Dar trabalho
Sei do privilégio que me assiste: sou pago para ler e falar do melhor livro do mundo. Recebo um salário para me dedicar à Bíblia porque quem me paga esse salário gosta tanto de a ler como eu. Aliás, além de gostar reconhece que essa colecção de textos é o testemunho credível do que permite a salvação das nossas almas. É assinalável. Tenho uma profissão no facto de trabalhar para que os espíritos das pessoas não morram. Desempenho um serviço tão humano como qualquer outro mas que creio fundado numa realidade sobrenatural. Ser Pastor é bom.
E podemos pensar que difícil é ter outra profissão. Uma em que somos pagos apenas para desempenhar uma função que não tenha presunção de salvar a alma a ninguém. E frequentemente quando pensamos assim damos por nós desanimados com a tarefa que nos cabe. Com a vocação que seguimos. Com a possível e aparente inutilidade a longo prazo do nosso ofício. Ainda que o registo de entusiasmo possa ser variável, entre momentos em que amámos o nosso trabalho e momentos em que o odiámos. E este raciocínio pode ser encontrado em muitas pessoas dentro da igreja. E é tão mais grave porque, a rigor, é incorrecto. Não existem profissões que não tenham resultados eternos.
Este continua a ser um assunto tão actual agora como foi no momento em que Deus deu o primeiro trabalho a Adão - em Génesis 2:19, dar nomes aos animais. Não é um acaso que tantas perguntas continuem a ser feitas por tanta juventude nos seus vintes e trintas na igreja local à qual pertenço acerca de encontrarem um sentido para profissões que lhes parecem desligadas de qualquer propósito cristão. Terminar a licenciatura pode representar o primeiro tropeço no caminho de conseguir fazer alguma coisa dela num mundo que talvez se tenha convencido demasiado facilmente que a ponte entre estudo e realização pessoal se fazia pavimentada na escolha do curso certo. Há aqueles que estão satisfeitos por trabalharem no que estudaram e até os que estão satisfeitos por não trabalharem no que estudaram. E há os insatisfeitos por uma coisa e pela outra. E, além das várias combinações possíveis deste fenómeno, existem na comunidade que integro na Lapa empresários, artistas, engenheiros, escritores, actores, designers, educadores, consultores, informáticos, entre tantos outros, um bocado à nora de como devem juntar a fé ao trabalho.
O livro do Tim Keller ajuda a lembrar isso. Isso de que não existem profissões que não tenham resultados eternos. De que na ligação trabalho e fé só há uma posição do botão: on. "Every Good Endeavour" saca o título ao parágrafo de apresentação que John Coltrane deu à sua obra-prima "Love Supreme" para confirmar que o Criador até por solos de saxofone se interessa. E para não deixar dúvidas dispara logo à página 33: "A job is a vocation only if someone else calls you to do it and you do it for them than rather for yourself." Ou seja, uma das primeiras lições de perceber o que o trabalho é passa por reconhecer que em último grau não é acerca de nós que o fazemos. "The Bible begins talking about work as soon as it begins talking about anything - that is how important and basic work is." Sem trabalho ninguém se orienta. Porque "work has dignity because it is something God does and because we do it in God's place, as his representatives." A esta altura Keller ainda vai apenas no Génesis por isso podemos imaginar que o caminho até ao Apocalipse apenas marca fundo que não há maneira do trabalho não ser um assunto divino.
É costume dizer que Lutero civilizou a fé (acho que era Unamuno que insistia nisto). Isto é, tornou sagrado o que até então era considerado profano. A repercussão da Reforma foi imensa para uma cultura que deixou de pensar que trabalhos religiosos eram os do clero. Tudo ficou mais misturado mas ao mesmo tempo mais arejado de dicotomias que na realidade eram gregas e nem tanto bíblicas. Os Protestantes não trabalham para se salvarem (a tese de Weber) mas não se sabem salvar sem trabalharem (a tal herança grega que o Catolicismo perpetuou que na Igreja Primitiva fazia que Paulo fosse mal visto por fazer tendas e que na Idade Média colocava os crentes a acharem que as coisas só podiam ser santas se molhadas com água benta). E isto não torna os Países de maioria cristã evangélica livres da tensão entre fé e trabalho. Ela continua aí porque nem todo o trabalho é bom e porque a fé empalidece quando ele aparece como ídolo. Num tempo que anda às voltas com só ser aquilo que se faz ou, no seu oposto, fazer qualquer coisa independentemente do que se crê, o livro de Keller é uma ajuda excelente.
Sei do privilégio que me assiste: sou pago para ler e falar do melhor livro do mundo. Recebo um salário para me dedicar à Bíblia porque quem me paga esse salário gosta tanto de a ler como eu. Aliás, além de gostar reconhece que essa colecção de textos é o testemunho credível do que permite a salvação das nossas almas. É assinalável. Tenho uma profissão no facto de trabalhar para que os espíritos das pessoas não morram. Desempenho um serviço tão humano como qualquer outro mas que creio fundado numa realidade sobrenatural. Ser Pastor é bom.
E podemos pensar que difícil é ter outra profissão. Uma em que somos pagos apenas para desempenhar uma função que não tenha presunção de salvar a alma a ninguém. E frequentemente quando pensamos assim damos por nós desanimados com a tarefa que nos cabe. Com a vocação que seguimos. Com a possível e aparente inutilidade a longo prazo do nosso ofício. Ainda que o registo de entusiasmo possa ser variável, entre momentos em que amámos o nosso trabalho e momentos em que o odiámos. E este raciocínio pode ser encontrado em muitas pessoas dentro da igreja. E é tão mais grave porque, a rigor, é incorrecto. Não existem profissões que não tenham resultados eternos.
Este continua a ser um assunto tão actual agora como foi no momento em que Deus deu o primeiro trabalho a Adão - em Génesis 2:19, dar nomes aos animais. Não é um acaso que tantas perguntas continuem a ser feitas por tanta juventude nos seus vintes e trintas na igreja local à qual pertenço acerca de encontrarem um sentido para profissões que lhes parecem desligadas de qualquer propósito cristão. Terminar a licenciatura pode representar o primeiro tropeço no caminho de conseguir fazer alguma coisa dela num mundo que talvez se tenha convencido demasiado facilmente que a ponte entre estudo e realização pessoal se fazia pavimentada na escolha do curso certo. Há aqueles que estão satisfeitos por trabalharem no que estudaram e até os que estão satisfeitos por não trabalharem no que estudaram. E há os insatisfeitos por uma coisa e pela outra. E, além das várias combinações possíveis deste fenómeno, existem na comunidade que integro na Lapa empresários, artistas, engenheiros, escritores, actores, designers, educadores, consultores, informáticos, entre tantos outros, um bocado à nora de como devem juntar a fé ao trabalho.
O livro do Tim Keller ajuda a lembrar isso. Isso de que não existem profissões que não tenham resultados eternos. De que na ligação trabalho e fé só há uma posição do botão: on. "Every Good Endeavour" saca o título ao parágrafo de apresentação que John Coltrane deu à sua obra-prima "Love Supreme" para confirmar que o Criador até por solos de saxofone se interessa. E para não deixar dúvidas dispara logo à página 33: "A job is a vocation only if someone else calls you to do it and you do it for them than rather for yourself." Ou seja, uma das primeiras lições de perceber o que o trabalho é passa por reconhecer que em último grau não é acerca de nós que o fazemos. "The Bible begins talking about work as soon as it begins talking about anything - that is how important and basic work is." Sem trabalho ninguém se orienta. Porque "work has dignity because it is something God does and because we do it in God's place, as his representatives." A esta altura Keller ainda vai apenas no Génesis por isso podemos imaginar que o caminho até ao Apocalipse apenas marca fundo que não há maneira do trabalho não ser um assunto divino.
É costume dizer que Lutero civilizou a fé (acho que era Unamuno que insistia nisto). Isto é, tornou sagrado o que até então era considerado profano. A repercussão da Reforma foi imensa para uma cultura que deixou de pensar que trabalhos religiosos eram os do clero. Tudo ficou mais misturado mas ao mesmo tempo mais arejado de dicotomias que na realidade eram gregas e nem tanto bíblicas. Os Protestantes não trabalham para se salvarem (a tese de Weber) mas não se sabem salvar sem trabalharem (a tal herança grega que o Catolicismo perpetuou que na Igreja Primitiva fazia que Paulo fosse mal visto por fazer tendas e que na Idade Média colocava os crentes a acharem que as coisas só podiam ser santas se molhadas com água benta). E isto não torna os Países de maioria cristã evangélica livres da tensão entre fé e trabalho. Ela continua aí porque nem todo o trabalho é bom e porque a fé empalidece quando ele aparece como ídolo. Num tempo que anda às voltas com só ser aquilo que se faz ou, no seu oposto, fazer qualquer coisa independentemente do que se crê, o livro de Keller é uma ajuda excelente.








