segunda-feira, abril 20, 2015

"Filho de Deus" de Cormac McCarthy
Se me comparar com a maior parte das pessoas, leio muito. Mas não sou um leitor compulsivo. O prazer que a leitura me dá sempre foi equivalente à preguiça que sinto para ler. Por isso sempre preferi acabar de ler um livro a ler um livro. Raramente na vida tive aquela experiência de não conseguir parar de ler. Quase sempre eu consigo parar de ler com toda a facilidade. Mas Deus tem-me tornado um leitor mais estável nos últimos anos, de facto. E grande parte do meu tempo hoje passa por ler. Leio mais e melhor, ainda que duvide que alguma vez me torne um leitor compulsivo.
Todavia (e teria de haver um "todavia" neste texto), volta e meia há um livro que parece colar-se-me às mãos. Pelo que tenho vindo a entender, os poucos livros que parecem colar-se-me às mãos não têm a ver necessariamente com a sua qualidade literária. Antes pelo contrário, geralmente os grandes livros custam-me a ser lidos (amei o "The Portrait Of A Lady" mas foi custoso, estou a gostar muito de "A Divina Comédia" mas também me custa bastante, etc.). Há uns meses houve um livro que literalmente devorei: "Morrer na Praia do Futuro". Que fantástica obra literária é essa? Nada mais nada menos que o texto escrito por Luis Militão Guerreiro, o português que no Brasil matou seis empresários portugueses em Fortaleza. Lembram-se da história? Pois bem, os méritos literários do livro são escassos mas a história, caramba!, a história! Histórias de crimes terríveis - eis uma das receitas para que os livros se me colem às mãos.
Empreendamos um pequeno progresso estético: entra "Filho de Deus" do Cormac McCarthy. Eu ainda li relativamente pouco do Cormac mas o que li já me fez entender que tenho nele um escritor que fala a minha linguagem. O "The Road" é fantástico e o "Meridiano de Sangue" não fica muito atrás. O facto é que "Filho de Deus" colou-se-me às mãos. Li-o num fôlego e que fôlego!
"Filho de Deus" é a história de Lester Ballard, uma personagem que começa como pateta e acaba como psicopata. Como Paulo Faria, o tradutor de "Filho de Deus", diz bem no prefácio, as personagens monstruosas de Cormac McCarthy não são propriamente excepções ao ser humano comum mas antes a sua regra (que talvez só se distingam por uma intensidade superior). Isto não quer dizer que McCarthy escreve partindo do princípio que todas as pessoas são bestas, mas talvez escreva partindo do princípio que todas as bestas são pessoas. Só a partir daqui nasce uma literatura que genuinamente é acerca da redenção.
Hoje é um lugar-comum falar do valor da redenção na arte. Acontece que o valor da redenção na arte só pega quando há por parte do artista uma convicção sólida acerca do que pede pela redenção: o pecado. Por exemplo, em Portugal nós não temos arte que decentemente peça por redenção porque não temos artistas que decentemente acreditem em pecado. O que temos é geralmente uma sopa pós-moderna onde a emoção é procurada por efeito do tédio (o tédio é o melhor substituto para o pecado que conseguem aqueles que não acreditam em Deus), o que é completamente diferente de termos uma arte onde a redenção é um assunto concreto. McCarthy dá-nos uma escrita que é mesmo a sério acerca da redenção porque ele escreve mesmo a sério acerca do pecado.
O curioso é que, se McCarthy escreve mesmo sobre pecado, não deixa de o fazer mostrando aquilo que o pecado também é - ridículo. Daí Lester Ballard se tornar uma personagem inesquecível. Lester é o tal que começa pateta e acaba psicopata. Por andar a ler o Dante ando com esta lição mais fresca, esta de saber que o Inferno é um lugar tão sinistro quanto disparatado. Hoje podemos dar-nos ao luxo de fazermos do ridículo uma desculpa para o alívio moral, mas o ridículo sempre foi algo moralmente carregado. Nos círculos do Inferno de Dante os pecadores sofrem com um grau de horror ao nível do grau de absurdo, o que se num primeiro momento nos pode dar vontade de rir, num segundo dá-nos vontade de chorar. Não é à toa que o mesmo acontece com Lester, que a dada altura irrompe num choro que pura e simplesmente não é explicado. O humor que pode ser suscitado pelo pecado não significa que o pecado passa a ser inimputável. Não é por um pecador ser ridículo que ele deixará de ser punido enquanto pecador. "Filho de Deus" ajuda-nos a perceber isto melhor.
Talvez um dos aspectos que torna "Filho de Deus" viciante seja a expectativa que quanto maior o crime que vemos descrito nas suas páginas, mais preciso seja um castigo que se siga. E McCarthy trabalha esta tensão de um modo ilustre. A ironia é que, como este castigo acaba por não chegar à dimensão do crime, acabamos por terminar a leitura pedindo uma justiça maior do horrível com que nos deparámos. E é aqui que quero terminar assinalando uma característica verdadeiramente religiosa da escrita de Cormac McCarthy: pelo facto do mundo literário de McCarthy ser tão ostensivamente sem Deus (a malvadez anda realmente solta), nada há que seja tão pedido pela sua escrita como Deus. Por isso, creio que um dos trunfos de "Filho de Deus" nem é tanto empatizarmos com o criminoso (mesmo que o consigamos fazer); é muito mais sermos inclinados para a necessidade de um juiz divino. Talvez o próprio McCarthy não concorde comigo (não lhe conheço identificação religiosa), mas que um tipo sai a precisar mais de Deus depois de um livro do Cormac, sai.


quinta-feira, abril 16, 2015

Coroa


















"A godly wife does not just adorn herself; she adorns her husband. She is a crown of glory. She does this as a virtuous woman, and this is precious, in part, because of its comparative rarity. If it were easy, more would be happy to be virtuous. So at the heart of an adorned and adorning wife is her deep and abiding fear of God." - Douglas Wilson.

quarta-feira, abril 15, 2015

Listen all y'all, it's a sabotage

terça-feira, abril 14, 2015

Ouvir
O princípio do Primeiro Mandamento é este: uma vez que os judeus devem 100% da sua liberdade a Deus, Deus exige 100% da adoração do seu povo para si. Qualquer acto de idolatria insinua que não fomos libertados inteiramente por Deus.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, abril 13, 2015

Praia com Jesus
Uma das coisas mais irritantes quando se prega acerca da lei, é ter de levar com a ignorância típica de muitos evangélicos. Para muitos evangélicos a palavra "lei" é um papão que os deixa a chorar traumatizados a um canto. Para esses evangélicos a lei é uma espécie de tempo chuvoso que esperava pelos primeiros raios de sol, em que Jesus chega triunfante pronto para a praia e declara que a partir de agora é férias para sempre. O problema é que estes evangélicos revelam que, na sua aversão pavloviana à lei, pouco sabem acerca do próprio Jesus que julgam ter dado cabo dela.
Ontem na igreja chegámos finalmente aos Dez Mandamentos. Uma das coisas que me parece necessário fazer hoje, quando se estuda os Dez Mandamentos, é dissipar as dicotomias preguiçosas feitas entre o evangelho e a lei (como se o evangelho fosse contra a lei). Ora, torna-se então necessário entender qual o tipo de embate que o Senhor teve com os legalistas. Os próximos parágrafos são excertos do sermão de ontem, que estabelecem uma distinção básica entre um legalista (coisa que um cristão nunca pode ser) e um não-legalista.
A antipatia que Jesus mostrava pelos fariseus não era por eles acolherem a grandeza da lei mas por eles reduzirem-na. Os fariseus eram legalistas e os legalistas são especialistas em fazer da parte o todo. O legalista é uma pessoa que ignora que a obediência à lei respeita a personalidade de quem a criou. Quando eu me lembro que o autor da lei é perfeito e integra totalmente a realidade espiritual e a realidade física, é absurdo cumprir a lei na sua forma sem permitir que ela se cumpra no meu coração. Na verdade, o legalista é alguém que parece que cumpre a Lei mas, de facto, faz o contrário. Por isso Jesus passou a vida a malhar em legalistas.
O legalista julga que cumpre a lei pelo facto de seguir os seus aspectos formais. Mas o seu coração fica incólume a ela, revelando na prática que o legalista, ainda que inconscientemente, torna o autor da lei tão imperfeito como o modo como ele a cumpre. Uma pessoa que cumpre a Lei na sua forma mas não no seu conteúdo é alguém que faz de Deus a mesma coisa. Quando eu sou legalista, eu não estou a ser transformado pelo princípio perfeito da lei; quando eu sou legalista eu estou a transformar a lei na minha imperfeição. Um legalista não é, por isso, uma criatura da lei mas da carne. Por isso o Senhor Jesus não foi um legalista mas alguém que cumpriu ele mesmo a lei. Porque o Senhor Jesus sabia que cumprir a lei era respeitar o carácter de quem a criou - Deus. Deus, cuja forma não difere do conteúdo, dá a lei para que ela seja cumprida em obras e no coração - segundo a sua própria natureza.
O legalismo parte do princípio que, desde que nenhuma regra seja quebrada, a lei é cumprida. Mas isto é de uma grande ingenuidade. Um legalista julga que nunca matou ninguém por nunca ter interrompido o batimento cardíaco de nenhuma criatura. Mas um não-legalista sabe que não matar ninguém é muito mais do que isso: é servir a vida de todos os outros à nossa volta. A lei é muito mais que uma aparência de cumprimento. Isto era algo que os fariseus não compreendiam.

sexta-feira, abril 10, 2015

Amanhã!
Olha aí o cantor da 1ª parte da tarde musical de amanhã! Um rocker de olhos azuis que também sabe baladear. Depois dele será sempre a descer.

quinta-feira, abril 09, 2015

Noite do Crime Eléctrico #3
As Noites do Clube do Crime Eléctrico já chegaram àquele ponto em que alguma imprensa levanta as orelhas. Alguns terão lido o texto do Observador sobre a segunda, em Março. Vale a pena (aqui: http://observador.pt/2015/04/02/ultimo-crime-eletrico-dos-pontos-negros/). Foi uma noite realmente memorável.
O Sabotage é o sítio apropriado para noites assim. Com mais de 100 pessoas o lugar começa a ficar apertado, o que facilita o elemento obrigatório de concerto de rock: o perigo. Mal os Pontos Negros começaram a agitação da assistência criou uma maré complicada junto ao pequeno palco. Pequenas ondas de gente a caíam aos pés dos guitarristas (eu fui um deles e a ferida que fiz na perna ainda me acompanha). Como dizia o Jónatas Pires depois do concerto, lembrando a ética de uma actuação eléctrica: ou há ferimentos ou não aconteceu.
O Cão da Morte empenhou-se solitário e corajosamente de guitarra e órgão, criando uma ligação tal que a assistência lhe sugeria no momento que repetisse alguns refrões. Os Velhos são das poucas bandas que se dá ao luxo de começar de novo, contra tudo e contra todos. Quantas das músicas antigas tocaram? Zero, zerinho. Só tocaram novas, todas lentas, todas a tresandar a casamento (é casar, meninos, é casar!). Mas sempre com a mesma força. Os Velhos mostram que a força não é um monopólio musical da rapidez.
O próximo concerto é daqui a uma semana. Topem a beleza do cartaz que o Silas Ferreira fez. É isso mesmo: Éme, Amamos Duvall e C de Croché. Marquem na agenda e espalhem a notícia.


quarta-feira, abril 08, 2015

Ouvir
Quantos de nós defendemos a ressurreição da maneira que mais convence, que é uma personalidade transformada e humilde?
O sermão de Domingo passado, chamado "Um coração transformado pela ressurreição é o que nos leva ao encontro daqueles que ainda não a meteram na cabeça", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, abril 06, 2015

Online amanhã
Se a ressurreição não fosse algo que pudesse expor-se ao inquérito de pessoas, nomes de pessoas não eram dados para prová-la. Paulo dá a lista das pessoas a quem Jesus apareceu para que aqueles que não acreditam na ressurreição possam aparecer junto dessas pessoas e averiguar por si próprios. Acreditar na ressurreição não é usar menos os nossos neurónios.

quinta-feira, abril 02, 2015

Uma memória musical
O aspecto mais importante desta memória de há dez anos é aquele que levará menos das minhas palavras. Há dez anos casavam a Filipa e o Jónatas Lopes, amigos e companheiros nossos, que hoje servem a Igreja Baptista da Graça. Mas há dez anos também tinha um concerto na agenda que ainda hoje deixa recordações únicas.
Voltámos de Coimbra, deixando o casamento com a festa a meio (o Jónatas ainda não me perdoou esse abandono prematuro) porque as Borboletas Borbulhas e o Samuel Úria & as Velhas Glórias tinham um concerto na Casa Ocupada de Mem Martins (que, soube agora depois de uma googlada, foi demolida para dar lugar a um Hotel Ibis). Eu já tocava punk desde 1993 e já tinha dado concertos em diversos tipos de buracos mas, em 2005, tinha uma estreia numa genuína casa ocupada. Estávamos entusiasmadíssimos.
Mal chegámos, chega também uma viatura da polícia que pára à entrada. Ainda faltavam umas horas para o concerto e receámos que o concerto acabasse adiado. Mas a polícia passou e seguiu. A sala onde tocaríamos era uma espécie de encontro entre celeiro e garagem e tinha uma bola de espelhos que lhe dava um toque pleonasticamente decadente. Não me recordo se havia PA mas lembro-me que um dos nossos músicos teve de ir a Queluz buscar um adaptador para um dos cabos do microfone. Entretanto a organização da Casa (eram anarquistas mas eram organizados) ofereceu-nos um jantar que comemos numa sala imunda mas alegre enquanto víamos um jogo da bola (um Boavista-Sporting, creio). Era uma excelente feijoada que digerimos com alguma cautela porque a cozinha parecia uma caverna paleolítica.
Ainda antes do concerto recordo que os hóspedes da Casa Ocupada eram, naturalmente!, aqueles esquerdistas que não fazem da sua falta de fé religiosa uma desculpa para não terem religião. Antes pelo contrário, comparados com muitos crentes evangélicos eram muito mais rápidos na criação de um ambiente em que quem vem de fora rapidamente se sente irmão de quem o recebe. Foi nesse espírito de congregacionalismo instantâneo que me recordo de ver uma moça sair junto com os rapazes para fazer xixi na horta (aparentemente as instalações sanitárias da Casa ocupada não estariam nas melhores condições) e, tal como eles, fazê-lo em pé. Recordo que nessa altura ainda não era pastor e por isso, quando dei por mim, já estava a ver mais do que queria. Hoje em dia, certifico-me bem que que os urinóis que uso não se prestam a ecumenismos de género (e se for a uma horta, escolho uma horta sem mulheres por perto).
Começa o concerto. Connosco tocavam os Sexta Barra, uma banda de hardcore punk feio e forte, como se quer. Tinham uma estética skinhead mesmo tendo em conta que o vocalista era mulato. Samuel Úria & as Velhas Glórias foram a primeira banda a abrir o concerto e a coisa começou ágil na assistência, mesmo tendo em conta que não era muita (o Sami não esteve anos à espera de reconhecimento público para começar a rockar a sério - aqueles concertos do Sami eram inesquecíveis). As Borboletas Borbulhas despejaram em 15 minutos o disco "Tiago Guillul Quer Ser O Leproso Que Agradece", concluindo com o "Queluz Está A Arder" - a verdade é que o "Queluz Está A Arder" é desde o ano em que foi criado (2000) um (literal) firestarter, por isso a actuação acabava sempre em alta. No fim, veio uma banda em que tocava um sobrinho do Ribas que, por essa ligação familiar, andava com altivez nos pobres labirintos do punk nacional. A memória que tenho da banda é fraca mas lembro-me que a seca que estava a dar só foi interrompida por um daqueles diálogos que em concertos de punk começam do palco, seguem para a assistência e terminam no intercâmbio físico entre os dois. Meaning: rebenta pancada entre banda e público. Um dos intervenientes mais bravos na altercação era um fiel amigo nosso, filho de um pastor baptista e actual designer profissional bem sucedido no estrangeiro (we miss you, Barros!). O problema é que nós tínhamos de nos pirar porque na manhã do dia seguinte era dia de Escola Bíblica Dominical mas o nosso amplificador de baixo estava a ser usado. Foi uma das saídas de concerto mais inusuais que experimentei (e experimentei umas quantas): enquanto o pugilato acontecia algures na fronteira entre o palco e a assistência (que num concerto de hardcore é já relativamente flexível), nós sacámos o amp de baixo e pirámo-nos dali para fora sem beijinhos ou despedidas.
Pronto, era isto. Uma pequena memória musical. Se Deus quiser, em 2017 editarei o livro "Dor de Trono - Uma Memória Musical" que tratará de 25 anos de punk rock e que, eventualmente, ampliará esta e outras recordações queridas.


quarta-feira, abril 01, 2015

Agenda


















A vossa agenda precisa disto. Haverá um artista a fazer a 1ª parte, que será confirmado em breve.
Ouvir
A principal preocupação de Deus com os judeus não era fazer com que eles deixassem de ser escravos. A principal preocupação de Deus com os judeus era fazer com que eles passassem a ser sacerdotes.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

terça-feira, março 31, 2015

Calvino põe mais energia no nosso esqueleto que um six-pack de Red Bull
Ainda na semana passada estive numa palestra sobre Calvino e a Predestinação na Igreja Evangélica Lisbonense. É caricato que até nos lugares que supostamente mais devem ao contributo de Calvino, ele continue a ser temido. As pessoas têm medo de Calvino. Porquê? Sinceramente, eu acho que o medo de Calvino é mais pequeno que outra coisa que, essa sim, explica o susto: a preguiça. Quando não nos damos ao trabalho de trabalhar, todo o trabalho parece assustador. Quando não lemos, todos os escritores podem parecer monstros. O medo anda quase sempre de mão dada com a preguiça.
Este paragrafozinho manhoso para vos fazer um copy paste. Como sabem, mantenho um blogue só para a leitura das Institutas de João Calvino (aqui: Lendo as Institutas). É um blogue daqueles que dá trabalhinho - tem de ser ler e tem de se escrever sobre o que se leu. Na Conferência Fiel que assisti na semana passada no Seminário da Torre da Aguilha bem se falou sobre isto. Mas quem falou foi um pastor brasileiro e, por isso, os pastores portugueses ouviram e provavelmente pensaram: "tá bem, abelha, que isto aqui é Portugal e cá os pastores não têm igrejas que valorizem a leitura séria da Palavra e o estudo da teologia". É demasiado radical a minha opinião? Certamente. Mas acredito nela a sério. Enquanto isto não for mudado pelos portugueses podem mandar vir cá o Billy Graham que as coisas ficarão iguaizinhas.
Ora, segue um texto sobre a parte das Institutas que li hoje. Pessoal: Calvino é massa! Não é preciso ser-se calvinista para perceber isso. Calvino põe mais energia no nosso esqueleto que um six-pack de Red Bull porque se apercebia que tudo se resume a louvar o Criador. Sim, louvar o Criador. Calvino não é o monstro que fazem dele. Calvino é dos maiores contribuintes para eu estar cada vez mais carismático. Dêem-se ao trabalho de ler. Segue o texto!

É longo este oitavo capítulo do segundo livro das Institutas. Trata da lei moral e dos Dez Mandamentos. Calvino inicia-o explicando que o louvor que deve ser suscitado a partir dos mandamentos continua em força para nós, cristãos. Devemos sentir o mesmo que os judeus sentiram quando receberam o Decálogo: uma aprendizagem acerca da piedade ao mesmo tempo que uma aprendizagem acerca da incapacidade de cumprir este Decálogo, produzindo um consequente temor por Deus e uma necessidade por um mediador. O verdadeiro auto-conhecimento é que se gera a partir daqui. Uma pessoa que não percebe a necessidade da personalidade de Cristo é uma pessoa que não percebe nada acerca da sua própria personalidade.
Por um lado, o que os Dez Mandamentos dizem já está inscrito na consciência de qualquer ser humano, numa forma de lei natural. Por outro, se o que os Dez Mandamentos dizem não for agitado dentro de nós pelo próprio Espírito Santo, a nossa consciência continuará adormecida. Isto é interessante. Porque explica que, se a nossa consciência já tem como lidar com o conteúdo do Decálogo, ao mesmo tempo só o pode fazer devidamente se for chocalhada pelo poder do próprio Criador. O Decálogo ensina claramente aquilo que a lei natural apresenta obscuramente.
A Lei (neste sentido, é equivalente ao Decálogo) serve para nos fazer entender que a nossa resposta a Deus tem de ser na prática da justiça, pureza e santidade. Porque essas são características da personalidade de Deus, que aprendemos através da Lei. Logo, a consequência desejável da convivência da Lei é bastante negativa mas necessária: "uma desconfiança da nossa capacidade, e uma ansiedade e trepidação de mente." Esse desespero é o que nos fará entender que, se Deus não nos ajudar, não teremos qualquer hipótese. Uma pessoa que confia em Deus precisa antes de desesperar pela sua ajuda. Sem desespero inicial, não há um cristianismo autêntico.
Mas ter uma reverência pela justiça de Deus só não chega. É preciso amar a santidade de Deus ao mesmo tempo que se odeia o pecado - a obediência é um produto desta simultaneidade (nós hoje temos muita dificuldade em obedecer porque o evangelho não é pregado na sua integridade, mostrando a necessidade de odiarmos o pecado - hoje não obedecemos porque não odiamos o pecado). Nesta questão da obediencia Calvino precisava de a explicar longe das invenções romanistas, em que muitas leis eram criadas sem terem qualquer fundamento na Palavra de Deus. O tipo de obediência a leis de homens não agrada a Deus - antes pelo contrário, é um tipo de obediência vã e que coloca o homem no centro. A verdadeira adoração a Deus é uma obediência ao que Deus pede. É a partir daqui que entendemos que lidarmos com a Lei da maneira certa é certamente lidarmos com o seu autor - perceber o que Deus manda é perceber quem Deus é.
É esta compreensão do carácter de Deus que nos faz entender a Lei no seu todo e não apenas na sua parte. O legalista é uma pessoa que entende a Lei apenas na sua parte porque ignora que a obediência à Lei respeita a personalidade de quem a criou. O que é que isto quer dizer? Que quando eu me lembro que o autor da Lei é perfeito e integra totalmente a realidade espiritual na realidade física, é absurdo eu cumprir a Lei na forma sem permitir que ela se cumpra no meu coração. Na verdade, o legalista é alguém que parece que cumpre a Lei mas, de facto, não a cumpre. Por isso Jesus passou a vida a malhar em legalistas. O legalista julga que cumpre a Lei pelo facto de seguir os seus aspectos formais. Mas o seu coração fica incólume a ela, revelando na prática que o legalista, ainda que inconscientemente, torna o autor da Lei tão imperfeito como o modo como ele a cumpre. Uma pessoa que cumpre a Lei na sua forma mas não no seu conteúdo é alguém que faz de Deus a mesma coisa. Um legalista não é uma criatura da Lei mas da carne. Por isso o Senhor Jesus não foi um legalista mas alguém que cumpriu ele mesmo a Lei. Porque o Senhor Jesus sabia que cumprir a Lei era respeitar o carácter de quem a criou - Deus. Deus, cuja forma não difere do conteúdo, dá a Lei para que ela seja cumprida em obras e no coração - segundo a sua própria natureza. "In saying that this is the meaning of the Law, we are not introducing a new interpretation of our own; we are following Christ, the best interpreter of the Law."
Um dos problemas do legalismo é que ele vive da aparência do cumprimento da Lei. O legalismo parte do princípio que, desde que nenhuma regra seja quebrada, a Lei é cumprida. Mas essa não é a lógica da Lei. Quando nós olhamos para os Mandamentos rapidamente nos apercebemos que cada um deles encerra em si um universo. Como? Quando, por exemplo, lemos no Sexto Mandamento que não devemos matar, não é só de uma proibição que se trata. Não matar é certamente uma proibição mas comunica também muitas afirmativas. Calvino explica que é o Sexto Mandamento que nos deve fazer ajudar a vida da pessoa à nossa volta com todos os meios que tenhamos ao nosso alcance. Um legalista está-se nas tintas para isto. Um legalista julga que nunca matou ninguém por nunca ter interrompido o batimento cardíaco de nenhuma criatura. Mas um não-legalista sabe que não matar ninguém é muito mais do que isso: é servir a vida de todos os outros à nossa volta. A Lei é muito mais que uma aparência de cumprimento.
Por que razão é que os Mandamentos surgem então tão abreviados? Para que a nossa consciência possa ser acordada com a pior manifestação dos nossos pecados. Nesse sentido, a Bíblia diz “Não Matarás” para que nos impressionemos com o pior que pode acontecer com a nossa atitude de indiferença à vida dos outros. Isto na prática significa que o pior que podemos fazer com a nossa indiferença à vida dos outros é matá-los, de facto. Mas significa também que matamos o nosso próximo de outras maneiras que não chegam ao homicídio. A Lei de Deus é completa porque, ao resumir-se em Dez Mandamentos, nos revela breve e eficazmente um oceano de pecado em que podemos cair. "A ira e o ódio não parecem tão maus quando são designados pelos seus nomes; mas quando são proibidos sob a designação de assassínio, compreendemos melhor como são abomináveis à vista de Deus."
Deus dividiu a Lei em duas tábuas para na primeira compreendermos como devemos louvar e, na segunda, como esse louvor transforma o modo como nos relacionamos com os homens. E isto é importante porque coloca no louvor a Deus a base de toda a ética. Não é por eu ser bom que louvo a Deus. É o oposto: é porque louvo a Deus que posso ser bom. É esta lógica que permite o resumo que em Mateus 22:37 Jesus faz da Lei, enquanto amar a Deus e ao nosso próximo como a nós mesmos.


segunda-feira, março 30, 2015

Modern Culture de Roger Scruton
Li “Modern Culture” há uns anos. Gostei muito. Mas o problema de ler um livro há uns anos é que, se não voltamos a ele, provavelmente pouco dele nos fica. Acredito que há livros que são como família: o calendário tem obrigatoriamente de lhes dar lugar. “Modern Culture” merece ser uma espécie de Natal ou Páscoa e tem de acontecer volta e meia. Até porque, da meia dúzia de volumes que li do Roger Scruton, este me parece aquele que melhor sintetiza o seu génio.
O meu apreço por “Modern Culture” vai ao ponto de o achar matéria de catequese. Durante o passado mês de Fevereiro assim fizemos na Lapa, chamando o Henrique Raposo (um leitor atento de Scruton) para nos falar da nossa relação com a dita cultura moderna. Fiquei com vontade de voltar a repetir o programa. Quem quiser encomendar um estudo de “Modern Culture”, conte comigo.
Resumo aqui “Modern Culture” em três pontos: 1) a valorização da fé enquanto fundamento da cultura; 2) a desvalorização da fé contemporânea que nos quer fazer crer que é possível construir uma cultura do lado de fora; e 3) a sugestão de um fio condutor para a sobrevivência da cultura (neste caso, a high culture).
Roger Scruton é um cristão anglicano mas não escreve “Modern Culture” com um propósito de evangelização. Quando pega na fé, Scruton quer outra coisa - explicar que não é possível falarmos de cultura sem compreendermos que é a religião que a constrói. Isto não quer dizer que Scruton tem o seu objectivo principal em apelar a que ganhemos religião para sermos verdadeiramente cultos. Mas, seguramente, quer que entendamos que não é possível lidarmos com a cultura sem lhe descobrirmos uma relação necessária com a religião. Se não vamos ser santos no futuro, ao menos que compreendamos a santidade que se esperava da cultura no passado.
Este princípio é bem necessário para todo o tipo de ignorância. Quer a ignorância religiosa que demoniza a cultura como terreno do diabo (e os meus irmãos evangélicos caem bastante nesta tentação), quer a ignorância culta que demoniza a religião como terreno da superstição (é impressionante como as luminárias da cultura portuguesa ainda entretêm esta cantilena).
As mesmas pessoas que descartaram a fé como terreno insuficiente para a cultura, construíram um novo tipo de fé que acredita que a única cultura boa é aquela que se constrói imparcialmente, do lado de fora. Nesta nova fé Scruton não crê. Esta nova fé muito deve ao Iluminismo e a chamada pós-modernidade (Scruton prefere chamar-lhe de pre-emptive kitsch) é sua herdeira fiel. Se a voz autêntica da pós-modernidade não descarta completamente a cultura da nossa civilização, por outro lado só a aceita com muita perturbação. Vejamos o exemplo do tal kitsch preventivo (a arte pós-moderna). Hoje em dia os artistas manifestam a sua soberania estética através do escárnio a tudo o que supostamente pode ser sagrado. Tornámo-nos uma cultura de aspas. Citamos e citamos muitos outros para não termos de confessar nada como nosso. A ironia desta arte fica à mostra: ela é mais um desejo de ser arte que uma condição artística real. O kitsch preventivo julga-se melhor que a falsa emoção do kitsch porque quando vende o seu produto, vende também uma suposta sátira de si mesmo. A ironia banaliza-se. Quentin Tarantino é rei (e o tema Tarantino é-me caro porque provoca-me alguma ambiguidade).
Scruton atira-se bem à cultura contemporânea porque não tem paciência pela infantilidade que ela exige. A transgressão, valor instituído pela cultura pop, acaba feita num novo tipo de conformismo. Toda a transgressão se torna previsível. A inclusividade narcisista da cultura juvenil fica presa no presente. Vejamos alguns pequenos símbolos quotidianos: o graffiti. Scruton repõe o grafitti na sua génese paleolítica. Ele é um símbolo de rejeição da palavra escrita. Afinal de contas, a palavra escrita é o símbolo mais vívido que possuímos de uma competência adulta; é o primeiro obstáculo colocado à frente da criança que cresce.
Permitam-me uma nota pessoal. Eu cheguei a pichar uma ou duas paredes. Também passei a minha fase graffiti (o hardcore punk dos anos 90 na linha de Sintra era assim e o meu tag era Cawa). Talvez por isso, ofende-me que hoje as Câmaras Municipais sejam agentes de promoção do graffiti, numa alegada amostra de consciência cultural. Não sei quem sai pior da fotografia: se o Presidente da Câmara a dar uma de Príncipe de Bel-Hair, se o pintor urbano feito agente governamental. Céus, é bizarro.
Scruton explica depois a origem do intelectual, o indivíduo que nos assegura que só podemos manter uma cultura a partir do lado de fora (uma nova metafísica, portanto). O intelectual é uma herança da Igreja Ortodoxa onde a pessoa se tornava eminente por abandonar a vida quotidiana. Ora, quando a fé desaparece, permanece o estatuto sagrado sem o conteúdo dela - a intelligentsia. O intelectual francês de hoje não descende dos revolucionários do seu país de 1789, mas do Partido Comunista Francês, herdeiro da Rússia. O intelectual é o novo monge dispensando os habituais constrangimentos sociais e ascendendo à estratosfera moral. O intelectual de esquerda (gloriosamente satirizado por João César Monteiro na cena da prisão das “Recordações da Casa Amarela”) malha impiedosamente no clero porque ele é o novo clero. Scruton não poupará sobretudo homens como Foucault e Derrida (sobre o último: “Deconstruction is neither a method nor an argument. It should be understood on the model of magic incantation”).
Outra nota pessoal. Protestants don’t do intellectuals. Os protestantes não são uma cultura de intelectuais porque a nossa santidade é medida em trabalho e não em abandono dele. Nós conseguimos perceber melhor a semelhança que existe entre os místicos católicos e os intelectuais niilistas porque ambos sugerem uma vida solucionada pelas virtudes da ascese. We don’t do ascese.
Por último, Scruton apresenta o fio condutor para a cultura sobreviver. Esse fio pede uma high culture. É ela que pode até sobreviver à religião que a gerou. Ao que ela não pode sobreviver é ao triunfo da fantasia, do cinismo e do sentimentalismo (as piores doenças contemporâneas). Porque a fantasia, o cinismo e o sentimentalismo são a moeda de um mercado que em nada crê mas onde todos os substitutos dessa ausência podem ser comprados. “Culture is rooted in religion, and the true effect of a high culture is to perpetuate the common culture from which it grew - to perpetuate not as religion, but as art, with the ethical life transfixed within the aesthetic gaze” (pág. 149). Se a cultura quer sobreviver, tem de manter a sua postura crítica. “Only if we teach the young to criticize do we really offer them culture” (pág. 151). Lá está, há trabalho para fazer. Não vamos lá de outra maneira.

sexta-feira, março 27, 2015

Hoje no Público


















Directo ao assunto, mas directo ao assunto à antiga. Tiago Lacrau, que é Tiago Guillul, apelido enterrado após a edição do magnífico V, e que é, como o actual apelido indica, um dos Lacraus, homens do rock’n’roll que encararam o lobo em 2011, escreve no interior do álbum agora lançado um mapa de referências. Coisa ecléctica: vai de Tom Waits aos Guns N’Roses, dos Censurados a Huey Lewis & The News, dos Rancid aos GNR, de Tom Zé aos Queen. Quem lhe acompanha o trabalho não se surpreenderá. Tiago é um melómano de boa cepa, daqueles avessos a compartimentações estéticas estanques.
Quem o ouve aqui, neste Sou Imortal Até que Deus Me Diga Regressa, frase decididamente Guilluliana (apesar de pertencer a um sermão de Charles Spurgeon), encontra o homem da lírica inventiva, dado a proclamações inesperadas de efeito imediato (“Sugiro a minha sepultura para Capital da Cultura”), a provocações de que não se exclui (junta-se, enquanto “suburbano de Queluz”, aos “fadistas”, “à burguesia de Leiria” ou “à miudagem do Minho” que perdeu a frustração por ter ganho um Prémio Blitz) e a trocadilhos com cultura pop na ponta da língua (Qual é o meu tom, Zé?), a atacar o cânone rock sem sombra de subtileza. Rock directo, como escrevemos acima. Com citação ao metrómono Beastie Boys logo a início (cowbell e guitarra distorcida a marcar o compasso), com produção muito 90s (bateria metálica e som comprimido) e canções que seguem com rigor o mandamento inicial: “Nesta guitarra não há palheta, há gatilho, há um refrão que só sabe rimar”.
Em meia-hora, Lacrau acelera na estrada punk com refrão na ponta da língua (Respirar não dói), lança-se em rock para um rock de estádio que já não existe (e como não já não existe, “Os meus braços estão aqui” ganham travo lo-fi), recebe Nick Nicotine para a balada countryficada, gospel no horizonte (e no órgão em fundo), que é Música no coração e elabora um “back in da day” típico do hip hop em modo agitação rock’n’roll (e tem Ricardo, dos For the Glory, a gritar “Bíblia e ponta e mola / foi o que aprendi na escola / é preciso uma lâmina / para abrir o coração).
Treze canções em trinta minutos. Continua a ser um prazer seguir-lhe as letras e a pregação pelo futuro – ei-lo, por exemplo, a dirigir-se aos nostálgicos militantes: “Mesmo os cantores vivos que ouves / já morreram mas não sabem / quando lhes ouço o refrão / parece uma manobra de reanimação”. E continua a ser igualmente um prazer constatar que Lacrau é um larápio dos bons, utilizando a citação e modelos retirados à sua vasta discoteca caseira para delas extrair matéria sua.
O problema de Sou Imortal Até que Deus me Diga Regressa, onde ouvimos também, além dos convidados já citados, Tiago Bettencourt e Manuel Fúria, é ser demasiado transparente nas intenções e na concretização. É um comprimido de efeito imediato e deixa-nos com vontade de correr para próximo de um palco ocupado por Lacrau e companhia. Mas, como as paixões adolescentes (e, de certa forma, Lacrau regressa aqui aos amores musicais da adolescência), é um álbum de desgaste rápido. É provável, de qualquer modo, que fosse essa a intenção.

quarta-feira, março 25, 2015

Ouvir
Só pela graça de Deus podemos ter pessoas novas a cada Domingo, porque Deus, na sua nova aliança, prometeu alargar a qualquer nação, tribo, povo e língua uma relação consigo mesmo.
O sermão de Domingo passado, pregado pelo Filipe Sousa, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, março 23, 2015

Sobre o livro "A Glória do Evangelho", do Pastor Manuel Alexandre Júnior

[Este pequeno texto serviu de base para a apresentação que fiz no Sábado passado, no lançamento do livro.]

É um privilégio nesta tarde participar do lançamento do livro do Pastor Alexandre. Para quem cresce numa igreja baptista em Portugal é impossível não ter gratidão pelo serviço que o Pr. Alexandre tem prestado à nossa denominação. Conheci esse serviço de mais perto quando entre 1997 e 1999 trabalhei no Departamento da Juventude da Convençã Baptista Portuguesa, numa altura em que o Pr Alexandre era o Presidente da Convenção, e durante 1998 e 2001, ao estudar no Seminário Teológico de Baptista, quando o Pastor Alexandre era o seu director e lá me deu aulas de Introdução ao Novo Testamento e Hermenêutica (foi um erro grave não ter feito o grego com ele na altura!). Desde 2012 que somos colegas no ministério pastoral e tenho apreciado o seu companheirismo, sobretudo tendo em conta que o meu percurso exige um esforço fraterno por parte dos pastores mais antigos.
Escolhi três aspectos acerca de "A Glória do Evangelho - Pétalas de uma Rosa em Flor". Poderia escolher muitos mais. Mas creio que estes podem ser a abertura do nosso apetite para lermos o volume que hoje é lançado.
Em primeiro lugar, senti-me atraído pelas histórias pessoais do Pastor Alexandre. E elas aparecem nestas páginas aqui e ali. Existem notas breves acerca da sua infância, acerca do seu surpreendente percurso académico, acerca das suas frustrações pastorais. Em todas elas senti-me com vontade de ler mais. Seria ridículo sugerir ao Pastor Alexandre que considerasse escrever uma auto-biografia? Creio sinceramente que não.
Encontro aqui uma das grandes carências das nossas igrejas - os nossos mais experientes e sábios partem deixando-nos escassos registos escritos de como viveram a fé. E os poucos que o fazem geralmente têm a sua memória pouco valorizada pelas comunidades que serviram ou, muitas vezes, pelas suas próprias famílias (recordo uma implacável limpeza que uma igreja baptista onde estive fez aos apontamentos escritos de um dos seus velhos pastores - foi tudo parar ao caixote do lixo sem qualquer calafrio). Precisamos de mais palavras escritas pelos nossos pastores para vivermos melhor a Palavra. Precisamos de mais histórias dos nossos pastores para vivermos melhores histórias. "A Glória do Evangelho" dá-nos devoção ao mesmo tempo que pontualmente nos oferece biografia.
Um segundo aspecto que quero destacar em "A Glória do Evangelho" tem a ver com a vocação pastoral do seu autor mas não só. Tem a ver com a vocação pastoral que o nosso país precisa. A determinada altura o Pr. Alexandre escreve: "Dou graças a Deus porque, a par de haver sido professor de universidades e escolas de teologia, de haver dirigido por décadas o nosso seminário e outras instituições, eu sou acima de tudo Pastor e ministro do Evangelho (página 39)." O nosso país precisa desesperadamente de novos pastores que valorizem o ministério pastoral e, como o Pr. Alexandre, possam dizer o mesmo. Mas, se olharmos à nossa volta, como é que este panorama pode ser concretizável? As nossas comunidades procuram realmente valorizar a vocação pastoral como a Bíblia a valoriza, chamando-a de "excelente obra"? E como é que pode ser concretizável com características semelhantes às do Pr. Alexandre? Onde estão as nossas comunidades preocupadas com um compromisso com a pregação da Palavra que a honre simultaneamente nas instituições evangélicas de ensino ao mesmo tempo que nas instituições de ensino da nossa cultura portuguesa mais abrangente? Basta colocar uma questão bem prática: quantas igrejas têm como objectivo promover a publicação (ou o apoio à publicação) de livros escritos por cristãos e que possam ser lidos por muitos mais?
Como terceiro e último aspecto, gostava de sublinhar em "A Glória do Evangelho" o seu amor pela igreja. Pela igreja universal vista nas suas manifestações locais. É impossível estimar a palavra escrita e é impossível estimar a vocação pastoral sem estimar também as igrejas locais. Esse amor pela igreja brilha ao longo de todas as páginas deste livro, mostrando que não dá para querermos ser cristãos por conta própria, longe de uma comunidade à qual pertencemos. Quando lia estas páginas pensei sobre o risco de amar a igreja quando a igreja nos dá o que queremos, ao invés de amarmos a igreja também pelo que lhe podemos dar e pelo que ela quer de nós.
Estas são apenas três razões para começarmos a ler "A Glória do Evangelho". Nestas meditações que o Pastor Alexandre generosamente nos oferece haverá muitas, muitas mais. Leiamo-las.

sexta-feira, março 20, 2015

Agenda dupla para amanhã











quinta-feira, março 19, 2015

Agenda
Porque é dia do Pai, é à Pai: sai Tudo É Vaidade, entra Pontos Negros. Quantas vezes é preciso dizer que não andamos a brincar?

quarta-feira, março 18, 2015

Ouvir
A murmuração é a prova que queremos ficar na mesma. Alguém que murmura é alguém que, com mais ou menos consciência, rejeita a ideia de Deus nos querer transformar. Alguém que murmura é alguém que, sob a liberdade de Moisés, comporta-se sob escravidão do Faraó.
O sermão de Domingo passado, chamado "Não há murmuração sem mentira, fidelidade sem teste e fé sem descanso", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, março 13, 2015

As crianças são muito infantis
Há uns tempos tinha lido o Nuno Markl a falar de um livro chamado "As crianças são muito infantis". Apercebi-me que era um lugar no facebook que conta as viagens numa carrinha pão-de-forma de uma família com quatro filhos. Houve uma identificação natural. Uns dias depois recebo no correio um exemplar do livro. Fiquei todo contente, claro. Mas só à segunda vez que folheava o livro (que entretanto li num instante) é que me apercebi da mais original dedicatória que já me escreveram. Não é bestial?
Amanhã o livro é lançado na Fnac do Colombo. Nós não podemos estar mas desejamos todo o sucesso ao Fernando, à mulher e aos miúdos. Go, famílias numerosas e felizes, go!


quarta-feira, março 11, 2015

Orações juntas e separadas
A propósito da mensagem do Papa para a Quaresma, a Rádio Renascença convidou alguns representantes religiosos a darem a sua opinião sobre a oração (porque este foi um dos apelos de Francisco). Esse convite amável chegou até mim através da jornalista Ana Marta Domingues, com quem tive uma conversa breve e muito agradável (passará uma versão editada e resumida na emissão radiofónica). Foi uma boa oportunidade para partilhar a minha fé cristã num contexto mais alargado que o evangélico, apesar de não ser católico romano e de não observar a Quaresma (a rigor, a Quaresma dos evangélicos é todas as semanas e chama-se Domingo, como disse há uns tempos o Carl Trueman - mas não puxem por mim nesta moda que agora chegou às comunidades evangélicas mais dadas às tendências do momento).
O Papa diz coisas muito acertadas na sua mensagem para a Quaresma. Deixem-me dar conta de umas quantas. A primeira: Francisco critica uma indiferença generalizada, resultado de estarmos desligados de Deus Pai. E alerta que o conforto que procuramos e sentimos é talvez a melhor prova que estamos distantes do nosso Criador. O que é preciso para mudar isto? "Ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar." Nem mais. Só lá vamos pela Palavra do próprio Deus.
Uma segunda coisa muito acertada que Francisco diz propõe uma alternativa a esta indiferença. A alternativa é perceber como Deus é. Porque Deus é diferente de nós. Ele não é indiferente à realidade à sua volta. A prova que Deus não é indiferente é que ele deu o seu Filho para a salvação. Amén! Só podemos deixar de ser indiferentes se buscarmos para a nossa personalidade a personalidade de Deus.
Uma terceira coisa muito acertada que Francisco diz é a sugestão de um modo de combate a essa indiferença. A indiferença ao mundo combate-se sendo atento ao sofrimento dos outros e servindo esses outros. Só somos capazes desse serviço porque Jesus nos serviu primeiro. Sem a ligação a Jesus, não há boa vontade que nos permita um combate eficaz à nossa indiferença. É a partir daqui que o Papa elenca atitudes que dêem corpo a esse combate à indiferença. Surge a oração. Sem oração não podemos ter a pretensão de estarmos atentos ao mundo.
Isto é muito importante. Porque explica que a oração não é uma retirada do mundo, uma alternativa quando tudo o resto falhou. Muitas vezes é assim que a oração é pintada: é aquilo que se faz quando parece que mais nada há a fazer. É o contrário. Os Puritanos enfatizavam isto quando explicavam que é sob a oração que qualquer coisa pode ser feita. Orar é o verdadeiro e bom pragmatismo. Orar é onde o verdadeiro trabalho pode acontecer.
Por fim, há outra frase do Papa que quero citar: devemos "resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos." Concordo totalmente. Qualquer ideia que sugira que podemos salvar-nos a nós mesmos e ao mundo tem uma origem: o diabo. É a partir daqui que podemos ser cristãos dependentes a sério do Espírito Santo e não da mãozinha que julgamos que lhe podemos prestar.
A Ana Marta Domingues ainda me perguntou qual a minha opinião acerca de orar com outras confissões religiosas. Expliquei que a partir do que nos diz Jesus em textos como Mateus 6:9-13 e na última ceia (Evangelho de João, capítulos 13 a 17), a oração é uma coisa que não funciona desligada da nossa ligação a Cristo que, por sua vez, está ligado ao Pai. Assim muito sucintamente: a oração é possível porque o amor de Deus Pai por Deus Filho nos alcança através de Deus Espírito Santo e então nós, que somos homens e mulheres alcançados nesta relação, podemos viver nesse amor. Só podemos orar porque o amor de Deus Pai por Deus Filho chega até nós através do Espírito Santo. Para os cristãos e oração é algo necessariamente trinitário. O que nos levanta uma impossibilidade de ter uma experiência com ela fora desta identidade trinitária de Deus.
Se eu tiver a pretensão de orar com um budista, ou com um muçulmano, ou mesmo com um judeu, não estou a partilhar com eles da mesma certeza acerca do Deus a quem oro. Porque um budista, um muçulmano, ou um judeu, coerentemente, e de acordo com as suas convicções, não concebe o Criador como Trindade. Isso significa que um cristão que se mete numa oração destas, deixa de ter na identidade de Deus o fundamento da sua devoção e passa a colocá-lo na sua intenção (por boa que seja). Segundo a Palavra, não há comunhão possível com Deus fora do fluxo trinitário. Eu não oro porque posso, eu oro porque Deus Pai me transmite o poder para (através do Filho e do Espírito Santo). Qualquer iniciativa de oração conjunta baseada nas melhores intenções dos homens mas desligada de Cristo está condenada ao fracasso - já é um deus estranho que se invoca.
Quando era miúdo havia em Queluz um centro comercial chamado D. Pedro III. No piso mais baixo havia uma fonte onde as pessoas atiravam moedas. Explicaram-me que atirar moedas para fontes (ou poços) era uma maneira de assinalar desejos que gostaríamos que se concretizassem. A oração não tem nada a ver com isto. A oração não é desejar com muito força e ter depois a esperança que a força com que desejámos vai ter poder de transformar as circunstâncias. Nesse sentido, creio que as orações entre confissões religiosas diferentes são parecidas com as moedas atiradas para aquela fonte do centro comercial D. Pedro III de Queluz. Como o Papa explicou bem, oramos "a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação." Essa obra tem um nome muito claro: Cristo.

















Esta imagem é a capa que a Christianity Today fez há uns tempos sob o sugestivo nome de "Pop Francis".

terça-feira, março 10, 2015

Ouvir
Na abertura do Mar Vermelho não comemoramos o facto de uns saírem sãos, salvos e secos e os maus saírem molhados e mortos. O que comemoramos é o facto deste episódio anunciar que viria um bom que daria a sua vida pelos maus e que isso torna tudo novo.
O sermão de Domingo passado, chamado "Ver ressurreição onde só parece haver destruição", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, março 09, 2015

As estrelas não são muitas
Mas é preciso ter em conta que é um disco de punk criticado no Jornal de Negócios.


quinta-feira, março 05, 2015

Hoje a minha mulher faz 38 anos














Sou um homem muito abençoado!

terça-feira, março 03, 2015

Ouvir
Se nos assuntos mais vitais eu não me comporto com qualquer sombra de um padrão de sacrifício, mas, antes pelo contrário, espero que o mal seja resolvido como que por artes mágicas, então eu sei que me estou a comportar como crente nos deuses egípcios e não como crente no Deus da Bíblia.
O sermão de Domingo passado, chamado "Como a morte do primogénito se torna a maior festa", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, março 02, 2015

Na Blitz
Na Blitz malhar no Luís Montez? Check!
Na Blitz malhar na própria Blitz? Check!
Leiam em baixo a entrevista feita pelo Rui Miguel Abreu e apreciem o retrato tirado pelo talento da Rita Carmo.



































Descreve "Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa" como um disco de rock directo ao assunto. Porém, parece carregado de alegorias - ou não?
- O pessoal da minha loja de discos preferida, a Flur, descrevia o disco dizendo que o grande valor dele é a comunicação. Nesse sentido, o facto das canções serem directas não implica que não tenham mais coisas para dizer do que parece à primeira vista.

Como é que se conjuga paternidade, fé e energia tipicamente juvenil?
- Hoje já não sinto a energia como tipicamente juvenil porque sai-me do pêlo. Dei tudo para me aguentar no concerto de lançamento. Fazer rock aos trinta e muitos é definitivamente diferente de o fazer na adolescência. Por outro lado, é o facto de ser pai e pastor que me permite ser mais disciplinado na hora de rocar. Se é para rocar, é para rocar. Não é para fazer as coisas pela metade. Apesar de ter muito menos tempo para fazer discos, faço-os de uma maneira muito mais intencional.

Andar permanentemente a mudar de nome é uma forma de passar entre os pingos da chuva da popularidade?
- Tinha de ser uma pessoa mais madura para querer passar entre os pingos da chuva da popularidade. É verdade que quis deixar de usar o nome Guillul também porque me sentia a dominar pouco o processo. Mas a mudança de nomes consoante os discos já era uma coisa anterior ao nome Guillul se tornar mais conhecido. A minha relação com a popularidade é complicada. Antes de haver algum reconhecimento público, armava-me em superior a esse reconhecimento. Depois de haver esse reconhecimento, é difícil não querer mantê-lo. Mas Deus vai-me ajudando a crescer.

A música é muitas vezes glorificada como veículo de energias individuais, de figuras singulares, mas no seu caso parece ser um nítido assunto de família: fala das suas filhas no press release, há a família musical que o rodeia, a família mais vasta da fé...
- Quando Deus me chamar, certamente as pessoas poderão falar nos meus discos. Mas a verdadeira herança que deixo é a minha família. Seria absurdo dar importância aos meus discos sem assinalar uma coisa que tem ainda mais importância. Percebo que haja quem prefira separar uma coisa da outra. Mas para mim, a minha família é a minha felicidade maior. Logo, não me importo de a esbanjar um bocadinho junto daqueles que têm paciência para me ouvir os discos. Por outro lado, se ainda continuo a fazer música, devo-o à FlorCaveira e às pessoas da minha igreja.

A capa do álbum homenageia o EP de estreia dos Minor Threat, de Ian MacKaye. No entanto, demarca-se da cultura straight edge...
- Nunca fui straight edge porque já era cristão quando conheci o straight edge. Mas lembro-me dos meus amigos straights me inspirarem por fazerem de práticas vistas como quadradas uma cena charmosa. Havia pessoal straight da Linha de Sintra que na década de 90 ia para o Bairro Alto com t-shirts a dizer "Drinking Sucks". How cool is that? Por outro lado, tenho pena que o Ian Mackaye e muitos straights tenham perdido a embalagem de outros tempos. Tornaram-se demasiado politicamente correctos. Hoje a cena punk não pode ofender ninguém. É uma seca.

A Flor Caveira foi apontada como uma espécie de salvação da música pop nacional. Cumpriu esse desígnio?
- Grande questão! Acho que a determinada altura o verdadeiro desígnio da FlorCaveira passou a ser ter de ser salva da tarefa de salvar a música pop nacional. Ainda estamos a tentar sobreviver a isso. Mas também seria hipócrita se não dissesse que acho que a FlorCaveira contribuiu decisivamente para que hoje existam coisas boas até para as pessoas que nunca ouviram falar de nós, ou mesmo para as pessoas que não nos suportam. Hoje quanto toco, sinto que toco para o meu pessoal. Já não me sinto a tocar para uma causa de salvação da música pop nacional. Isso torna-me menos delirante e mais dedicado a quem me ouve.

Quais são as canções de ódio do seu novo disco?
- Às vezes não dá para distinguir completamente uma canção de amor de uma canção de ódio. E o meu ódio, entenda-se, é um ódio amoroso (como cristão, tenho de amar os meus inimigos). Mas a 1ª do disco é contra quem toca rock com cinto de segurança; a 2ª e a 3ª são contra o facto de Portugal fazer poetas das pessoas que não compreende; a 7ª é contra o que o Luis Montez representa na música nacional; e a 9ª é contra quando o Blitz joga pelo seguro.

Finalmente, onde arrumaria o seu Prémio Blitz?
- Num lugar bem visível da sala da minha casa! Quando é que o Blitz volta a fazer aquelas galas sofisticadas dos anos 90 e a entregar prémios a sério?

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Quaresma?
Eu dou-vos a Quaresma.


quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Noite do crime eléctrico #2
Nunca somos completamente objectivos nas coisas onde investimos. Se nos correm mal, são tragédias à escala global. Se nos correm bem, são triunfos civilizacionais. Ora, correndo o segundo risco, diria que a primeira noite do crime eléctrico foi mítica.
Primeiro, porque deu a estrear duas coisas que, com toda a honestidade, me parecem do melhor para acontecer na música feita aqui. A primeira é uma banda chamada Os Intendentes. Para aqueles que sabem que os Intendentes é a nova banda do Manuel Fúria e que não são fãs do Manuel, é fácil passar à frente. Mas ignorar os Intendentes é ignorar uma banda onde o Manuel faz melhor aquilo que tem para fazer: disparar mensagem. E disparar mensagem no seu sentido mais directo e perigoso. Nos Intendentes, o Manel canta menos e fala mais, os instrumentos divagam menos e servem mais; a música embala menos e ataca mais. Imaginem uma espécie de Suicide menos electrónicos e mais positivos perante a existência. Estes são os Intendentes.
A segunda coisa que estreou é a melhor banda de rock e de soul que temos, estou convencido. É fácil ir para o rock ou ir para o soul. Mas ir para o rock com soul ou ir para o soul com rock é outra coisa. O Suave é o Nicotine a cantar em português e um português que, na minha opinião, serve perfeitamente de escola para todos aqueles que queiram saber como cantar a nossa língua com o estilo anglo-saxónico que é o rock. É uma grande, grande banda.
Em segundo lugar, a noite foi mítica por causa do ambiente. A casa não estava cheia de pessoas mas as pessoas estavam cheias do que estava a acontecer na casa. Um tipo sentia que aquela noite significava o início de alguma coisa excitante. É curioso que tivesse tantos músicos juntos na assistência. E quando falo de músicos juntos, falo de todo o tipo de músicos juntos. Tínhamos a miudagem animada pelo rock dos Modernos e cena Cuca Monga (e os Modernos mostraram que há bandas de rock como deve ser), como artistas de carreira como o Tiago Bettencourt, como lendas vivas como o Kalu. Não foi um concertinho de cena, com a sua pequena congregação fiel. Foi mais do que isso.
Por último, não andamos a brincar. A próxima noite já está de pé e têm um mês para se aprontarem para ela. Bandas interessadas em tocar nas noites do crime eléctrico: esqueçam. Já temos a agenda cheia até Julho.


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Será que os missionários passaram de heróis da guerra a desaparecidos em combate?
Há semanas o Correio da Manhã punha assim num título de notícia: "Líder de Igreja preso por desviar fortuna". Um missionário baptista americano tinha roubado à sua junta missionária (a International Mission Board da Convenção Baptista do Sul, dos EUA) mais de 250 mil euros. A reacção de qualquer baptista português como eu é de vergonha. Crescemos a admirar os missionários americanos que povoaram as nossas infâncias. Agora eles vêm cá sem que demos conta deles e, ainda por cima, acabam no crime? Pior ainda: no crime documentado pelo Correio da Manhã? O que é que aconteceu?
O cristianismo evangélico chega a Portugal trazido por estrangeiros. A rigor, todo o cristianismo chega à Europa trazido por estrangeiros. Os europeus não são cristãos por tradição. Os europeus são cristãos por transporte do cristianismo do médio oriente para a Europa. Por exemplo, depois dos bárbaros e dos árabes tentarem escavacar o cristianismo da península iberica, o primeiro bispo a repôr a igreja de Lisboa em ordem no Século XII é um inglês, Gilberto de Hastings. Até a maioria religiosa de portugueses que são católicos romanos, só o pode ser por causa de estrangeiros.
O cristianismo evangélico chega a Portugal sobretudo no Século XIX, trazido por ingleses. Chegam Presbiterianos, Metodistas, Baptistas. Durante o Século XX a denominação baptista em particular cresce principalmente tendo em conta a intervenção missionária de americanos e brasileiros. Pregadores americanos e brasileiros e suas famílias foram lendas vivas para nós até mais ao menos à penúltima década do Século passado. Depois as coisas mudaram.
No caso dos Estados Unidos, missionários continuaram a ser enviados para cá, mas agora com uma maior autonomia, tornando-os mais soltos das igrejas portuguesas. Ou seja, em vez de acabarem a fazer aquilo que deveriam ser os pastores portugueses a fazer (como pastorear igrejas), os missionários americanos passaram a estar mais concentrados em tentar abrir igrejas novas e fazer evangelização que não estivesse a ser feita por portugueses. Na prática isto significou uma ignorância crescente de parte a parte. Há missionários baptistas americanos a viverem em Portugal há perto de uma década que não se relacionam com as igrejas baptistas existentes, do mesmo modo que os portugueses nem sequer os conhecem.
No caso do Brasil, os missionários continuaram a vir mas numa dinâmica ambígua. Às vezes, são a solução mais imediata, porque falam a língua e há muitos candidatos no Brasil desejando vir para Portugal (ou talvez seja mais correcto dizer para a Europa). Noutras vezes, são a solução mais evitada porque a imagem dos brasileiros mudou em Portugal e o estereótipo criado a partir dos evangélicos brasileiros incomoda hoje muitos evangélicos portugueses.
Nos últimos anos tenho-me sentido insatisfeito com este ambiente. Isto porque os portugueses definitivamente precisam de ajuda a pregar o evangelho, venha ela de onde vier. Também porque tenho conhecido famílias de americanos e brasileiros a quererem dar a sua vida por Portugal, sem que os cristãos evangélicos se mostrem comovidos com isso. Logo, quero estar envolvido em favorecer um encontro entre portugueses e missionários estrangeiros porque fazemos parte da mesma equipa. Temos de aprender a estar juntos mesmo quando chegamos à conclusão que trabalharemos separados. Uma coisa sei: o que temos actualmente desonra Cristo.
A Igreja da Lapa tem sido abençoada pela presença da Família Bustrum. Os Bustrums são uma família americana que está cá há sete anos e que em muito já é bem portuguesa. Eles vão dar o pontapé de saída para umas reuniões especiais que a igreja vai fazer em Março. Durante todos os Domingos de Março vamos convidar missionários para nos falarem da sua vida e de como a nossa pode melhorar ajudando a deles. Permitam-me a franqueza mas acho que é um grande programa. Vamos dar-lhes liberdade para partilharem connosco os seus delírios de grandeza e as suas frustrações. Vamos dar-lhes permissão para se queixarem dos portugueses na nossa presença. Mas, sobretudo, queremos dar-lhes espaço para nos abençoarem e serem abençoados por nós.
Será assim:

- Domingo 1 de Março, 16h: Família Bustrum
- Domingo 8 de Março, 16h: Peter e Ana Crawford (o Peter é irlandês e a Ana indiana)
- Domingo 15 de Março, 16h: Israel e Sarah Quintani (o Israel e a Sarah são brasileiros)
- Domingo 22 de Março, 16h: Dina Santana (a Dina é portuguesa mas passou um ano num projecto missionário na América Latina)
- Domingo 29 de Março, 16h: Ricardo e Priscila Magalhães (o Ricardo e a Priscila são brasileiros)

Venham todos os que estiverem interessados em ver o nome de Jesus ser salvação para portugueses e não só. Cada reunião levará uma hora e terá tempo de perguntas e respostas aos nossos convidados.


terça-feira, fevereiro 24, 2015

"Aleluia!" de Bruno Vieira Amaral - Parte 3 
Dedico o último texto sobre "Aleluia!" focando-me no exemplo do meu cunhado Nuno Soares, personagem central do livro do Bruno Vieira Amaral. Concentro-me em três pontos de divergência e três pontos de convergência. O meu cunhado é uma pessoa apaixonante. É difícil não o amar. O que não significa que seja fácil concordar com ele em tudo.
Primeiro ponto: a experiência do meu cunhado Nuno aparece valorizada pela descolagem pessoal do Seminário Teológico Baptista onde se formou. Também passei pelo Seminário e conheci as suas fraquezas. Mas há alturas em que as palavras do meu cunhado podem dar a ideia que se formou em teologia em Westminster. Dou exemplos. Fala de "intelectualismo", "arsenal teológico que fazia as vezes de alimento espiritual", e "treino árduo para tropa de elite". Entre 1998 e 2002 também estudei no Seminário e a minha leitura da instituição é diferente. Quantas vezes fui mandado pelos professores a consultar dois autores minimamente incontornáveis como Lutero ou Calvino? Tenho um número redondo para vós: zero. Se tivesse de fazer uma crítica ao Seminário não seria pela faceta em que ele aperece criticado em "Aleluia!". Concordo com o meu cunhado quando diz que era um ambiente que não escondia a pequena política paroquial baptista. Mas o Seminário Teológico Baptista dificilmente pode ser compreendido como uma instituição de ensino teológico puro e duro.
Segundo ponto: aparece a sugestão que há uma carreira pronta a quem quiser afinar com o "sistema baptista". "Teria à sua disposição púlpitos por todo o país onde poderia exibir as suas qualidades. Prosperaria. Seria respeitado, admirado." Really? Carreira para pastores baptistas em Portugal? Estão a brincar comigo? Querem que eu vos mande o meu IRS? E se vos disser que a minha igreja é, entre as igrejas baptistas em Portugal, uma excepção por ter uma política de sustento total da família do pastor e uma filosofia onde se assume que o pastor deve trabalhar nela a tempo inteiro e ser sustentado completamente por ela? Pois. Esta parte do livro é difícil de digerir por todos os pastores de igrejas baptistas (e outras igrejas evangélicas) que em Portugal vivem em sacrifício constante. Fez muita falta aqui alguma nuance.
Terceiro ponto: a determinada altura há uma frase sugestiva: "a estrutura corrompe". Percebo a intenção do desabafo e tenho empatia com ele. Mas do modo como compreendo o cristianismo sei que é o contrário. Não são as coisas que corrompem o homem (uma herança grega platónica). É o homem que corrompe as coisas (Jesus explica isto em Marcos 7). Daí o meu desconforto com críticas constantes ao sistema. O sistema está bem? Certamente que não (embora fosse útil mais discussão sobre o que é o sistema, afinal de contas). Mas as críticas constantes ao sistema tendem a assentar numa dicotomia forçada entre pureza humana versus impureza institucional, e frequentemente descambam na real tirania do sistema anti-sistema. As alternativas sugeridas tendem a presumir uma purificação do mal só porque as velhas estruturas desapareceram (Olá Marx!). É fácil sugerir que não há hipóteses de abuso de poder quando o poder está nas mãos de todos. Mas basta estudar um pouco de história para ver que algumas das experiências mais cruéis assentam em sistemas que dominam por assegurarem que o poder é do povo. Numa nota muito pessoal, é quando me asseveram que toda a gente manda que me sinto em maior risco de manipulação. Se não haver púlpitos nem pregadores garantisse a liberdade do Espírito na igreja podem crer que estaria agora na condição de ex-pastor a comer um grande churrasco alimentado pela madeira do meu púlpito.
Vamos às notas de convergência. Apesar de gastar menos letras com elas, elas são o mais importante. O Bruno conseguiu mostrar uma coisa do meu cunhado que eu nunca tinha visto com clareza. É também isto que revela que o Bruno é um grande escritor. O Bruno revela coisas que nunca tinha visto antes, apesar de anos de exposição a elas. O Nuno procura uma experiência mais simples e pura de cristianismo comunitário, que esteve no início da Igreja Baptista onde cresceu no Vale da Amoreira, quando uma cabeleireira crente começou reuniões de estudo bíblico no seu salão de beleza. Nunca tinha entendido isto, que, num certo sentido, o meu cunhado corre de volta para esse cabeleireiro inicial. Visto desse prisma, há uma nova beleza e coerência no percurso que ele tem feito. Há uma busca por um fechar de um ciclo. E o meu cunhado está infelizmente correcto quando fala em igrejas "agrilhoadas aos rituais de domingo", "a definhar, corroída(s) por crentes que falavam muito e praticavam pouco." Tem razão quando diz que há "política a mais e espírito a menos." Ou seja, o meu cunhado está certo em muitas das coisas erradas que aponta.
Numa segunda nota de convergência, o Nuno (e a minha irmã) conseguem na prática da vida deles aquilo que todos os cristãos deviam conseguir: uma fé que não está nas circunstâncias favoráveis. Se o cristianismo for estar de bem com o que esta vida tem para nos oferecer, então não passa de um paganismo disfarçado. A Família Soares tem a percepção clara disso. Há uma frase belíssima que dizem a dada altura: "compreendi que Deus não está na minha vida para me acrescentar coisas, mas para me tirar aquilo que não preciso."
Numa última nota de convergência está o facto de o Nuno e a Sara conseguirem fazer a fé bonita mesmo para pessoas que não a têm. Vejam as palavras que o Bruno usa para os descrever: "Para mim, a família Soares é uma dessas árvores gentis e firmes, batidas pelo vento, resistentes. Raramente vi pessoas tão cheias de fé e, ao mesmo tempo, tão serenas. As palavras de Nuno e Sara carregam uma certeza tranquila que chega a ser comovente." E o livro termina com uma ilustração fantástica, que sai da boca do meu cunhado e que vale a pena citar por inteiro. "No nosso prédio, as luzes da garagem funcionam por sensores. Quando eu descia com as minhas filhas elas vinham atraés de mim com medo, à espera que as luzes se acendessem. Até que há uns tempos, a Júlia passou à minha frente e foi logo para o carro, antes de as luzes se acenderem. Eu perguntei-lhe se ela já não tinha medo. Ela disse que não: «Eu sei que as luzes se vão acender.» E é isto, mano. Eu posso estar no escuro mas sei que as luzes se vão acender." Gastei neste texto algum tempo a divergir do meu cunhado. Mas por causa destas coisas quero gastar mais tempo a convergir com ele.
Leiam "Aleluia!". Discutam-no. Irritem-se. Encantem-se. Mas não percam a oportunidade de ler um livro que vos torna menos ignorantes em termos religiosos e mais expostos à beleza possível daqueles que vivem a adorar em caves e lojas.

Esta nota que o Bruno partilhou no seu perfil de Facebook é importante: “O “prosperaria” não era num sentido estritamente financeiro e se foi essa a ideia que passei por uma escolha infeliz de palavras, não era essa a ideia do Nuno. No texto, o Tiago atribui algumas expressões ao Nuno que são da minha exclusiva responsabilidade, como por exemplo “treino árduo para tropa de elite.” A minha ideia era pôr de um lado a experiência do Nuno com a igreja que conheceu em criança e o universo claramente mais “intelectualizado” do Seminário. Se, para que essa diferença ficasse mais clara, me excedi na retórica, a responsabilidade é apenas minha.”
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Há cristãos a tentarem feitiços cristãos, achando que o mal não os pode tocar. Cristo é alguém que nos pode valer porque, bem pelo contrário, viveu a praga das pragas – a cruz. E nessa cruz estava não a rendição à injustiça do mundo, mas o modo de reverter a injustiça do mundo em justiça de Deus.
O sermão de Domingo passado chama-se "Quando o meu combate revela que o meu coração quer comandar" e pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).