terça-feira, agosto 25, 2015

Ouvir

Antes de parecer teologicamente fácil ser pedras vivas, entendamos como foi biograficamente difícil para Pedro aprender esta lição na pele.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, agosto 24, 2015

Quando Roma vai à frente
Nos Estados Unidos os tempos são de resistência ao aborto. Por que é que a nossa comunicação social não diz nada sobre o assunto? Pois.

Houve manifestações este Sábado passado por todo o país. O pastor baptista John Piper partilhou algumas palavras sobre o dia, que julgo muito úteis para nós, evangélicos em Portugal.

"Não é segredo que a Igreja Católica Romana tem sido a espinha dorsal do movimento pró-vida ao longo de quarenta anos. Agradeço a Deus por esta clareza perseverante em relação à realidade e dignidade da vida humana dos que ainda não nasceram. Não sou um Católico Romano, mas coloquei-me alegremente ao lado deles nesta causa comum de justiça pelos que ainda não nasceram. Quando for o tempo certo, teremos as nossas discussões vivas e agressivas sobre o sacrifício da missa, a regeneração baptismal, e a preciosa doutrina da justificação pela fé. Mas cada coisa tem o seu tempo. Esta manhã o assunto era: Deus está a tecer vida humana à sua imagem dentro do útero; não matem o que ele está a criar.

A minha impressão é que o número de Católicos era minoritário. Talvez eles nos dêem esse benefício uma vez que temos muito trabalho em atraso em relação a eles."


 

quarta-feira, agosto 19, 2015

Ouvir

O facto de tantos cristãos não pedirem a Deus para amarem mais os seus irmãos só significa que estes cristãos não amam Deus como deve ser.

O sermão de Domingo passado, chamado "O amor e a obediência crescem juntos", pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, agosto 17, 2015

Great!
O Pr. René Breuel (escrevi sobre ele aqui: http://vozdodeserto.tumblr.com/post/122752043869/o-paradoxo-da-felicidade) enviou-me um texto sobre o meu livro do casamento. Fantástico! Leiam-no aqui em baixo (ou no lugar original: http://wonderingfair.com/2015/08/03/marriage-is-a-call-to-transformation/).

Marriage is a call to transformation

This past month I read a fascinating book on marriage. It was the sort of pleasurable, impulsive reading you do not because you have to but because that’s the book you want to read right now. Reading for the soul.

It was a more personal kind of reading too, for I had the opportunity to first meet the author of the book during a visit to Lisbon in June. I took part in a conference which hosted two panel discussions on the spiritual landscape of Portugal. Tiago Cavaco spoke on both occasions. He’s a curious figure at first – a pastor in Lisbon who is also a well-known blogger and leader of a heavy-rock band. This set of experiences grants him an out-of-the-box perspective, and it showed at the panel discussions: he poured forth fascinating insights and analysis which debunked stereotypes and asked still harder questions.

That’s a guy I need to know, I thought. Later we met, we exchanged our books, and I flew back to Rome reading and underlining his book on marriage.

Fascinating. In English its title would go something like Happily Ever After, and other Misunderstandings about Marriage. Each chapter deconstructs common conceptions about marriage, such as the moon is made of honey or marriage needs good husbands and good wives, and proposes a healthier view. Consider, for instance, this turning of the tables:


"The happiness of marriage seems to be rooted in the capacity it has to transform us … more than wanting to make us happy, marriage wants to make us new… When marriage is valued for the transformation it brings, we stop having our spouse as adversary and start having ourselves as adversaries… it becomes a calling to my own transformation."

This is such an insight. Marriages can’t flourish out of self-centered postures. However romantic the notion may seem, to hope that marriage will make us happy yet not transform us is impossible. The happiness a good marriage engenders is precisely the happiness of transformation in the context of a bond of love. It is the difficult but ultimately thriving metamorphosis into a life lived in two, into being centered on the other, into seeing myself as the obstacle to be overcome. The opposite posture – I’m in as long as this relationship is pleasurable but doesn’t ask much of me or call me to change – is the recipe for a me-against-you relationship where spouses don’t find the deeper waters of self-giving, sacrifice, and soul intimacy. It remains a bond forged by shared duties and distractions. It remains a half-baked union of individuals reticent to let go of their autonomies. It remains a marriage based on a selective shadow of self-giving love. And that’s not much of a balm.

"What marriage requires is a promise that we will be in the Future what we are not yet in the Present: spouses…. When we promise to be faithful to someone the most unknown person present is not the one to whom we promise: it is ourselves. We don’t quite know who will we be in the future and yet we propel ourselves toward it. Notice how daring that is. Or, from another angle, how creative. The Christian faith rests in in the confidence that men and women are called to make promises to learn something else about themselves."

Marriage is a call to personal transformation.

René Breuel


sexta-feira, agosto 14, 2015

Agosto em Oeiras


quarta-feira, agosto 12, 2015

Ouvir

Podes ter confiança em Deus precisamente porque ele te dá confronto. O facto de Deus nos acusar é o gesto de amizade que os nossos amigos não conseguem.

O sermão de Domingo passado chama-se "Um Deus adversário faz mais por nós que os nossos amigos" e pode ser ouvido aqui.

terça-feira, agosto 11, 2015

Deus não deu mais uma doente ao hospital mas uma missionária

No Domingo passado a Irmã Zuleide Teixeira visitou a nossa igreja. Como tem estado frequentemente na nossa lista de oração, demos-lhes a oportunidade de partilhar uma palavra. A congregação ouviu um testemunho simples mas poderoso do que significa na prática ser cristão. Foi simples porque a Irmã Zuleide não precisa de sofisticar as coisas para lhes dar autenticidade. E foi poderoso porque ser cristão nos dias bons é fácil, mas ser cristão nos dias maus é que é. E os últimos tempos têm sido árduos para a Irmã Zuleide. Um cancro levou-a a ver os seus dois peitos serem-lhe removidos. Está no meio de processo de terapia.

Conhecemos a Irmã Zuleide há cerca de 5, 6 anos. Na altura, a minha família ganhou amizade pelo Alex, seu filho. Hoje muitas pessoas conhecem o Alex porque ele é uma estrela emergente da cena musical portuguesa. A quem conhece o Alex salta à vista as características que fazem dele um miúdo que dá show como poucos. O Alex é dos escassos músicos que conheço que dá tudo quando tem uma multidão de milhares à frente, e que dá tudo quando tem apenas seis gatos pingados. Sei disto porque o testemunhei nos tempos dos gatos pingados. O que poucas pessoas saberão é que boa parte da força do Alex é assinada com o nome da sua mãe. Sempre que este filho vos tocar o coração, agradeçam à mãe dele.

É preciso entender o que Deus está a fazer com a doença da Irmã Zuleide. A minha convicção é que, no meio de um processo cheio de dor, a estratégia divina não é de rendição ao sofrimento. Antes pelo contrário. Com as aflições da Irmã Zuleide, Deus não enviou mais uma doente para o hospital mas uma missionária. O testemunho dela tem sido corajoso e comovente. Há pessoas que começam blogues por muitas razões, geralmente associadas à demonstração pública de algum talento. Vejam bem - a Irmã Zuleide resolveu criar um blogue (http://blogdatiazu.tumblr.com/) para a demonstração pública da confiança que ela tem em Deus numa altura em que o mundo lhe aconselha o oposto. O mundo diz-lhe: onde está Deus quando o sofrimento chega? A Irmã Zuleide diz: agora que o sofrimento chegou, tenho a certeza que Deus está comigo como nunca esteve antes.

Em termos técnicos esta questão chama-se teodiceia - como é que Deus pode continuar a ser bom permitindo que o mundo que criou tenha mal? Como pastor, estou habituado a tratar do assunto e a safar-me nele razoavelmente com as palavras. Mas quando li um dos primeiros mails que a Irmã Zuleide enviou a seguir à cirurgia, senti-me minúsculo. Dizia assim: "Quando acordei, no dia seguinte a cirurgia, me vi sem as duas mamas, chorei muito, muito, muito. Posso dizer na primeira pessoa: NÃO É FÁCIL! Aí, nesta hora, entra em acção o Espírito Santo, enchendo o nosso coração de muita Paz e consolo. Tenho a plena consciência que esta, PAZ que enche o meu coração é fruto do vosso clamor em meu favor. E se eu estou de pé, é só pela graça do Pai." Será que eu, que estou cheio de teologia, seria capaz da mesma demonstração de confiança em Deus numa circunstância semelhante?

A presença da irmã Zuleide no hospital não é tanto parte do problema de um mundo que sofre - embora também o seja! A presença da Irmã Zuleide no hospital é mais parte da solução para um mundo que sofre. Porquê? Porque o sofrimento da Irmã Zuleide no hospital não exprime apenas o sofrimento dela - acaba a exprimir também o sofrimento de Cristo. É por isso que tantos cristãos se comovem com a Irmã Zuleide. Eles sabem que, na prática, ao verem a Irmã Zuleide eles acabam a ver também o salvador dela e deles. A Irmã Zuleide está a viver algo parecido com o que Cristo viveu e está a lidar com o assunto da mesma maneira que Cristo lidou. Se ver isto não nos toca, nada nos toca.

A melhor notícia é que, como o resultado final do sofrimento de Cristo não termina na cruz, o resultado final do sofrimento da Irmã Zuleide também não termina no hospital. A ressurreição que valeu Cristo é o mesmo remédio final que valerá a Irmã Zuleide. Aquilo que parece uma grande tragédia torna-se uma grande vitória. Porque a doença não tem a última palavra na vida da Irmã Zuleide - a ressurreição é que tem!

Esta esperança na ressurreição não significa que os cristãos doiram a pílula, fazendo das coisas más um pretexto para virtuais coisas melhores, e se rendem à doença. Não. A Bíblia ensina-nos a procurar a cura para as nossas doenças. Isto vê-se no modo como os cristãos acolhem e encorajam os progressos da medicina, e no modo como os cristãos não confiam apenas nos progressos da medicina - através da oração expõem-se à possibilidade de Deus nos livrar das doenças através de uma intervenção sobrenatural, de um milagre. É isso que também fazemos pela Irmã Zuleide. Continuamos a orar pela cura dela. No fim, quem decidirá é Deus. No meio, somos nós aqueles que somos enriquecidos pela fé da Irmã Zuleide. É uma dádiva. Orem por ela!


segunda-feira, agosto 10, 2015

Sayão ajuda-nos a pensar melhor

Se Deus quiser, dentro de alguns dias vou estar a fazer uma pequena entrevista ao Pr. Luiz Sayão na Conferência Bíblica de Água de Madeiros. Para quem não conhece, o Pr. Luiz Sayão é um teólogo e pastor baptista brasileiro, tendo no hebraico uma das suas áreas de especialização. É difícil ouvi-lo e não guardar a experiência na memória. Desde que o fiz no ano passado, que o tenho citado nuns quantos sermões, sobretudo pela lição que dele colhi acerca da necessidade do descanso. Foi o Pr. Luiz Sayão que melhor me fez entender que não acolher o Domingo como um dia de repouso é, no fundo, não abdicarmos de nos comportarmos como se fôssemos omnipotentes. Quem manda nesta geringonça é Deus por isso descansar é uma questão elementar no cristianismo.

Acabei de ler um pequeno livro dele chamado "Cabeças Feitas - Filosofia Prática Para Cristão". É um volume de menos de 80 páginas que é mais uma aula que propriamente um livro. Mas é uma aula útil. E lê-se num instante. O objectivo central é contrariar a tendência persistente de anti-intelectualismo que grande parte do meio evangélico brasileiro continua a acolher. Os portugueses podem dizer, com razão, que o mesmo nos assiste. Mas temos de conceder que a circunstância brasileira é mais intensa. O Brasil, que é quase um continente, mete-nos debaixo do braço.

Ainda assim quero fazer um à parte. É fácil achar que os evangélicos são pessoas de pouco cérebro. As caricaturas assim nos informam. Mas esta é uma simplificação que, virtualmente, encaixa em qualquer tradição cristã. Se, por exemplo, nos especializássemos em monitorizar o que dizem aqueles que se dizem católicos romanos será que encontraríamos posições esclarecidas acerca da fé que dizem professar? Sinceramente, não só duvido que fosse diferente como, perdoarão a minha honestidade, seria ainda pior. O catolicismo romano, com muito espaço para "praticantes" e "não-praticantes" é terreno ainda mais fértil para para uma ignorância que também pode passar por anti-intelectualismo. Os evangélicos não estão sós na tarefa de precisarem de pensar mais.

Quem lê o Pr. Luiz Sayão rapidamente repara que esta é uma das suas vocações: pôr os cristãos a pensar mais. Os seus livros não procuram um aprofundamento das questões a um nível académico. Os seus livros procuram um aprofundamento das questões ao nível do cristão vulgar. Não é uma tarefa fácil mas é, sem dúvida, uma tarefa muito necessária. Com "Cabeças Feitas - Filosofia Prática Para Cristão" o objectivo continua a ser esse: "a ignorância torna-se factor cúmplice da exploração do homem pelo homem. (...) [e] Se não compreendermos o homem de hoje e não soubermos relacionar a fé cristã com a cultura e a maneira de entender a realidade perderemos a batalha que Deus nos tem dado (pág. 6)."

Sayão começa por reconhecer que a única vez que a palavra "filosofia" aparece na Bíblia é em Colossenses 2:8 ("Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo."). E nessa única vez o contexto não é positivo. Isso não quer dizer que a Bíblia tem uma perspectiva negativa da filosofia. A prova é que noutras ocasiões o Apóstolo Paulo demonstra conhecimento das correntes filosóficas do seu tempo para com elas poder dialogar (Actos 17:8). Adicionalmente, o cristianismo não se desenvolveu historicamente levantando uma bandeira contra a filosofia. Quanto estudamos os últimos dois milénios reconhecemos sem dificuldade que grande parte dos filósofos que influenciou decisivamente o pensamento ocidental se identificou com a fé cristã. Ser cristão no Século XX e no Século XXI e ter má vontade com a filosofia é tratar muito mal todos os outros séculos.

A relação entre teologia e filosofia não só é possível como, para os cristãos, inseparável. Um cristão não ganha coisa alguma por achar que a Bíblia tem a pretensão de nos ensinar acerca de todos os assuntos. "A Bíblia não foi escrita para revelar todas as coisas. Ela nos fala principalmente daquilo que Deus nos quis revelar sobre seu plano de redenção da humanidade (pág. 11)." Nesse sentido, cabe às duas complementarem-se, reconhecendo cada uma o objecto para cada qual foi chamada. Claro que isto não resolve todas as questões que podem nascer desta relação, mas ao menos ajuda a que teologia e filosofia possam viver num estado de amizade e não guerra.

De seguida, Sayão faz uma digressão pelos terrenos essenciais da filosofia - pelas questões da lógica (os raciocínios de dedução e indução); as questões da teoria do conhecimento (quais são e como actuam as nossas faculdades cognitivas, qual a natureza do conhecimento, e qual a relação do conhecimento com a realidade; bem como as escolas históricas de racionalistas e empiristas); as questões da metafísica e da cosmologia (por que é que as coisas são em vez de não serem?; ser alguma coisa representa a essência de alguma coisa independente de nós?; bem como o abandono histórico da metafísica após Kant); as questões da ética (a ética é intrínseca à existência humana ou uma construção possível dela?; bem como os desenvolvimentos históricos das teses teleológicas, deontológicas ou situacionais); as questões da linguagem (a relação entre o conceito significante e a sua expressão fonológica de significado); as questões estéticas (a arte como mimesis, como criação, como pedagógica, como metafísica, ou como autónoma); as questões religiosas; e as questões históricas.

Depois executa um esboço histórico da filosofia bem curto e conciso. Finalmente, aplica a pertinência do assunto ao tempo de agora. A nossa tarefa de pensar bem tem de se adequar ao facto de vivermos numa cultura pluralista, com apreço pelo irracionalismo (não no sentido de ser uma cultura que promove o absurdo mas no sentido de ser uma cultura que duvida da razão), pelo determinismo, pelo misticismo, pela alienação erótica, pelo individualismo, pelo consumismo, e pelo cinismo. Por fim, elabora algumas propostas práticas para os cristãos terem uma cabeça mais saudável.

Que propostas são essas? Em primeiro lugar, os cristão precisam de reconhecer que, não sendo racionalistas, acreditam que a razão foi criada por Deus para ser usada por nós. Em segundo lugar, "precisamos de reconhecer as necessidades de agora para não pregarmos para quem já morreu (pág. 52)". Em terceiro lugar, precisamos de resgatar a ética na nossa fé. Em quarto e último lugar, precisamos de uma postura de vida e um atitude sábia ("algumas coisas que fazemos para Deus, nem o diabo aceitaria (pág. 53)"). Temos muito trabalho para fazer para termos cabeças a pensar melhor. A ajuda de Sayão é um bom ponto de partida.


sexta-feira, agosto 07, 2015

Isilda Pegado
Quando regressar de Água de Madeiros quero ver se pego no assunto da Isilda Pegado. Raramente vi uma campanha de destruição pública de carácter tão eficaz e rápida como esta. No entanto, também não ajuda a reacção da própria, escusando-se da suposta acusação de ser conservadora (na Revista Sábado). Quem manda na tua boca, manda no teu corpo todo. Conservadores com medo da palavra conservador não são pessoas livres, são bichos açaimados.

sábado, agosto 01, 2015

Agosto

Não sei como será Agosto em termos de actualização do blogue. Vamos passar duas semanas em Água de Madeiros, no Acampamento Baptista. Vou mais descansado para lá por ter terminado agora a Divina Comédia. Foram quase oito meses a ler. Criei um blogue só para o efeito: Lendo a Divina Comédia.

Entretanto, deixo já um cartaz com os nomes confirmados para o Fim-de-Semana Cheio na Lapa. Este ano a coisa será ainda melhor, se Deus quiser. Mais nomes e mais vontade de ter conversas realmente interessantes. Coloquem na vossa agenda para virem ter connosco. Vai valer a pena!

De resto, vão passando pelo twitter. O twitter faz-me lembrar os blogues em 2003. Não é saudosismo, é emoção em concentrado. See ya in the pit!

 

quinta-feira, julho 30, 2015

The Abortion Files
Somos uma cultura que se orgulha de poder mostrar todo o corpo que quer, com algumas excepções reveladoras (a partir dos 9 mns a coisa pode chocar as sensibilidades de alguns).



Há bons textos sobre o assunto aqui: http://theabortionfiles.tumblr.com/.

terça-feira, julho 28, 2015

Ouvir
Esta série de sermões sobre o descanso patrocina prazer em Deus, não culpa acrescida. O último sermão dela pode ser ouvido aqui.


sexta-feira, julho 24, 2015

Não odiar a Isabel e o Miguel

Só quando olharmos para algumas pessoas como nossos inimigos é que podemos, enquanto cristãos, orar por elas pedindo a Deus que nos faça ter-lhes amor. Quero ilustrar isto com um exemplo pessoal.

Ontem gastei algum tempo a ouvir e a picar na net as intervenções da Isabel Moreira acerca da Iniciativa Legislativa de Cidadãos promovida por pessoas como eu, que vêem o aborto como um mal. Acabei a espreitar o Miguel Vale de Almeida também. Ora, este exercício feito sem cuidados é tóxico para a minha alma. Isto porque, e quero ser cuidadoso a afirmar isto, a Isabel Moreira e o Miguel Vale de Almeida não primam pela consistência na discussão de um assunto como o aborto. Digamos que há pessoas que metem o mundo a nascer em Maio de 1968 e que, por causa disso, tratam qualquer convicção ligada ao período que terminou antes como histórias de fantasmas. Ora, eu consigo perceber que as minhas convicções sejam pré-históricas aos olhos da Isabel Moreira e do Miguel Vale de Almeida. Mas o ponto não é esse. Eles não vencem uma discussão por acusarem os seus oponentes de serem retrógrados. Quando muito, poderão vencer os seus oponentes se provarem que eles estão errados. E, guess what?, depois de quase meio século depois de 68, há pessoas que ainda não estão convencidas dos méritos racionais do aborto. Em democracia, isto significa que a discussão não termina pelo facto de a legislação mudar. Em democracia isto significa que a discussão pode levar à mudança da legislação, desde que os cidadãos assim decidam. É para isto que cá estou. Deal with it.

Os cristãos não podem ter medo do mau uso da retórica (sim, porque a retórica é uma coisa boa - vão ler a "Hermenêutica Retórica" de Manuel Alexandre Júnior, professor catedrático da Universidade de Letras de Lisboa para se enturmarem com o assunto). Se os nomes que me chamam fossem determinantes para as posições que tomo, acho que a esta hora estaria a espalhar a hashtag #IsabelMoreiraÉsAMinhaPadroeira porque, de facto, ela é quem mete mais respeitinho no Parlamento quando fala (juro que tive medo que ela soubesse onde eu moro depois de ter visto a sua intervenção). Acontece que os cristãos não têm medo das palavras porque as palavras não são instrumentos de morte mas de vida: Deus criou o universo a partir da palavra. De cada vez que a Isabel Moreira me tenta meter medo com as suas palavras, eu oro uma prece que diz assim: "obrigado, Senhor, porque fizeste das palavras fábricas de pessoas e não trituradores delas." E é precisamente porque Deus fez das palavras fábricas de pessoas que vou continuar a usar as minhas para defender a existência das pessoas ameaçadas pelo aborto. Já escrevi neste texto deal with it?

Mas comecei pelo lugar onde quero acabar. Só quando olharmos para algumas pessoas como nossos inimigos é que podemos, enquanto cristãos, orar por elas pedindo a Deus que nos faça ter-lhes amor. Ontem à noite pedi a Deus que não me faça odiar a Isabel Moreira e o Miguel Vale de Almeida. Pedi a Deus que me faça ter-lhes amor precisamente pelo facto de serem meus inimigos. Não é fácil mas é o que o meu Salvador Jesus me mandou fazer: amar os meus inimigos. Se eu achasse que eles são meus amigos, não só lhes faltava ao respeito (nem sequer nos conhecemos!) como colocava dentro de mim mesmo a origem dos meus bons sentimentos, procurando gostar deles independentemente de eles defenderem uma causa que para mim é maligna. Um cristão defende uma visão antropológica radical que coloca em Deus a origem dos seus bons sentimentos. Por isso é que um cristão não pode ter a pretensão de ser amigo de toda a gente - porque não deve gostar das pessoas independentemente do modo como elas se relacionam com Deus. Um cristão é chamado a uma coisa diferente que é amar os seus inimigos, não a achar que todo o bicho careta é seu compincha.

É a visão socialista abraçada pelo Miguel Vale de Almeida e pela Isabel Moreira que, descartando Deus, coloca o ser humano como a origem e finalidade dos seus próprios bons sentimentos. Por isso é que o socialismo acredita em causas humanitárias porque a humanidade, desde que bem encaminhada, é um progresso imparável em direcção à fraternidade universal. Eu compreendo o excesso retórico da Isabel Moreira porque ela não suporta a ideia de haver retrocessos nesta digressão (a ILC em causa é um regresso à barbárie). Os cristãos serão, como o Miguel Vale de Almeida tem repetido, os "fundamentalistas", os "fascistas", e todos os istas que nos possam atirar para esse longínquo e obscuro período terminado em em Abril de 1968. Ironicamente, a visão mais optimista da natureza humana é aquela que acaba a tratar pior todas as pessoas que não a têm (o Miguel Vale de Almeida disse que ia tomar nota de todas as mulheres do PSD e do CDS que votassem favoravelmente à ILC - como classificamos um gesto destes?).

Por que é que o cristianismo nos chama a amar os nossos inimigos? Porque relativiza o mal que eles nos podem fazer? Não. O mal que os nossos inimigos nos podem fazer é precisamente aquilo que os classifica como inimigos. O cristianismo chama-nos a amar os inimigos porque, realmente, ninguém começou a sua relação com Deus de outra maneira: ninguém nasceu amiguinho de Deus. É porque Deus nos adopta enquanto filhos num gesto de sacrifício (morrendo Cristo na cruz), quando nós éramos ainda seus inimigos, que nós não podemos olhar para a inimizade dos nossos inimigos como ponto final - quem sabe se Deus não vai fazer com eles o que fez connosco?

Finalizando. Miguel e Isabel: oro por vocês. Oro por mim quando oro por vocês. Oro pelo nosso país quando oro por mim orando por vocês. Parece que vamos ter de lutar uns contra os outros. Que assim seja. No meu coração sei que tem de haver amor. No vosso, é convosco. Não é fácil existir amor no meu coração. Mas ninguém disse que era suposto ser. Vocês também não se meteram na política para passar férias. Baza!


O Expresso
Mete o meu último álbum na lista dos discos que importa ouvir neste Verão (ainda por cima quase encostado à reedição do "Heartbreaker" do Ryan Adams!).


quinta-feira, julho 23, 2015

A minha mulher a explicar o que é o casamento
"Há 13 anos, no dia 20 de Julho de 2002, ele oferecia-me o nome dele. Eu aceitei. Mal saberia eu que este gesto, acrescentar algo à ordem natural do nome que os meus pais me colocaram, seria um bom prenúncio de toda uma nova vida que estaria a chegar. Foi-me adicionado um nome que não apagaria nada do que até aos 25 anos fui, mas que simbolicamente traduziria o facto de me tornar uma só pessoa com outra: é uma nova vida que começa. O casamento torna-nos pessoas novas. Sim, o casamento transforma-nos. Nos dias bons, nos dias menos bons, nos dias péssimos. Nunca esquecendo que prometemos amar-nos quer estejamos saudáveis, quer estejamos doentes. Ricos ou pobres. Alegres ou deprimidos. Até que a morte nos separe." (do blogue dela: Por Aqui E Por Ali).

quarta-feira, julho 22, 2015

Ouvir
O que é que o descanso nos ajuda a fazer? Respondendo de uma maneira muito directa diríamos: o descanso ajuda-nos, enquanto criaturas, a executar a vocação que Deus nos dá de, na sua criação, sermos sacerdotes, reis e profetas. Uau. Soa pomposo. É melhor ouvir o sermão.

segunda-feira, julho 20, 2015

Treze anos
Hoje eu e a Rute fazemos 13 anos de casados. Nas vossas orações agradeçam e peçam a Deus por nós. Que o nosso casamento seja à medida do casamento dos casamentos, entre Cristo e a Igreja.
Vídeo
Eu e o Bruno temos uma história com mais de 20 anos (a ver se qualquer dia a conto). É um privilégio entrar neste novo teledisco dos Fellow Man.


quinta-feira, julho 16, 2015

Won't Back Down

Uma das coisas que mais me pesa no coração é não estar a fazer nada concreto contra o mal do aborto. Quero que Deus me ajude a mudar e dar o corpo às balas. A luta contra o aborto é daquelas onde tenho de estar pronto para perder para mim para ganhar para outros. Quem mais perde com o aborto é quem é morto por ele - se eu perder popularidade, amigos ou respeito por causa da minha posição, who cares? A tragédia a ser praticada diariamente não é acerca de mim.

Deus abençoe as pessoas envolvidas nesta ILC (António Pinheiro Torres, as nossas orações estão contigo)! Evangélicos, acordem para isto! Orgulhem-se naquilo que o Pastor Paulo Pedro Luvumba está a fazer (vejam aqui a partir dos 39'35''). Vamos juntar-nos a eles!

quarta-feira, julho 15, 2015

Ao Tom Dela

Tondela fez 500 anos e o Sami fez as honras cantando no coração da cidade a sua música "Ao Tom Dela". Quero aproveitar para dizer três coisas.

A primeira coisa é que produzi ao Sami o disco "Nem Lhe Tocava" e foi o disco mais difícil de produzir que já produzi. Graças a Deus que, apesar disso, é um grande disco. Não tanto pela minha produção (que foi nula a nível de merecer méritos pelo resultado final) mas pela presença do talento do Sami em estado puro. Explicando melhor: o "Nem Lhe Tocava" é um disco de que se gosta não tanto por ser um disco completo, mas mais pelo facto de o Sami ser um artista a quem nada falta. Como era a primeira vez que as pessoas o ouviam, não tinham alternativa a render-se ao talento dele (isto também vai pela crítica de 5 estrelas que o João Miguel Tavares fez na Time Out, salientando o trabalho de produção - Johnny, foste generoso mas o crédito é do Sami!).

A música "Ao Tom Dela" continua a ser a música a que, mais flagrantemente, não foi feita justiça na produção do disco. O que as pessoas não sabem é que na sua forma original "Ao Tom Dela" era a música que, até à altura, o Sami tinha feito mais parecida com o Tony Carreira. Lembro-me de a estar a ouvir pela primeira vez na sala do primeiro piso da Igreja Baptista de São Domingos de Benfica e ver ali aquilo que o Tony sempre tinha sonhado fazer para si (porque o próprio Sami puxou da referência). Disto não tenho a certeza, mas arriscaria dizer que o Sami considerou meter a canção no reportório dos Ninivitas (a banda mais folk da FlorCaveira e que integrava quase toda a gente da editora).

Ora, no estúdio da Valentim eu, o Sami e o Nelson Carvalho andámos às aranhas com a canção e acabámos por gravá-la bem crua e mascará-la com efeitos de pós-produção (basicamente, sujá-la com distorção). Nunca fiquei contente com o resultado e ainda hoje gostava de a ver produzida decentemente. Portanto, confesso o meu pecado.

A segunda coisa é que é emocionante vê-la cantada no coração da cidade em jeito de hino local. Tirando o facto de estar lá uma guitarra com distorção (com solo e tudo) que deveria ter sido impedida de se aproximar mais do que 500 metros do palco, um engano na letra do Sami (recebido com carinho pelo público), e as camisolas do Tondela envergadas pelos cantores (feias a sério), o momento é muito bonito. Sei que é um bocado saloio da minha parte mas fiquei emocionado por sentir que, de alguma parte, aquilo também me diz respeito.

A terceira coisa é que provavelmente os Tondelenses não sabem mas a cidade deles tem muito significado na história do protestantismo português no geral e dos baptistas em Portugal. Os baptistas em Portugal têm de ter o coração a palpitar mais forte quando ouvem o nome de Viseu e Tondela a ser pronunciado. Ainda não sei perceber muito bem o porquê do cristianismo evangélico estar ligado à qualidade beirã, mas quero progredir nessa tarefa.

Ya, era isto. Sami, grande abraço!


terça-feira, julho 14, 2015

Três parágrafos em pirueta

É giro andar nisto do hedonismo cristão porque parece sempre subversivo a quem está de fora. Só pela combinação perigosa destas duas palavras (hedonismo + cristão) o Pr. John Piper deveria ter um busto em todas as igrejas evangélicas que se preocupem em pregar o evangelho dignamente. Essa é uma das coisas que os macambúzios não percebem na teologia reformada: o ar de austeridade é só fachada. Dentro de cada puritano está um louco que dança no púlpito. C. S Lewis percebeu bem isso quando escreveu: "Protestants are not ascetics but sensualists."

Ando a ler um livro magnífico chamado "The Things Of Earth" escrito por um miúdo de trinta e poucos anos (mais novo que eu!) chamado Joe Rigney. A determinada ele lembra que no evangelho a auto-negação é sempre acompanhada de desavergonhadas promessas de recompensa. Os cristãos não podem armar-se em choninhas nesta matéria. Negarmo-nos a nós próprios não é o produto final: o produto final é sermos recompensados por Deus alcançando uma comunhão fantástica com ele. A auto-negação é sempre um passo intermédio de subtracção para no fim termos a melhor soma de todas que é a nossa união com Cristo.

Às vezes os cristãos passam uma imagem de pessoas irritadas com as festas dos outros. Isso é um disparate. Os cristãos entristecem-se com as festas dos outros por elas serem tão ridiculamente tímidas comparadas com a festa cósmica que é a amizade esperneante com o Criador. Por isso o cristianismo é uma religião de paradoxos: mesmo quando se veste de preto dá bailarico aos cortejos coloridos dos pagãos. A eternidade vai ser passada à mesa, minha gente!


segunda-feira, julho 13, 2015

Ouvir
O descanso serve para, enquanto criaturas diferentes do Criador, sermos como ele. Para entender melhor o paradoxo podem ouvir aqui o sermão de ontem.


sexta-feira, julho 10, 2015

Andei de volta das Institutas e só depois reparei que hoje é dia de anos do Calvino
Ponho aqui o texto que escrevi há umas horas no blogue "Lendo as Institutas".



 Livro 2, Capítulo VIII (pontos 49 a 59) - o 10º Mandamento
 
No fecho dos Dez Mandamentos, Calvino mostra mais uma vez a sua estatura intelectual: não vale a pena tratar dos nossos pecados incidindo sobre o que fazem as nossas mãos se não formos à origem do problema no nosso coração. O resumo do “Não cobiçarás” pode então ser este: “Uma vez que o Senhor pretende que toda a nossa alma esteja cheia de amor, qualquer sentimento de uma natureza adversa deve ser banido.” Ou seja, o contrário da cobiça é o amor. A cobiça não se luta com menos coração mas com mais. A implicação é que não resistimos à cobiça adormecendo no nosso coração o afecto pelas coisas, mas resistimos à cobiça acordando o nosso coração para o tipo de afecto certo.

É a partir desta necessidade positiva de mais amor que compreendemos que não cobiçar implica também que desejemos o bem do nosso próximo. E, como a Parábola do Bom Samaritano nos ensinou, o nosso próximo é qualquer pessoa que nos cerca, independentemente de termos ou não afinidades com ela. “O Senhor ordenou previamente que a caridade deve regular os nossos desejos, estudos e acções, e agora ordena-nos para regularmos os pensamentos da mente da mesma maneira, para que nenhum deles se deprave ou distorça, dando à mente uma inclinação contrária.” Quando trata do problema da cobiça, Calvino canta “all you need is love”. E canta bem e com verdade bíblica.

Por consequência, segue que quando a nossa mente não tem o amor presente, facilmente se cativa com qualquer concupiscência. A palavra concupiscência pode parecer pesada mas no fundo traduz com clareza o custo de não nos unirmos ao amor de Deus. Esse custo é podermos ficar encantados com qualquer outro amor. A concupiscência é, no fim de contas, apaixonarmo-nos por outra coisa que não Deus. Uma mente bem organizada é uma mente que teimosamente se prende ao amor apenas.
Calvino aproveita para malhar na ordem incorrecta dos Dez Mandamento seguida pela Igreja Católica Romana, que retira o segundo mandamento (Não farás imagens de semelhança) e divide o décimo (não cobiçarás) em dois. Não é assim que o texto bíblico faz e a prova simples disso é a ordem seguida pelos judeus desde sempre, correspondente também à tradição reformada e protestante.

A importância de obedecermos aos mandamentos é a de o nosso carácter ser transformado para que possamos, com as nossas acções, exibir a imagem de Deus que ele colocou em nós. Fazermos bem não nos promove a nós mas, em último grau, promove a Deus. Os cristãos não fazem boas acções como os escuteiros, para provar que são bons. Os cristãos fazem boas acções para provar que Deus é bom. É também isto que significa sermos feitos à imagem de Deus. Logo, a Lei é um terreno bem prático que reflecte quem Deus é. Quando seguimos a Lei mostramos a qualidade do carácter de Deus.

As obrigações que a Lei nos deixa são para serem vistas sobretudo no modo como tratamos os outros. A primeira tábua dos Dez Mandamentos resume nos primeiros quatro os nossos deveres no relacionamento com Deus. A segunda tábua ilustra nos últimos seis mandamentos que, no modo como nos relacionamos com os outros, demonstramos o modo como nos relacionamos com Deus. Daí que a preferência seja abreviar toda a Lei de Deus no nosso comportamento em relação aos outros, podendo o Apóstolo Paulo escrever um texto como 1 Coríntios 13 onde a lógica é: amor ou morte. “A nossa vida será melhor enquadrada com a vontade de Deus, e com os requerimentos da sua Lei, quando ela é, em todos os aspectos, vantajosa para os nossos irmãos.”

Calvino considera então pertinente explicar que o amor-próprio não é um conselho mas uma referência. Ou seja, quando somos chamados a amar o nosso próximo como a nós mesmos não se deve depreender que a Bíblia está a chamar-nos a amar-nos a nós próprios. A Bíblia está simplesmente a constatar um facto. Nós naturalmente amamo-nos a nós próprios ao ponto de colocarmos os nossos interesses acima dos interesses dos outros. Quem é pai sabe que nunca precisou de ensinar os seus filhos a colocarem os seus interesses acima dos interesses dos outros - as crianças nascem a saberem fazê-lo espontaneamente. Deus chama o nosso amor-próprio para o assunto para que ele dê lugar a outro tipo de amor que é o amor pelo nosso próximo. Deus não aconselha o amor-próprio, Deus transforma-o em amor pelos outros.

O amor aos nossos inimigos é uma das consequências desta reorientação do amor-próprio. Na Bíblia o amor aos inimigos não é opcional. Somos chamados a amar os nossos inimigos como amamos os nossos amigos porque a questão não é o que é natural no nosso amor mas o que é sobrenatural no amor de Deus. Por fim, Calvino rejeita nos Escolásticos a tradição de separarem pecados veniais de pecados mortais, explicando que todos os pecados que praticamos são mortais porque suscitam a ira de Deus, a menos que aceitemos o sacrifício que o Filho dele fez em nosso lugar para pagar o prejuízo causado pela nossa rebelião.

quarta-feira, julho 08, 2015

Still


















Religião e punk rock. Still in 2015. With my main man Luís Gravito.

terça-feira, julho 07, 2015

Ouvir
Descansamos bem quando, nesse descanso, regressamos ao seu autor.
O sermão de Domingo passado, o primeiro numa série sobre o descanso, pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, julho 03, 2015

Já está nas bancas
A Revista de Ler onde escrevo sobre a relação que há entre Cormac McCarthy e Ester. Goes like this:

O trabalho de Cormac não é dar-nos um mundo direito a pedido do leitor mas o mundo torto por falta de comparência divina. O facto de a malvadez andar sem rédeas nos actos das personagens talvez corresponda à religião possível dos que as lêem: podemos não acreditar em Deus mas, definitivamente, coisas destas ainda nos fazem sentir a utilidade do castigo.









quarta-feira, julho 01, 2015

Ouvir
Querer mais Deus é querer menos aquilo que não nos pertence. O último sermão sobre os 10 Mandamentos ("Não cobiçarás") pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, junho 29, 2015

O Paradoxo da Felicidade

Em Portugal quando se ouve de um pastor evangélico brasileiro a abrir uma igreja nova pensa-se normalmente em uma igreja nova com brasileiros lá dentro. Na gíria são as igrejas étnicas, que bem ajudam a dar algum ânimo ao facto de a maioria das igrejas evangélicas portuguesas estar em decadência. Não fosse a proliferação destas novas igrejas (que, em abono da verdade, tanto depressa abrem como depressa fecham) e os números de protestantes no país estariam a cair.

No ano passado estive em Paris (na Conferência do City To City) e conheci uns quantos pastores brasileiros a abrir igrejas novas em países como a França e a Itália. Por defeito, o meu cálculo foi pensar em igrejas de brasileiros em França e na Itália. Mas, voilá!, apanhei uma surpresa: não tendo a vida facilitada por falarem a mesma língua (como em Portugal), nos outros países europeus os jovens pastores brasileiros estão a abrir igrejas que se enchem com as pessoas do país onde estão. Não são igrejas de emigrantes. São igrejas de franceses e italianos.

O caso que mais me surpreendeu foi o do Pr. René Breuel. O Pr. René Breuel terá a minha idade (trintas e muitos) e, com a sua mulher Sarah e os seus dois filhos, abriu há um par de anos uma igreja no centro de Roma. É uma igreja que não é pequena para os parâmetros europeus: cerca de uma centena de pessoas. É uma igreja que faz mais do que reciclar evangélicos fartos das suas igrejas de origem - é uma igreja a crescer com pessoas que se convertem ao cristianismo através do seu testemunho. É uma igreja de gente nova, com uma linguagem solta do evangeliquez e uma frontalidade ganhadora acerca do que é fundamental no evangelho. É uma igreja italiana pastoreado por um brasileiro que tem tudo para ser o sonho de um português.

Há duas semanas pude finalmente conversar pela primeira vez com o René. Ele passou-me um livro que escreveu (ele já escreveu outro além desse) e eu passei-lhe o livro que escrevi. O livro que passei a ter nas mãos e que li em três dias chama-se “O Paradoxo da Felicidade”. E é um livro muito bom. É um livro que parece pegar no género estafado de “seja feliz em cinco passos” mas que o subverte dando-nos o que o cristianismo crê acerca do assunto. Vou tentar descrever muito basicamente a tese do livro.

Todas as pessoas têm fome de ser felizes e o pior erro é fingir que já comemos quando os nossos dentes ainda não trincaram nada - Deus fez-nos de facto para sermos felizes (até porque Deus é feliz). Mas que tipo de felicidade devemos perseguir? Não podemos procurar a felicidade dos modelos comuns porque os modelos comuns querem vestir os fregueses sem lhes tirarem as medidas. “Eles não levam em conta a natureza entortada da nossa alma, encurvada pelo pecado, e não conseguem evitar a lógica egocêntrica na qual funcionamos.” Ou seja, o apetite antropológico (um homem querer ser feliz) é sabotado pela imperfeição do sistema digestivo (nenhum homem é perfeito). O problema não é querermos ser felizes, o problema é sermos imperfeitos. Procurarmos uma felicidade que ignora a nossa imperfeição é acabarmos ainda mais cheios da última.

“A felicidade é um efeito indirecto.” Somos felizes como consequência e não como causa. “Somos alegres não quando estamos obcecados com o nosso estado emocional, mas quando, imersos em alguma actividade, relacionamento ou causa, nos entregamos à vida em autoesquecimento.” É aqui que entendemos o paradoxo da felicidade. Os cristãos ao imitarem Cristo doam-se como ele o fez na cruz, redimindo a realidade num gesto de amor que se sacrifica. “O paradoxo de Jesus expressa assim a verdade básica por trás da existência humana e da nossa busca por felicidade: salvamos nossa vida quando a perdemos, ganhamos quando damos.” Podemos acabar surpreendidos pela felicidade porque nos esquecemos dela.

Há mais coisa boa no livro (destacaria a parte que trata da questão do sofrimento: “A maneira como compreendemos a felicidade hoje, então, se está divorciada da bondade e do sofrimento, está também divorciada da realidade”) e valia a pena que ele estivesse disponível no mercado português. Creio que é possível encomendá-lo pelo site do René. É um texto que tanto serve pessoas que já declaram fé, como as outras, e que funciona como boa introdução ao cristianismo. Começa na questão da felicidade no geral para culminar na única felicidade possível que é Cristo.

No final terminei convicto que o René e a sua família têm de vir gastar mais tempo em Portugal, partilhando da experiência deles de injectar energia sul-americana ao cristianismo europeu amolecido. A Chiesa Evangelica San Lorenzo tem muito para dar além da Itália.

terça-feira, junho 16, 2015

Ouvir
Longe de Cristo sou uma contrafacção de mim próprio. O sermão de Domingo passado, sobre o 9º mandamento ("não mentirás") pode ser ouvido aqui (ou aqui: http://www.igrejadalapa.pt/?q=media/podcasts/o-nono-mandamento).


segunda-feira, junho 15, 2015

Revitalização de Igrejas

[Estou a frequentar a Conferência Ibéria XXI promovida pela rede City To City, da Igreja Presbiteriana Redeemer em Manhattan. Este texto serviu de orientação para a minha participação na conversa sobre revitalização de igrejas, num painel com o Pr. Josué da Ponte e com o Pr. Felipe Assis, moderado pelo Manuel Rainho e pelo Pr. Pedro Silva. Está a ser muito bom. Dura até Quarta-Feira na Igreja da Casa da Cidade, perto de Moscavide - juntem-se a nós!]

Aquilo que acontece na igreja que sirvo, a Igreja da Lapa (nome oficial: Segunda Igreja Evangélica Baptista de Lisboa), pode ser visto como a revitalização de uma igreja. É uma parte do que lá acontece, de facto. Nesse sentido, o nosso exemplo pode ser bom para ilustrar um dos assuntos que nos junta nesta Conferência Ibéria XXI. Quero por isso partilhar alguns dos aspectos que me parecem centrais na nossa experiência, para que ela possa ser útil a todos os que aqui nos juntamos. Vou fazê-lo organizando a minha partilha em quatro tipos de revitalização possíveis de observar no nosso percurso.

Devo abreviar o que aconteceu nos últimos sete anos. Em Outubro de 2007 eu e a Rute fomos enviados pela Igreja Baptista de Moscavide, à qual pertencíamos, para ocupar as instalações de uma pequena igreja que não estavam a ser usadas desde o início dos anos 90. Uma pequena sala na cave com um pequena casa-de-banho e mais uma pequena sala no rés-do-chão eram o que restava da antiga Igreja Baptista de São Domingos de Benfica. Como esta igreja tinha pertencido à Associação de Igrejas Baptistas Portuguesas, a Direcção desta Associação tinha decidido manter-se pagando o aluguer para usar estas instalações como escritório. Na prática isto significava que a sala do rés-do-chão era usada para reuniões e organização de envio de material pedagógico da AIBP, e que o salão de culto, na cave, permanecia enquanto espaço museu. Tudo tinha ficado como tinha sido deixado. Parecia Pompeia. Deu-se a erupção do vulcão e o pó era o único guardião da memória do que até então tinha acontecido.

Eu e a Rute, como enviados missionários da igreja, acabámos logo aí a fazer uma espécie de revitalização da igreja – o primeiro tipo de revitalização de igrejas de que vos quero falar. É a espécie mais fácil. Porque revitalizámos a igreja sem termos de revitalizar as pessoas que lá estavam antes porque nenhuma dessas pessoas se juntou a nós. Mas revitalizar sem vidas concretas não conta. Começámos então de outra maneira, contando com apenas mais uma família, além da nossa, comprometida com essa tarefa de começar uma igreja nova. Em alguns meses contávamos com cerca de 15 pessoas nas reuniões. Acelerando um pouco o relato, o primeiro plano de autonomia da igreja foi adiado e, em vez de renascermos enquanto Igreja Baptista de São Domingos de Benfica em 2011, fizémo-lo em Janeiro de 2012. Éramos doze membros e uma congregação de cerca de 30, 40 pessoas.

Sobre as características dessa comunidade é importante dizer que, tirando um caso, não havia conversões. Éramos um mosaico no que diz respeito à proveniência evangélica (pequena maioria de baptistas, o segundo grupo mais expressivo era de pentecostais e havia alguns vindos dos irmãos) mas um grupo homogéneo de pessoas que se relocalizavam ali. É verdade que a igreja era nova. Mas os seus membros não eram novos na fé. Foi preciso esperar uns meses para que baptizássemos a segunda pessoa que se tinha convertido através do nosso trabalho. Creio que é importante referir isto porque quando se fala em igrejas novas em Portugal receio que na maior parte das vezes (pelo menos na minha observação) seja preciso explicar que a novidade delas é à custa da velhice das outras. Explico. Falar numa igreja nova é fantástico se partirmos do princípio que essa igreja nova significa novas conversões. Mas falar numa igreja nova não é assim tão fantástico quando essa igreja nova se desenvolve à custa de realojar aqueles que estão insatisfeitos com as suas igrejas velhas.

É a minha opinião que uma boa parte das igrejas evangélicas novas em Portugal não são puramente igrejas novas mas igrejas revitalizadas à distância. Explico. Se eu abro uma igreja que serve para ser a igreja nova de pessoas que ao chegarem lá tiveram de sair das suas igrejas velhas, é como se eu estivesse a revitalizar essas igrejas velhas, ainda que ninguém me tenha dado autorização. Quantas das igrejas novas representadas neste encontro são realmente igrejas de novas conversões? Talvez a parte mais considerável seja igrejas novas que relocalizaram velhos membros. A minha tese é que essa é uma espécie de revitalização, ainda que não consentida formalmente. Esta é a segunda espécie de revitalização que quero falar – a revitalização real mas não consentida, que creio já estar a acontecer em Portugal e que não deve ser o nosso objectivo primordial. Não sou contra ela de modo algum. Mas é o que me faz não querer ter um discurso triunfal sobre a minha igreja nova. Antes pelo contrário. Algumas das melhores coisas que acontecem na minha igreja são à custa das piores coisas das outras igrejas. Nesse sentido, em Portugal há muito trabalho de revitalização para fazer mesmo que nunca seja assumido como tal.

Avançando no tempo, devo registar o período de revitalização de igreja mais formal que efectivamente aconteceu. Este é o terceiro tipo de revitalização que quero mencionar e que passa por uma revitalização real e procurada. Em 2014 a Igreja Baptista de São Domingos de Benfica deixou de existir para se juntar à Segunda Igreja Baptista de Lisboa. A Segunda Igreja Baptista de Lisboa passava uma crise longa e estava reduzida a uma dúzia de pessoas num salão onde podem caber duas centenas. Como a história ainda está a ser escrita devo ser cuidadoso. Mas falaria três aspectos para caracterizar a revitalização da 2IBL leva a acabo pela Igreja Baptista de SDB.

Em primeiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque já quase que não havia 2IBL. Já não havia vaidade a que se pudesse agarrar para se dar ao luxo de regatear o seu futuro. Era ser ajudada por nós ou fechar a porta. Digo isto porque olho para várias igrejas que já precisam de ser revitalizadas mas que ainda não largaram aquilo que impede uma verdadeira revitalização: o seu orgulho. Na minha denominação então, este é um problema sério. Para revitalizar é preciso assumir que a vida já quase se foi embora. Isto é muito complicado de ser assumido. Em segundo lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque não foi um Pastor que chegou mas uma igreja com ele. Quando SDB começou a ajudar a 2IBL a maioria esmagadora das pessoas presentes nesse encontro era de SDB. No próprio funcionamento congregacional que temos isso permite que os atritos mais facilmente sejam vencidos por uma dinâmica que não pertence a um Pastor sozinho mas a uma efectiva comunidade nova. Em terceiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque essa revitalização não acontece apenas exteriormente na igreja mas interiormente na fé dos crentes. O que começou a acontecer logo em SDB foi uma espécie de reconversão. E é aqui que quero terminar com uma nota mais pessoal.

Nesta nota pessoal falo do quarto tipo de revitalização – aquela que tem de acontecer dentro de nós. Quando começámos o trabalho em SDB tínhamos o sonho de abrir uma igreja nova. Receber pessoas e pregar-lhes a Palavra. Ocupar o púlpito com uma mensagem que ressoasse nos ouvintes. Encher a pequena igreja. A verdade é que lentamente todas essas coisas aconteceram. Mas no processo de se materializarem esses sonhos, entendemos também que esses sonhos não estavam necessariamente colocados no fundamento certo. Não é por Deus permitir que um sonho nosso se concretize, que esse sonho passa a ser certo. É possível querer ser pastor com a intenção errada. É possível querer revitalizar uma igreja com a intenção errada. À medida que uma igreja se desenvolve, rapidamente entendemos que os momentos de aclamação não são a regra mas a excepção. Para Moisés as lutas mais persistentes da sua missão de libertar o povo serão com os libertados, também para um pastor as lutas mais persistentes são com a igreja pastoreada. Este desabafo serve para dizer: poderemos ter a certeza que estamos a revitalizar uma igreja quando o evangelho nos está a revitalizar a nós. É um processo longo mas seguro. Temos de permanecer constantemente nos fundamentos na nossa fé para que alguma coisa nova possa ser construída. Não podemos sonhar com arranha-céus quando os alicerces estão em mau estado. Não levarão a mal a minha opinião de que os alicerces das igrejas evangélicas em Portugal precisam urgentemente de ser revistos. Se calhar, vamos chegar à conclusão que a igreja que julgávamos estar em condições de revitalizar outras é a primeira a precisar de revitalização. Que Deus nos ajude nesse trabalho!

quinta-feira, junho 11, 2015

Ver
Ontem foi um dia de muita alegria. Voltarei a ele mais tarde se Deus permitir. Para já gostava de vos mostrar o novo vídeo de apresentação da igreja (que podem verificar ai em baixo). Como ontem a Igreja da Lapa celebrou o seu 86º aniversário, aproveitámos também para renovar o seu site. Verifiquem aqui: http://igrejadalapa.pt/. O Senhor tem sido generoso no talento que que deu ao Hugo Moura e ao Tiago Ferreira, para a produção do vídeo e do site. Espalhem estas ligações.


terça-feira, junho 09, 2015

Ouvir
É um alívio Deus ser a favor da propriedade privada. Mas é ainda melhor Deus ir além da propriedade privada e chamar-nos a sermos contra a pobreza. O exemplo de Jesus ilumina-nos para colocar o 8º mandamento (não roubarás) em prática numa atitude de serviço e sacrifício.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (e downloadado aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-oitavo-mandamento).