quarta-feira, abril 25, 2018

A aquecer para Sábado

O livro já aí anda em qualquer livraria!


terça-feira, abril 24, 2018

Ouvir

O poder que está em causa quando nos relacionamos com Jesus não é os inimigos daqui que conseguimos vencer, mas a paz que devemos procurar com todos, até com aqueles que nos fazem a vida mais negra. Se quisermos simplificar mais, o verdadeiro poder de Jesus é a sua paz.

O sermão de Domingo passado, chamado "A paz é o poder dos poderes", pode ser ouvido aqui.

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terça-feira, abril 17, 2018

Os Piratas

Conversando acerca de "altar calls". Como é? Faz-se apelos para que as pessoas se convertam ou não? A presença do Franklin Graham foi o pretexto.

terça-feira, abril 10, 2018

Ouvir

No tempo de agora, ser misericordioso não é ser bom tendo a garantia de a maldade ficar já resolvida; ser misericordioso é ser bom mesmo quando a maldade pode continuar. Geralmente queremos a justiça aqui e agora, garantindo que a maldade fica resolvida. Mas a misericórdia é a sobrevivência da bondade quando a maldade ainda está por resolver. Por isso mesmo, R. Govett dizia que a misericórdia é mais bem manifestada quando os maus estão no poder. Por isto tudo, ser misericordioso é o resultado de estar com fome e sede de justiça. Ainda não temos a justiça agora, mas a garantia de ela nos ser dada no futuro transforma-nos o carácter já.

O sermão de Domingo passado, chamado "Misericórdia é não desistir do bem na vitória do mal", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, abril 09, 2018

A capa do disco

Quando acabava a revisão deste livro de sermões, dei por mim a gravar oito canções que servem de acompanhamento musical para o livro (ou, como os miúdos dizem agora, de playlist). Este disco, com o mesmo título de "Milagres no Coração", é uma edição da FlorCaveira com a Valentim de Carvalho. Nele, o que se diz guia o que se toca, num registo despojado e sem artifícios - nu e cru.

Como a capa dá para mostrar, com a corajosa fotografia do Hugo Moura, este é um disco de chegada à (crise da) meia-idade. Este disco tentou ser o meu primeiro disco de louvor. Disco de louvor é no vocabulário de um cristão evangélico um disco de canções que directamente adoram Deus, canções essas que podem ser usadas num serviço de culto normal de uma igreja. Apesar de ser um cristão evangélico e um músico, nunca em 40 anos me apeteceu fazer um disco tão religioso, nesse sentido tão restrito. A questão é que, na tentativa de fazer um disco de louvor, rapidamente comecei a louvar de uma maneira que para muitos será considerada oblíqua. Comecei a louvar o Deus do Céu a partir das coisas da terra. Na verdade, não há qualquer heresia nisso, antes pelo contrário.

As canções são sobre filmes como o "Karate Kid", "Os Ladrões de Bicicletas" e "O Padrinho", sobre a série "Breaking Bad" e, vá lá, também vão ao Santo Agostinho, ao David Foster Wallace e o Jack, o estripador, um dos meus pavores nocturnos. É o meu estranho mas sincero tipo de worship music.

É bem diferente, a maior parte da música religiosa que gera números impressionantes na internet que, para mim, tem o efeito retro-activo de me cansar. De cada vez que tento ouvir os discos do 'worship' actual fico com a ideia de que sou pouco espiritual. As vozes lá parece que nasceram para cantar para Deus. Para mim não é bem assim. Para mim o louvor é uma luta. A minha necessidade de louvar é proporcional à dificuldade que sinto em fazê-lo. Mas também devo ser sincero e assumir que o custo que o louvor me pede me parece ser mais parecido com o louvor que encontro na Bíblia. Os salmistas das Escrituras parecem-me muito menos emo do que os cantores evangélicos americanos e brasileiros.

Por outro lado, no final de Dezembro de 2017 a minha audição estava quase exclusivamente dedicada a country e a hip-hop. Não pelo som propriamente dito, porque não suposto as lap-steel guitars dos cowboys nem o narcisismo dos rappers. Mas pela fixação na história pessoal, que o country assume descomplexadamente, e pela predominância da palavra, que o hip-hop conserva. Se adicionar a isto a libertação que foi conhecer nos últimos anos a música do Mark Kozelek, diria que este disco que gravei saiu deste encontro inesperado entre o acústico e o discurso directo.

Ao mostrar este disco a pessoa em quem confio pelo seu critério musical, tenho encontrado reacções diferentes. Uns aderem à primeira audição e outros questionam a pertinência destas canções. O facto de estarem a ler estas linhas significa que tenho teimado em acreditar nelas. Sinto necessidade de empregar a minha voz como empreguei a dizer as coisas que aqui disse. Trabalhei para retirar artifícios porque é mesmo isto que queria fazer (e foi a primeira vez que voltei a depender apenas de mim para gravar desde o IV há dez anos). Talvez este "Milagres no Coração" se resuma a uma espécie de semi-diário-musical-terapia de um ano que para mim foi especial. Eventualmente nem chega mesmo para se justificar enquanto disco. Mas o meu coração não consegue guardar para si estas coisas simples que, honestamente, tenho como milagres. Espero que contá-las assim sirva para alguma coisa também na vossa vida.

Sexta-feira está disponível nas lojas e nas plataformas digitais.





sexta-feira, abril 06, 2018

Na frente musical

Videoclip novo feito pelo Hugo Moura e pelo Jónatas Luzia! Vejam, espalhem, e leiam o resto do texto.

Foi há dez anos que Tiago Guillul editou o seu "IV", que a Time Out descreve num texto sobre os discos da última década como um objecto sem o qual é "difícil conceber o que seria a música portuguesa" hoje, e "um fogo que continua a alastrar". A verdade é que o "IV" há muito saiu de circulação, esgotados os seus exemplares, mesmo na era de tudo encontrar na internet. Logo, e aproveitando a data redonda, em Setembro regressará finalmente a versão original do "IV", com uma comemoração aumentada por um disco em que velhos e novos companheiros o regravam (B Fachada, Jorge Cruz, Luís Severo, Benjamim, Filipe da Graça, entre muitos outros).

Durante a última década houve outras coisas que ocuparam o Tiago: uma delas, escrever. Afortunadamente, chega na próxima sexta-feira 13 de Abril o seu quinto livro, "Milagres no Coração", edição da Quetzal. Nele, coleccionam-se 24 sermões ao redor do evangelho de Marcos. Como a palavra tende a ser irrequieta, quando o Tiago acabava a revisão deste livro, deu por si a gravar oito canções que servem de acompanhamento musical para o livro (ou, como os miúdos dizem agora, de playlist). Este disco, com o mesmo título de "Milagres no Coração", é uma edição da FlorCaveira com a Valentim de Carvalho. Nele, o que se diz guia o que se toca, num registo despojado e sem artifícios - nu e cru. Também por isso, vem assinado por Tiago Cavaco.

A festa do Guillul está para breve, mas enquanto não chega, há "Milagres no Coração" para serem ouvidos em semi-silêncio.

quinta-feira, abril 05, 2018

Novidade

Há uma novidade que quero partilhar convosco. Dentro de uma semana (sexta 13 de Abril) sai o meu novo livro "Milagres no Coração". Há várias coisas que, com o lançamento dele, me deixam feliz.

1. O livro colecciona 24 de sermões ao redor do Evangelho de Marcos que preguei há perto de 7 anos. Ao rever esse material, lembrei a bênção de uma época em que éramos menos, e que me inspirou agora, numa época em que somos mais. O que interessa não é a quantidade das pessoas a quem pregamos mas a qualidade que está na palavra pregada.

2. Às vezes é preciso esperar alguns anos para entender os assuntos principais de sermões que pregámos. Foi o caso agora. Cheguei ao título "Milagres no Coração" em 2017 e não conseguiria fazer o mesmo em 2011 ou 2012. A palavra é como o vinho do Porto, recorrendo à ilustração mais imediata que me ocorre.

3. A capa é uma maravilha saída das mãos do Rui Rodrigues e o prefácio é do Ricardo Araújo Pereira.

4. Numa nota mais para os nerds literários, este é o meu primeiro lançamento pela Quetzal. Isso significa que o livro estará mais disponível do que os anteriores, fazendo parte do grupo editorial mais antigo do país - a Bertrand. Também quer dizer que agora sou colega de escritores que admiro como o Bruno Vieira Amaral, o Tolentino Mendonça e o João Leal, entre outros, e que o meu editor é o Francisco José Viegas, um velho companheiro. E ainda tenho o privilégio de trabalhar com a Djaimilia Pereira de Almeida. Desculpem a nota croma, mas é honesta.

5. Como a palavra é irrequieta, quando revia este livro acabei de volta de umas canções que sairão como companhia musical, na forma de um disco editado pela FlorCaveira e a Valentim de Carvalho (com o mesmo título).

Amanhã dou mais novidades. Espero que possam partilhar alguma da felicidade que sinto com estes "Milagres no Coração".

P.S. Ainda não há estimativa de data de edição no Brasil mas, com a ajuda de Deus, vai ter de acontecer depressa!


quarta-feira, abril 04, 2018

Ouvir (e ver!)

A justiça para hoje para nós tende a ser uma via de sentido único, em que o que interessa é como o mal de fora provoca estragos cá dentro, ao passo que a justiça de Jesus tem duas faixas de rodagem, em que este sentido existe, mas o outro também, em que o mal de dentro provoca estragos lá fora.

O sermão pascal de Domingo passado pode ser ouvido (e visto!) aqui.

terça-feira, março 27, 2018

Ouvir

A bem-aventurança da mansidão quer fazer-nos trabalhar nesta área, do difícil trânsito que há em reconhecer os nossos pecados em privado para eles serem reconhecidos em público. O cristão manso lida bem com a confissão privada e lida bem com a correcção pública. Ser manso é começar sempre pelo mal em nós ao ponto de ele poder ser admitido publicamente diante dos outros. Se não praticas nada disto, és um analfabeto na linguagem da felicidade que Jesus te quer ensinar. (...)

O manso não é o que fica dependente de convencer os outros. O manso é o que vive bem com a verdade mesmo quando ela não convence os outros. Uma nova mansidão que desejo para mim é ser feliz confiando na palavra de Jesus e dizendo-a independentemente de ela agradar a todos. Estou a aprender a viver menos pressionado pelo facto de muitos não serem convencidos pelos meus argumentos. O problema é vosso, permitam-me a franqueza. Eu sei bem que estou persuadido pelos argumentos da Bíblia e desses planeio não arredar pé.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, março 15, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, Chamado "Humildes de Espírito" e pregado pelo Filipe Sousa, pode ser ouvido aqui.


quarta-feira, março 07, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Jesus ensina porque ama", pode ser ouvido aqui.

Ouvir

Se mais do que mostrar um código de conduta o Sermão do Monte quer mostrar um novo carácter, somos colocados diante de um desafio de reavaliar o nosso carácter presente a partir do nosso apego a valores como o sucesso, a riqueza e a saúde. O que é que o Espírito Santo quer revelar sobre o teu carácter actual para que ele possa ser transformado com o carácter do Rei Jesus? Se Jesus está contigo é-te dado um novo normal.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "O Reino é o real a sério", pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Ouvir

As coisas que Jesus diz no Sermão do Monte são uma aula de equitação com unicórnios? Ou podes mesmo praticar aquilo que ele te pede? O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

ARAME FARPADO NO PARAÍSO
TEXTO IX - REGRESSO A TI

Onde se afirma genericamente a miséria moral das novelas brasileiras mas se reconhece que estão cheias de grandes histórias e personagens.

Em comparação com Fortaleza, Belo Horizonte quase lembra a Europa. O centro da cidade tinha aquele tipo de irradiar-do-centro-para-a-periferia que não detectei facilmente no Nordeste. Fiz uma escala em Brasília e fiquei com pena de não parar lá. Alguns dos meus primeiros amigos brasileiros que pensaram em que visitasse o Brasil são de Brasília. O Josaías, que agora estuda nos Estados Unidos e o Pr. Emílio Garofalo Neto (diz-se Garófalo) são homens que gostava de abraçar (no caso do Josaías, voltar a abraçar). A ver se para o ano dá.

No recente aeroporto de Belo Horizonte, construído para as Olimpíadas (ou seria o Mundial de Futebol?) esperava-me o Celso Mastromouro, que me acompanhou prontamente. Almoçámos bem porque recupero o apetite assim que o avião poisa. Fomos para o hotel e descansei para que ao fim da tarde repetisse as palestras que tinha apresentado em Fortaleza. O lugar delas era a Faculdade Batista de Minas Gerais que, na prática, permite que uma criança entre no jardim de infância e saia na Universidade. No contexto evangélico português não há nada parecido.

Esse é um dos problemas que os cristãos evangélicos enfrentam em Portugal. Não há ensino privado religioso acessível aos bolsos da classe média. Aliás, mesmo que fosse para a classe mais privilegiada não haveria, na medida em que escolas cristãs evangélicas ainda são um rascunho aqui. Há aqui e ali uma tentativa, uma aventura, mas, pelo que sei, nada ainda pegou seriamente. Também é este cenário que contribui para que famílias como a nossa, ainda que não colocassem totalmente de parte a hipótese de colocar os filhos em boas escolas católicas mas não o façam por falta de recursos (as escolas católicas em Portugal são para ricos - uma pequena traição da sua alardeada "opção preferencial pelos pobres"), optem pelo ensino doméstico.

Também devo dizer que, com uma vulgarização de escolas evangélicas, também ocorre um fenómeno que é uma adesão religiosa nominal dentro do próprio protestantismo. No Brasil é possível ser "batista" e ser uma treta de crente. Em Portugal, a rigor, também é, mas é mais improvável. Os batistas no Brasil são assim uma espécie de evangélicos respeitados (provavelmente como os presbiterianos) e deu para sentir que, apesar de amar a minha denominação, no Brasil ela cheira-me aqui e ali a um tipo de superficialidade que em Portugal gostamos de apontar aos católicos. Talvez seja da perda do p. Para ser sério, um baptista precisa de um p. Um p de "põe-te sério".

***

No início da primeira palestra em Belo Horizonte, o Celso teve a má ideia de perguntar quantos dos presentes tinham ouvido falar de mim. Imaginem num grupo de umas poucas centenas (200 pessoas talvez) haver seis mãos que se levantam. O que só assinalou a generosidade dos presentes. Estava a falar para pessoas que não faziam ideia acerca de quem era. De certo modo, senti-me mais livre. Podia dizer o que queria sem correr risco de desapontar ninguém. Para ilustrar um ponto qualquer da palestra, comecei a falar sobre telenovelas brasileiras. Foi com algum choque que conclui que a maior parte daqueles jovens estudantes brasileiros não partilhava da minha paixão pelo assunto.

Lembro-me que nos anos oitenta, quando um missionário brasileiro visitava as nossas igrejas evangélicas, era sempre com algum choque que via os crentes portugueses, felicíssimos da vida acorrer para eles demonstrando um convívio profundo com as telenovelas brasileiras. Nós, portugueses saloios e deslumbrados pelas glórias da tevê, julgávamos que era assim que criávamos uma linguagem comum. Horrorizados, os evangélicos brasileiros censuravam imediatamente (ou, numa versão mais polida, censuravam com a elegância que conseguiam) o mau hábito de um crente se permitir assistir àquele lixo moral. Hoje, trinta anos depois, acho que alinho com os missionários.

As telenovelas brasileiras, com todos os seus méritos de produção, são de facto um lixo moral. Mas reconheço que não consigo separar-me emocionalmente do "Bem-Amado", da "Guerra dos Sexos", da "Vereda Tropical", do "Roque Santeiro" e da Tieta", para os cinco exemplos mais fortes. Eu não seria a mesma pessoa sem estas novelas. Por isso, irmãos brasileiros: aceitem com a maior graça possível que, quando vos pregue o evangelho, acabe dando exemplos da sinistra Viúva Perpétua, ou do povo de Sucupira, ou do Luca que entrou para o Corinthians, ou do retrato que mudava de expressão, ou do brinco do Fábio Júnior que contribuiu para uns anos mais tarde eu furar a minha orelha.

Na tripla autógrafo-retrato-perguntas encontrei em Belo Horizonte o primeiro compatriota, o Tiago. O primeiro português que encontrei no Brasil! Pode parecer piroso, mas é verdade: quando estás longe de casa abraças o teu conterrâneo como se fosse da tua família. Obrigado, Tiago!

***

Naqueles dias o Professor Wagno Bragança cuidou de nós e levou-nos à Igreja S. Francisco de Assis, do Oscar Niemeyer, na Pampulha. Pequena mas bonita. Assim meio comuna, com aquele tipo de namoricos manhosos que o Século XX permitiu entre catolicismo e marxismo, mas ok - também é esta flexibilidade que torna as igrejas católicas tão capazes de reflectir os tempos em que foram edificadas (o protestantismo, sendo mais austero, não se mete tanto em troquinhas com as tendências dos momentos).

Um dos pontos fortes de Belo Horizonte foi conhecer pessoalmente o Jonas Madureira. O Jonas Madureira está a acontecer! O Jonas é um jovem teólogo e pastor batista que, ao publicar o seu primeiro livro há uns meses, chamado "Inteligência Humilhada", em menos de nada tinha-o nos topes dos mais vendidos do país na área da religião. É gente finíssima. Culto, agudo, gentil - não contem com muitos Jonas a aparecer nos próximos tempos porque colheitas assim são raras. O Jonas acabou de chegar de avião e foi de propósito directo à minha palestra, para nos conhecermos pessoalmente. Tratou da parte do Q&A e fiquei desconsolado por não ter mais tempo com ele. Um gigante.


quinta-feira, janeiro 18, 2018

Ver e ouvir

Em rigor, faço discos desde 1994 (na altura, em forma de cassete). Não tenho a conta feita a todos os que já fiz. Uma parte muito considerável da minha vida é fazer discos. Para mim, é uma vontade que Deus me deu para cumprir (não estou a exagerar). Acredito mesmo no poder espiritual de fazer discos. Mas, neste caso, quero sublinhar outra coisa: desde 1999 que o João Eleutério passou a estar numa boa parte dos meus discos. Ou seja, já são quase 20 anos de trabalho conjunto. À medida que fico mais velho, valorizo mais estas coisas que são fidelidades. A fidelidade torna a nossa vida cheia de magia. Leut, isto é apenas uma pequena homenagem à medida da internet. És uma bênção de Deus. Já fizemos tanta coisa em disco... Sujeira, limpeza, ranho, lágrimas e um quanto sangue. Tu está sempre pronto para me receber - incrível! E também sou agradecido pelo Martim, por este vídeo que, sendo simples, tem muito significado para mim. Um abraço aos dois!

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "O que Deus diz faz os teus ouvidos tinir?", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Ouvir

Ter fé é também, ouvindo a palavra, saber que o mundo que Deus está a criar é habitável. Tu acreditas que podes habitar o mundo que a palavra de Deus cria para ti? Então por que não o habitas?

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Novidades!

A Antena 3 deu-me carta branca. E para o primeiro programa lembrem-se do slogan: constituir família é a suprema rebeldia.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "A espada no coração de Maria", pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, dezembro 28, 2017

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Se Deus pode vir até mim, só Ele sabe o que posso ser", pode ser ouvido aqui.


quinta-feira, dezembro 21, 2017

Uma espécie de Sub-Judas a dar uma de Supra-Tomés

Aqui há uns meses meti-me numa polémica por causa da tradução da Bíblia feita pelo Frederico Lourenço. Poucas vezes me senti tão desapontado pela discrepância entre o potencial do debate e a desinspiração do retorno. Entre várias manifestações hostis aos meu projecto, nenhum remate ocorreu no campo (neste caso, no texto grego, nem mesmo pelo eminente Professor) mas os foras-de-jogo foram curiosos: uns quantos auto-denominados cristãos (inclusive auto-denominados cristãos evangélicos) esbracejaram explicando o meu disparate em querer defender a integridade da Bíblia, como se a verdadeira fé disso carecesse.

Ao contrário de alguns afortunados por um tipo especial de dom de fé que não tenho, o meu tipo de dom de fé é daqueles que morre se a Bíblia não for eficaz nos propósitos para o qual apareceu. Sim, a minha fé depende de a Bíblia ser inteiramente verdadeira - é essa característica que também me torna realmente protestante (e realmente cristão!).

Ter uma fé que não depende da Bíblia é ter uma fé que depende da própria pessoa que a tem. Ora, ter uma fé que depende da própria pessoa que a tem é, como se está mesmo a ver, um tipo de mérito pessoal. A pessoa que continua a ter fé mesmo que a Bíblia seja uma colecção semi-inspirada de meias-verdades é uma pessoa que atinge um tipo de qualidade espiritual - é, de certo modo, um iluminado. É, se quisermos, uma pessoa que se salva dentro de si mesma e que não depende da verdade de nada externo a si.

Lamento mas semelhante fenómeno nada tem a ver com o cristianismo. O cristianismo é uma fé inteiramente dependente de factos externos à pessoa que crê. É por isso que os cristãos acreditam que são salvos pela graça de Deus, e não por nenhum processo pessoal de amadurecimento espiritual. Por isto mesmo, Paulo dizia que se os factos externos às pessoas que criam, como, por exemplo, a ressurreição, não fossem verdadeiros, a fé era vã - uma real fantochada, por muito poética que pudesse parecer (o capítulo 15 da primeira carta de Paulo aos Coríntios serve para demolir qualquer esperança de fazer da fé um sentimento pessoal independente de factos externos objectivos).

Os cristãos protestantes lutam pela integridade da Bíblia porque sem ela a fé que têm não passa de uma fezada pessoal, um wishful thinking. Adaptando as palavras da Flannery O'Connor, ou a Bíblia é verdadeira ou para o Inferno com ela (Flannery, como católica romana que era, aplicou esta ideia à transubstanciação). Isto não quer dizer que podemos defender a integridade das Escrituras de qualquer maneira - no cristianismo não deve haver hipótese de desonestidade intelectual nessa luta (afinal, não dá tentar usar falsidade para defender a crença em Deus quando se lida com um Deus que abomina a mentira). Mas quer dizer que em qualquer discussão intelectual sobre a verdade da Bíblia está muito mais em causa do que apenas uma opinião - está em causa uma verdade que tem poder para tirar pessoas do Inferno.

Logo, é complicado o meu convívio com pessoas que se dizem cristãs mas vêm tranquilizar-me dizendo que a fé delas permanece mesmo se a autoridade da Bíblia for lascada. Estas pessoas, dizendo-se cristãs, abraçam uma fé que nada tem a ver com o cristianismo, pelo menos, como ele é explicado na Bíblia (e é óbvio que há aqui uma lógica circular a funcionar - acredito que a Bíblia é verdadeira a partir do conceito de verdade que recebo da Bíblia - é por isso que a sola scriptura faz sentido). Este cristianismo, que sobrevive internamente no espírito da pessoa ainda que a verdade externa não se verifique, é, na prática, uma fé auto-criada que não depende de ser sustentada por mais ninguém que não a própria pessoa que decidiu crer. Ora, eu não sou cristão porque a fé que tenho depende de mim. Eu sou cristão porque a fé que tenho não depende de mim - é também isto que significa ser salvo pela graça.

Sou salvo não por aquilo que faço por mim próprio, como, por exemplo, crendo além dos factos serem verdadeiros. Sou, sim, salvo por aquilo que fora de mim foi feito por mim. Sou salvo por uma verdade independente de mim e não por uma verdade subjectiva que eu crio. Não me auto-salvo, sou salvo. Não sou eu que faço; é feito por mim. Supostos cristãos que se salvam além da verdade da Bíblia, são pessoas que se auto-salvam. E a auto-salvação é a religião do Diabo, não de Deus.

Quando Jesus corrige a falta de fé de Tomé, por ter precisado de apalpar as mãos furadas de Jesus, Jesus não elogiou um tipo de fé que é independente da veracidade dos factos. Estes cristãos que têm uma fé independente dos factos querem dar uma de supra-Tomés quando na verdade são sub-Judas: o discípulo traidor é o símbolo de quem, quando não gosta dos factos acerca do Salvador, inventa os seus próprios. A traição é o que acontece também pelo facto de Judas não suportar a direcção do ministério de Jesus. Judas traiu Jesus porque, na incapacidade de louvá-lo num trajecto descendente em direcção à morte, resolveu tornar a morte o lucro possível. Entre ter um ex-mestre morto e ter um ex-mestre morto com trinta moedas nas mãos, optou pela segunda. A traição é a capacidade de tirar proveito de algo que nos parece uma bancarrota.

Os supostos cristãos que continuam a ser cristãos independentemente de a Bíblia ser verdadeira são traidores como Judas porque, na aparência de a Bíblia não ser consistente, inventam dessa derrota uma vitória pessoal. A vitória pessoal dos traidores é que eles sobrevivem sempre quando morre quem depende de uma verdade superior a si mesmo. Jesus morreu porque não pensou em si. Judas sobreviveu porque pensou em si. A ironia é que essa sobrevivência é curta e, como com Judas, termina em suicídio. Creio que acreditar no cristianismo sem acreditar na veracidade que a Bíblia pede para si mesma é um suicídio - é o destinos dos Judas desta vida.

Quando Jesus corrigiu Tomé, ele não lhe recomendou que o importante era seguir a verdade do seu coração, independentemente dos factos palpáveis. Jesus corrigiu Tomé dizendo que a verdade dos factos deve ser aceite além ainda da nossa capacidade de os verificar - bem-aventurados os que não viram mas creram. Os que continuam a crer independentemente da consistência da Bíblia são sub-Judas porque não vêem nem querem ver, não acreditam nem querem apalpar. A fé que dizem ter é um desprezo por toda a realidade que não se baseie essencialmente no amor-próprio, que é uma das características reais dos verdadeiros narcisistas.


quarta-feira, dezembro 20, 2017

Ouvir

Abraça a largura desta promessa bíblica: sonha e chora, chora e sonha. Sonhos + choros = alegria. Não subtraias nada na conta. Não temas o choro para teres uma versão infantil da vida com Deus. Mas também não temas o sonho para teres uma versão vazia e desesperançada da vida com Deus. E ainda, não temas a alegria para teres uma versão cínica da vida com Deus. Não sejas infantil. Não percas a esperança. Não sejas cínico. Sê como o Salmo 126. Sê como Jesus. Chora e sonha, sonha e chora e no fim, graças ao que ele fez na cruz, agarra a alegria.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Um breve texto moralista a pretexto de uma rábula do Bruno Nogueira

Estou a escrever este texto porque, depois de ter lido um do meu amigo Filipe Avillez, fui ouvir uma rábula radiofónica do Bruno Nogueira, que passou esta passada Sexta-Feira, 8 de Dezembro. Nesses poucos mais de três minutos de rádio, o Bruno Nogueira fazia humor a partir da Imaculada Conceição de Maria, que nos dá o feriado (caindo num erro de confundir a Imaculada Conceição de Maria com o nascimento virginal de Cristo, como o Filipe Avillez explica).

Quero começar por fazer três qualificações prévias:

1. Sou um cristão reformado (ou protestante, ou evangélico, escolham o que preferirem). Não acredito na Imaculada Conceição de Maria (o que não deve ser confundido com o nascimento virginal de Cristo, no qual creio - é uma doutrina fundamental da ortodoxia cristã). Tentando ser respeitoso com os meus companheiros católicos romanos, quero, ainda assim, afirmar claramente que tenho esse dogma como uma invenção. Se o tivesse como verdadeiro, defendia-o. Este texto não serve para defender doutrinas que não têm qualquer fundamento nas Escrituras.

2. Como cristão reformado que sou, já no passado fiz o que o Bruno Nogueira fez. Já fiz humor com o dogma da Imaculada Conceição. E mesmo que o meu humor no passado possa ter sido de gosto duvidoso (fiz há muitos anos a mesma piada de ser José quem merece elogios por supostamente ter convivido com a virgindade permanente de Maria - coisa em que não acredito, pois creio que a Bíblia é clara a afirmar que Jesus tinha irmãos e esta interpretação tem a idade do Novo Testamento), este texto não defende que não se possa fazer piadas com dogmas como a Imaculada Conceição de Maria.

3. Como cristão que sou, há ocasiões em que me rio com o Bruno Nogueira. Confesso que há uns dias espreitei no YouTube uma das velhas emissões do Curto Circuito na Sic Radical em que a dinâmica entre o Bruno e o Rui Unas nos dava alguns momentos televisivos memoráveis. Este texto não serve para atacar o Bruno Nogueira nem o talento que, volta e meia, lhe reconheço.

No entanto, e aqui tendo chegado, gostava de dizer, não sem algum amigável paternalismo, que:

- o humor anti-católico é, para mim e na maior parte das vezes, o mesmo que bater num gordo lá da escola que sabemos de antemão que geralmente não responde. Tolerem a fraca ilustração por mais uns instantes, por favor. A Igreja Católica Romana é gorda na medida em que ocupa muito espaço no nosso país. Roma já cá estava antes que Portugal chegasse a Lisboa, por isso ela tem sempre muito por onde se lhe pegue. Ora, pegar-lhe para piadas tem, no ambiente secularizado e de esquerda que reina na comunicação social, zero de coragem. Mas alguém pode dizer, pegando na minha fraca ilustração: atenção que a Igreja Católica Romana não é um gordo qualquer - é um gordo sobre o qual se diz ter ligações ao Conselho Directivo da escola. Ok, percebo a ideia. Confesso até que uma das coisas que me irrita no catolicismo contemporâneo é precisamente este sentimento de Dono Disto Tudo que, em vez de querer ajustar contas, se torna numa perversa ausência de resposta. Os católicos romanos tornaram-se tão civilizados hoje que são poucos os que se ainda ofendem com alguma coisa (e isto agora dava pano para mangas onde vos explicava da situação filosófica complicada onde o catolicismo se encontra sobretudo desde o Vaticano II, mas vocês não tinham como seguir-me nestes meandros históricos). Mas não é pelo facto de se dizer que o gordo da escola tem ligações ao Director que lhe vou bater. Bruno, podes ser mais corajoso no humor que fazes.

- Em segundo lugar, associar o catolicismo a Salazar (como o Bruno Nogueira deixa implícito) é aquela piada que repetimos porque é nula a probabilidade de alguém que sabe mais de história estar no grupo onde a contamos. Que Salazar se relacionou com a Igreja Católica Romana e vice-versa é óbvio. Como é que seria possível alguém existir em Portugal sem ter de ter um relacionamento com a Igreja Católica Romana? Até eu tenho um relacionamento com ela, céus. Sou português, logo relaciono-me com a Igreja Católica Romana. No entanto, o “Salazar Loves Roma e Roma Loves Salazar” talvez seja um coraçãozinho que não podemos desenhar tão facilmente com o nosso canivete de hoje nas árvores da Gulbenkian - lá estou eu a resvalar outra vez para outra metáfora, e bem fraca. Onde quero chegar: Bruno, tendo em conta o tanto que se tem escrito sobre a relação entre Vaticano e Salazar, podes ser historicamente menos preguiçoso no humor que fazes.

- Em terceiro e último lugar, creio que a visão do estado laico do Bruno Nogueira exige milagres intelectuais maiores do que o da Imaculada Conceição de Maria. Creio que também fica implícito no que o Bruno diz que Portugal, por ser um estado sem religião oficial, não deveria ter feriados religiosos. Gostaria de saber que tipo de feriado é que não convoca um tipo de pensamento religioso. Por exemplo, quando celebramos o 25 de Abril, celebramo-lo porque transferimos para ele um significado de liberdade. Mas até que ponto é que a liberdade que benevolamente transferimos para o feriado do 25 de Abril nos pede algo assim tão diferente daquilo que nos pede um feriado religioso? Faço esta pergunta honestamente e sem cinismo. Onde é que termina o facto e começa o “querer acreditar” num feriado que, apesar de não ser religioso, também transmite um ideal? Ora, para mim que sou um cristão reformado que tem a Imaculada Conceição como uma invenção (nesse sentido, estou na mesma posição de descrente do Bruno), não me passa pela cabeça despir o meu país da sua relação com a história e a religião, independentemente de aderir ou não ela - também não é isso que descreve uma cultura verdadeiramente civilizada? Nesse sentido, e por fim: Bruno, podes ser um cidadão mais tolerante com as convicções dos outros que te parecem infundadas.

Se assim for, todos usaremos de maior graça uns com os outros. Sermão terminado. Vão em paz e tratem-se melhor uns aos outros.

P.S. Por outro lado, e apenas passadas algumas horas de escrever este texto, e reconhecendo que os nossos tempos de internet não nos ajudam a ser sábios, entristece-me a indiferença do Bruno ao que que é sagrado para alguns. O pior nisto tudo é que este novo sentido de humor (?) ao qual estamos a chegar é muito triste. Nem chega a ser propriamente herético, porque os hereges são geralmente mais sofisticados no conhecimento religioso que têm. É apenas triste. Estamos todos cada vez mais indiferentes uns aos outros e entretidos desde que haja uma gargalhada fácil. Que cultura que nos estamos a tornar…


quinta-feira, dezembro 07, 2017

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Dicas para Desassossegados", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Updike ensina-nos a entender que a auto-ajuda é uma feitiçaria

Comecei a requisitar livros na biblioteca de Oeiras há dois meses. O meu primeiro instinto foi ir aos clássicos e por isso trouxe o "Hard Times" do Charles Dickens numa edição recente que inclui o prefácio do Chesterton. Depois, para espairecer, atirei-me a um do Malcolm Gladwell, chamado "O que o Cão Viu". O Gladwell tem rasgos a espaços mas, como o Henrique Raposo diz com razão, é demasiado esparramado por tanta coisa ao mesmo tempo que, a longo prazo, se torna pouco satisfatório.

Mas naquelas prateleiras da Biblioteca de Oeiras a minha sede conduzia-me inevitavelmente ao U de John Updike. A minha relação com o Updike é intensa, só pecando pelo facto de não me fazer bem ser exposto ao talento gráfico que tem na descrição de cenas sexuais. Updike tem uma compreensão sólida do cristianismo e, por isso, entende como a carne é o território mais seguro para observar os nossos males da alma. Há muito sexo nos livros do Updike porque ele continua (continuava) impressionado pelos efeitos do pecado na nossa vida.

Como não havias muitos updikes na biblioteca, escolhi "As Viúvas de Eastwick" julgando que escolhia "As Bruxas de Eastwick". Quando chegue a casa percebi que era uma continuação da primeira história. Mas como confio tanto no Updike, não me importei de me lançar a um segundo volume mesmo não tendo lido o primeiro. Claro que no fim fiquei com muita vontade de ir ler "As Bruxas de Eastwick", mas nem por isso me arrependi de ter começado pelo fim.

N'"As Viúvas de Eastwick" voltamos ao trio de bruxas d'"As Bruxas de Eastwick". O que John Updike também faz nestas histórias é recuperar a tradição anglo-saxónica dos contos fantásticos para efeitos morais. Nesse sentido, e talvez pela sua paradoxal juventude, pertence aos Estados Unidos o papel de não deixar morrer a fábula enfeitiçada. Na América os escritores ainda arriscam pensar de que é numa numa história de factos fantásticos que melhor se traduz o que realmente somos. E Updike serve para provar que ainda resulta.

Neste caso, John Updike sabe que ser bruxa é preferir a criação em vez do Criador. Nesse sentido, a feitiçaria é uma idolatria consciente e esclarecida. Logo, não admira que o trio de bruxas de Eastwick esteja animado de uma leitura pertinente da realidade, que rapidamente nos conquista. Por que gostamos de boas histórias com bruxas? Porque, quando sabemos o que as bruxas pensam, vemos o mundo descrito com precisão por quem escolheu dominá-lo em vez de aceitá-lo. A sabedoria das bruxas é mais realista que a dos sábios contemporâneos. Os sábios contemporâneos tendem a ser choninhas que se escondem por trás de humildade epistemológica. Já a bruxa não está para tretas: ela não escolhe saber, ela sabe porque escolheu dominar.

Hoje tendemos a ser arrogantes com o universo do ocultismo (um nome medricas para bruxaria), considerando-o campo de superstição e ignorância. Mas o poder do ocultismo reside não em ser um refúgio para a ignorância mas em ser uma procura de dominar a natureza. Se pensarmos que as bruxas são essencialmente burras, teremo-las como inofensivas. Acontece que as bruxas são efectivamente perigosas porque não desistem de lutar contra a natureza. As bruxas são seres religiosos que, em vez de aceitar a natureza com o consolo da fé, tentam dominá-la sacando-lhe novas circunstâncias. Onde a fé se resigna, o feitiço revolta-se. Naturalmente, a bruxaria oferece soluções onde o cristianismo aceita o problema.

A determinada altura, Alexandra, uma das bruxas, encontra-se com a sua filha Marcy e lamenta: "«Esta geração», pensou Alexandra. «Eles cresceram a ver-nos revoltarmo-nos contra as nossas educações piedosas e, como reacção, regressaram a todos os sentimentalismos, à família e ao lar e a outras tiranias do género (...) O nosso trabalho era fazer bebés e comprar produtos americanos. Se caíamos do comboio do casamento, não havia muito mais para nós do que montarmo-nos numa vassoura e criar feitiços. Não fiques escandalizada, isto era poder." (pág. 156 e 157). Claro que, agora mais velha, Alexandra também reconhece o peso dos anos: "Eu costumava achar que adorava a natureza, mas agora que me está a corroer de morte, apercebo-me de que a detesto e de que a receio". Uma bruxa nova não é a mesma coisa de uma bruxa velha.

Permitam-me aqui uma breve divagação. Uma boa parte do discurso político de género de hoje opera na mesma base da feitiçaria antiga, nesta tal tentativa de domínio da natureza. Por isso, não é raro que as bruxas modernas sejam das mais estridentes defensoras dos direitos LGBTEtc (há muita wiccaria na região). Volta e meia, lê-se um homem homossexual chorando o facto de os homens serem demasiados tímidos na causa. Só quem não entende a luta eterna da mulher contra a natureza se espanta com o facto de serem elas o pelotão da frente nesta luta. Para isto nem é preciso ler John Updike (ou a grande Camilla Paglia). Basta ler o terceiro capítulo do Génesis.

O maior êxito da feitiçaria é sempre o de sugerir que o conceito de pecado é absurdo. O bom bruxo (para também não dar a ideia de que a bruxaria é exclusivo feminino) não precisa de Deus porque aprendeu a perdoar-se a si próprio. Não é à toa que a bruxa Jane diz a certo ponto: "As pessoas andam por aí a chorar a morte de Deus; é a morte do pecado que me incomoda. Sem o pecado as pessoas já não são pessoas, são apenas ovelhas sem alma" (pág. 137). E, mais tarde, perto da conclusão da história, Updike escreve sobre o trio de feiticeiras: "Perdoando a si mesmas o imperdoável, livrando-se da culpa tão casualmente como, quando eram mais novas, se livravam das roupas" (pág. 296). Perdoar-se a si mesmo é o feitiço dos feitiços.

A razão porque o cristianismo deve ser impiedoso com qualquer discurso de auto-ajuda é porque, com a melhor das aparências (como geralmente têm as melhores bruxas), ele se limita a ser um feitiço. A pessoa que se aceita a si mesma como é, é uma pessoa auto-enfeitiçada. Se entendermos isto descobriremos que vivemos numa época eficazmente repaganizada no Ocidente - nesse sentido, nunca antes fomos tão ocultistas como somos hoje. Precisamos de antídotos que nos libertem da maldição da auto-estima porque a auto-estima mantém-nos sem necessidade de Deus. Deus só se torna necessário para quem ainda não aprendeu a arte dos feitiços. Como bom protestante que tento ser, deixem-me terminar com o exemplo de Maria.

A religião dos bruxos vem sempre das entranhas, das vísceras, dos elementos. Os bruxos tentam a sua própria versão da maternidade que, neste caso, não é aceitar a vida mas criar uma nova. Maria, mãe de Jesus, é a verdadeira anti-bruxa. Maria aceita uma vida da qual não chegou a participar no processo de a gerar. Maria é, toda ela, aceitação passiva, o que irrita de morte qualquer bruxa. Graças à intervenção directa do Espírito Santo, a passividade de Maria produz o que a melhor fertilidade feiticeira não consegue (daí ser especialmente triste o culto romano mariano, uma horrorosa descaracterização da fértil passividade da mãe de Jesus, em que Maria é invocada numa lógica não muito distante das invocações mágicas). Quanto mais biblicamente marianos somos, menos tentamos trocar negócios com Deus. Aceitar o que Deus nos dá é repugnante a um mundo que tenta dominar a natureza. Quem quer arriscar?


quinta-feira, novembro 30, 2017

Agenda

Duas coisas que me animam: tocar o disco "Bairro Janeiro" (do ano passado, que nunca toquei totalmente) e fazê-lo com um amigo que torna as palavras das canções mais vivas. É daqui a duas semanas e, creio, será especial. A entrada é livre e o lugar é bonito mas pequeno (mesmo junto ao miradouro de S. Pedro de Alcântara). Venham a horas.

quarta-feira, novembro 29, 2017

Ouvir

E com este sermão termina a série mais violenta da minha carreira de pregador. E, sim, chego a uma conclusão: qual é o assunto mais difícil de pregar à Igreja? A Igreja. Deus nos ajude.

terça-feira, novembro 28, 2017

A Babá

A família Cavaco tem o hábito de ao Domingo só ouvir música de louvor. E a regra nasceu também porque não somos de ouvir muita música dita cristã. Mas o Domingo é aquele dia em que desejamos que tudo o que fazemos nos convide e excite a louvar Deus. Logo, um dos automatismos que acontece quando entramos no carro a caminho da igreja é meter um CD no leitor que nos acenda o rastilho para a adoração que vai continuar na Lapa. Durante uns meses interrompemos este hábito. E por causa de uma pessoa.

Não é suposto que nenhuma pessoa interrompa o louvor que devemos a Deus. Se assim acontecer, podemos ter um problema de idolatria, em que alguém (ou alguma coisa) serve de obstáculo para a nossa devida adoração ao Senhor. Mas esta pessoa, que durante uns meses impediu que colocássemos um CD de louvor aos Domingos, não era uma pessoa qualquer e a razão porque impediu que o louvor começasse mais cedo no nosso carro não foi para nos desviar de Deus mas, pelo contrário, nos dar mais dele. Essa pessoa chama-se Bárbara e foi uma espécie de filha adoptiva da família Cavaco durante meio ano.

A Bárbara é brasileira, esteve a terminar os seus estudos na Suiça e depois arranjou um estágio em Portugal. Conhecemo-la porque é amiga de amigos nossos (a Alê, o Alberto e o Calebe) e quando soubemos que tinha arranjado casa perto de nós, tentámos ser-lhe o mais útil que conseguimos. Ela visitou a nossa Igreja, gostou dela e começou a frequentá-la. O mínimo que podíamos fazer por ela era dar-lhe boleia (carona, para os leitores brasileiros). Como podem imaginar, se dávamos boleia à Bárbara ao Domingo de manhã, houve um encontro dela com o nosso hábito de colocar um CD cristão.

Na primeira boleia que lhe demos, e por uma questão de educação, suspendemos o CD que estava a tocar. Afinal, não é muito gentil receber alguém no carro e não oferecer-lhe os nossos ouvidos. E se há dom que a Bárbara mostrou ter é o de saber usar a atenção das pessoas com quem está. Mal entrou, entrou com ela um universo novo que a nossa viatura nunca tinha visto a um Domingo de manhã. Acho que ficámos logo com a ideia, no momento, que aquela miúda estava a trazer um jogo diferente que mudava as regras dominicais do carro mas mudava mais ainda.

Durante meio ano não foram só os nossos Domingos que foram tomados pelo furacão Bárbara. Foram feriados, fins-de-semana, e outros dias. Gradualmente a Bárbara conquistou não só a nossa companhia, como também a nossa confiança. Em menos de nada a Bárbara tornou-se a Babá, também porque a usámos como baby-sitter das nossas crianças (e em Portugal não se usa "babá" para baby-sitter, mas nós adorávamos fazê-lo). A Bárbara deixou de ser apenas Bárbara para ser também a Babá - tornou-se parte da família Cavaco.

Em muitas das qualidades que trouxe à nossa vida, duas destacaram-se. A Bárbara tem um talento natural para contar episódios em que fez figura. Em Portugal fazer figura também significa aqueles momentos em que damos por nós numa situação meio ridícula - em que a piada somos nós próprios. Com a Bárbara isto acontece frequentemente. O resultado era que em pouco tempo acabávamos a rir da Bárbara graças à Bárbara. Esse humor gracioso trouxe uma dose grande de alegria à nossa família. Nós sabíamos que quando íamos estar com ela, íamos estar mais alegres. Se primeiro era por causa da piada em si, depois já era simplesmente porque estar com ela era estar com a alegria.

A segunda qualidade é que a Bárbara gosta de cidades. Os Cavacos gostam de campo mas gostam muito de cidades também. Nós andamos muito a pé nas cidades porque gostamos da coisa particular que é as pessoas viverem em cidades - uma cidade nunca é um acaso sem valor. Ora, a Bárbara, que já tinha estudado arquitectura, cedo se apaixonou por Lisboa (quando um brasileiro diz que se apaixonou, não vale a pena duvidar). O que chegou ela a fazer? A vir de Carcavelos a pé para Lisboa, só para apreciar a região onde estava, junto ao mar e ao rio. Nesse seu empenho, como podem imaginar, conheceu Lisboa como nunca vimos nenhum amigo nosso estrangeiro conhecer. De tal modo que chegou a acontecer a nossa família ir passear num Sábado ao MAAT e, quando pensámos em convidar a Bárbara para se juntar a nós, onde estava ela? Já a passear em Lisboa, claro. Acabámos juntos e felizes em Belém nessa tarde.

A Bárbara regressou ao Brasil há umas semanas. Nas despedidas propriamente ditas houve muitas lágrimas. Mas não é aí que quero chegar, para neste texto homenagear a Bárbara. No primeiro Domingo depois do seu regresso, voltámos ao velho hábito dominical da família Cavaco. Chegar ao carro e ligar um CD de louvor. À ida e à volta. Foi bom readquirir a prática que tinha sido interrompida. E estamos a gostar de ter novamente aquele lume para acender o rastilho da nossa adoração. Mas há uma diferença. Uma parte do lume da nossa adoração queima agora mais devagar. Sem a Bárbara, a nossa alegria é mais tímida. Claro que continuamos a ser adoradores alegres de Deus, mas a nossa intensidade ficou transformada. De certo modo, a Bárbara, ao suspender a música, tornava-se a nossa própria música de louvor a Deus. Por isso, não caíamos em idolatria ao termos a Bárbara a silenciar o CD cristão porque ela fazia ainda mais vivo o nosso cristianismo.

Um dia, nos novos céus e nova terra, estas coisas que ficam meio quebradas, entre o louvor a Deus e as pessoas, ficarão para sempre concertadas. Teremos a alegria da Bárbara e a alegria da música cristã tudo a cooperar junto e ao mesmo tempo, e sem as tristezas das despedidas provisórias. Saberemos que tudo contribuirá para a alegria sem fim de estarmos rosto a rosto com Jesus.


quarta-feira, novembro 22, 2017

Ouvir

Alguém que não se quer expor à disciplina da Igreja é alguém que na realidade não quer fazer parte dela, ainda que possa não ter consciência disso. Alguém que nunca confessou pecados à igreja (ou em privado a um dos seus membros) é alguém que está numa posição assumida de imaturidade e medo e, como tal, incapaz de exercer uma responsabilidade espiritualmente consistente na Igreja.

O sermão de Domingo passado, chamado "Qual é a responsabilidade do membro de Igreja?", pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, novembro 16, 2017

Um sermão salivado

Dois mil e dezassete também vai ficar para a minha história como um dos anos em que, à boleia dos 500 anos da Reforma, tive de gastar muito tempo a dizer mal do catolicismo. O meu dizer mal do catolicismo tenta ser o mais fraterno possível, tendo em conta as circunstâncias possíveis. Para tentar resumir coisas que também são complexas, diria que, apesar de acreditar que Cristo pode salvar dentro do catolicismo, o catolicismo é um sério obstáculo a que Cristo salve. Se assim não pensasse, naturalmente seria católico romano (e, provavelmente, dos católicos romanos mais chatos que podem imaginar).

Mas neste texto quero começar por dar a mão à palmatória e concordar que o catolicismo tem alguma razão quando critica o excesso de individualismo protestante. É verdade que eu não acredito que a ligação à Igreja (como ela é entendida por Roma) é a ligação a Cristo. É possível estarmos na Igreja de um modo que não é igual a estar em Cristo - Lutero tinha razão quando descrevia a coisa em termos de "Cativeiro Babilónico da Igreja". Mas tenho de concordar com os católicos romanos quando eles olham para os evangélicos como uma anémica demonstração da importância que Cristo dá à Igreja. Nós, evangélicos, estamos tão preocupados com a salvação do indivíduo que esquecemos que essa salvação individual serve um propósito colectivo que é sermos Igreja. A Igreja não é uma extra dado a quem é salvo: a Igreja é a razão para que fomos salvos.

Logo, uma das tristezas de pregar o evangelho no Século XXI a uma Igreja Evangélica é ter de lhe lembrar a importância da Igreja. Se a vida cristã for um parque aquático evangélico, a soteriologia é aqueles incríveis escorregas labirínticos em que as pessoas fazem fila para andar, e a eclesiologia é um lava-pés. Os evangélicos, balofos em insistir na salvação pessoal, acham que a Igreja e o modo como ela funciona é à vontade do freguês porque não é assim tão importante. Quero aumentar ainda mais a minha acusação aos meus irmãos evangélico: nós não amamos a Igreja. Nós separámos tanto a salvação individual do seu destino colectivo que aturamos a Igreja como uma fatalidade burocrática. Nesse sentido, quero elogiar os católicos romanos (os sérios, óbvio): ao menos para eles a Igreja vale alguma coisa.

Uma das maneiras mais pelintras que os evangélicos têm de não amar a Igreja é preferirem falar em reino de Deus, como se reino de Deus e Igreja fossem realidades concorrentes. Pior ainda: há evangélicos que preferem falar em reino de Deus como quem insinua que quem fala em Igreja permanece numa espécie de farisaísmo, obcecado em regras e regrinhas para pesar o povo de Deus. Eles, pertencentes a uma elite de iluminados que vai onde os burros dos institucionais não chegam, vêem o mundo a três dimensões onde os outros vêem a preto e branco. Os evangélicos, guiados por este triste desfile de visionários auto-diplomados, vive a Igreja sem amor e compromisso, relativizando a pertença a uma comunidade local de carne e osso. É sempre mais fácil ser fiel a um amor platónico. Preferir falar do reino de Deus em vez da Igreja local é optar por pornografia em vez de dormir com a mulher. Fui duro no que disse? Acho que sim.

Isto para chegar ao último sermão da série de eclesiologia que estamos a dar na Lapa. Não é revelador que os sermões mais duros que tenha pregado nos últimos anos sejam acerca de defender a importância da Igreja diante da minha Igreja local? Conseguem topar alguma aparente contradição nisto? Nem tanto, se tivermos em conta o triste desamor que as igrejas evangélicas foram ensinadas a sentir pela Igreja nas últimas gerações. Sim, as igrejas evangélicas foram ensinadas a não amar a Igreja e a prova disso é que quando um pastor prega o valor da Igreja e o modo como a Palavra ilumina o seu funcionamento, ele parece um monstro. Mas, azar. Deus não me chamou para pregar o evangelho do "Jesus salvou-me e a Igreja é um ketchup que, se eu quiser, acrescento ao meu hamburger". Não. Deus chamou-me para pregar o evangelho de Jesus que produz uma comunidade de pessoas chamada Igreja que nem as forças do Inferno conseguem destruir. Porque prego Cristo, prego a Igreja.

Se há uns meses escrevi acerca de "Pastores que são Papas", agora fui ao outro lado da questão. Com alguma justiça o Paulo Pascoal e o João Saramago, pastores meus amigos, tinham dito que a maior dificuldade nas igrejas baptistas não é pastores déspotas mas pastores gato-sapato. Apesar de achar que as duas coisas não são mutuamente exclusivas, concordo com a crítica do Paulo e do João. Este sermão chama-se "Não tires a coroa ao pastor" e, sim, é a partir da Bíblia. Basicamente, o que o apóstolo Pedro nos ensina é que a Igreja precisa de pastores como um reflexo de precisar de Jesus. O modelo que serve para os pastores é o modelo de Jesus. Pela negativa, podemos aplicar esta lição sabendo que uma Igreja que desvaloriza o papel dos pastores, desvaloriza o próprio papel de Jesus.

Este foi um sermão que preguei a cuspir-me, a babar-me, e a urrar feito um cão raivoso. Não preguei ferozmente a importância dos pastores porque sou pastor. Céus, não! É o contrário: a importância dos pastores só faz com que eu, pastor, tenha de viver em temor e tremor. Não estou atemorizado porque vou dar contas do meu pastorado a uma geração de cristãos que desvaloriza o papel do pastor; estou atemorizado porque vou dar contas do meus pastorado ao Pastor Supremo que se chama Jesus Cristo. Mas esse temor só me faz querer ser sério com a importância que os pastores têm na Palavra.

Sei que estou a simplificar muito mas simplificar muito também é necessário quando se prega o evangelho. Topem esta simplificação: no meio baptista em Portugal há pouco respeito pela Igreja e há pouco respeito pelo pastor. Boa parte dos pastores vivem como empregados mal pagos de congregações caprichosas e sem fé, que lhes fazem a cabeça em água pela cor da carpete e pelo vaso de flores do átrio de entrada. Ao mesmo tempo, tento evitar a auto-comiseração de vir para a internet dizer que a minha vida de pastor é difícil porque, se precisar de me queixar, é a Deus e não ao ciber-pardieiro das redes sociais. E sei que, comparando com heróis da fé espalhados pelo mundo neste tempo, a minha vida não é difícil.

Dito tudo isto, deixo o sermão para ouvirem. Não tirem a coroa ao pastor. Amem a Igreja. Corram para o rosto de Cristo.