terça-feira, Novembro 25, 2014

Alexandra Solnado versus Tim Keller
Quais algumas das frases sagradas dos evangélicos? "Cristianismo não é uma religião mas uma relação." Um evangélico em Portugal é por excelência alguém que pega numa ideia feita e a desfaz (ou pelo menos, alguém que o tenta). Porque em Portugal um evangélico é alguém que é, não sendo. Como assim? Em Portugal um evangélico é alguém que tem de explicar que é cristão (como a grande parte dos portugueses ainda se pode considerar) não sendo um cristão (como a grande parte dos portugueses ainda se pode considerar). Por isso ser evangélico em Portugal dá muito trabalho. Ser evangélico em Portugal parece ilusionismo: "now you see, now you don't." Daí a ideia que ser cristão não é uma religião mas uma relação é uma ajuda eficaz. É preciso apresentar a fé na base do seu fundamento (ser cristão é primariamente uma matéria pessoal) e não na base da sua fama (ser cristão não é primariamente continuar a religião dos nossos pais e avós).
Este facto de relação aponta para aquilo que para um cristão evangélico é a centralidade de Cristo. Relação com Deus, encontro com Jesus, decisão por Cristo, todas estas podem ser expressões equivalentes na sua vontade de colocar Deus Filho como essência do que é ser cristão. Talvez entre evangélicos já tenha estado mais na moda falar em "encontro com Jesus" mas diria que devemos continuar agarrados à ideia, mesmo tendo em conta a superficialidade com que a expressão possa ser usada. A lógica é esta: "podes encontrar-te com muita coisa bonita de 2000 anos de Cristianismo, mas se não te encontras com Cristo, esquece". Por isso quero falar-vos de um livro excelente que é "Encounters With Jesus" de Tim Keller. A tónica deste livro continua sendo necessária.
Quem já leu Keller pode reconhecer o modus operandi dele: deslindar com a Bíblia problemas que aparecem fora dela. O resultado é conseguir ser tão profundamente bíblico ao mesmo tempo que cativa pessoas que não estão familiarizadas com a Bíblia (veja-se a facilidade com que se entra em "Falsos Deuses" independentemente de se ter ou não uma religião). Mas esse deslindar é geralmente feito, não pelos seus elementos mais óbvios, mas, antes pelo contrário, por aspectos que parecem secundários  até serem trazidos para a linha da frente pelo argumento sugerido. É comum os cristãos lerem o Keller e dizerem: "conheço tão bem este episódio da Bíblia e nunca o tinha entendido assim - uau!" Isto tem-lhe valido algumas críticas, por supostamente correr o risco de valorizar demais aquilo que não deve ser tão valorizado tendo em conta o assunto principal. E, a esse título, foi interessante ouvi-lo em Paris a dizer que haver um assunto principal num texto bíblico não significa que toda a atenção tem de ir para ele. Nota-se que Keller lê até aqueles que eventualmente não gostam de lê-lo. Mais um ponto a favor dele.
Em "Encounters With Jesus" o habitual dispositivo kelleriano funciona a todo o vapor. Lemos dez encontros de pessoas com Cristo nos evangelhos (principalmente no evangelho de João) para que, enquanto leitores, possamos também encenar um primeiro encontro com Cristo (no caso daqueles que não são cristãos) ou um novo encontro com ele (no caso daqueles que são). Em qualquer um destes encontros Keller diz-nos que há muito mais em Cristo do que nós julgamos, sejamos seus seguidores ou ainda não. Por isso Jesus pode ser encontrado literalmente por qualquer tipo de pessoa. "If Christianity was true, a well-lived life was not found primarily in philosophical contemplation and intellectual pursuits, which would leave out most of the people in the world. Rather, it was found in a person to be encountered in a relationship that could be available to anyone, anywhere, from any background (p. 3)."
Enquanto leitor, continuo rendido à profundidade teológica da escrita do pastor de Manhattan. Keller não sucumbe à simplificação emocional, o que seria fácil quando o ângulo é o encontro pessoal. Em Portugal a Alexandra Solnado dava-nos conta do que Jesus lhe dizia quando os dois se encontravam (com o revelador prefácio do Padre Carreira das Neves, homem de uma teologia tão flexível que dá para todo o tipo de rendez-vous religiosos). No final não saíamos a admirar Jesus tanto quanto admirávamos Alexandra Solnado (com tanta gente no globo e o Filho de Deus foi logo escolhê-la a ela!). Keller poupa-nos das fintinhas da auto-ajuda: encontrarmo-nos com Jesus é dar o destaque a ele. "If there's a God, you owe him literally everything. If there's a God, you owe him far more than a morally decent life. He deserves to be at the center of your life. Even if you are a good person but you are not letting God be God to you, you are just as guilty of sin as Nicodemus or the Samaritan woman. You are being your own savior and lord (p. 37)."
Encontrarmo-nos com Jesus é preciso. E qualificar esse encontro como um evento transformador em que a nossa vida passa a ser satélite da vida que encontrámos em Jesus. Há criaturas que vêem Cristo em torradas ou que o ouvem durante sessões de yoga. O problema desse Messias que é publicitado em encontros tão inusitados é que ele se revela um rotundo incompetente: as pessoas vão até ele sem que ele vá até às pessoas. Nada muda na existência quotidiana destes videntes contemporâneos. Ver Jesus é viver a partir dele. É, como os evangélicos costumavam repetir, "uma relação, não uma religião".


segunda-feira, Novembro 24, 2014

Ouvir
Ninguém está naturalmente na igreja. Quem está na igreja está nela sempre por razões sobrenaturais.
O último sermão da série "Uma igreja livre com raízes" aqui (clicar em cima de aqui)

sexta-feira, Novembro 21, 2014

A minha Marta de oito anos
Faço e toco música publicamente desde 1992 (baza fazer uma compilação janota em 2017 para comemorar 25 anos de rock'n'roll?). Lembro-me de ter para aí uns dez anos e os meus primos André e David interromperem uma brincadeira para quererem ver um programa de música na televisão (acho que o Vivamúsica, não tenho a certeza). E eu pensar, "um programa de música, qual o interesse?" Tudo mudou aí por volta dos doze, treze anos, quando o facto da minha irmã Rute, cinco anos mais velha do que eu, estar em plena adolescência mergulhada nos Bon Jovi, nos A-Ha e nas revistas Bravo, me fez ficar fascinado com aquele universo que até então me passava ao lado. A partir daí tudo mudou. A música passou a ser o meu amor mais fiel. Comecei a imaginar fazer música e ser reconhecido por isso. Comecei a fazer desenhos das bandas que ia ter antes ainda de saber tocar uma guitarra.
A música tornou-se um amor fiel porque a música me fazia sentir amado. Percebo bem o que o Lou Reed quer dizer quando canta que o rock'n'roll salva vidas porque o rock deu uma paixão à minha vida como nenhuma outra coisa até então tinha dado. Correndo o risco de soar piroso, o lema "Religião & Panque Roque" da FlorCaveira pôde ser usado naturalmente porque miúdos como eu sentiam que o Kurt Cobain tinha tanta importância espiritual como o Santo Agostinho. Com alguns anos de música este é também um consolo: saber que ela estará lá independentemente dos circuitos de reconhecimento ou ausência dele. Mais do que ser músico, sou um miúdo do rock'n'roll. Não é bem a mesma coisa.
A bênção que é o rock na minha vida é uma possibilidade constante de maldição (generally that's how it works). Porque o rock deu-me o chão para o meu melhor sprint. Algumas das conquistas mais saborosas existiram na minha vida através daquilo que o rock me permitiu. Habituei-me a pegar numa guitarra para afirmar-me. E isso é inebriante. A música tornou-se menos um prazer em si para ser um pretexto para que outros notassem que existo. Em boa parte surgiu um dilema (que ainda persiste): usarmos a música para nos realizarmos (o que não é mau) versus realizarmos música para que uso dela seja nós mesmos (o que não é bom).
Esta conversa para introduzir agora a minha Marta que hoje faz 8 anos. A minha Marta, como constantemente repito, é uma surpresa. A minha Marta na sua vida pequena traz vida nova à minha (como qualquer um dos outros meus filhos, mas ela de uma maneira muito própria). Uma das coisas que é uma novidade na minha Marta é a maneira como ela canta. A minha Marta canta de alegria. Isso, por estranho que pareça, é um uso da música muito pouco dominado por mim. Aos 37 anos ainda estou a dar os primeiros passos nessa disciplina de cantar a partir da alegria. Por exemplo, aos Domingos quando voltamos da igreja não é raro ela vir a cantar no carro, não para mostrar a voz, não porque ficou entusiasmada com um cântico novo que ouviu pela primeira vez, mas porque, suprema surpresa!, está alegre. Esta manifestação muito simples é uma verdadeira visitação de anjos para mim. É uma língua que desconheço mas que quero falar.
A minha Marta, entre outras coisas maravilhosas, tem-me ensinado aquilo que prego bastante do púlpito mas que nem sempre sei viver fora dele: Deus criou-nos para a alegria. A alegria é o meio e o fim da nossa existência. É o que nos faz caminhar e é o destino final. A alegria é afirmar na prática que nos sentimos pequeninos em relação à beleza das coisas e que isso necessariamente suscita uma resposta de nós. Por isso louvamos. Fomos criados para ter alegria em Deus que nos criou e nos deixarmos deslumbrar com as coisas que ele criou. A minha Marta tem-me trazido a ortodoxia cristã mais quotidiana. Quando canta não para se provar a si mesma mas quando canta porque acabou de provar que Deus é bom e por isso vai dar uso aos seus pulmões. Agradeço a Deus pela minha Marta e quero ser mais como ela.


quarta-feira, Novembro 19, 2014

Uma contemplação pragmática
Neste mergulho progressivo nos Puritanos impressiona-me a profundidade teológica deles, completamente integrada numa doutrina que se viva na prática. Há uns anos se entrasse à bruta na literatura puritana provavelmente formaria uma opinião negativa, etiquetando-a de especulativa e de show off intelectual. Os Puritanos são, recordando o refrão do Sam The Kid, como o hip-hop - ou se percebe ou nem vale a pena tentar gostar. E é quando começam a sacar das calculadoras para apreciar a dimensão do que Deus faz que as coisas se tornam mesmo divertidas. A teologia puritana não é uma ciência exacta, mas não rejeita querer ser exactamente uma ciência na medida em que acredita que conhecer Deus pede pelo nosso cérebro todo e por muito mais.
Vamos a Cristo uma vez para a justificação. Mas vamos a Cristo vezes sem conta para a santificação. O que nos salva acontece de uma vez só, quando na nossa conversão somos declarados justos diante de Deus através do sacrifício expiatório de Cristo por nós. Mas a qualidade da nossa salvação é treinada através da santificação num aperfeiçoamento crescente. Para isso temos de ir constantemente àquele que permite que sejamos salvos, Cristo. Essa ida só é possível através do Espírito Santo, claro.
É preciso ter uma visão clara da meta da nossa santificação, para não perdermos tempo em lugares que nada farão por nós. Cristo é o único que importa para nos salvar mas também para continuar essa salvação em nós, na santificação. "Many people today are consumed with looking inward at their faith rather than outward, to the object of their faith", explicam Joel Beeke e Mark Jones. Para o grande John Owen um dos privilégios do crente nesta vida e na outra é contemplar a glória de Cristo. Logo, Cristo é a mira natural dos olhos de quem crê nele. E não é fantástico saber que nessa contemplação de Cristo somos transformados? Contemplar Cristo é uma tarefa bem prática na medida em que muda aquele que contempla. Uma contemplação pragmática.
Façamos uma pergunta bem pirosa à Daniel Oliveira: o que dizem os olhos daquele que contempla Cristo? Dizem que Cristo à direita do Pai é o terreno da nossa justificação e dizem também que Cristo em nós é a fonte dos frutos que acompanham a nossa justificação e a evidência da nossa união com ele. A fé compromete a pessoa total do crente à pessoa total de Cristo. Por isso uma das melhores definições do que está a acontecer quando alguém tem fé é um enamoramento por Jesus - vive-se de um modo em que ele é a nossa vida toda. É natural que uma pessoa que se tornou cristã pareça pirada aos olhos de quem não é cristão. Afinal há uma obsessão por existir em conformidade completa com a imagem de Cristo - a santificação quotidiana é isto.
Mas vamos até à origem da santificação. Se somos santificados é porque obedecemos a um padrão que começa em Deus e na sua personalidade. Somos chamados a ser santos porque ele é santo. Há duas coisas que decorrem do facto de Deus ser santo. A primeira é que isso significa que Deus é diferente daquilo que criou. Uma coisa é Deus, outra coisa é a natureza - Deus está separado da sua criação. A segunda é que não podemos chegar a Deus se não estivermos santificados. Estas duas coisas são muito importantes para uma época em que os homens ao divinizarem a natureza, acaba por se divinizar a si mesmos. Esta bagunça panteísta só é possível por causa de uma cegueira terrível à personalidade divina. "Those who have a weak view of God's holiness are prone to fashion God after their own image. We must return to the biblical view of God's holiness."
Não precisamos de ficar desanimados com a desproporção que nos separa da perfeição de Deus. Porque, graças ao que Cristo fez por nós, estamos num estado de perfeita santidade diante de Deus, ainda que não numa condição de perfeita santidade. Por isso a nossa santidade precisa de ser continuamente completada (1 Tessalonicenses 5:23) - há simultaneamente um já e um ainda não. Parte essencial deste processo é o arrependimento. O arrependimento é mais do que remorso. O arrependimento até pode começar com remorso mas não fica por aí. O remorso não tranforma uma vida, o arrependimento sim. O arrependimento não lamenta o mal apenas mas é uma mudança do pecado para a justiça. Santos que nunca se arrependem não são santos. Uma vida de muita santidade é uma vida de muito arrependimento.
Os cristãos evangélicos não têm nada contra exemplos de homens santos. Mas os cristãos evangélicos, muito diferentemente dos católicos romanos, sabem que é um desperdício gastar tempo vital olhando para homens santos quando Cristo é verdadeira fonte de santidade. Explico melhor citando Beeke e Jones: "In Christ we have not only a perfect example of a total life of true holiness, but he is also the source of our holiness. He makes believers holy." Esta convicção é o que faz que a justificação seja entendida de modo distinto entre reformados e romanos e também a santificação. Os homens santos valem a pena por nos indicarem o exemplo de Cristo. Um reformado tem sempre um problema com a religião popular católica porque ela tende a terminar nos exemplos humanos e não em Cristo. Muitos santinhos e santões nos corações das pessoas e muito pouco Cristo. Quantos mais santinhos e santões e quanto menos Cristo, menos santidade concreta.
Por outro lado, e para não parecer que um reformado não tem nada de bom para dizer acerca de Roma, os puritanos trazem-nos uma palavra que, em abono da verdade, não tem sido abandonada pela Igreja Católica Romana: mortificação. Um genuíno cristão vivifica-se e mortifica-se. Vivifica-se obedecendo a Deus, e mortifica-se matando o pecado. Evangélicos, quando foi a última vez que ouviram um sermão que usasse a palavra mortificar? Temos trabalho a fazer!
E ainda, para esclarecer que os puritanos, como qualquer razoável reformado, não propunham uma religião nova que começasse no Século XVI e XVII aquilo que tinha fica interrompido nos primeiros séculos de história da igreja. "In addition to reading and meditating on the Scriptures, the Puritans emphasized prayer and work (ora et labora) every bit as much as the ancient monastic orders of the pre-Reformation Church." A Reforma restaurou ao cristianismo medieval o sentido de santidade do trabalho comum. Libertou a devoção do mosteiro para o mercado. Isto teve muito impacto nas lojas mas também nos lares. Por exemplo, a pureza sexual que estava idealizada no celibato dos religiosos foi restabelecida no casamento. Os Puritanos viviam para ser santos porque a santificação é a preparação para o Céu. Quando não temos interesse em ser santos, revelamos que não temos interesse no Céu. Se não nos interessamos pelo Céu agora, sendo santos, não é depois que o vamos achar o máximo.













[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On Living In Christ" do calhamaço "A Puritan Theology", de Joel Beeke e Mark Jones.]

segunda-feira, Novembro 17, 2014

Ouvir
Não é fantástico que, na hora de reflectir sobre a qualidade da sua vida, aquilo de que Moisés se lembra seja os seus pecados? Viver bem não é valorizar o bem que fazemos. Vivemos bem quando valorizamos o que Deus faz em nós, perdoando o mal que fizemos.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Novembro 14, 2014

Hipona


















Fez ontem 1660 anos que nasceu este homem que amo: Agostinho.
A vitória da Itália é a derrota da italiana
Os bons amigos não são só aqueles de quem gostamos. Os bons amigos são também aqueles que nos ensinam o gosto. O meu amigo Samuel tem sido esse bom amigo que também me ensina o gosto. Sobretudo no que diz respeito ao cinema. O Sami partilha comigo um gosto pelo cinema americano de acção e de terror, géneros pouco dados à erudição. Mas o Sami, que vai muito além desses géneros, tem-me levado ao cinema clássico, quer americano quer de outra parte qualquer do mundo. Como prenda de aniversário ofereceu-me sete filmes que vão fazer pelo meu aperfeiçoamento. Ontem vi o primeiro, "Senso" de Luchino Visconti. O meu desconhecimento sobre cinema italiano é grande (e imperdoável!). Só há 2 anos, por exemplo, e pela amizade do Sami, vi o Vittorio de Sica. "O Ladrão de Bicicletas" (como se perdoa alguém que só o vê aos trinta e muitos?) e o "Umberto D." Coisas maravilhosas.
Em "Senso" de Luchino Visconti uma das coisas mais interessantes é a luta dentro da cabeça da Condessa Serpieri. Podemos dizer que, para todos os efeitos, "Senso" é um filme de guerra onde as piores trincheiras são escavadas na personagem principal (a esta altura o mais fácil para mim é divagar sobre o modo como as mulheres italianas, por comparação com as portuguesas, parecem talhadas pelo Criador para um destino intensamente mais dramático e esteticamente esmagador - seria possível vermos uma portuguesa num papel semelhante sem parecer emproada?). A Condessa é alguém divida entre actos heróicos (colaborar com a resistência italiana contra o invasor austríaco) e actos vergonhosos (cometer um adultério com um Oficial Austríaco). À medida que o filme prossegue, prossegue também uma falência moral na Condessa. O Oficial Austríaco acabará por pedir à sua amante que o ajude a subornar um médico para que o declare incapaz para a batalha. Quanto mais a Condessa se revela torturada por se corromper progressivamente, mais o Oficial Austríaco se revela confortável na sua ausência de escrúpulos (pelo menos, até certo ponto). "Senso" mostra que geralmente o pecado cresce deitando fora todo o bom-senso. E que qualquer diva se pode apaixonar por um rafeiro.
Numa das primeiras cenas, aquela que mostra o desenvolvimento do romance num passeio que Oficial e Condessa dão pela noite veneziana, o Oficial cita um poema que revela que a paixão genuinamente arrebatadora ignora as suas consequências, que os amantes no Dia do Juízo Final não querem saber se lhes corresponde o céu ou o inferno, mas apenas da sua própria paixão. Esta alusão funciona no filme como um prenúncio. Há uma marcha das cenas pacíficas de Veneza ocupada para as cenas da preparação e eclosão da batalha nas planícies rurais. A guerra que acontece em Itália é a guerra que acontece no coração da Condessa. Mas, tal como na poesia citada, os amantes parecem indiferentes ao alistamento correcto. O bem e o mal, como o céu e o inferno, tornam-se paisagens que não são habitadas mas apenas décors para o romance. O genuíno romance rejeita a realidade.
Na arte romântica esta continua a ser uma questão de sempre: se os amantes criam uma nova lei para si, quem os poderá julgar? No caso de "Senso" esse julgamento não desaparece totalmente porque acontece dentro da consciência da personagem. Nesse sentido, a paixão romântica cava a sua própria sepultura. Quanto mais se entrega a uma norma criada por si mesma, melhor se apercebe que morrerá às mãos dessa mesma norma. A Condessa ama cada vez mais o Oficial Austríaco na mesma proporção que se detesta cada vez mais a si mesma. Essa é a razão pela qual as grandes paixões românticas pedem tanto o arrebatamento como a auto-comiseração. O romântico é o herói e o seu próprio carrasco, o chefe e o choninhas. No final, a vitória de Itália é a derrota da italiana.
Este fundo moralista de "Senso" é uma das suas vitórias. Creio que hoje os filmes perderam esta fibra moral. Não quero trazer a cantilena estafada do "hoje está tudo perdido". Mas a verdade é que o cinema parece ter ficado com satisfeito com mostrar e parece ter ganhado uma incapacidade de reflectir. Nada tenho contra o bom entretenimento fílmico. Todavia diria que grande parte do que acontece quando um filme nos arrebata passa necessariamente por uma emoção que tem o poder de nos transformar. E creio que qualquer emoção que nos transforma é por natureza espiritual, da ordem do que é bom, do que é moral, do que desejamos para nós. Para mim a magia de "Senso" é começarmos seduzidos por uma figurona feminina e terminarmos com misericórdia por ela. Estarei eventualmente a exagerar na minha leitura cristã das coisas, mas por mim é para isto também que o cinema serve. Percorre-se um trilho estético que traz uma ética. Admirável filme, Sami!


quarta-feira, Novembro 12, 2014

Ouvir
O Pr. Daniel Lopes tem uma experiência única de aliar juventude à liderança de uma igreja com 100 anos. Pregou-nos sobre uma igreja livre com raízes. Ouçam o sermão aqui (clicar em cima de aqui).

terça-feira, Novembro 11, 2014

Ainda sobre a partida do Pr. Oliveira
A partida do Pr. Oliveira é extraordinariamente pedagógica. Deixem-me começar pelo nível mais elementar e desinteressante. A partida do Pr. Oliveira é pedagógica a nível pessoal porque nos coloca no nosso devido lugar. Há uma tendência terrível na idade da comunicação massificada de querermos celebrar a vida de alguém não tanto pelo valor da vida que celebramos mas mais por aquilo que vamos dizer publicamente acerca dessa vida. Como se houvesse um desafio para o melhor texto partilhado na net sobre a morte de alguém. Mas um homem como o Pr. Oliveira deixou tantas histórias que a sua vida se democratiza de um modo que ninguém se arma em imperador. O Pr. Oliveira foi o meu líder espiritual dos meus 8 aos meus 22 anos. Baptizou-me. Ofereceu-me a Bíblia branca no meu casamento. Tenho tantas histórias com ele. Mas rapidamente nos apercebemos, no seu funeral apenas, que a fonte de experiências com ele é inesgotável. O Pr. Oliveira, imitando Cristo, deu a sua vida aos outros. E por isso os outros estão cheios de histórias dele. Ninguém tentará a melhor história porque ninguém cairá na asneira de sequer tentar insinuar que teve mais do Pr. Oliveira que todos os outros. O Pr. Oliveira teve uma vida tão rara de dedicação às pessoas que não ousaremos dar a entender que o Pr. Oliveira se dedicou mais a nós que aos outros.

Mesmo nestas últimas semanas de grande sofrimento físico as histórias multiplicam-se. Conto duas apenas entre várias que me impressionaram. A primeira, contada pela sua própria esposa, Irmã D. Lídia. Nos últimos dois dias o Pr. Oliveira já não conseguia falar. O seu mal-estar era evidente e só conseguia obter um pouco de alívio ouvindo aquilo pelo que os seus ouvidos sempre se deliciaram: a Palavra de Deus. Isto significou que a D. Lídia passava o tempo a ler textos da Bíblia e a cantar hinos. Sem interrupções. Claro que volta e meia tinha de parar porque estava exausta (até pelas noites seguidas que não dormia). O Pr. Oliveira não se ficava: imediatamente a cutucava para ela continuar. O Pr. Oliveira não pregava do púlpito. Pregava do peito. A Palavra foi o seu remédio a vida inteira. Quando estava são e quando estava doente.
A segunda história é daquelas raras no imaginário evangélico. Como os evangélicos são pessoas da sola scriptura, incutem uma reserva prudente a relatos demasiado epifânicos. Mas esta história é uma história do momento anterior à sua morte. Nos últimos dois, três dias, o Pr. Oliveira perdeu as forças de um modo que já nem conseguia puxar o lençol da sua cama para cima. Não conseguia beber. Não conseguia ir à casa de banho. Pouco antes do último suspiro abriu um sorriso rasgado (o Pr. Jónatas Figueiredo disse com razão que o Pr. Oliveira foi o homem mais fotogénico que conheceu porque nenhum retrato o registava sem o seu sorriso omnipresente). Abriu um sorriso rasgado e aplaudiu. Bateu palmas com as mesmas mãos que já não conseguia levantar. O Pr. Rui Sabino sugeriu no sermão que provavelmente viu o que Estêvão viu na hora do seu martírio: o seu Senhor Jesus na glória. E partiu em paz.
Esta é uma história que nos arrepia. E com toda a justiça. Perdoem-me a comparação desajeitada mas se os baptistas portugueses fossem o Vaticano o Pr. João Rosa de Oliveira rapidamente seria canonizado.

É fácil para pastores jovens na idade da internet irem buscar os modelos ao estrangeiro. No meu caso a influência recente do Pr. John Piper é fundamental. Mas a verdade é que é compreensível eu querer apanhar a onda do desejo de Deus deste pregador americano porque tive um pregador português que a surfou até ao fim. O hedonismo cristão (termo cunhado pelo Pr. Piper para resumir que Deus é mais glorificado quanto maior prazer temos nele) foi a vida do Pr. João Rosa de Oliveira. O Pr. Beto Marques resumiu na perfeição o Pr. Oliveira dizendo acerca dele ter sido o homem mais feliz que conheceu. Esta é a mais pura das verdades. A herança que nenhum dinheiro consegue comprar e que o Pr. Oliveira deixou a todos os que o conheceram foi uma alegria insuperável em Cristo. Até ao último fôlego o Pr. Oliveira não só falou de Cristo como quis mais dele. Foi um insatisfeito até ao fim porque sabia que o seu apetite só estaria saciado na presença do próprio Cristo. Por isso fez uma coisa que nunca tinha visto num funeral: escreveu uma carta às pessoas presentes na cerimónia fúnebre. Qual o resumo dessa carta? Que agora estava feliz, muito feliz, infinitamente feliz.

O Tiago Branco foi uma pessoa incrível nestes últimos anos de vida do Pr. Oliveira. Faço parte da mesma geração de jovens da Igreja Baptista de Queluz que o Tiago faz. Sou completamente parcial para falar do Tiago porque o Tiago é um amigo meu daqueles. Já no Verão contei uma história sobre o Tiago, no socorro que deu a um jovem que se atrapalhou no mar de Água de Madeiros. O Tiago está a terminar o curso de medicina depois de se ter formado em Química. O Tiago já fugia dos elogios que o Pr. Oliveira lhe fazia pela sua companhia constante em consultas, tratamentos e seguimento complementar que lhe prestava. Hoje voltou a fugir do elogio que lhe fiz pessoalmente. Mas o Tiago não pode fugir de um facto. Deus usou o Tiago para devolver numa pequena proporção ao Pr. Oliveira aquilo que o Pr. Oliveira fez aos outros durante a sua vida. O Tiago dedicou-se ao Pr. Oliveira num gesto de retribuição simples por toda a dedicação que o Pr. Oliveira nos deu. Isto é muito importante porque foi isto que o Senhor Jesus disse que ia acontecer entre os cristãos e que ia fazer levantar as orelhas dos que não crêem. Vocês vão amar-se e os outros vão dar conta e perceber que esta história do cristianismo é verdade. O Tiago Branco serviu de Pr. Oliveira ao Pr. Oliveira. Que tesouro. Tenho muito orgulho no meu amigo Tiago Branco e creio que ele me representou a mim e a toda a nossa geração nessa dedicação.

O Rui Sabino é o Pastor da Igreja Baptista de Queluz e um homem à altura da herança do Pr. Oliveira (e também da herança relevante do Pr. António Miguel Pires, que foi o sucessor do Pr. Oliveira). O Rui é também um amigo da minha juventude (os baptistas são meia dúzia de famílias). Quantos amigos da nossa juventude é que legitimamente podemos admirar? Não sei mas duvido que sejam assim tantos porque geralmente a intimidade previne grandes deslumbramentos com o que temos como conhecido. Acontece que o Rui é o jovem que já conhecia e muito mais. É um homem fiel à Palavra, corajoso e íntegro, firme e audaz. Deus tem uma soberania do mesmo tamanho do seu sentido de humor. O Rui veio ser o líder espiritual de uma igreja que conheceu perto sendo que hoje já não é o miúdo que Queluz via de cabelo comprido e com que as miúdas facilmente simpatizavam. Hoje é o pastor. Aquele que aponta para Cristo. A igreja precisava dele e é bom ver o rebanho apascentado.

Estas notas falam sobre homens. Não precisamos do sistema de quotas para as mulheres porque os cristãos não separam o que Deus junta. Mas dizendo isto quero notar o óbvio que nem sempre fica claro para todos. Não haveria Pr. Oliveira sem D. Lídia. Não haveria Tiago Branco sem Margarida. Não haveria Rui Sabino sem Adriana. O retrato do casal nestas notas ilustra perfeitamente o que quero dizer. Temos de tratar agora da D. Lídia.


Espreitem como foi há um mês



Já estamos a preparar o de 2015! O trabalho videográfico foi da Workmove.

segunda-feira, Novembro 10, 2014

1934-2014
Descansa no Senhor o nosso querido e muito amado Pastor João Rosa de Oliveira. Coloquem nas vossas orações o consolo da sua esposa, Irmã D. Lídia.


sábado, Novembro 08, 2014

Novembro na Lapa



Trabalho videográfico da Sara Falcoeiras.

quinta-feira, Novembro 06, 2014

O nosso simpático pastor senhor Peacock
Esta é uma questão recorrente no meu ministério pastoral: até que ponto as minhas convicções doutrinárias reformadas atrapalham a centralidade de Cristo? Tentando despachar a questão em pouco tempo, direi que as minhas convicções doutrinária reformadas são a consequência da centralidade de Cristo e não a causa. Ou seja, e trocando isto por miúdos, o meu (tremam que vou usar a palavra monstruosa!) calvinismo existe por causa de Cristo ser o fundamento. Não sou (tremam que vou usar outra vez a palavra monstruosa!) calvinista para ter um Jesus à minha maneira mas sou (tremam uma terceira vez que vou voltar a usar a palavra monstruosa!) calvinista porque a teologia reformada é a que apresenta Cristo como central sem qualquer cedência às mariquices dos nosso tempos (disse-vos que ia trocar o discurso por miúdos). O cristianismo é acerca da liberdade total de Deus para ser o centro da história e a teologia reformada não pestaneja para afirmar isto. É dificíl? Certamente. Mas a Bíblia não é para os fracos de coração. Desde que Deus se revela em palavra escrita que há uma mensagem implícita a passar: essa mensagem é deal with it!
Tendo dito isto, não vivo para fazer calvinistas. Quantas vezes já o disse e escrevi antes? Por exemplo, quando alguém se junta à Igreja Baptista da Lapa certamente não tem de ser calvinista. Volto a repetir: o nosso JC é Jesus Cristo e não João Calvino. Quem se junta à Igreja Baptista da Lapa certamente tem de se reconhecer na sua Declaração de Fé, que sendo um documento humano é aquilo que serve para dizer que o caminho a fazer é determinado por Deus e pela sua Palavra. No dia em que o Pastor pregar um evangelho que seja estranho ao bíblico, àquele reconhecido na Declaração de Fé, fora com o Pastor. E fora com qualquer membro da Igreja. Quem manda na Igreja é Cristo e não os homens, venham eles com maiores ou mais pequenos emblemas teológicos.
Mas voltando à primeira questão diria que muitas vezes ela se me coloca de um modo injusto. Até porque constantemente falo e escrevo acerca do assunto. Deixem-me dar um exemplo. Imaginem que alguém me tinha dito que no último disco dos Altíssimos Arautos Atalaias (um nome inventado para uma banda inventada que supostamente é constituída por cristãos) se cantava acerca de que o adultério é bom. E imaginem que, sobre isto que me diziam, eu passava a dizer que ouvi dizer que os Altíssimos Arautos Atalaias cantam no último disco que o adultério é bom. E imaginem ainda que ao dizer isto a outra pessoa, ela me perguntava: mas já ouviste o último disco dos Altíssimos Arautos Atalaias? Pergunta à qual eu respondia: não, porque para mim chega dizerem-me que eles dizem e não preciso de confirmar nas próprias palavras dos Altíssimos Arautos Atalaias. Ora isto é o que muitas vezes acontece quando o assunto da teologia reformada aparece como se fosse um segredo trancado no cofre. O que a Igreja Baptista da Lapa prega não está disponível aos ouvidos de qualquer clique na página online dos sermões? (Aqui.) O que a Igreja crê não está disponível ao clique na Declaração de Fé do site? (Aqui.) Por isso valorizamos tanto a questão do escrutínio na nossa comunidade. Não queremos ter nada a esconder. O nosso negócio é Cristo. E Cristo pregado publicamente.
Esta voltinha toda para partilhar convosco um blogue que tenho mantido sossegado e que é um blogue de trabalho. Chama-se "Lendo as Institutas" (clicar aqui). Nele escrevo sobre as Institutas de João (ai, caramba, tremam pela última vez porque vou usar a palavra monstruosa!) Calvino. Na prática são fichas de leitura, não dão uma navegação muito agradável. Há mais de um ano que o mantenho. Nesse blogue cometo, parece, o supremo crime de ler este reformador e de tentar perceber aquilo em que ele cria. Estaremos nós preparados para avaliar um homem a partir das suas próprias palavras?


quarta-feira, Novembro 05, 2014

Pedal de delay
Numa nota menos positiva diria que a música da conferência em Paris era desequilibrada. Era notável a heterogeneidade do grupo musical, mosaico bonito de ocidentais, africanos e asiáticos. Mas o estilo era bastante mais monocromático: o fatalmente omnipresente praise contemporâneo. Não quero com isto dizer que não há nada de bom na música cristã de adoração dita contemporânea. É verdade que só o uso da palavra contemporânea devia fazer soar o alarme. Eugene Ionesco dizia que a pessoa mais ultrapassada é aquela que se esforça por ser do seu tempo. Mas adiante. Nos últimos anos reconciliei-me com Michael W. Smith, assisti a um concerto dos Hillsong, e até fiquei fã de alguns dos hinos mais recentes do dito praise ("Christ Alone Cornerstone"!). Todavia quero deixar um recado a esta tribo.
Músico que tocas num serviço de culto: se te estás a esfalfar para soares a uma versão suburbana de segunda categoria dos Sigur Rós, Deus diz-te "pára!" Desliga o pedal de delay e respira fundo. Senta-te um bocado. Ouve-me agora com calma. O mais provável é que estejas mais absorvido com o que queres provar aos outros acerca da tua cultura musical pop do que pela tarefa de dirigires os outros no louvor ao Criador. Tira uma folga de seis meses da escala da tua igreja. Lê os Salmos durante esse tempo. Dá uma espreitadela ao requiem de Mozart. Traz novos mundos ao teu mundo islando-açucarado. Acredita!
Como é que este fenómeno se dava na conferência em Paris? A banda trazia novas versões de hinos clássicos que eram tão rebuscadas e exigentes que o tempo do canto era passado a atinar com a adaptação. No final não havia a conciliação melódica necessária para que nos conseguíssemos concentrar no objecto da adoração. Esse é o objectivo de adorar, não é? Foco para o que é adorado e não para a performance dos adoradores. Cantou-se o "How Great Thou Art" de uma maneira tão esquartejada em rodelinhas emo-hipsters que me senti capaz de roubar o machado e decapitar a vocalista. Estou a exagerar um bocadinho mas ficam com uma ideia.


terça-feira, Novembro 04, 2014

Ouvir
A Reforma Protestante é importante porque nos aproxima de Cristo, não porque nos afasta dos outros.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, Novembro 03, 2014

Keller e o kellerista
O ambiente de uma conferência europeia é diferente de uma conferência americana. Por um lado sinto-me mais em casa numa conferência europeia. Por outro não. Os europeus não têm aquele profissionalismo que geralmente nos sobressalta como a possibilidade de ser artificial, no qual os americanos são especialistas. Mas a ausência desse profissionalismo não é necessariamente uma virtude. Por sincera que seja a demonstração do desajeito europeu, há alturas em que gostávamos de maior mão nos acontecimentos. Tenho uma certa ternura pelo europeu do norte, alto e desengonçado, desconfortável no seu próprio corpo, que dirige um grupo de quinhentas pessoas sem saber o que fazer com as mãos. Cada segundo dele à frente do auditório parece um milagre. A qualquer momento pode ser que se desintegre mas, voilá!, permanece. Com toda a humilde beleza da cena, não tenho todavia no europeu o meu modelo de maestro. Prefiro algum risco de artificialidade mas com uma condução mais segura do programa. Sou, sem remorsos, um europeu americanizado. E com isto, não digo que a conferência correu assim, à ginga solta. No primeiro dia senti as coisas mais bambas mas de resto tudo seguiu o seu rumo. Formalmente foi muito boa. Formalmente e informalmente. Foi muito boa, ponto final.
Pareceu-me que os europeus, nessa contenção natural, desemocionam consideravelmente o ambiente de uma conferência. Não há grande show. O Tim Keller não era cercado por uma multidão de ouvintes ansiosos por um autógrafo num livro ou por uma fotografia (verdade seja dita que numa conferência americana, com o show mais assumido, é raro o prelector chegar a conviver no espaço dos espectadores). Fui fazê-lo, como é óbvio. E parece-me que fiz parte da excepção à regra. Quando chegámos na Segunda-Feira à belíssima Igreja Americana, junto ao Sena, vi-o a entrar e o meu coração bateu. Sim, sou um fanboy a sério. No segundo dia, passou por mim quando não contava com isso e não fui capaz de o abordar. Só na Quarta-Feira, e com a minha palpitação a disparar, fui ter com ele. Assumi o meu provincianismo e disse que queria o pacote completo: falar com ele, um autógrafo e uma fotografia. Ele respondeu amorosamente.
Explicava ao meu companheiro Rui Ribeiro que por trás deste saloiismo está uma vontade sincera de ser bom mordomo das oportunidades que Deus me dá. Não fiz o esforço de andar de avião para me armar em mete-nojo e não dizer pessoalmente ao Tim Keller a bênção que ele tem sido na minha vida, na vida de pessoas da minha igreja, e para muitos não-crentes que têm lido e apreciado o "Falsos Deuses". É nesse sentido que cada vez desconfio mais de uma reserva, ou mesmo humildade, europeia. Porque por trás dela pode existir um sentimento de superioridade moral.
Deixem-me dar um exemplo. Na minha experiência com crentes brasileiros todos assumem com muita naturalidade que é preciso tirar um retrato com alguém que conhecem e admiram. Claro que uma profusão de imagens pode gerar um folclore tão superficial como idólatra (saber retratar também passa por saber aquilo que não deve ser retratado). E, no meu caso, devo estar especialmente atento a esse risco. Mas a ausência de imagens pode vir de um lugar de igual ou pior vaidade. As fotografias com brasileiros ajudaram-me a tirar fotografias com americanos.
Agora menciono brevemente aquilo que os olhos não podem ver. Como Kellerista que sou, estou razoavelmente dentro do material. Grande parte das palestras que o Pr. Tim deu, já tinha alguma familiaridade com elas (sobretudo por conta desse importante manual eclesiástico que é o "Center Church"). Ainda assim, no que falou trouxe-me novidade e reflexão. Falamos de um homem que alia discernimento a ousadia como conheço poucos a aliar. Peço essas mesmas características para mim não para que seja mais parecido com o Tim Keller. Mas para que seja mais parecido com Cristo.


sexta-feira, Outubro 31, 2014

Para o sermão de Domingo e porque hoje é dia da Reforma!
Estou convicto que há um equívoco grave a acontecer no contexto evangélico. Quando os evangélicos desvalorizam a ligação à Igreja em termos pessoais e em termos históricos, aceitam para si uma catolicidade coxa. Uma universalidade manca. Nenhuma igreja evangélica se pode orgulhar de, por causa da Reforma, poder fazer aquilo que lhe dá na gana. Porque desvalorizar a ligação à Igreja de todos os tempos é desvalorizar o valor da salvação de Cristo. Cristo salva pessoas desde que o mundo é mundo. E os evangélicos não podem aceitar um salto prático do primeiro ou segundo século para o século XVI. Celebrar a Reforma não é celebrar os Reformadores como os genuínos seguidores dos apóstolos. Celebrar a Reforma passa por, correctamente!, celebrar os Reformadores como esclarecedores providenciais da fé dos apóstolos. A fé de um evangélico é necessariamente católica. A mais católica de todas porque se centra em Cristo, o único que é capaz de salvar qualquer tipo de pessoa em qualquer tempo e em qualquer lugar. Ser reformado é defender a melhor catolicidade. Aquela que por ser fiel à revelação divina na Bíblia se coloca na posição de defender melhor o que Cristo deixou à igreja. O catolicismo confia na tradição da igreja para determinar a voz a Cristo na Palavra. A catolicidade confia que só o Cristo revelado na Palavra pode orientar a tradição da igreja. Somos católicos por causa da Cristo. É completamente diferente de acreditarmos em Cristo porque somos católicos. A Reforma fez-se para colocar estes pontos nos is.
Do mesmo modo como hoje tudo o que é antigo adquiriu um charme súbito, estou convicto que o catolicismo romano vai atrair cada vez mais evangélicos que não compreendam a sua alegada fé reformada. Do mesmo modo como hoje a moda manda homens de trinta anos albergarem barbas iguais aos seus tetravôs, o catolicismo romano ganha uma aura de cool pelo cheiro a antigo. Isto já começa a ser visível em muita juventude protestante, seduzida por práticas arcaicas porque, naturalmente!, se fartarm das igrejas com serviços de culto ocos dirigidos a powerpoints pirosos. A lectio divina parece fazer o que a batida reunião de oração espontânea não consegue. Mas temos de ver bem. O que se perde quando se perde a Reforma Protestante é aquilo que ela bem defendeu. A centralidade de Cristo. Deixem-me colocar as coisas de uma forma radical: se ainda não percebeste o que é a justificação pela fé, não és um evangélico. És apenas alguém que se tenta salvar a si mesmo de uma maneira romana dentro de uma igreja reformada.


A minha inesperada paixão por Paris
Não gosto de gostar de França mas Paris sabotou esta inclinação. Estive em Paris de Segunda-Feira a ontem, Quinta. Paris é uma cidade monumental. Foi feita num tempo (que levou muitos tempos) em que deixar-se encantar com a grandeza ainda não era um crime. Nesse sentido, e garantindo o meu apreço pela democracia, devo reconhecer que um sistema democrático dificilmente faz justiça a uma cidade imperial. Uma cidade imperial converge para um símbolo maior de majestade que a democracia não consegue oferecer. Não há realeza na maioria. Quando passeamos por Paris conseguimos imaginar a emoção de um desfile real e desejar ter lá estado. O triste progresso da extrema-direita em lugares como a França vem de uma saudade espicaçada pela monumentalidade das edificações parisienses que as urnas nunca conseguirão honrar no coração dos franceses. Não é só uma questão de clareza ideológica, é também uma questão de nutrição emocional de um povo.
Creio também que Paris transmite um qualidade urbana para a qual seremos chamados na Sião celeste. A Cidade das Luzes ensina-nos sobre a Cidade Eterna. Essa qualidade passa por apresentar a cidade como um lugar, que apesar de planeado pelo homem, consegue fazê-lo sentir-se pequeno. Paris dá-nos isto. O modo como foi edificada, nas suas praças e vias larguíssimas, põe o homem como participante (homens contruíram Paris) mas também como peregrino (homens construíram Paris para que outros homens dissessem: "nunca vi nada assim. Este lugar é novo para mim!").
Depois de visitar Paris é fácil compreender a vaidade francesa. Com uma cidade como Paris é absurdo brincarmos aos franciscanos. Ao mesmo tempo é fácil compreender o refrão da Amália ao cantar "Lisboa, não sejas francesa". Lisboa imita Paris no espaço que consegue. Não faz mal mas é preciso não exagerar. Lisboa será sempre maravilhosa por ser Lisboa, não tanto por querer ser Paris.
O meu companheiro Rui Ribeiro, que esteve comigo nestes dias na conferência City To City promovida pela Igreja Presbiteriana Redeemer do Pastor Tim Keller, foi perfeitamente predestinado para esta peregrinação. Imediatamente credenciou o seu passado de escuteiro e jogador de futebol americano para estabelecer: só não fazemos as distâncias a pé se a chuva ou o nosso corpo não permitirem. E eu pensei: perfeito!
Fomos parar a um hotel manhoso de duas estrelas, perto (percebemos depois) da Rua Pigalle. O quarto no terceiro andar era invadido pela luz neón do letreiro bem como pelo ruído do metro que aparecia à superfície bem à altura da nossa janela. Estávamos em Paris mas sentíamo-nos no Bronx. A coisa boa era que, decidindo nós evitar o infernal metro de Paris à hora de ponta, percorríamos o caminho de uma hora a pé até à Igreja Americana, onde era a conferência. Nesse percurso pedestre tínhamos um percurso teológico: vínhamos das ruas sinistras da Pigalle e do Moulin Rouge para a luz crescente e imponente do centro parisiense. A Madeleine (céus, a Madeleine!), o obelisco, a Praça da Concórdia, os Campos Elíseos, o Sena!
Numa manhã acabada de nascer apercebemo-nos da imponência de Paris. A magnitude da cidade é tal que até as condições atmosféricas têm dificuldade em fazer-lhe justiça. Neste caso, o nevoeiro tapara dois terços da Torre Eiffel. Quase que conseguíamos ouvir o clima a dizer à neblina: "Despacha-te a destapar a Torre que ainda não estamos a mostrar toda a cidade às pessoas que nela estão!" Paris convenceu-me. O que será do velho Tiago?


quarta-feira, Outubro 22, 2014

O misterioso nadador da madrugada
Ontem consegui finalmente falar com o estranho homem que já tinha avistado uma meia dúzia de vezes a ir ao mar antes de mim. É preciso ter em conta que isto significa chegar à praia às sete da manhã ou antes ainda, no princípio do Outono, antes da hora mudar, quando o sol ainda não nasceu. Isto significa que em pura treva há alguém que sai da água quando me preparo para entrar. Sendo que significa também que, ao passo que eu dou um mergulho e saio, este estranho homem nada a sério. Entra no mar e dedica-se a braçadas vigorosas quando entrar no mar significa literalmente mergulhar na escuridão. Isto significa ainda que, para alguém medroso como eu, houve uns segundos ontem em que pensei que poderia estar na presença de um fantasma. Porque durante uns minutos, após ter visto este estranho homem a entrar, o perdi de vista. Foi nessa altura que pensei: "posso ter visto um fantasma." Pensei mais: "pode ser uma lenda de Santo Amaro de Oeiras: o misterioso nadador da madrugada." Para aqueles que achem estranho um cristão ponderar ter avistado um fantasma, relembro o episódio de Marcos 6 quando Jesus anda sobre o mar e os discípulos julgam-no um fantasma. Não seria eu o primeiro discípulo de Jesus a ter medo de um fantasma.
Mas, graças a Deus, não era um fantasma. Não só o estranho homem regressou do mar ao areal como consegui falar com ele. Como tinha referido há uns anos, há uma coloquialidade pronta entre pessoas que partilham hábitos incomuns. Se dois indivíduos albergam a mesma maluquice de entrar na água de madrugada, essa maluquice imediatamente se pode tornar uma comunhão oral. Essa é uma das coisas que se tem tornado uma oportunidade para mim, que apesar de tudo me sinto tímido e, por isso, não dado automaticamente a meter conversas com estranhos: uma semi-loucura assumida é um eficaz desbloqueador de conversas. Assim aconteceu. Troquei "bons dias" com o estranho senhor e ele revelou-se de uma grande simpatia. Tem uma pronúncia estrangeira e a conversa não chegou ao País dele ainda. Mas já permitiu que partilhasse a minha admiração pela ousadia deste estranho, e notável!, homem. Acabei por sair mais convicto de uma ideia geral que tenho sobre Portugal e os portugueses. Os estrangeiros têm mais facilidade em praticar aqui aquilo que os portugueses não praticam e talvez devessem. Há mar, há temperatura. Devia haver imersão no Oceano. Não é uma questão de obrigação. É uma questão de nos rendermos activamente ao prazer.


terça-feira, Outubro 21, 2014

Ouvir
O que é positivo na presença de Paulo no Areópago de Atenas passa por ele apontar o que lá é negativo. Paulo não congratula o paganismo grego mas confronta-o.
O sermão de Domingo passado, o 3º da série "Uma igreja jovem sem ser juvenil, aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, Outubro 20, 2014

Ser carismático como os Puritanos
Os Puritanos estavam obcecados com uma tarefa: louvar o Deus que é triuno. Não apenas louvar Deus. Mas louvá-lo demonstrando nesse louvor o facto de ele existir numa Trindade de pessoas diferentes num só mesmo Deus. O louvor prestado ao Deus cristão tem de ser necessariamente trinitário. Como é que isso se faz? Não é fácil resumir mas passa, necessariamente, por nos dedicarmos em cada gesto a reflectir que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
Os Puritanos eram cristológicos. Cristo é a chave de compreensão de tudo o que existe. Ele é a revelação de Deus Pai aos seus filhos. Ora, este Cristo chama todos os pecadores. O que é que isto significa? A chamada de Cristo pelos pecadores é universal. Todos se devem arrepender. Cristo oferece-se até aos que não sentem necessidade dele. Mas isto não significa que as pessoas vêm até Cristo a partir do facto da sua chamada ser universal. Como Joel Beeke e Mark Jones explicam: "A universal calling is not sufficient to draw people to Christ, but Christ does not stop at a universal call." Cristo não faz coisas em abstracto mas em concreto.
É possível irmos até Cristo porque: (1) Cristo quer que pecadores venham até ele, e (2) porque Cristo tem poder para salvar pecadores. Uma das forças da teologia reformada tem a ver com a sua ênfase preciosa, quando fala acerca da salvação, não no que os homens conseguem mas no que Cristo consegue. Não é muito mais reconfortante confiar na qualidade do trabalho de Cristo para a nossa salvação do que na qualidade da nossa escolha por ele? Cristo consegue o que nós não, e porque o Espírito Santo entra também em acção. O que nos leva a Cristo é a intervenção do Espírito Santo usando a Palavra de Deus, a Bíblia, para colocar fé no coração dos pecadores. Um pecador ter fé é um fenómeno sobrenatural que só é possível através de uma acção sobrenatural. Não somos cristãos porque tomámos uma decisão humana. Somos cristãos porque Deus fez um milagre divino em nós. A doutrina elevada dos Puritanos era uma prática carismática. Sem o Espírito Santo não há nada para ninguém. Os Puritanos tinham do melhor carismatismo que podemos almejar.
Vamos tentar colocar isto em pão, pão, queijo, queijo. Por um lado, os Puritanos ensinavam que devemos fazer tudo ao nosso alcance para irmos até Cristo. Por outro, explicavam que mesmo que façamos tudo ao nosso alcance, nunca conseguiremos ir até Cristo. É preciso o próprio Deus para irmos até Deus. É assim que se resolve o dilema prático. "Making a decision to follow Jesus is not what makes Christ's calling effective. The motion of our wills toward Christ results from a new creation by God in our souls."
Terminemos em ritmo trinitário, como começámos. "The Father is a willing drawer, the Son is a willing Savior, and the Holy Spirit is a willing enabler." Ou seja, todas as pessoas da Trindade trabalham no trabalho expiatório de Cristo.













[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On Coming To Christ" do calhamaço "A Puritan Theology", de Joel Beeke e Mark Jones.]

sexta-feira, Outubro 17, 2014

Datas
Quem faz anos sou eu mas quem oferece também. Se forem meus amigos, vêem o teledisco. Se forem muito meus amigos, partilham-no. A Anabela Mota Ribeiro é que tinha razão quando no outro dia me chamou fiteiro em público.



Bringing back the nineties!

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Blogging-Thanksgiving Day
O dia 15 de Outubro (que foi ontem!) devia ser para os bloggers portugueses o Dia de Acção de Graças. Porque foi nesse dia que há 12 anos o Pedro Mexia, o Pedro Lomba e o João Pereira Coutinho começaram a Coluna Infame. É provável que hoje a esmagadora maioria de bloggers bem-sucedidos (i.e., gente que faz a vida de ter um blogue) não tenha ideia do que foi a Coluna Infame. Daí a importância pedagógica de assinalar a data.

quarta-feira, Outubro 15, 2014

Os sarilhos onde a Igreja Católica Romana anda metida
A Igreja Católica Romana continua a mostrar-se desajeitada em questões de imprensa. Poderemos falar de uma obsessão com a sua imagem pública? Constantemente dá a ideia de querer parecer melhor do que consegue. Ou é o Papa que promete o fim do Inferno ou é o Vaticano que apressa uma abertura ao espírito dos tempos. Depois? Depois vêm as notícias, muitos menos lidos que as primeiras, que explicam que, afinal, a Igreja permanece dentro do ensino de sempre. A minha dúvida quanto a este desajeito é saber se ele é uma estratégia. Até que ponto é que Roma ganha com estes equívocos mediáticos? Até que ponto é que Roma de facto prefere uma maioria convencida superficialmente da sua alegada modernização perante uma minoria esclarecida acerca do que conserva?
Como já se está à espera, esta é a altura em que eu martelo na mesma tecla. Na tecla do costume que explica as diferenças entre os de Roma e os da Reforma. Quero-o fazer da melhor forma. Até porque ainda neste fim-de-semana que passou foi um privilégio para mim receber na minha Igreja alguns católicos romanos que partilharam experiências de fé. Quando me preparo para martelar novamente nas diferenças entre Roma e a Reforma o meu objectivo é esse: martelar nas diferenças e não propriamente martelar em Roma. Isto porque a prática romana da qual discordo assume, ainda assim, uma coerência. Quero tratá-la com dignidade na divergência.
Creio que boa parte destas confusões mediáticas tem a ver com o desejo de Roma ser a Igreja de todos. Roma entende-se a si enquanto Igreja Universal de um modo distinto como os da Reforma se entendem como Igreja Universal. A universalidade de Roma está mais no seu alcance colectivo visível que no alcance individual invisível. Por isso, e naturalmente nesta perspectiva, Roma quer ser a igreja dos que crêem mesmo, dos que não crêem assim tanto, dos que estão catequizados, dos que estão por catequizar. Para Roma é importante ligar-se com aqueles que já têm a ver com ela e com os outros porque também é isso que mostra que ela está a fazer aquilo para o qual sente que foi chamada. A ligação visível é essencial. Roma é uma Igreja que precisa de ver e apalpar. Os símbolos, os rituais, por aí fora.
Entre os cristãos de Roma e os da Reforma a experiência da salvação é vista de modos completamente diferentes. Muito resumidamente diria que para os romanos a salvação é uma consequência de fazer parte da Igreja. Daí o silêncio acerca de grandes certezas sobre a salvação pessoal. Os católicos romanos são muito reservados quanto à opinião que têm sobre a sua própria salvação porque, lá está, a salvação é sobretudo um negócio que tem a ver com a Igreja. Um católico ter grandes certezas quanto à sua salvação será tão estranho como o Ricardo Quaresma estar convencido durante o Mundial de 2014 que ainda voltaria à selecção. De facto aconteceu, mas por uma intervenção superior e inesperada. (Teologicamente isto está relacionado com a justificação pela fé sobre a qual escrevi na semana passada.)
Os da Reforma vêem a coisa completamente ao contrário a partir do que lêem nas Escrituras. A Igreja é uma consequência de serem salvos e não a causa (Cristo deixa a Igreja e não a Igreja deixa Cristo). Faz toda a diferença. A flexibilidade da Igreja Católica para mostrar resultados visíveis é completamente incompreensível para os da Reforma. Para Roma é importante aplicar princípios gradualistas se necessário (como agora ouvimos falar) se isso mostrar mais Igreja nas pessoas. Porque para Roma tem de se ver Igreja nas pessoas para poder haver salvação nelas. Para os da Reforma é inútil ver Igreja nas pessoas na medida em que não é a Igreja que os vai salvar. Para Roma é.
Roma quer abraçar quem já faz o que ela manda e quer abraçar quem ainda não faz o que ela manda porque Roma é o centro da mensagem que ela prega. A ironia é que Roma ser o centro da mensagem que ela prega não a torna mais exclusivista mas precisamente o oposto. Inesperadamente aquilo que em séculos anteriores tornava Roma exigente é o que hoje a torna elástica. Antigamente Roma tinha a fama de colocar fora dela (e portanto fora da salvação) aqueles que não se portavam bem como ela mandava. Hoje Roma pode dar-se ao luxo de colocar dentro dela até os que se portam mal. O Papa que antes excomungava um Protestante para o Inferno é o Papa que hoje mete no Céu o ateu que não quer lá estar. Daí poder-se salvar aquele que crê e aquele que não crê, desde que de algum modo se relacione com os conceitos que a Igreja considera salvíficos. O que é que Roma crê, por exemplo, acerca da minha alma? Que ela poderá ser salva pela relação que tem com Roma, ainda que institucionalmente enviesada (para Roma um protestante pode salvar-se através do catolicismo, não através de Cristo). Vou dar outro exemplo.
Como para Roma a salvação é essencialmente fazer parte da Igreja, todos os conceitos que os Protestantes têm como mais exclusivistas a partir das Escrituras podem ser reinterpretados a partir da Tradição da Igreja. Para um da Reforma a salvação atesta-se a partir da pertença a Cristo, avaliada ela das páginas da Bíblia. Para Roma não existe esse constrangimento dentro das mesmas páginas. Logo Roma tem um progressismo natural. As pessoas não se salvam pelo que a Palavra de Deus afirmou de uma vez por todas como elas se podem salvar. As pessoas salvam-se como a Igreja entende ao longo do tempo que a Palavra de Deus afirma como elas se podem salvar. Por exemplo, hoje Roma valoriza a bondade de um modo que antigamente não. O conceito de bondade é o reflexo deste princípio progressista de Roma. Quero dizer isto em boa fé aos meus companheiros romanos mas duvido que Roma hoje declarasse Pelágio como herético se ele fosse uma pessoa de razoáveis boas maneiras. O conceito de bondade é um filão para uma realidade pós-moderna em que ninguém quer ser apanhado com ares de superioridade moral. É o conceito de bondade, traduzido hoje assim e amanhã sabe-se lá como, que manterá Roma a navegar as águas niilistas com uma mestria que os da Reforma não.
Basta Roma reclamar algum tipo de propriedade sobre o conceito de bondade que o assunto difícil da salvação fica mais simples. O conceito de bondade torna-se uma nova espécie de pertença institucional a Roma. Como é que funciona? A bondade mete colectivamente dentro da Igreja até aqueles que individualmente se expulsam dela. Da mesma maneira que um católico não perde a salvação por se estar nas tintas para cumprir o catecismo, um não-católico pode salvar-se se evidenciar algum tipo dos princípios que o catecismo ensina (como por exemplo neste caso, a bondade). Nesse sentido, na Igreja Romana está sempre tudo garantido porque é Roma o próprio evangelho pregado a partir de princípios selectivos como, por exemplo, a bondade.
Os da Reforma acham tudo isto muito estranho. Porque os da Reforma não olham para a Igreja como o próprio evangelho mas como um efeito dele. Logo não faz sentido querer meter dentro da igreja quem não quer fazer parte dela. Não faz sentido querer uma consequência para forçar uma causa. O que não quer dizer que os da Reforma desprezem o amparo àqueles que ainda não se identificam com a Igreja. Mas os da Reforma estão animados por algo que, para eles, é muito melhor que fazer parte da Igreja. Cristo. Cristo é o que interessa. A Igreja follows. Cristo dá o caminho. A Igreja segue-o. Cristo primeiro. Igreja depois. Os da Reforma estranham as peripécias de Roma para caminhar em direcção às pessoas porque consideram que o caminho essencial é o da Igreja atrás de Cristo. Tudo o resto parece-nos public relations. Lá terá a sua importância. Mas é estranho. Quando chegarmos à eternidade, estão os da Reforma convencidos, quem nos dará as boas-vindas não será Pedro. Será Cristo.











Entretanto, depois de escrever isto soube que o Quaresma foi decisivo ontem. A predestinação é uma cena tramada.

terça-feira, Outubro 14, 2014

Ouvir
O envolvimento com a cultura não é uma sofisticação de uns quantos cristãos com maiores pretensões intelectuais. O envolvimento com a cultura é o que mostra que amamos aqueles a quem pregamos a mensagem do amor de Deus.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Outubro 10, 2014

It's on!


















Venham todos! Cheguem às 20h que às 20h30 começamos sem falta!

quinta-feira, Outubro 09, 2014

Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa VI
O Opus Dei tem reputação de comer criancinhas ao pequeno-almoço. O julgamento da opinião comum é um aliado ou um adversário para pessoas, como os cristãos evangélicos, que são desconhecidas do grande público? Connosco vai estar o Pedro Gil, do gabinete de imprensa do Opus Dei.













O Pedro falará na Lapa às 17h do próximo Sábado.
Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa V
Em cada Sábado no Expresso o Henrique Raposo tem dado voz a opiniões pouco consensuais. Numa sociedade que gosta de se gabar da sua tolerância, o Henrique vai dizer-nos se pensar diferente já é crime.


















O Henrique falará na Lapa às 15h do próximo Sábado.

quarta-feira, Outubro 08, 2014

Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa IV
O Pacheco Pereira tem vindo a dizer que Portugal sofre de um fenómeno irritante de engraçadismo. O Nuno Markl vai ajudar-nos a compreender se temos ou não excesso de humoristas no País.


















O Nuno falará na Lapa às 12h do próximo Sábado.
Espernear bem calçado
Em Portugal é típico responder da forma errada à pergunta que pede pelas diferenças entre Catolicismo Romano e Cristianismo Evangélico. A tal resposta errada típica é falar das estátuas de santos que não existem nas igrejas protestantes, ou mencionar que os pastores protestantes podem casar por oposição aos padres. Afinal de contas, quando se discute acerca das casas onde moramos é fácil acabar a divagar sobre a mobília. Ora, com toda a importância que há nas questões iconográficas ou vocacionais, o que é essencial falar é a justificação pela fé. Há muitas outros assuntos que distinguem Roma da Reforma mas o crucial é a justificação pela fé.
John Owen, Puritano Inglês do Século XVII, acreditava no que a Bíblia diz, que uma pessoa se salva pela fé que tem em Cristo (e a crítica pertinente da Carta de Tiago a uma fé sem obras não rejeita que nos salvamos pela fé, rejeita sim que é impossível salvarmo-nos pela fé sem que obras aconteçam como consequência). A doutrina da justificação pela fé tem a ver com esse precioso esclarecimento - não somos salvos pelo que fazemos por Cristo mas somos salvos pelo que Cristo faz por nós. E há muita coisa que acontece quando somos salvos pela fé em Cristo.
Ao usarmos o termo justificação não o podemos fazer sem pegar no seu sentido jurídico. Ou seja, a palavra justificação pede também uma interpretação forense - aquele que é justificado foi colocado sob uma acusação perante a qual deve provar a sua inocência. A salvação é a inocência que uma pessoa culpada pode ter. Como? Unicamente através de Cristo. Ao ser também assunto de tribunal, a salvação de uma pessoa não se limita à monotonia de um processo legal. Essa é a acusação que muitas vezes é feita aos protestantes, a de tornarem a justificação pela fé apenas a resolução de uma papelada burocrática despachada por um juiz brando. É um disparate. Por que razão os protestantes devem teimar no uso da linguagem jurídica para falar da sua salvação? Precisamente para enfatizarem a liberdade que um criminoso sente perante uma amnistia. A justificação pela fé é o que dá aos da Reforma um coração vivo e grato a quem os livrou de uma pena merecida. A justificação pela fé é o que faz os evangélicos espernearem de amor por Cristo.
O Catolicismo Romano sugere uma justificação pela fé completamente diferente. Como que em dois passos. O primeiro, em que através de uma infusão de graça no baptismo (geralmente infantil) operado infalivelmente (ex opere operato), a pessoa tem o seu pecado original extinto e expulsos os hábitos do pecado. O segundo, consequência do primeiro, em que através das boas obras a pessoa é exercitada nesse hábito novo infundido pela graça no baptismo. Para Roma a salvação é mais uma coisa que nós vamos continuando a fazer (através das boas obras) depois de ter sido feita em nós (através do baptismo). Por isso os católicos romanos são tão sossegados a falar sobre salvação. Como ela pede tanta coisas deles, é mais humilde não ter grandes certezas acerca dela tendo em conta os pecados que vamos praticando. Essa é a razão pela qual a santidade tem para o Catolicismo Romano um foco negativo: a pessoa é mais santa o quão menos pecados comete (e daí a imagem popular do santo como aquele que se corta aos grandes divertimentos do mundo).
A justificação pela fé é a doutrina que dá aos evangélicos a sua exuberância. Um evangélico não sabe estar calado por causa dos efeitos da doutrina da justificação pela fé. Como para um evangélico o que o salva não depende do que ele vai fazer por Cristo mas o que Cristo já fez por ele, venha daí esse microfone! O evangélico só sabe falar da fé porque sente que não tem nada a provar a ninguém. Um católico romano pensa: "é melhor estar calado porque os meus pecados estão à vista e sei lá eu se no meio desta confusão me salvo mesmo." Um evangélico pensa: "nem que eu vivesse a vida mais impecável me salvaria tendo em conta os meus pecados mas, graças a Deus, Cristo já pagou tudo o que havia para pagar." A ausência da doutrina da justificação pela fé é o que dá ao romano o sossego, o ritual e a ideia que fé que é fé é vivida em grande interioridade. A presença da doutrina da justificação pela fé é o que dá ao reformado o alarido.
A justificação pela fé relaciona-se de muito perto com outra doutrina, a da imputação de Cristo. Diz o livro "A Puritan Theology": "A man is declared righteous as soon as he puts his faith in Christ. (...) By believing with justifying faith, christians become 'sons of God' and have a right to all the benefits of His mediation, which leaves any other justification unnecessary." Como através da fé temos acesso à qualidade de Cristo, já não há qualquer qualidade humana da qual dependa a nossa salvação. É nesse sentido que um protestante vê a ênfase nas boas obras para a salvação como um homem vestido de smoking e calçado de crocs. As nossas boas obras são o que acontece pela salvação ter o selo de qualidade de Cristo. Mas isso não significa que o selo de qualidade de Cristo dependa das nossas boas obras. A audácia!
A imputação de Cristo é o que permite que, pela negativa, os nossos pecados tenham sido transferidos para ele. Por isso ele tem a capacidade de tratar deles por nós (capacidade que nós nunca teríamos). Pela positiva, a imputação de Cristo é o que permite que a perfeição de Cristo seja transferida para nós. Por isso, enquanto pecadores, podemos ser justificados diante de um Deus que não suporta o pecado. "Justification means more than the forgiveness of sins. (...) Imputation includes not only that Christ's righteousness is imputed to believers, but also the sins of believers are imputed to Christ. The foundation of imputation is the union between Christ and His Church. For Owen this means that Christ and His Church coalesce into one mystical person thorugh the uniting efficacy of the Holy Spirit."

[Escrito a partir do capítulo sobre John Owen e a justificação pela fé do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]


















My main man, Johnny O!

terça-feira, Outubro 07, 2014

Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa III
Conhecemos a Anabela Mota Ribeiro da imprensa escrita e televisiva. É uma conversadora rara em Portugal e, por isso, uma voz autorizada para nos dizer como preservar a arte de nos ouvirmos uns aos outros.













A Anabela falará na Lapa às 10h30 do próximo Sábado.
O pavor de crescer
Neste Domingo passado preguei acerca de sermos uma igreja jovem sem ser juvenil. E senti-me naquelas caminhadas em que tropeçamos naquilo que nos parece uma pedrinha mas, quando nos levantamos, percebemos que esbarrámos num penedo. O assunto da juventude tem muito para dizer às igrejas porque tem muito para dizer à nossa cultura ocidental num todo. Assim rapidamente, vou reciclar uma boa parte da reflexão do sermão para tentar ilustrar esta minha nova preocupação com a nossa obsessão pela juventude.
Há uns tempos vi um documentário chamado "Teenage" do realizador Matt Wolf. Apesar de o ter achado desequilibrado, com uma primeira parte pujante e depois a escoar-se para um sentimentalismo sociológico desinteressante, vi nele coisas muito pertinentes e que nos podem ajudar quando pensamos acerca de juventude. O documentário "Teenage" ajuda-nos a perceber como a cultura juvenil é um resultado do Século XX. Assim muito rapidamente a tese é: o início do Século XX transforma com maior velocidade crianças em adultos. Porquê? Primeiro, porque a revolução industrial pede mais mãos nas fábricas novas, incluíndo as dos miúdos. Segundo, porque as guerras são grandes e são precisos mais dedos a premir gatilhos, incluíndo os dos miúdos. E terceiro, porque na relação dos dois fenómenos anteriores, as crianças acabam por adquirir um estado intermédio, até à altura desconhecido: o da adolescência (no inglês, os teenage years). É uma espécie de grito do ipiranga infantil.
A seguir às fábricas e às trincheiras, e com um mundo supostamente mais tecnológico e tranquilo, as crianças puderam descobrir uma nova idade que não significava entrada imediata na idade adulta – a adolescência. Num certo sentido, é aí que nasce a juventude como hoje ainda a conhecemos. Num primeiro momento, o Século XX acelerou a transformação de pequenos em grandes. Num segundo momento, abrandou. Mesmo que o nosso mundo já não seja propriamente o mundo do início do Século XX, a juventude ainda segue nos carris que nessa altura para ela construiram.
Mas há evoluções no processo desde lá para cá. A juventude como hoje a conhecemos pode ser simplificada como uma recusa implícita do seu carácter transitório. Há cem anos, apesar de tudo, as coisas ainda eram diferentes. Ser jovem hoje deixou de ser uma coisa que nos leva a outro lugar. Hoje não se é jovem para depois ser adulto. Hoje ser jovem não é um processo, tornou-se o produto final. A maturidade é um conceito em grande parte rejeitado pela nossa cultura. Essa é a razão pela qual hoje somos adultos em busca da juventude eterna, por oposição ao resto da História em que a juventude era breve para que a maioridade fosse atingida o mais rápido possível. Podemos dizer que um conceito de juventude muito popular corre o risco de matar a maturidade.
Façamos uma paragem para um exemplo prático. Alguns dos modelos de juventude que ainda prevalecem no meio evangélico, creio, herdam mais destes factos do Século XX do que das Escrituras. A ideia da departamentalização em idades dentro das igrejas mostra esta realidade da sociedade pós-industrial. Claro que na Bíblia encontramos facilmente a diferença entre a infância e a idade adulta. Mas o modo como a juventude se interpôs entre uma e a outra talvez ofereça problemas para uma harmonia bíblica.
De um modo geral, a sociedade pré-industrial empurrava as crianças para abraçarem a maturidade. Por isso não havia a concepção da adolescência, como ela é aceite hoje. Ao contrário da norma actual, parte do processo de crescimento era, a partir de determinada altura, o jovenzinho dever passar tempo com pessoas mais maduras, como prova da sua própria maturidade iminente. O que a adolescência, enquanto categoria de crescimento, veio trazer foi também uma desaceleração do processo habitual de crescimento. Os adolescentes ganham algum tempo até que se tornem mesmo adultos e investem a maior parte desse tempo uns com os outros. É isto que traduz um conceito hoje popular e raramente questionado dos jovens passarem a maior parte do seu tempo com outros jovens. Para as culturas pré-industriais isto seria estranhíssimo.
Os grupos de jovens nas igrejas aconteceram lado a lado com os grupos de jovens fora delas. Essa era a tendência da época. Desde as juventudes organizadas por razões ideológicas (dos sistemas democráticos aos sistemas totalitários) às juventudes organizadas por razões lúdicas (das práticas desportivas aos interesses intelectuais). A sociedade passou a ver como normal que ser jovem era a suprema categoria identitária. Como se dissesse, o que fazes com a tua juventude é secundário - o essencial é organizares a tua vida a partir do facto de seres jovem. Não é por isso de estranhar que a primeira sociedade a abraçar este conceito de juventude se torne aquela com mais dificuldade em querer largá-lo.
Permitam-me um comentário pessoal. Ainda hoje isso se verifica em muitas igrejas evangélicas. Os grupos de jovens, ou ainda sobrevivem com um quadro exigente de actividades, ou pairam como um fantasma numa casa abandonada em que a juventude se foi. E aproveito e partilho parte da minha experiência. Para aqueles que viveram intensamente uma juventude empenhada na igreja, sabemos o quão doloroso foi sobreviver nela quando deixámos de ter nesse ciclo de vida a razão principal da nossa presença. Para muitos de nós, casados há pouco tempo, pais há pouco tempo, sentimo-nos numa estaca zero em que criar laços com a igreja é como viajar numa floresta virgem. Agora que a juventude solteira terminou, com toda a sua navegação hiper-sinalizada através de actividades e sintonias partilhadas, não sabemos bem como ter comunhão com a igreja à qual pertencemos. Porque deixámos de estar na igreja primariamente enquanto jovens. E não sabemos assim tão bem como se vive na igreja enquanto adultos. Porque, de um modo geral, a sociedade passou a ter medo desse estado de ser adulto.
Não quero aplicar esta reflexão à bruta. Mas creio sinceramente que grande parte dos nossos problemas passa por aqui: não queremos crescer e somos ensinados a não querermos crescer. Nas igrejas, nas escolas, you name it. Por isso somos pais mais ansiosos, oscilando entre demasiada informação e pouco discernimento. E não deixa de ser reveladora esta moda com o que é velho. Agora queremos ser tradicionais à força na esperança que uma barba à Século XIX transfira miraculosamente para o nosso rosto aquilo que rejeitámos para os nossos cérebros (and I've been there, no que a tentativa de barbas à Século XIX diz respeito). A série continuará na Lapa durante o mês de Outubro.

segunda-feira, Outubro 06, 2014

Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa II
A Adelaide e o Tracy estão prestes a publicar "Mulheres Guerreiras". Neste livro contam histórias reais acerca de como a doença não tem de ter a palavra final na vida de mulheres com cancro na mama.



















A Adelaide e o Tracy falarão na Lapa às 9h30 do próximo Sábado. Cheguem um pouco antes.

Ouvir
Não queremos que a nossa autoridade espiritual dependa de sermos jovens. Essa é uma tentação de uma época que não quer crescer. Mas queremos que a nossa autoridade espiritual não seja beliscada pela nossa juventude. O jota principal da nossa juventude é o de Jesus.
O sermão de ontem, o primeiro do tema "Uma igreja jovem sem ser juvenil", aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Outubro 03, 2014

Ser do contra é ser mais claro

[Este texto sobre a Caminhada de amanhã está no P1 da Renascença.]

É natural que a caminhada de amanhã seja pela vida. É recomendável até que a mensagem seja a favor de alguma coisa. Causas pela negativa tendem a ter pernas curtas. Num primeiro momento juntam muitas pessoas (é fácil ser do contra), mas num segundo revelam-se fracas para continuar a unir aqueles que se juntaram (é fácil ser do contra contra quem é do contra). Quando o assunto é o aborto creio, todavia, que compensa não esconder as minhas convicções que se fazem pela negativa. Para isto fui ajudado por um amigo, o Filipe Costa Almeida. Ele ajudou-me a entender que ser a favor da vida pode ser demasiado pouco para uma cultura com muita facilidade em relativizar. Não podemos esquecer que não é difícil ser a favor do aborto a partir de argumentos tão hiper-maleáveis como a qualidade de vida. Daí que ser do contra nestas matérias me pareça intelectualmente mais claro.
Fui do contra quando em 1998 se fez o referendo sobre a despenalização do aborto. Na altura, era um estudante universitário. Andava na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Se a ideologia servisse de baliza para o Ensino Superior a Nova era o poste esquerdo. Como sobrevive na FCSH um estudante que é contra o aborto? Na clandestinidade ou na frente. Não posso propriamente dizer que o meu exemplo tenha tido o heroísmo de um desembarque na Normandia. Mas ao mesmo tempo não posso negar que, para alguém de instinto pouco corajoso como eu, ter-me levantado da assistência de um colóquio dado pela Odete Santos para discordar de um auditório esmagadoramente pró-aborto foi certamente uma experiência a não esquecer. Hoje, ser contra o aborto é necessariamente estar pronto para estar sozinho em muitas multidões. Não pelo prazer de ser a excepção. Mas pela clareza de transmitir que há maiorias que pensam assim e nós pensamos assado.
Tenho sido do contra em muitas outras discussões depois de 1998. Não é fácil ser contra a multidão, mas é mais difícil ainda ser contra um apenas que amamos. Mal por mal, com a derrota no referendo, parece que perdiam a pertinência essas discussões difíceis com pessoas importantes para nós e que não defendem a nossa posição. O que aconteceu comigo até há mais ou menos um ano é que me sentia meio aliviado. Mas ter ficado de consciência tranquila por ter votado contra o aborto em 1998 e 2007 não me estava a livrar de uma consciência perturbada por esse estranho alívio. O povo ter votado estava a votar-me a uma confortável resignação. Receio que não seja o único a sentir-se assim. Entretanto cheguei à conclusão que, mais do que nunca até agora, era imperativo não largar o assunto. Ser do contra mesmo quando ser do contra parece que não leva a lugar nenhum. Às vezes é quando se é do contra, quando ser do contra parece que não leva a lugar nenhum, que realmente vamos a algum lugar. Hoje ir a uma caminhada contra o aborto parece-me muito mais necessário do que quando a lei era outra.
Quando sei aquilo contra qual estou provavelmente torno-me mais pronto a ajudar. Escrevo isto enquanto Pastor. Sei o que é ter de afirmar a maldade do aborto a alguém que já o fez. E reconheço que muitas vezes as pessoas de fé, na pressa de mostrarem aquilo em que crêem, não são cuidadosas. Ser contra o aborto não é ser contra as pessoas que o fizeram. Mas é explicar-lhes que elas não foram as únicas envolvidas nele. As vidas destruídas antes do nascimento exigem-nos uma coragem de clareza moral bem como uma oportunidade para o perdão. Haverá quem perante a palavra perdão me possa acusar de condescendência e arrogância. Mas creio que o que a palavra perdão nos permite é revelarmo-nos como seres humanos que reconhecem valores superiores a nós mesmos. Quando acredito na diferença entre fazer uma coisa boa e fazer uma coisa má, não me coloco acima dos outros.Coloco-me debaixo de valores mais altos que eu.
Ser contra o aborto agora é ter de conviver com a acusação de querer voltar atrás no tempo. Mas não estou assim tão convencido que o futuro é favorável ao aborto. Penso que boa parte do direito ao aborto foi mais ganho no terreno da indiferença que no do princípio. A pergunta há uns anos era: quem sou eu para achar que alguém deve ser culpado criminalmente pelo aborto? Foi neste ambiente emocional que os países mudaram as suas leis quanto ao assunto, não necessariamente numa transição ideológica assumida. Creio que há menos liberais autênticos do que julgamos. O nosso liberalismo moral é sobretudo querermos estar livres de discussões exigentes. E esta é também uma razão pela qual ainda acredito na luta contra o aborto. Chamem-me ingénuo mas estou convicto que grande parte das pessoas que são a seu favor nunca pensou profundamente no assunto. Quero contribuir para que mudem a sua posição.
Sou cristão e os cristãos foram do contra. Por serem do contra viraram-se contra o aborto quando o aborto era uma notícia velha. Desde que o mundo é mundo que se aborta. Aliás, desde que o mundo é mundo que o princípio do aborto se aplicava sem complexos depois do nascimento. O infanticídio ou simples abandono de crianças eram práticas comuns do paganismo. Foram esquecidas sobretudo por causa da mudança que o cristianismo trouxe. O cristianismo arrasou com a lógica utilitária das pessoas fazerem o que querem de acordo com o que querem. Porque a partir do momento que se crê que Deus não só existe como se fez em homem em Jesus, os homens que o seguem querem ser homens de acordo com o homem-Deus Jesus. Os modelos humanos passam a ser um resultado dos modelos divinos. A transcendência não é uma desculpa para a abstracção. A transcendência passa a ser a referência mais credível para o que é deste mundo. O que é possível fazer deixa de ser o que conseguimos mas passa a ser o que Cristo conseguiu.
Os cristãos, por serem do contra, não se resignaram com o que era comum. Começaram a ir aos arredores das cidades e a resgatar crianças abandonadas, deficientes, e a cuidarem fisicamente de todos os que pudessem. A solidariedade dos cristãos não foi uma fagulha que se acendeu porque, bem lá no fundinho, somos todos pessoas com um grão de bondade. Não. Os cristãos passaram a ter um comportamento que contrastava com os hábitos pagãos porque Cristo teve esse comportamento. Os cristãos não mudaram o mundo por quererem ser criativos ou diferentes. Os cristãos mudaram o mundo por quererem imitar Cristo. Dizia que o aborto é notícia velha. E é uma notícia velha porque pertence a um mundo velho. Não é pelo facto de muitos hábitos pagãos aparecerem recauchutados que eles representam progresso. Os cristãos são contra o aborto porque pertencem a um mundo que consideram novo. Não é estranho que tantos, ao caminharem contra o aborto, pareçam caminhar por um mundo retrógrado? É. É estranho e mentiroso. Porque de facto caminhar contra o aborto é mais do que insistir no valor da vida. É insistir no valor da novidade.

quinta-feira, Outubro 02, 2014

Amanhã e depois de amanhã








Apresentação do "Felizes Para Sempre e outros Equívocos Acerca do Casamento" em Viseu (Igreja Baptista de Viseu, 21h - entrada livre).



















Apresentação do "Felizes Para Sempre e outros Equívocos Acerca do Casamento" no Porto (Igreja Metodista do Mirante, 17h30 - entrada livre).

terça-feira, Setembro 30, 2014

Ouvir
Muitas vezes o que nos afasta de Cristo não é o que sentimos que ele já nos dá. Muitas vezes o que nos afasta de Cristo é não levarmos até ele o que ele ainda não nos deu. A Mulher Siro-Fenícia fez uma berraria até que Cristo a atendesse. Quando foi a última vez que nos desunhámos pela misericórdia de Cristo?
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).