is in remembering what has happened in the past. The Christian who doesn’t desire to be more holy demonstrates that he understands neither his past or his future. The Christian who doesn’t desire to be more holy demonstrates spiritual Alzheimers - forgetting all that God has forgiven him. Not wanting to sin less reveals a miserable memory of the errors we have committed in the past. The other side of this coin is absolutely marvelous. It turns past regrets into milestones indicating how far the Lord has brought us in our walk with Christ. When we look back on what we wish we would have done, and longingly think, "If I had known then what I know now…” it is a clear indicator of how the Holy Spirit has been sanctifying us and changing our perceptions to be more like his. We know more now and regret past sins more because our past failures and ignorance become more and more contrasted with our current understanding of Christ and his holiness. This is wonderful because it does not minimize our past sins, but provides tangible evidence, over years, of how the Holy Spirit has been and continues to be working in and through us.“



quinta-feira, junho 02, 2016

João Calvino quer que ores de mãos no ar

Estou a ler a altura em que as Institutas se viram longamente para o assunto da oração. E Calvino liga o assunto da oração ao que vinha a falar antes, sobre a justificação pela fé. E esta ligação é muito importante. Ligar a oração à justificação pela fé recorda-nos que oramos baseados no facto de não haver justiça em nós, mas em Deus. Ligar a oração à justificação pela fé recorda-nos que oramos baseados no facto de Cristo ser a única maneira de podermos ser vistos por Deus como pessoas justas, através da imputação da justiça de Cristo a nós. Ligar a oração à justificação pela fé lembra-nos ainda que oramos baseados no facto de Deus ser agora nosso pai e nós seus filhos por adopção (daí que o espírito de adopção seja aquilo que nos leva a clamar: “Abba Pai”, como explica Paulo em Romanos 8:15 e 26).

Este último aspecto do espírito de adopção é o que arruma a aparente complicação da inutilidade da oração tendo em conta a omnisciência divina. De facto, nós não oramos porque Deus precisa das nossas orações para mudar o rumo dos acontecimento. Deus não é um veículo movido ao combustível das nossas orações - isso tornaria a oração sobretudo um assunto de mecânica. De facto, nós oramos porque, enquanto filhos de Deus, ansiamos por um relacionamento familiar com ele. Deus é um pai e relaciona-se connosco activamente sendo esse relacionamento activo visível no facto de falarmos com ele - a oração é sobretudo um assunto de comunhão.

Logo, os resultados da oração são menos aquilo que Deus faz no mundo porque nós orámos, mas os resultados da oração são mais aquilo que Deus faz em nós quando oramos: 1) o nosso coração dá-se mais ao desejo de Deus e do seu serviço; 2) os desejos do nosso coração são avaliados por Deus; 3) e somos preparados para receber em gratidão o que Deus nos dará. No final, já fomos suficientemente transformados para desejarmos voltar ao início deste esquema, sem desculpas preguiçosas para não procurar a comunhão com Deus. O homem que não ora, não percebe a realidade e, sem critério, não a deseja transformada naquilo que ela deve ser transformada.

Calvino começa então a enumerar regras de oração. A primeira é o reconhecimento da santidade de Deus. E Calvino é brilhante a expandir o assunto. A base da oração para Calvino não é fazer da oração um encontro feliz entre Deus e o homem. Antes pelo contrário, é natural que se Deus é perfeito e nós não somos, a oração comece por ser uma experiência que traz ansiedade e talvez até pânico. Por isso mesmo, na Bíblia são muitos os que se arrepiam de medo quando a presença de Deus vem até eles. A oração não é um piquenique mas um “abismo até aos maxilares da morte” (pág. 148). O que está em causa não é a nossa perfeição, que agora arranjámos maneira de ir até Deus. O que está em causa é a perfeição de Deus, que arranjou uma maneira incrivelmente misericordiosa de ir até nós.

Por isto mesmo, deve ser natural que sintamos com um arrepio a importância do modo como oramos. Quem ora de qualquer maneira corre o risco de não orar de maneira nenhuma. “Ninguém se prepara para a oração a menos que esteja impressionado com a majestade de Deus, de um modo que se queira livrar de todos os cuidados do mundo” (pág. 149). Também por causa disto é que o levantar as mãos enquanto se ora é um símbolo de desejarmos ser elevados até Deus, além das coisas que aqui nos prendem. Este é um bom procedimento.

Um segundo bom procedimento é orar aquilo que se deve. Como é que sabemos o que é que se deve orar? E Calvino volta a dar cartas: provavelmente aquele que ora melhor é aquele que hesita quando ora. Como assim? Isso quer dizer que não podemos orar espontaneamente? Não é bem isso. Calvino explica que, como orar bem não é orar qualquer coisa, a verdadeira oração é um dom. E de facto é isso que a Bíblia faz quando inclui a oração no assunto dos dons espirituais (1 Coríntios 12), e quando nos manda orar no Espírito (1 Cor. 14:15). Até o facto de eu falar com o Pai, só acontece porque este Pai me fez filho. Não falo com Deus porque posso, falo com Deus porque ele assim me concede.



terça-feira, maio 31, 2016

Ouvir

Uma das coisas que amo na minha igreja é a frequência com que uma voz vinda de fora do país diz coisas que precisamos desesperadamente de ouvir. O Mark Bustrum prega um sermão num assunto que nunca ouvi pregado numa igreja baptista em Portugal. A Lapa é muito abençoada por coisas destas.

O sermão de Domingo passado, chamado "O sorriso no rosto do teu pastor", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, maio 27, 2016

Entrevista dada ao Ouvido Alternativo

É uma honra para nós apresentarmos o mais recente convidado de "Conversas d'Ouvido", Tiago de Oliveira Cavaco, mais conhecido como Tiago Guillul, cantor, compositor, pastor Baptista e membro fundador da editora independente FlorCaveira, fundada em 1999 e que "descobriu" nomes como Os Pontos Negros, Diabo na Cruz e Samuel Úria. Ultimamente ficou rendido ao mais recente disco de Benjamim Auto Rádio e no seu funeral gostava que tocasse "Império" de Samel Úria, no entanto há muito mais para descobrir nesta edição de "Conversas d'Ouvido"...

Ouvido Alternativo: Como surgiu a  paixão pela música?
Tiago Guillul: Não sei resumir com justiça a importância que a música tem para mim. Mas posso dizer que os momentos em que via a minha irmã Rute, 5 anos mais velha que eu, a ouvir a Rádio Cidade quando ainda era uma estação pirata na Amadora ilustram parte do processo que contribuiu para amar música.

Como surgiu o nome Guillul?
O nome Guillul surgiu quando, no final dos anos 90, numa aula do Seminário Teológico Baptista, um professor explicou que cavaco (pedaço de madeira) se dizia "guillul" em hebraico. Uma colega disse-me logo: "Tu és o Tiago Guillul", o que me pareceu uma designação poeticamente mais promissora que o meu nome de origem.

Como encaras o facto de a FlorCaveira ter em certa medida revolucionado a música em Portugal? Quando surgiu foi uma autêntica “pedrada no charco”.
O reconhecimento da FlorCaveira é posterior ao aparecimento dela. O reconhecimento acontece quase uma década depois de ela nascer. Se a FlorCaveira revolucionou a música portuguesa não foi por ter trazido nada de novo, mas por ter trazido coisas antigas que na altura pareciam inexistentes. Acreditávamos e acreditamos em canções em que as letras não são decorativas (e que devem ser entendidas na língua que falamos todos os dias), e acreditávamos e acreditamos que as limitações de meios não têm de ser um problema mas podem ser um caminho criativo (daí insistirmos no do it yourself).

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
A paixão da minha vida é a palavra. A palavra pregada, escrita e cantada.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
Por causa de dedicar-me à palavra, sou um músico mas não sou apenas um músico. Sou um pregador que também escreve. Logo, não vivo apenas como músico. Não tenho desvantagens vindas do facto de ser apenas músico.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Para todos os músicos da FlorCaveira há uma resposta acerca de referências musicais: Bob Dylan, Johnny Cash e Leonard Cohen. É um dogma.

Como preferes ouvir música? CD, Vinil, K-7, Streaming, leitor de mp3?
O CD ainda é a maneira de ouvir música mais atentamente para mim. Um CD no carro.

O streaming está a “matar” ou a “salvar” a música?
O streaming não está nem a matar nem a salvar a música. É apenas mais um meio através do qual ela pode ser ouvida.

Qual o disco da tua vida?
Tenho uns quantos discos da minha vida. "In God We Trust" dos Stryper, "RDP Vivo" dos Ratos de Porão, "Nevermind" dos Nirvana, são alguns exemplos possíveis.

Qual o ultimo disco que te deixou maravilhado?
Cheguei quase um ano depois a ele mas o "Auto-Rádio" do Benjamim é um grande disco.

O que andas a ouvir de momento/Qual a tua mais recente descoberta musical?
A minha descoberta dos últimos tempos é o Filipe Sambado. Deu o melhor concerto que vi nos últimos tempos, no Sabotage, no ano passado, com um estalo rock incrível. O disco dele, "Vida Salgada", que ando a ouvir, sendo menos rock, é um disco muito bom.

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Acho que nunca me aconteceu uma situação num concerto que possa chamar embaraçosa.

Com que músico gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Não sou de duetos. No geral, não aprecio duetos. Para mim um dueto é o Kenny Rogers com a Sheena Easton. Nessa linha, não me perfilo para duetar com ninguém.

Para quem gostarias de abrir um concerto?
Gostava de abrir para o Bruno Morgado.

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias de um dia actuar?
Não há nenhum palco que tenha essa importância simbólica para mim. Sou mais de ambicionar tocar em sítios onde à partida não se espera um concerto. É mais punk.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Um dos melhores concertos que assisti na vida foi o Goran Bregovic em Belém - um concerto à pala.

Que artista ou banda mais gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Gostava de ver os Rancid ao vivo.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) que gostavas de ter estado presente?
Gostava de ter visto os primeiros concertos dos Heróis do Mar.

Qual o teu guilty pleasure musical?
I don't believe in guilty pleasures.

Projectos para o futuro?
Tocar o "Bairro Janeiro" numas quantas actuações pequenas.

Próximos concertos?
Braga, 27 de Maio.

Que música  gostarias que tocasse no teu funeral?
“Império” de Samuel Úria

Obrigado pela atenção e boa sorte para o futuro.

Relembramos que Tiago Guillul regressou este ano, com novo disco, Bairro Janeiro, gravado na Igreja da Lapa por Luís Severo e que pode ser ouvido na plataforma Youtube.

terça-feira, maio 24, 2016

Ouvir

O que ganho por depender da Palavra de Deus? Inteligência, independência e (boa) dependência.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, maio 20, 2016

Agenda

Daqui a uma semana planeamos viajar para Braga para um fim-de-semana repleto. Pequeno concerto na sexta à noite, conferência sobre família durante todo o Sábado, e adoração com a Igreja Baptista de Braga no Domingo. Quem quiser, junte-se a nós.



quinta-feira, maio 19, 2016

Levar com a porta na cara

"Nem todo o que me diz «Senhor, Senhor!» entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão-de dizer-me: «Senhor, Senhor, por ventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demónios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?» Então, lhes direi explicitamente: «nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade»." Mateus 7:21-23

Na maior parte das vezes, quando ouço este texto citado é para malhar na insuficiência da palavra. Como quem diz: "estão a ver? Apenas dizer coisas não basta, é preciso fazer coisas!" E quem começa a ler este texto, pode ser levado a concordar - não basta dizer que se tem Deus como Senhor, é preciso fazer a vontade dele. O verso 21 parece dar palmada ao "dizer" e bater palmas ao "fazer". A questão é que o texto não fica por aí.

Quando Jesus explica melhor quem é a pessoa que apesar de dizer "Senhor, Senhor!" não vai entrar no céu, Jesus explica que essa pessoa não é uma pessoa especializada em apenas falar. O que é que vai dizer essa pessoa quando vir a porta da comunhão eterna com Deus a ser-lhe barrada? Ela vai dizer: "espera aí, Jesus! Eu disse coisas em teu nome e eu fiz coisas em tem nome". Portanto, a pessoa a quem Jesus está a barrar o caminho de entrada no céu não é apenas uma pessoa de fala - é também uma pessoa de fazer. Essa pessoa expulsou demónios e fez muitos milagres.

Vamos mais fundo: se partirmos do princípio que expulsar demónios e fazer milagres não são acções que beneficiam apenas aqueles que as praticam, mas que são acções que sobretudo beneficiam aqueles sobre quem essas acções são praticadas, podemos dizer que as pessoas que expelem demónios e fazem milagres são pessoas que objectivamente tornam melhor a vida das pessoas à sua volta. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres são pessoas de acção para os outros, são pessoas que representam uma mudança positiva concreta na sociedade. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres não são pessoas com teoria religiosa, são pessoas com resultados práticos.

Logo, o que Jesus está a dizer neste texto não pode ser o que tantas vezes me disseram que ele estava a dizer. Jesus não está a malhar em pessoas que apenas têm palavra porque estas pessoas que não vão entrar na comunhão eterna com Deus são pessoas que tinham muito mais que palavra - tinham prática. Jesus está a ir mais longe que esta divisão preguiçosa (e irritantemente greguinha e gnosticazinha) que separa o que se fala do que se faz. Separar o que se fala do que se faz é um hábito irritantemente greguinho e gnosticozinho que continua a encantar evangélicos palermas. Separar o que se fala do que se faz é a persistente alergia de quem ainda não percebeu a justificação pela fé - não somos salvos pelo que fazemos mas fazemos porque fomos salvos. O meio evangélico está hoje cheio de pessoas que teoricamente separam o que se fala do que se faz porque são protestantes apenas de rótulo.

Alguém pode dizer-me a esta altura: "aguenta lá, Tiago! Então e o apóstolo Tiago quando diz que a fé sem obras é morta?" E lá vai um protestante ter de explicar uma vez mais que o que Tiago estava a fazer não era contradizer Paulo (que disse explicitamente que somos justificados pela fé e não pelas obras), mas a criticar um fingimento de fé que se vê que é fingimento quando precisamente se mostra uma fé sem obras. Tiago não estava a dizer que nos salvamos pelas obras; Tiago estava a dizer que se a nossa fé não mostra obras, ela não é fé. Fé que é fé, não sendo causada pelas obras, causa obras. O catolicismo romano processa este assunto de uma maneira diferente porque o catolicismo romano não vê tanto problema na Bíblia poder conter aparentes contradições entre os seus autores, uma vez que as aparentes contradições da Bíblia confirmam que ela não pode ser interpretada por qualquer um, mas pelos membros oficialmente designados pela igreja para isso. Mas isto já é muita areia para a camioneta deste texto (e espero que a minha observação à Igreja Católica não tenha sido feita em má-fé).

Voltando ao sermão do monte. O que Jesus nos está a dizer neste texto é uma lição muito mais assustadora do que aquilo que temos feito dela. É muito confortável eu dizer que Jesus não quer apenas pessoas de palavras mas que quer pessoas de prática quando eu sou um tipo muito seguro da bondade das minhas práticas. Por isso é que dava um jeitaço ler todo o sermão do monte e entender de uma vez por todas que Jesus está a distribuir fruta (meaning: pancada) aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que falam, como aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que fazem. Onde Jesus está a chegar também é aqui: tu obviamente não te salvas quando finges que és bom, seja esse fingimento através de um cumprimento legalista das regras religiosas. Mas onde Jesus está a chegar é ainda aqui também: tu, de uma maneira menos óbvia, também não te salvas quando estás honestamente convencido que és bom. Por isso é que este texto é fogo! Jesus está a dizer-nos uma coisa terrível: não nos salvamos por sermos maus fingindo que somos bons, nem nos salvamos por sermos bons.

Pensamos que as pessoas a quem Jesus está a barrar o caminho do céu são pessoas que desvalorizam o fazer? Estas pessoas põem-nos no bolso a nível de fazer. Quantos de nós já expulsámos demónios e fizemos milagres? Em termos objectivos, e se formos sérios a comparar-nos com estas pessoas, elas são muito melhores que nós. Como é que Jesus justifica então a situação complicada de impedir que gente que faz coisas boas tenha comunhão com ele? Precisamente demonstrando que até as coisas boas podem ser, aos olhos de Deus, coisas más. Como assim? É isso que Jesus faz quando, dizendo explicitamente, revela àqueles grandes faladores e fazedores que na realidade as maravinhas que andam a falar e a fazer eram, no fim de contas, "iniquidade".

É por isso que o cristianismo não é uma fé de agentes do bem público. E com isto não quero desvalorizar a importância do bem público - os cristãos são chamados a fazer o bem a todos (como Jesus explica neste mesmo sermão do monte). Mas o bem público é para o cristianismo uma consequência e não uma causa. O cristão não deve relativizar o bem e dizer "no fundo, no fundo, para Deus é indiferente se faço bem ou mal" - esta seria uma lição muito errada a tirar das palavras de Jesus. Onde o cristão deve chegar é à noção de que, até nas coisas onde estamos absolutamente certos que estamos a fazer o bem, podemos estar a fazer mal. É por causa desta possibilidade de erro constante e persistente em nós que precisamos de uma solução que seja completamente perfeita. Creio que os homens a quem Jesus está a barrar o caminho do céu estavam certamente convictos que profetizar em nome de Jesus, expelir demónios e fazer milagres eram coisa boas. É por isso que o erro deles é mais perigoso - é um erro cheio de coisas boas.

O erro constante e persistente dentro da nossa natureza, visível até no melhor que em nós há, tem um nome e chama-se pecado. Mas a solução para esse erro constante e persistente em nós também tem um nome e esse nome é Jesus. Por isso é que a Bíblia descreve Jesus como nosso salvador. Só precisamos de ser salvos se estivermos metidos num sarilho sério. Jesus acreditava que estamos metidos num sarilho sério. Por isso é que ele gastou tanto tempo a explicar situações-limite como as deste texto. E o que ele nos diz é: não confies no melhor que falas e no melhor que fazes. Confia antes no pior que és e que fazes mesmo quando falas bonito e fazes bonito. Quando tiveres a certeza do pior que és mesmo quando falas e fazes bonito, é que vais perceber a necessidade que tens de Jesus. Aí é que vais amar Jesus até ao infinito e desejar que haja eternidade para que a tua oportunidade de amá-lo não termine. É aí que o vais ver à porta do céu e ele vai deixar-te entrar. Jesus vai deixar-te entrar não pelo que falaste e fizeste. Jesus vai deixar-te entrar porque vai ver em ti o amor que lhe tens por ele te ter salvado.

O céu não é o lugar dos que falam e fazem. O céu é o lugar dos que amam. E porque amam, falam e fazem na terra. Não falam e fazem na terra para abrir a porta do céu. Falam e fazem na terra porque Jesus já lhes abriu a porta. A fé é isto.

terça-feira, maio 17, 2016

Ouvir

Corro o risco de poder ser injusto mas acredito que existe uma cultura baptista portuguesa da mediocridade, onde os padrões elevados ficam sempre à porta da igreja. Pois Ageu e Esdras querem ensinar-nos o contrário.

O sermão de Domingo passado, chamado "Estás a dedicar a tua vida àquilo que o inferno vai demolir?", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 16, 2016

Para ouvir

O Bairro Janeiro pode ser ouvido aqui. Tenho recebido algumas críticas encorajadoras e planeio tocá-lo nuns serões ou matinés simples e bonitos. Na Sexta-Feira, 27 de Maio, vou estar em Braga numa noite musical onde serei acompanhado pelos meus miúdos, às 20h na Igreja Baptista. Vai ser uma estreia. Venham!

sexta-feira, maio 13, 2016

Os brasileiros não brincam

Foram à cata do áudio dos sermões contra a preguiça originais (meio perdidos na net há quase 3 anos) e colocaram no Youtube - obrigado Leandro Ribeiro! A partir deste podem ouvir todos os seis (o quarto é do Pr. Jónatas Lopes). Para quem não tem o livro, sempre dá para conhecer as pregações tais como aconteceram. Entretanto, o livro dá para comprar via net (ainda ontem o William Truax recebeu o dele nos EUA). Go!

quinta-feira, maio 12, 2016

Catálogo de fantasia

Não estou dentro e não percebo desta questão dos contractos com escolas privadas. Escapa-me por isso quais devem ser os melhores procedimentos a seguir, na relação entre Estado e ensino provado. Não racho lenha num assunto para o qual não me preparei. Mas, em vez dos procedimentos, gostava de arriscar dizer uma coisa acerca dos princípios.

Diz o ponto 1 e 2 do artigo 43 da Constituição da República Portuguesa, sobre liberdade de aprender e ensinar:
1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.
2. O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.
3. O ensino público não será confessional.
4. É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas.

Vamos por partes. Eu sou a favor de viver num país com uma Constituição. Para mim, a Constituição, não sendo a voz de Deus, é certamente uma possibilidade de voz do povo. Como acredito nos méritos de uma democracia, a Constituição pode e deve ser um instrumento eficaz de o povo ter uma boa voz a partir de bons princípios. Devemos ser gratos pela existência de uma Constituição - os povos não têm, por defeito, Constituições. Os povos são mais inclinados a ter Constituições quando foram influenciados por uma cultura que valoriza a palavra, como defesa da vida em sociedade. O que quero dizer é que a Constituição como instrumento democrático é uma herança da cultura judaico-cristã, onde o que se escreve não é casual mas fruto da convicção que o Criador se revela a nós através da palavra escrita. Logo, ter palavras escritas é uma coisa boa para que haja boa vida entre as pessoas.

Ora, crendo eu que a Constituição é boa para o mundo, deixem-me dizer que não acredito no mundo desta Constituição. O que o artigo 43 sugere é uma leitura da realidade que me parece absurda. Da mesma maneira como há pessoas que não acreditam em Deus, eu não acredito que o Estado deve programar a educação e a cultura sem directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas. Da mesma maneira como há pessoas que não acreditam em anjos, eu não acredito em neutralidades filosóficas, estéticas, políticas ideológicas ou religiosas. Em que é que eu acredito então? Acredito que tudo é filosófico, estético, político, ideológico e religioso. Acalentar a expectativa de uma realidade independente do que pensamos em termos de filosofia, estética, política, ideologia ou religião é, para mim, acreditar num milagre que não aconteceu. E parece-me um facto mais que provado em 2016, o de dizer que a neutralidade filosófica, estética, política, ideológica e religiosa é um milagre que até hoje não aconteceu.

Não é por não acreditar no mundo desta Constituição que vou passar a dizer que ela não serve para o meu mundo. As coisas são mais complicadas do que isso. Vou tentar ser um bom cidadão português mesmo quando a Constituição do meu país me parece padecer de um erro tão infantil de leitura da realidade. Espero dar o meu melhor sobretudo quando acho que a Constituição não me dá grande coisa.

A partir daqui, certamente que aparecem assuntos complicados ligados à boa separação entre Igreja e Estado. Sou a favor dessa separação. Mas uma coisa é decidirmos sobre o assunto complicado de separarmos Igreja e Estado a partir do entendimento de como as linhas se cruzam. Outra coisa é decidirmos sobre o assunto de separarmos Igreja e Estado a partir de um suposto milagre de elas não terem uma coisa a ver com outra. Se é para ir por esta última via, é natural que a nossa Constituição continue a servir mais de catálogo de fantasias que de instrumento para a realidade. É isso é pena.


(Fotografia sacada ao Observador)


quarta-feira, maio 11, 2016

Agenda

Eu sou mais contra o aborto que a favor da vida (não sei bem o que é que ser a favor da vida quer dizer), mas o essencial é ir no Sábado.


terça-feira, maio 10, 2016

Ouvir

A ênfase de Esdras é: não sejas ingénuo com a boa vontade dos outros. A ênfase dos evangelhos é: não sejas ingénuo com a tua boa vontade.

O sermão de Domingo passado, chamado "Filho, escolhe bem os teus amigos!", pode ser ouvido aqui.

sábado, maio 07, 2016

Porque hoje é Sábado


e vocês precisam arrebitar.

quarta-feira, maio 04, 2016

Minérios

O Sábado passado foi um dia bonito para mim. Não vou tentar descrever exaustivamente porquê - não saberia e não conseguiria. À boleia deste retrato da Vera Marmelo chamo a atenção apenas para duas coisas: o lugar e as pessoas.

Foi a quarta vez que toquei na Flur. Acho que à medida que a minha carreira musical progride (?), desaparecem os palcos. A razão óbvia é porque não há muita necessidade deles - o público é pequeno. Por outro lado, também tendo a sentir-me mais confortável em sítios que parecem não combinar imediatamente com música. Isto vem de longe. Recordo-me de os Ninivitas tocarem num café no Lavradio, por exemplo. No caso da Flur, o lugar até combina com música porque a Flur é uma loja de discos. Para mim, a Flur é a minha loja de música, não porque faça despesa lá (já não faço despesa considerável com discos há uns anos) mas porque a minha música e a dos meus amigos se sente em casa lá. Por outro lado, como não é uma casa de música ao vivo, tocar lá também é assumir o lado doméstico das minhas canções. O concerto de quase oito horas foi mais uma festa em casa onde os amigos iam chegando e cantando. Foi mesmo assim.

Por outro lado, as pessoas. As pessoas foram os amigos, como disse, e não só. Foram muitas crianças e uns quantos bebés (bebés com cerca de um mês foram pelo menos dois), em danças várias. As pessoas foram também os meus miúdos a apanhar quase a seca toda, com a minha mulher, e, representados pelo Joaquim, a assumirem o papel de instrumentistas. De há uns meses para cá comecei a dar aos meus filhos o suplício de ensaiarem em casa comigo. Tocam o violino e fazem percussão. Em duas canções o Joaquim tomou conta da bateria, como esta fotografia da Vera mostra. Nesta fotografia gosto também do efeito de via sinuosa até nós, esculpida no grupo de pessoas que assiste. É como se assistir a concertos na Flur envolvesse uma espécie de prospecção de minério.

Se querem ver mais retratos desta tarde, venham aqui ao blogue da Vera.



terça-feira, maio 03, 2016

Ouvir

Se não valorizares os pequenos começos, dificilmente ganharás uma grande adoração. A grande adoração vem de um história que amplia pequenos começos.

O sermão de Domingo passado, chamado "Pequenos começos para uma grande adoração", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 02, 2016

O Bairro Janeiro no Público



Uma surpresa vinda do Brasil


O Yago Martins e o Felipe Cruz têm um programa no Youtube que mostra que a teologia só é chata para gente chata. E não é que dedicaram 17 minutos a falar sobre os meus Sermões Contra a Preguiça? É verdade. Verifiquem. Se não puderem ler o livro, ficam com o essencial dele neste vídeo.

Obrigado pela vossa generosidade, Yago e Filipe. Um abraço forte para vocês!

quinta-feira, abril 28, 2016

Um Fim-de-Semana à FlorCaveira: os palcos nobres e os palcos nulos





terça-feira, abril 26, 2016

Ouvir

É possível quem prega ter os seus sermões preferidos? Creio que sim. O de Domingo passado tornou-se especial para mim que o preguei. Porque é a partir de uma longa lista de pessoas, o que parece um ponto de partida chatíssimo. Porque é acerca do valor que as palavras e os nomes têm no cristianismo. Porque Deus enviou uma ilustração apropriada para o sermão através de um susto que apanhámos com a nossa Maria na sexta-feira.

O sermão chamado "Deus ama listas" pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, abril 25, 2016

Num dia histórico, um texto sobre a ignorância televisiva da história

Vi há uns dias uma reportagem que a Sic fez chamada "Uma Questão de Fé", onde pegava na ideia de sermos ou não um país católico. A premissa é boa. Pegar numa convicção generalizada - "Portugal é um país maioritariamente católico" - como base de um trabalho de reportagem pode resultar num belo pedaço de informação. Se nossa a comunicação social nos servir peças que aumentam o nosso conhecimento e que, por isso, contrariem algumas das ideias feitas, óptimo - é sinal que temos media que ajudam esta coisa de sermos civilizados contrariando a ignorância. A reportagem da Sic começou bem.

Acontece que a reportagem da Sic só começou bem. A partir do momento em que saiu para explorar a boa premissa que tinha ("será que Portugal é mesmo um país maioritariamente católico?"), a reportagem atirou-se a si mesma para a valeta. Não sei quem a assinou (não prestei atenção) e, por outro lado, até prefiro não saber. Pode ser um(a) colega meu/minha da Faculdade, do curso de Ciências da Comunicação da Nova e, mal por mal, se for esse o caso, prefiro a imparcialidade do desconhecimento do autor. Por outro lado, quero manter uma apreciação justa, quando tudo em mim se automatiza para que seja arrasador na crítica que vou fazer.

Para justificar que a reportagem se tenha atirado a si mesma para a valeta, tenho a necessidade de dizer duas coisas. A primeira é uma espécie de regra para qualquer iniciativa de trazer conhecimento numa área onde ele é pouco. É natural que quando não conhecemos uma coisa e ela nos é apresentada, a estranhemos. O que é novo em grande parte é estranho. Isto pode ir desde a matemática, à Coca-Cola, aos discos dos Velvet Underground. Logo, a melhor apresentação de uma coisa que não conhecemos não me parece ser enfatizar desnecessariamente a sua estranheza. Enfatizar desnecessariamente a estranheza de uma coisa que não conhecemos é, de certa maneira, contribuir para que não a queiramos conhecer. A estranheza, se for a qualidade destacada no processo de conhecer alguma coisa, é meio caminho andado para nos cortar o interesse por ela. Seja a matemática, a Coca-Cola ou os discos dos Velvet Underground.

Quando trago conhecimento numa área onde ele é pouco, devo conter os efeitos retro-activos da estranheza, preferindo abrir o caminho para o contexto. Olhar para o ambiente das coisas ajuda-nos a percebê-las melhor, mesmo quando elas não nos atraem. É por isso que, quando ensinamos alguma coisa que no imediato gera alguma estranheza, contextualizá-la pode ser o segredo para lhe vermos uma pertinência que a nossa primeira reacção não nos dá. Nem que seja para que no final, estando o assunto mais contextualizado, possamos ter uma relação de recusa informada dele.

Ora, se o assunto é "será que Portugal é mesmo um país assim tão católico?", não devemos duvidar que a ideia generalizada de nos termos como país maioritariamente católico assegura que, diante qualquer expressão religiosa não-católica, a estranheza será o mais fácil. Ou seja, esta reportagem é daqueles casos em que, independentemente do rigor da sua construção, há um efeito de estranheza que está garantido. Mais ainda: se o efeito de estranheza nos espectadores for confundido com informá-los, este tipo de reportagens é um sucesso garantido. Aliás, é por isso que no nosso país estas reportagens são cíclicas. Elas não são cíclicas porque nos informam - elas são cíclicas porque o efeito de estranheza que provocam é infalível e porque esse efeito é vendido como informação. Sejam estas reportagens sobre Testemunhas de Jeová na TVI, sobre neo-pentecostais na Sic, ou sobre curandeiros na CMTV.

Portanto, há esta primeira coisa que devemos entender: não estamos a ser informados quando confundimos estranhar uma coisa com entender uma coisa. Só por isto, a reportagem da Sic torna-se um belíssimo mau exemplo. Sei que não terá sido esse o objectivo, mas foi assim que me pareceu o resultado final. A reportagem da Sic mistura pastores evangélicos (uns quantos), com pastores quase-evangélicos, com pais de santo, com cientologistas, com pregadores de rua, com pais que perderam as filhas para o extremismo islâmico, numa barafunda daquelas que quando acontecem de certeza que as pessoas se juntam à volta para ver. Passamos de uma igreja evangélica que faz reuniões no Tokyo do Cais do Sodré (do meu amigo Mário Rui), para um português desdentado onde baixam espíritos brasileiros (não é meu amigo mas podia), a uma velocidade tal que eis-nos sentados numa versão carrocel-xunga da BBC. O pior no final não é saírmos chocalhados com tanta aparente maluquice. O pior é no final confundirmos esse achocalhamento com informação.

A inclusão de um leque tão largo de expressões religiosas numa só reportagem, em vez de mostrar que a religião é assunto que nos merece a complexidade, acaba a sugerir que a religião se limita a uma mesma maluquice que gera manifestações diferentes. Acredito que não era esse o objectivo dos jornalistas da Sic. Mas será que eles se deram ao trabalho de visionarem a reportagem com pessoas que, tendo uma maior cultura religiosa, lhes pudessem mostrar boas objecções à edição feita? Qual a política de supervisão de conteúdos que a redação da Sic tem?

Então como é que se faz uma reportagem séria sobre religiões minoritárias? Sugiro uns quantos cuidados. Para já, diminui-se o raio de alcance. Se quiser mostrar tudo, vou acabar a mostrar nada. Logo, não vale misturar alhos com bugalhos como se fosse tudo a mesma coisa. Vamos passar a ter uma coisa mais sóbria mas mais pertinente também. Depois, tendo escolhido um grupo reduzido de religiões minoritárias, explica-se de onde surgiram, mostrando os porquês e os comos. Querer dar conhecimento sobre, por exemplo, o movimento evangélico encharcando as pessoas em imagens dos seus serviços de culto mais excitados, é o mesmo que querer explicar as regras do futebol mostrando apenas imagens de jogadores e adeptos a celebrar golos. Por emocionante que a montagem possa ficar, não é assim que se deve fazer. E nesse sentido, deixem-me ser duro.

Jornalistas da Sic: esta reportagem foi uma boa tentativa mas não é assim que devem fazer. Por exemplo, querem apresentar o movimento evangélico? Façam um trabalho mínimo de pesquisa (nem que seja a partir de uma vista de olhos rápida na Wikipedia) mostrando por que razão a discussão sobre a justificação pela fé se tornou tão incontornável na Europa no fim da Idade Média. Pelo caminho, acabarão a entender porque o debate de a pessoa saber se se salvava por se manter ligada institucionalmente à Igreja em Roma, ou se se salvava por se poder manter ligada a Cristo independentemente da ligação institucional à Igreja em Roma, mudou não somente a religião europeia mas a própria Europa. Neste sentido, creio que o maior problema dos jornalistas da Sic não foi mostrar que percebem pouco de religião. O maior problema dos jornalistas da Sic foi mostrar que percebem pouco de história.

Por fim, há ainda dois detalhes na reportagem que merecem uma referência. Esses dois detalhes revelam um esquema ínvio da reportagem. Um deles é um tom de: "eh pá, já que demos nas vistas despejando aqui tanta aparente maluquice não-católica, talvez seja melhor arranjarmos alguma maluquice católica para não nos acusarem de parcialidade." E toca a filmar a capela da Santa de Arcozelo para equilibrar os valores de estranheza. O outro detalhe é a música final no plano onde aparecem os créditos. A escolha da música é toda uma religião em si mesma: o Tom Waits cantando o "Chocolate Jesus" sob a imagem de um crucifixo num automóvel agitado ao sabor do trânsito. Parece haver um credo da reportagem que reza que, tal como o Tom Waits canta sobre alguém que escolheu o seu Jesus preferido na forma de um chocolate numa loja de doces, a religião é um apetite que cada um mata como quiser. Este final é especialmente difícil de engolir porque corresponde a agitar a água do capote depois de se ter feito a dança da chuva. Depois de uma reportagem em zoom apertado sobre as esquisitices da religião, os seus autores atiram um muito pós-moderno: "quem sou eu para julgar?" Isto, crendo eu que não foi premeditado, cheira a cobardia intelectual.

A segunda coisa que vos queria dizer (segunda, depois de este texto todo?) é: sei do que falo quando escrevo sobre esta reportagem. Trabalhei mais de dez anos a fazer um programa televisivo sobre igrejas evangélicas ("A Luz das Nações" na RTP2). Deixem-me dizer-vos que até para mim, orgulhoso evangélico que sou, era difícil fazer um programa de televisão que conseguisse fugir de sublinhar a estranheza. Há evangélicos de tantas formas e feitios que os próprios evangélicos se estranham uns aos outros. Tendo em conta que o protestantismo (termo que uso como sinónimo do movimento evangélico) é por natureza mais extrovertido que o catolicismo (tem a ver com a tal questão da justificação pela fé), não há como fazer a quadratura do círculo. Os evangélicos têm de saber viver bem com o facto de não serem compreendidos. O que não têm é de viver bem com o facto de não serem bem compreendidos sob o pretexto de serem bem compreendidos. Perceberam a diferença? Uma coisa é que não nos compreendam quando fomos representados justamente. Outra completamente diferente é que não nos compreendam quando fomos representados para que não nos compreendessem.

A reportagem da Sic "Uma Questão de Fé" pode garantir audiências, mas informação nem por isso.