quarta-feira, junho 12, 2019

Agenda




















Esta é a última apresentação musical que, se Deus quiser, farei até 2020. Viseu é uma cidade especial para mim. Vão!
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Sim, é isso mesmo: não tenhas medo de ter medo de Jesus. Quem nunca se assustou com Cristo, provavelmente conhece-o muito pouco. O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui e no Spotify.

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Só podemos saber quem segue Jesus, tendo a prudência de construir a casa na rocha, quando a dificuldade chega. É o problema que aponta aqueles que seguem Cristo como a solução. A coisa positiva que é revelar-se quem é mesmo de Jesus acontece através da coisa negativa que é a vinda de tempestades. Isto não quer dizer que os cristãos a sério desejam a chegada de dificuldades, mas, seguramente, quer dizer que os cristãos a sério não perdem a fé quando elas chegam.

O sermão de Domingo passado, chamado "A pressa não deixa pedra sobre pedra", pode ser ouvido aqui e no Spotify.

sábado, maio 25, 2019

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Como é que Jesus justifica a situação aparentemente absurda de impedir que gente que faz coisas boas, gente aparentemente boa!, tenha comunhão com ele? Precisamente demonstrando que até as coisas boas podem ser, aos olhos de Deus, coisas más. Como assim? É isso que Jesus faz quando revela àqueles grandes faladores e fazedores que, na realidade, as maravilhas que andam a falar e a fazer eram, no fim de contas, “iniquidade”. O que este texto nos mostra é que é Jesus que avalia o que é bom, e não os que se julgam bons que avaliam Jesus. Os que se julgam bons podem ir parar ao Inferno porque Cristo está num lugar onde a bondade deles não chega, que é o de juiz.

O sermão de Domingo passado, chamado "O perigo da fé fundada no bem que falamos é fazemos", pode ser ouvido aqui e no Spotify.

sexta-feira, maio 17, 2019

Videozinho (final) de Sexta-Feira

Da minha experiência no YouTube cresce a convicção de que a plataforma é menos acerca da amizade provada e mais acerca da amizade que se quer provar. O que quero dizer com isto? Para pessoas ruins como eu, o YouTube torna-nos mais insatisfeitos com os amigos que já temos e faz-nos desejar amigos que dificilmente serão reais mas que nos gratificam imediatamente em likes e visualizações. Ainda não estou convencido de que a internet é a besta do Apocalipse mas que ela serve também o sistema da Babilónia, isso não duvido.

Também por causa disto, sinto sempre uma grande ambiguidade quando invisto no meu canal do YouTube. Por um lado, vejos bênçãos. Por outro, vejo maldições. Reconheço que quando acabo uma temporada, chega um alívio. E eis que hoje termino a segunda temporada do meu canal de Youtube, a de 2019. Finaliza a temporada azul, a blue season (ou seria melhor a blues season?).

Deixo-vos com uma canção acerca do meu amigo Tiago Ramos. Tenho pelo menos duas canções para o meu amigo Tiago porque mais de 30 anos de amizade dá para aquele tipo de gratidão que facilmente inspira canções. Uma das lições que trago dos anos do punk e hardcore da adolescência é que canções do contra podem mudar uma época mas canções de amizade podem durar uma eternidade (quem se recorda do "Amigo" dos Human Beans?). Cada vez gosto mais das últimas e de poder cantar as minhas.

Não quero terminar com uma murmuração mas não resisto: em tantos anos de música cada vez encontro menos amizade nos seus palcos. Há sobretudo calculismo e uma falta de coragem que abandona aqueles que, se cantarem fora da harmonia da maioria, serão colocados de parte. Não me quero fazer de coitadinho mas sei que o futuro das canções sinceras feitas em Portugal, e em qualquer outro lugar do mundo, exigirá resistência. Por outro lado, quero assumir sem auto-comiseração que realmente acredito que canto karaoke no mundo das trevas. Aguentem-se e encontramo-nos novamente no YouTube em 2020, se Deus quiser. See ya in the pit!

quarta-feira, maio 15, 2019

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Na fala do falso profeta, que gosta de tornar folgado o que é estreito, há muito pouco do fogo das palavras de Cristo e muita felicidade no seu lugar. O falso profeta nem se dará ao luxo de ser claro porque ser claro é o contrário de ser subtil e a subtileza é o seu negócio. A cautela que precisamos de ter com os falsos profetas passa por sabermos detectar na conversa que lhes é típica como tornam o acesso a Cristo o oposto do que é difícil, estreito e apertado – por natureza, o falso profeta declara, com um discurso cheio de lã e fofura (não quisesse ele mostrar a qualidade de uma ovelha verdadeira!), que chegar a Cristo é, basicamente, para todos e de qualquer maneira. Do caminho estreito com que poucos acertam, passamos a ter uma estrada larga para a maioria.

O sermão de Domingo passado, chamado "Alargar o que Jesus diz estreito", pode ser ouvido aqui (e no Spotify!).

segunda-feira, maio 13, 2019

Efeitos da Secularização na Cultura

[Quarta-Feira passada houve uma conferência muito importante na Assembleia de Deus de Benfica acerca de novas conclusões sociológicas acerca da religião na Área Metropolitana de Lisboa. Esta foi uma das minhas participações no evento.]

Quero tornar a minha participação neste Seminário “A Fé na Cidade - As Extraordinárias Constatações do Estudo sobre Religiosidade na área Metropolitana de Lisboa”, falando sobre “Efeitos da Secularização na Cultura”, num eco do pensamento de pessoas que percebem do assunto mais do que eu e que, na pior das hipóteses, ao terem-me persuadido, espero que possam persuadir mais. O mais importante que tenho para dizer é dizer o que já disseram pessoas como a Helena Vilaça, James K. A. Smith e, sobretudo Charles Taylor.
Ter de falar na importância da cultura é um pouco como, na presença de várias palavras, constatar que provavelmente estamos na presença de um texto. Se for o caso de se partir do princípio que foi a palavra de Deus que criou tudo, como nos explica Génesis 1, e que a palavra se fez carne em Jesus, como nos explica João 1, então devemos assumir que não é muito prestigiante que tantos cristãos precisem de ser despertados para a relação entre a fé e a cultura. Neste sentido, a cultura é também o texto que as nossas vidas, em conjunto com as vidas dos outros, todas elas criadas pela palavra divina, vão escrevendo. Não é possível viver sem que algo se escreva, e uma cultura é o texto que redigimos colectivamente, com mais ou menos consciência disso. Se os evangélicos querem manter-se o povo da palavra, não é possível cultivarem uma ignorância acerca da cultura porque a cultura é o texto que acontece sempre que palavras se juntam.
Ao dizer isto, não sugiro que um cristão precisa de ser um especialista em cultura. Mas creio que é difícil, por exemplo, ser um pastor eficaz e, portanto, um ministro da palavra, sem fazer uma exegese do mundo à nossa volta, à semelhança do que fazemos com o texto bíblico, como afirma James K. A Smith. Temos de ler o texto da realidade bíblica e temos de ler, a partir da Bíblia, o texto da realidade. Em “You Are What You Love”, Smith coloca a questão deste modo: “os pastores precisam de ser etnógrafos do dia-a-dia, ajudando os paroquianos a ver o seu próprio ambiente como formador e, demasiadas vezes, deformador”. Correndo o risco de alguma simplificação, diria que se não sabemos ler o texto da realidade à nossa volta, é porque não sabemos ler a própria Bíblia assim tão bem como julgamos.
Já que começo com uma nota mais crítica, acerca de algum alheamento cultural que frequentemente nos caracteriza, como evangélicos em Portugal, também me parece correcto elogiar o que neste alheamento pode ser elogiável. Parte da ousadia cultural que os cristãos evangélicos podem ter em Portugal (e acredito que tenham mesmo!), e noutros países culturalmente católicos onde nunca alcançaram destaque, deve-se a não darem assim tanta importância à sua performance cultural. A partir do momento em que os cristãos se preocupam demais em serem culturalmente conscientes, perdem grande parte da pertinência do seu testemunho. O sal da terra e a luz do mundo, como o Nosso Senhor nos ensina no Sermão do Monte, resultam de uma identidade proveniente de sermos totalmente felizes em Jesus, bem-aventurados nele – o objectivo de a nossa luz brilhar diante dos homens é para que eles glorifiquem Deus e não nós. Não somos sal e terra quando estamos preocupados em que os outros assim nos considerem. Jesus tinha explicado que o resultado de sermos felizes nele era perseguição e não aplauso. Daí que creio que se apropria dizer que, se por um lado o alheamento cultural pode demonstrar o pecado de indiferença aos que precisam de ouvir o evangelho, por outro, uma excessiva preocupação com a cultura pode demonstrar o pecado de procurarmos a nossa felicidade no reconhecimento dos outros. Não há soluções mágicas para este dilema – tem de ser o próprio evangelho a calibrar-nos.
Para entrar no assunto propriamente dito, nos efeitos da secularização da cultura, começo por um exemplo. No livro “The Changing Soul Of Europe”, Helena Vilaça, escrevendo sobre a experiência religiosa das comunidades do leste europeu em Portugal, nota como a Igreja Católica Romana, para integrá-las, contextualizou a ajuda que lhes presta em termos de “solidariedade”, uma palavra mais compreensível numa época secular, do que a tradicional e bíblica “caridade”. A secularização da nossa cultura também se vê no modo como nos sentimos levados a usar novas palavras para velhos significados. É uma questão também delicada de palavras, sentimentos e significados.
No livro “A Secular Age”, Charles Taylor, um filósofo católico, afirma que a secularização não é apenas uma subtracção, uma perda da crença em Deus; é sobretudo a adição de uma nova maneira de viver: essa nova maneira é o que ele chama de humanismo exclusivo, que significa que todos deixámos de precisar do transcendente para encontrar sentido para a nossa existência. Até os crentes já não crêem como os crentes no passado. Os crentes podem até continuar a acreditar num Deus transcendente, mas a convicção que têm nele fundamenta-se essencialmente numa base imanente, do descanso subjectivo que extraem dessa crença sobrenatural. Por isso, nem é tanto que hoje, com uma sociedade secularizada, haja uma grande luta entre acreditar e duvidar; é mais que hoje, numa sociedade secularizada, todos acreditamos ao mesmo tempo que duvidamos – somos todos Tomés. O lugar onde encontramos significado para as nossas vidas deixou de estar no mundo que nos é externo, com realidades objectivamente transcendentes, e passou a estar na nossa mente. No mundo pré-moderno as coisas tinham um poder espiritual independentemente de se acreditar nelas ou não, estivesse esse poder em objectos como as relíquias ou a hóstia. Agora o poder fica dependente na nossa capacidade de o reconhecermos – as coisas espirituais só funcionam se acreditarmos nelas.
Permitam-me uma nota mais filosófica e histórica, assinalando a ironia, segundo Charles Taylor, de que aquilo que contribuiu fundamentalmente para o processo de secularização não foi uma vontade de expulsar Deus do mundo. Foi precisamente o seu oposto: dar mais mundo a Deus, no final da Idade Média. Parte da mudança mais revolucionária que contribuiu para a actual secularização, com a Reforma Protestante, deu-se porque se queria mais devoção – queria-se um mundo em que era também o comum que se santificava, e não apenas o sagrado. Parte da modernidade de Lutero, se quisermos aqui usá-lo como referência moderna, é compreender que o monge alemão sabia que santo precisava de ser tanto o padre como o sapateiro. A partir do momento em que há a expectativa que até os sapateiros sejam santos, colocando-lhes a Bíblia nas mãos, parte da Idade Moderna nasce ao respeitar-lhes a consciência. Uma era mais secular também é o que acontece quando o religioso sai dos limites do religioso. Em Roma a santidade arruma tudo bem arrumadinho; na Reforma a santidade mistura tudo. O mundo que vingou foi claramente o segundo, com todos os pontos positivos e negativos que daí saem.
Voltemos a Taylor e às suas três noções de “secular”:
1) O secular1, que é o secular enquanto algo temporal, mundano. Exemplo: o padre é sagrado, o padeiro (ou sapateiro, para um exemplo mais luterano!) secular.
2) O secular2, que é o secular enquanto algo neutro, não-religioso, por contraste ao que é confessional. É este secular2 que dá origem ao termo secularismo.
3) O secular3, que é o secular enquanto algo que numa sociedade permite a crença em Deus como uma opção entre outras (neste contexto, geralmente a opção menos fácil). É neste secular3 que Taylor quer trabalhar.
Taylor fala ainda sobre pressões cruzadas, um sentido generalizado na nossa cultura de que, com o eclipse da transcendência, alguma coisa se perdeu. Isto vê-se, por exemplo, na reacção que temos com momentos como o nascimento, o casamento ou a morte, continuando a atribuir-se-lhes a embalagem religiosa do rito.
No trabalho de contestar a secularização2, importa reconhecer que o que se tornou implausível não é tanto acreditar no sobrenatural; o que se torna implausível é um modo de vida que não valoriza o natural como o mais importante. A nossa época pode ser chamada de Era da Autenticidade, em que vivemos de acordo com o que descobrimos acerca de nós, sem qualquer imposição do exterior. A prática religiosa que hoje é abraçada tem de justificar nos termos do desenvolvimento espiritual de cada um. O espiritual persiste, as regras é que parecem ter mudado: “cada um tem de achar a sua fé (ou falta dela)”.
Como nota de rodapé, vale a pena mencionar a atracção que hoje muitos sentem pelo catolicismo, como uma espécie de resolução dos males da nossa Era Secular, ou da nossa Era da Autenticidade – Taylor, como católico, reconhece esta atracção que vem em modo de nostalgia. Pessoalmente, gosto de chamar este novo charme romano de Neo-Tomismo-Trinfalista, um regresso a um suposto mundo encantado anterior aos estragos que são apontados aos protestantes, que possa até “re-territorializar” espiritualmente a Europa e o mundo ocidental, atenuando ou mesmo eliminando a actual “cacofonia religiosa” (para usar dois termos de Enzo Pace). O problema é que o Neo-Tomismo-Trinfalista idealiza o passado (como se a fé dos pré-modernos fosse mais fé do que a nossa), e idealiza o presente (como se a nossa fé fosse mais fé se se livrasse do nosso contexto contemporâneo). Neste sentido, permitam-me a opinião de que as conversões ao catolicismo, mais do que serem a favor de Cristo, são contra o mundo moderno. Taylor diz que estas conversões ao catolicismo são “uma receita para um tipo de conservadorismo que enfatiza que as fontes mais profundas da cultura europeia estiveram no Cristianismo”. Esta receita funciona como uma espécie de antídoto para o relativismo moderno, podendo na sua forma mais radical demonstrar hostilidade até ao próprio sistema democrático. É um pacote sedutor mas muito perigoso, diz Taylor. Porque até esta nostalgia é um produto da modernidade que quer criticar – estamos a fazer um buffet moderno do passado.
O interesse em compreender Taylor não é, neste sentido, munir o cristão, mas ver onde o secularista já não tem munições. Na Era Secular o sentido está de tal modo no monopólio do que sentimos, do que nos é imanente, que temos grande dificuldade em exercer a nossa imaginação fora deste enquadramento. Em termos práticos, isto significa que, como raramente este enquadramento imanentista é formulado, raramente é questionado. A moldura da imanência acaba por fechar-se mais que se abrir (“it’s something we reasom from and not something we reason to”). Passamos a ter um mundo de estruturas fechadas mais fechadas que julgávamos. Como não exprimimos formalmente que construímos as nossas convicções a partir do que sentimos, não sentimos a fragilidade desta forma como vivemos. Parece muito flexível viver-se a partir do que sente, mas é bem mais rígido do que parece.
O humanismo exclusivo da nossa Era Secular monta uma dicotomia entre religião e humanismo ou, se preferirmos, fé e raciocínio. Parte-se do princípio que, como estamos aqui sozinhos, o único sentido tolerável tem de ser aquele que nós próprios criámos – como somos tudo o que existe, só pode existir o que somos, sem espaço para Deus. Aquilo que é tido como científico ganha a capacidade moral máxima, tornando irresponsável fundamentar decisões noutra base que não aquela que um pensamento científico, supostamente incontestável, nos permite. A verdade é que a ciência não nos convence por nos explicar tudo tim-tim por tim-tim (a maior parte das vezes nós vivemos perfeitamente bem sem termos coisas essenciais explicadas tim-tim pot tim-tim); a ciência convence-nos pela força com que condena que nós possamos viver sem podermos exigir que tudo nos seja explicado tim-tim por tim-tim. São coisas diferentes.
Preciso de terminar esta longa digressão. Até porque ela não traz nenhuma conclusão redonda que possa acalmar-nos hoje. Relembro duas recomendações: a secularização traz-nos provavelmente mais mudanças nas condições de crença do que propriamente na crença em si; e cuidado com as conversões! Espero que, pelo menos, nos ajude a, como criaturas do texto divino que somos, ganharmos olhos para lermos os outros textos à nossa volta.

Videozinho de Sexta-Feira

Pode um protestante ser fiel a uma católica? Sim, se for Tiago Cavaco e Flannery O'Connor.

sexta-feira, maio 03, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Há uns dias não me contive e chamei pateta a uma pessoa que, contra dois mil anos de consenso cristão, se insurgiu contra a ideia de que a crucificação de Jesus serve para Deus perdoar os nossos pecados. Repensando um pouco, aquela pessoa não foi assim tão pateta. Pelo contrário, foi sensata. O mais racional, quando se olha para a cruz, é, sem dúvida, tomá-la como absurda.

Por isso, não é de estranhar que as Escrituras façam depender de uma revelação divina a compreensão do que estava a acontecer na crucificação de Jesus. Só é possível encontrar na cruz algo mais do que um absurdo através de uma verdadeira intromissão transcendente - ou Deus nos mostra, ou não vemos. Não é curioso, então, que aquela pessoa estivesse a observar a crucificação de um modo tão semelhante ao modo como olharam os transeuntes, os ladrões na cruz e os escribas e sacerdotes - dizendo não com a cabeça, zombando e injuriando? Quem quiser deter o discurso mais articulado diante da cena macabra da execução de Cristo, o indicado é decretá-la como despida de sentido. A praga do cinismo também nasce daqui.

Que Deus me livre de ter um discurso confiante diante da cruz. Peço por admiração. O vídeo de hoje serve para ilustrar isto.

quarta-feira, maio 01, 2019

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O sermão de Domingo passado, chamado "Saudável Individualismo Cristão", pode ser ouvido aqui (e agora também no Spotify!).

sexta-feira, abril 26, 2019

Videozinho de Sexta-feira

Uma das grandes vitórias do Diabo, dizia o C.S. Lewis, é ter convencido o mundo moderno de que ele não existe. Acrescentaria que outra vitória, do mesmo calibre, é ter-nos convencido de que a oração é o que se faz quando não há nada a fazer. Esta é uma tragédia contemporânea.

Até os cristão são contagiados com esta ideia de que orar é o que se faz quando não há nada a fazer. Mas é o contrário: se ainda não oramos, então nada começou realmente a ser feito. Mesmo que fiquemos impressionados pelas obras consideráveis de pessoas que as edificaram sem oração, sabemos por Jesus que são casas na areia - mais cedo ou mais tarde vão desaparecer. Serão um belo e rotundo zero. Por isso, é absurdo que o Domingo, o dia especial dos cristãos, possa ser um dia em que pessoas se reúnam em nome de Cristo sem se exporem à sua presença especial que também acontece através da oração.

O hábito de o Pastor ficar à porta a cumprimentar as pessoas depois do serviço de culto não é exclusivamente baptista. Mas, para mim e para muitos pastores baptistas, é quase uma segunda pele dominical. Não me insurjo hoje contra ele mas nos últimos anos compreendi que deve ser secundário face à necessidade de oração que tantos podem ter no final do culto. Na Lapa a prioridade mudou: não venha à casa de oração sem que a oração venha até si. Não é uma obrigação ou sequer uma desvalorização da pregação da palavra: pelo contrário, é a convicção de que, ao Cristo, a palavra encarnada, mostrar-se através da palavra pregada, a oração é a melhor resposta que lhe podemos dar. Sem querer fazer disto um dogma, sei que uma pessoa que nunca ficou para orar depois do culto é alguém que está mais longe de ser pastoreável pela palavra e pelos seus ministros. Quem ficar na zona de impacto, vai precisar de oração. Que fantástico atordoamento é esse!

O vídeo de hoje ilustra isto.

terça-feira, abril 23, 2019

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O sermão de Domingo passado, que pergunta "As coisas boas que pedes são realmente boas?", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, abril 22, 2019

Algumas impressões sobre o debate Peterson/Žižek

Há uma tendência popular de apontar a internet como a besta do Apocalipse. Pessoalmente não posso assegurar que ela não seja. Mas vejo-me obrigado a reconhecer que há coisas fantásticas a acontecer-me na vida que dificilmente aconteceriam sem que a internet desempenhasse o seu papel. Por exemplo, o debate entre Jordan Peterson e Slavoj Žižek aqui há uns dias.
Antes de partilhar algumas impressões, num texto bem ziguezagueante, quero tentar situar-me em relação a estes dois homens. Slavoj Žižek é um louco de esquerda cujo charme me atinge. Já li uma meia-dúzia de livros dele, recenseei uns quantos (para a extinta revista Atlântico e para a revista Ler), e, apesar de estar longe ideologicamente, estou mais perto em alguns domínios do que me agradaria reconhecer. Isto quer dizer que, por um lado, gostaria de que a vida fosse simples ao ponto de, por não ser de esquerda, pouco ou nada tivesse para elogiar ao Žižek . Mas a vida não é assim tão simples.
Acerca do Jordan Peterson não precisarei de dizer muito porque basta encaminhar-vos para o texto que, no ano passado, escrevi acerca dele no Observador, e que é uma provinciana glória pessoal por ter sido o primeiro artigo sobre ele na imprensa nacional. O Peterson é um amor recente e o Zizek é um amor/ódio antigo.
A primeira observação que quero partilhar é admitir que, ao comentar o debate Jordan Peterson vs Slavoj Žižek, também estou a fazer algo irritante que é dizer uma das melhores coisas é ter-se falado de um assunto acerca do qual já vos tinha falado mas que ninguém me ligou (vejam aqui).  Por isso, aceitem por uns instantes este momento de “eu sempre disse isso, eu sempre disse isso!” Esse assunto do qual vos falei e que ninguém me ligou é a rasura antropológica do marxismo: o comunismo desantropologiza o homem para antropologizar as chamadas estruturas sociais. Esta é uma fraqueza intelectual tão patente que até um pateta como eu lá chega. Sinto-me bregamente vindicado pelos primeiros vinte minutos do encontro deste par de star-intelectuais.
A segunda observação é acerca da imprevisibilidade de como os intervenientes encarnam as suas ideias. Como a vida não é assim tão simples, a rasura antropológica que correctamente Peterson aponta ao marxismo é, de certo modo, invertida para que num discurso global acerca de sistemas económicos, Peterson, de facto, pareça o optimista (e, nesses termos, o ideologicamente raso), e Zizek encarne o pessimista (e, nesses termos, o pessimista antropológico). Isto significa que, ao assistir a este debate, frequentemente me senti acreditando em Peterson  mas identificando-me com Žižek. Ou, se quisermos, não acreditando em Zizek mas não me identificando com Peterson. Ou sou eu que sou burro ou a vida pode mesmo ser complicada (há outras opções a considerar mas que agora não são assim tão importantes para este texto).
O problema de Peterson, de defender correctamente algo que não encarna eficazmente, é, obviamente, teológico. Como Peterson ainda não crê na ressurreição de Cristo, concebe uma existência em que a verdade pode ser independente daquilo que é carne e osso. Também é por isto que Peterson lê a Bíblia a partir de Jung, mas não consegue ler a Bíblia a partir da Bíblia. Peterson, como psicólogo que é, pode dar-se ao luxo de reciclar uns quantos gnosticismos arcaicos sem dar sinal de que compreende as suas consequências. Aliás, no pensamento de Peterson o homem precisa mais de uma terapêutica do que de uma salvação. O triunfo de Peterson é, numa época que tornou doentes em déspotas, reafirmar o valor da saúde. Mas aponto-lhe (eu e muitos outros) a insuficiência do tratamento sugerido. A insuficiência do doutor Peterson é, em ao registar as melhoras dos seus pacientes, perder algum respeito à doença deles. E por isso não é casual que no fim acabe por admitir que acredita que as pessoas são fundamentalmente capazes de ultrapassar o mal que enfrentam com o bem que podem produzir.
A isto não é estranho o movimento global de neo-tomismo-triunfalista dos nossos dias. O que quero dizer com neo-tomismo-triunfalista? Assim, para simplificar uma conversa que tem uma complexidade que naturalmente não domino, o neo-tomismo-triunfalista é, nas insónias da imanência pós-moderna, sonhar com a restauração de um reino milenar idealizado a partir de uma efabulação maniqueísta do passado. Como assim? O neo-tomismo-triunfalista é a crença de que o sarilho filosófico em que nos metemos é culpa dos pecados pretéritos dos outros. O neo-tomismo-triunfalista tem hoje uma força impressionante entre convertidos ao catolicismo e defensores reaccionários da cultura ocidental, um público extraordinariamente solícito a aceitar sistemas sacramentais que resolvem o mal do mundo a partir de penitências humanas (para entenderem mais acerca do neo-tomismo-triunfalista aconselho a leitura de “How (Not) To Be Secular”, uma leitura do filósofo católico Charles Taylor a partir do calvinista James K. A. Smith).
Peterson, apesar de ainda não se ter convertido ao catolicismo (parece andar perto - e, neste sentido, não vale a pena distinguir a Igreja Ortodoxa da Igreja de Roma porque em termos filosóficos elas operam segundo o mesmo código não-hebraico), e, apesar de não vestir oficialmente o equipamento do neo-tomismo-triunfalista, joga-lhe mais facilmente a táctica, fintando pelo flanco esquerdo do campo para evitar o bloco defensivo e desconfortavelmente logocêntrico de uma fé cristã que depende inteiramente da centralidade da palavra, sem as fissuras entre universais e factos às quais o velho Frei Tomás era tão dado. Ou seja, apesar de tanto espaço que concede ao problema do sofrimento, creio que Peterson tende a apreciar o cristianismo como uma vitória sofrida do bem, à la Roma, por oposição a encarar o cristianismo como o sofrimento vitorioso do mal, à la Genebra (Roma afirma hoje Cristo a partir do exemplo moral, onde o protestantismo teima na sua morte expiatória). Não é por isso de espantar que Žižek mais rapidamente admire o cristianismo pela afirmação da treva do que pelo triunfo da luz (vejam mais à frente, ainda que o faça citando o católico preferido dos calvinistas, Chesterton).
Bem, este texto está numa digressão das antigas… Vou tentar retomar: é aqui que faz toda a diferença o amor de Žižek ao Kierkegaard (atenção que o meu querido Kierkegaard não era imune a algumas tentações tomistas). Porque Žižek ama Kierkegaard, que por sua vez amava Lutero, que por sua vez amava Paulo, que por sua vez amava Cristo, que por sua vez amava o Pai (talk about real sucessão apostólica!), sabe que o pecado não é o que fazemos, é o que somos. Žižek pode ser pessimista, como um bom protestante tem de ser, porque sabe que a vida é mais acerca dos problemas que estragam as soluções, do que acerca das soluções que resolvem os problemasGetting to the point: a salvação de Cristo impõe-se porque existir é fracassar no melhor que conseguimos. Não há triunfalismo ou optmismo que nos valha. Somos salvos porque somos tomados crucialmente por aquilo que não é nosso - a redenção acontece em nós por aquilo que fora de nós aconteceu antes.    
Voltando ao debate, partilho ainda outras impressões. Peterson fala para ser entendido porque, ainda que não afirme a veracidade da ressurreição de Cristo, e, portanto, que o que é absoluto tem carne e osso para ser atestado por nós, crê que dar-se a entender é uma questão moral. Žižek, que não crê em qualquer absoluto moral, pelo menos na medida em que ele é entendido por um crente religioso, tem de falar de um modo que não se preocupe a dar-se a entender. Para o ateu, dar-se a entender é a persistência de um sintoma religioso. Žižek pode (e deve) ser confuso porque essa é uma consequência inevitável da sua visão sobre a realidade, de que Deus e o sentido não existem. Ponto para Peterson. Mas, calma. Porque isto da existência do sentido não significa uma vitória garantida daqueles que lhe reconhecem a necessidade.
As frases mais proféticas, as mais apocalípticas, aquelas que melhor revelam as incapacidades dos impérios supostamente omnipotentes deste século, são ditas por Zizek. Vou apontar três. “The main burden is freedom itself”. O neo-tomismo-triunfalista celebra a liberdade como se ela tivesse ficado acorrentada ao jardim do Éden; pois não ficou. Se a liberdade fosse a solução absoluta, Deus não teria feito um pacto com Abraão mas limitar-se-ia a espalhar urnas pela Palestina - como podem imaginar, não é essa a história das Escrituras.
Segunda: never presume that your suffering is in itself a proof of your authenticity - eis a racha do misticismo (romano e oriental) que, na idealização do sofrimento, e idealização essa que tenta Peterson, atribui ao ser humano a participação na reabilitação cósmica de todas as coisas. Valha-nos novamente Lutero: tudo o que de bom fazemos não é porque aqui estamos; é feito apesar de nós.
Terceira: “o mal é, de certo modo, mais espiritual do que o bem” (ou “a queda cria retroactivamente o lugar de onde caíste”). Estas frases são bebidas fortes; não dá para serem provadas por um miúdo qualquer. Mais tarde Žižek diz, com toda a razão, que o cristianismo é uma religião única porque não somos nós que vamos até Deus, mas Deus que abraça ele mesmo a distância que nos separa dele na cruz. Jesus é salvador porque ao pecado foi dada grande importância (e daí que não deixe de ser revelador que todos aqueles que se afastam da valorização do pecado, que tomam como um tique religioso primitivo, acabem como o pobre Padre Anselmo Borges, no outro dia na TV, a dizer que se Deus matou o seu Filho na cruz para nos salvar, então é porque Deus é pior que o Padre Anselmo - o Padre Anselmo pode dar-se ao luxo de considerar que a valorização do pecado desprestigia Deus porque o Padre Anselmo, graças a crer numa dialéctica espiritual assente em rituais que lhe aperfeiçoam a humanidade, considera que ser humano é, por natureza, tratar o divino como comum - é o oposto, padre pateta! - ser humano é fundamentalmente tratar o divino como outro - há certamente Génesis 1, em que somos criados à imagem de Deus, mas Génesis 3 muda tudo - o Génesis 3 pouco ou nada muda na Bíblia deste padre pateta).
Prossigamos que se não acabo louco a pensar em padres patetas do calibre do Padre Anselmo (que nem justiça faz ao nome que tem…). O debate Peterson/ Žižek foi também o que de mais parecido vi na vida entre o debate mundo velho versus mundo novo. A nossa tendência hoje, como Peterson demonstra competentemente, é tornar tudo político. Mas tornar tudo político é, por vezes, a maneira mais eficaz de não respeitar a largura do que também é político mas a político não se limita. Peterson vs  Žižek também é um embate continental, de uma Europa velha, demasiado antiga para poder entregar-se ao luxo da esperança, com uma América que ainda esperneia quando a alfinetam no rabo (ainda que seja a versão mais europeia da América, um canadiano).
Por outro lado, os eixos de debate não são lineares. Há ocasiões em que aquilo que está em causa é epistemológico (ou teleológico, para ser mais preciso), sabermos se a existência de uma pessoa pode ser pautada por um sentido que possa ser conhecido (Peterson diz sim, Žižek não pode dizer sim). Há ocasiões em que aquilo que está em causa é estético, aderirmos a formas (elegância, lógica do argumento, clareza, execução do método combinado previamente, etc. - a favor de Peterson e contra Žižek ). Há ocasiões em que aquilo que está em causa é ontológico, saber se somos sobretudo a partir do que fazemos ou do que contemplamos (com a primeira a ser encabeçada mais por Peterson e a segunda mais por Žižek , parece-me). Isto serve apenas para constatar que neste debate as linhas supostamente ideológicas não chegam para explicar todas as tensões que nele acontecem e que, volta e meia, o herói e o vilão trocam de lugares. Se, no geral, creio que Peterson ganhou? Certamente. Mas, no particular, quem foi que, no meio das trevas, traduziu mais eficazmente a nossa necessidade de salvação? Sem dúvidas que foi Žižek. Obrigado internet por demonstrares com grande estilo que vitórias importantes também podem passar por protestos dos derrotados.

sexta-feira, abril 19, 2019

Videozinho de Sexta-Feira (Santa!)

Primeiro, o programa da Cristina veio até nós. Depois, nós fomos até ao programa da Cristina.

Tendo em conta a obsessão que os cristãos evangélicos têm com a(s) palavra(s), é muito provável que, com oportunidades destas, se pense que em vez disto se deveria ter dito aquilo, e por aí fora, num número crescente de dilemas pós-tv em directo. Talvez o mais interessante seja agradecer pela generosidade de o programa nos dar esta oportunidade.

Espero que tenha sido útil para demonstrar que, acima de como a rotina do nosso dia-a-dia corre, o mais importante para nós é o amor que temos por Jesus. Se der para isto, já deu para muita coisa.

quinta-feira, abril 18, 2019

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "A quem é que Jesus chama cão e porco?", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, abril 12, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Na semana especial que é aquela que antecede a Páscoa, com dias que podem ser usados para relembrar episódios tão marcantes, a caminhada das mulheres em direcção ao sepulcro para ungirem o corpo do Senhor é um dos momentos que me sobressalta.

Há poucos dias, quando falava na Conferência Fiel, e apesar de não estar no guião este comentário, não consegui evitar mencionar na incrível vontade das mulheres que seguiam Jesus. A maior adversidade parece não representar obstáculo qualquer para a convicção delas - tivéssemos todos, homens e mulheres de hoje, uma fé assim.

Videozinho de Sexta-Feira

Ser firme teologicamente não tem de ser uma razão para nos zangarmos. Se ir fundo na palavra escrita corresponder a mais amor pela palavra encarnada, teologia só pode ser uma boa notícia.

Hoje arrancamos oficialmente com a primeira actividade do Seminário Martin Bucer Portugal. Vejam o vídeo e venham à Lapa às 20.30h!

sexta-feira, março 29, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Não é de estranhar que quando temos dificuldade em acreditar que existe uma verdade absoluta no que as palavras significam, elas se tornem descartáveis. No fundo, usamos hoje as palavras um pouco como usamos o plástico. Mas somos muito mais sensíveis à poluição material do que à poluição verbal. Vivemos relativamente tranquilos com a sujidade do que dizemos e escrevemos, como se não tivéssemos uma alma que se pode poluir tão facilmente como o planeta.

Na Bíblia, usar o nome de uma pessoa não se dissocia do que sentimos acerca dela. Daí que o cuidado com as designações era imenso. Santificar algo também passa por este rigor com o seu manuseamento verbal.

Não quero enfiar-me em mais polémicas brasileiras, até porque é irritante ter um português armado em especialista acerca de um país que não é o seu. Mas não vou refrear-me de perguntar aos meus irmãos do outro lado do oceano: há uma razão cultural para mesmo os evangélicos fazerem tão facilmente aquilo que me parece que é invocar o nome de Deus em vão? Elucidem-me paciente e fraternamente, por favor.

O vídeo de hoje ilustra isto.

quarta-feira, março 27, 2019

Ouvir

"Não julgueis para que não sejais julgados", diz Jesus. Não é exagerado afirmar que estamos numa das passagens bíblicas mais mal interpretadas de sempre. O título deste sermão pergunta: Jesus manda que não julguemos os outros? Sim e não. Vamos tentar entender como.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, março 25, 2019

Ainda sobre ser de direita ou de esquerda

[É possível que este texto o aborreça por ser longo ou o irrite por ser desbocado (ou provoque outro sentimento qualquer). Envolva-se nele apenas se estiver interessado em também orar pelo seu autor, amando-o mesmo que o mais fácil seja odiá-lo.]

Um dos desafios espirituais mais difíceis da minha vida é aprender a estar quieto e calado. Nos últimos anos tenho tentado que a minha comunicação na internet seja mais ponderada e, portanto, hoje tendo a desconfiar de alimentar discussões num meio tão dado ao impulso e pouco favorável à reflexão séria. Espero, no entanto, que as notas que vou acrescentar em relação ao vídeo e texto de sexta-feira possam ser úteis para ficarmos mais firmes na Palavra de Deus.
Não quero entrar numa lógica circular mas, sinceramente, algumas das reacções ao que escrevi acerca de "direita e esquerda fazerem parte da equipa que odeia Jesus" apenas comprovaram a tese apresentada. Para já, porque a reacção ao texto foi a típica de quando alguém já está tão fascinado com o encanto de uma causa que, julgando-a atacada num texto que lê desatentamente, parte para o ataque. Quando escrevi, o que estava em causa não era a pertinência do uso de termos como "ser de direita" ou "ser de esquerda", mas como o texto bíblico de Marcos 3 nos mostra que o ódio de Jesus vem de pessoas que se acham de direita e de pessoas que se acham de esquerda (aceitando o uso flexível de termos a épocas anteriores à sua criação). Quando escrevi, o que estava em causa também não era o envolvimento do cristão na política ou uma apologia ao voto em branco. É triste que tantos evangélicos, que não deviam desistir  de serem conhecidos como o povo da Palavra, sejam leitores tão deficiente dela(s). Um texto deve ser lido competentemente e um vídeo deve ser visto competentemente.
A incompatibilidade entre a fé cristã e a esquerda é daquelas coisas que nos desprestigia só por termos de a justificar. Vou dar-me ao luxo de escrever com um tom paternalista agora, por isso, se não estiverem com uma dose extra de generosidade, abandonem este texto e vão fazer algo que não vos chateie tanto. Meus queridos: a realidade existe independentemente do romance que criámos a partir de ideias que nos agradaram sem que as entendêssemos. Do mesmo modo como eu, que não me formei em medicina, não vou medicar os meus filhos a partir de opiniões que fui criando cá para mim, um cristão só pode dizer-se de esquerda porque, da mesma maneira negligente, desvaloriza o modo como ela encarna historicamente e o que ela implica no modo de olhar para o mundo. Um cristão de esquerda é um gnóstico que crê que há uma esfera mais elevada onde as coisas existem espiritualmente, independente da dimensão do que é carne e osso.
Para ilustrar a incompatibilidade entre cristianismo e esquerda, cito alguém que percebe mais do assunto do que eu, o Carl Trueman, num texto que merece ser lido na totalidade: "Marx believed that human identity is constituted by social relationships; but—and here is the crucial move—those social relationship are not, as with Hegel, determined by thought, by ideas. They are, at root, material—specifically, they depend on the nature of one’s place in the economy"Não dá para ser cristão e ser de esquerda porque ser de esquerda é partir do princípio que a identidade fundamental da pessoa é o lugar que ela ocupa na economia. Claro que muita teologia que veio depois de Marx tentou dar mais carninha a este osso, insuflando teologia à força para dentro de uma leitura completamente desteologizada da realidade. A causa que também é bíblica, de valermos as pessoas em circunstâncias económicas difíceis, tornou-se para muitos uma tentativa de pôr espírito numa tese que crê que tudo o que realmente há é só material. Mas, por muito bem intencionada que seja, não funciona: a esquerda cristã está destinada ao fracasso porque quer dar alma a uma luta que não acredita nela.
Por isso, meus tontos irmãos evangélicos que se consideram de esquerda (eu disse que ia ser paternalista): cresçam para o facto de que as ideias têm causas e consequências e, como Jesus, fazem-se carne e osso. O mundo não é o delírio gnóstico em que vocês vivem. Como diz o Ben Shapiro, "facts don't care about your feelings". Se se querem afirmar de esquerda, força. Da minha parte têm um escárnio que tento conter, porque um cristão não deve celebrar a estultícia alheia, e têm também a minha solidariedade, porque também caio frequentemente em fantasias pessoais que quero impor ao mundo. Orarei por vocês e espero que orem por mim.
Mas deixem-me agora dedicar-me aos outros tontos irmãos evangélicos, os que se dizem de direita. Esperava-se das pessoas que não caem na tentação moralmente bem intencionada que é afirmar-se cristão e de esquerda, a continuação do uso desse discernimento. Afinal, se discerni que o Diabo é bem sucedido na minha vida porque me convence a abraçar coisas que me parecem boas mas, que no fim, são reveladas como não tão boas como pareciam, e se esse discernimento me impediu de me querer afirmar como cristão e de esquerda, por que razão é que devo parar de usar esse belo discernimento para me afirmar cristão e de direita? As pessoas que não são de esquerda, discernindo o perigo de acreditarmos na bondade das causas independentemente da existência do mal dentro de nós, deveriam entender que o mesmo perigo, ainda que com manifestações diferentes, continuará a existir na direita. Simplificando mais ainda: as pessoas que têm o bom senso de não serem de esquerda, deveriam entender que ser de direita é apenas a outra face da moeda do mesmo erro.
Deixem-me tentar ilustrar este ponto regressando ao texto bíblico de onde nasceu toda esta questão, em Marcos 3:1-6. Ninguém começou a conspirar contra Jesus porque ele condenava em nós o que reconhecemos como mal. A conspiração para matar Jesus nasce do facto de ele condenar em nós o que reconhecemos como bem. E é aqui que a minha paciência tende a diminuir e a fazer-me querer tratar todas as pessoas que não entenderam isto como se fossem atrasados mentais (como se eu mesmo não fosse um deles, passando décadas da vida surdo à lição que agora quero gritar aos outros... enfim...). Das pessoas que não são de esquerda espera-se uma maior consciência do perigo das boas intenções, consciência essa materializada na hesitação em encontrar caminho a partir de uma identidade ideológica. Os de esquerda é que devem ser os crentes nas boas ideias, nos ideais; os outros devem, neste sentido, ser apenas os desconfiados. Logo, não faz sentido que um desconfiado das boas ideias e dos ideais se sinta confortável em dizer-se de direita porque nessa hora ele já passou a acreditar num ideal alternativo, completamente à medida do anterior que condenou.
Os cristãos acreditam que o bem que têm para fazer, fazem-no independentemente da bondade que têm. Os cristãos fazem o bem apesar da sua bondade, porque até a bondade que têm está corrompida pela existência do mal em nós. Voltando a Lutero, o pecado não é o que fazemos, o pecado é o que somos. Claro que o evangelho nos chama a fazer o bem, e quem não o fizer, peca (como explica o Apóstolo Tiago). Mas o bem que fazemos nunca pode ser o que somos, porque o bem que fazemos é o que Jesus é em nós, matando o nosso velho eu para uma nova criatura em que já não vivemos nós, mas Cristo (como Paulo explica em Romanos e Gálatas). Logo, um cristão não pode essencialmente ser de esquerda ou essencialmente ser de direita porque ser de esquerda ou ser de direita é fundamentar a nossa identidade no bem de um posicionamento ideológico. As pessoas que encontram bem num posicionamento ideológico são as que estão prontas para atacar qualquer pessoa que possa colocar em causa essa mesma qualidade do nosso posicionamento. O que é que elas geralmente fazem com pessoas assim, que colocam em causa o bem da nossa ideologia? O que fizeram com Jesus as pessoas que confiavam na bondade do seu posicionamento ideológico, seja ele de esquerda ou de direita: matar.
Um dos melhores efeitos do meu vídeo e do meu texto foi demonstrar a agressividade de cristãos que se dizem de direita, apelidando de "bobagem" o que tinha escrito e dito, e, numa escala mais pequena, a ausência de consequência intelectual dos cristãos que se dizem de esquerda. Dependendo da lado da tentação para onde caímos, os resultados são diferentes mas o sentido de ofensa pessoal é o mesmo. Cristãos de esquerda e direita sentiram-se ofendidos porque o que leram e viram arrancava uma parte importante daquilo que tomam como a sua identidade. O que vos quero dizer é que essa é precisamente a atitude que ajudou os fariseus e herodianos a serem tão competentes em conseguirem espetar Jesus numa cruz. Com dizia John Stott, "antes de olharmos para a cruz como algo feito por nós, temos de olhar para a cruz como algo que nós próprios fizemos".
Permitam-se um à parte, num texto que já segue insuportavelmente longo, para malhar especialmente nos palermas dos meus irmãos evangélicos que supostamente fazem parte da minha equipa teológica, a equipa calvinista. Que haja cristãos que se dizem calvinistas (vêem como não tenho problemas com rótulos? - amo o rótulo calvinista!) e que vêm para o meu mural chorar como criancinhas porque alguém lhes disse que a direita faz parte da equipa que odeia Jesus, é só uma prova que eles são tão calvinistas como eu sou esquimó. Um calvinista tem de ser um especialista em auto-suspeita, em saber mesmo que o pior pecador à face da terra é ele próprio e não os outros. Um calvinista não defende causas além de Cristo porque um calvinista sabe que somos fábricas de ídolos, como já dizia o bom João. Está a nascer uma raça de calvinistas no Brasil que é tão espiritualmente estúpida que o Diabo nem precisa de se dar ao trabalho de os tentar.
E permitam-me um novo à parte, num texto que já segue insuportavelmente logo, para apontar outro dedo ao Brasil. Em Portugal também detestamos quando um não-português fala sobre os defeitos portugueses. Portanto, sejam pacientes comigo. E aproveito ainda para dizer que o que vou afirmar agora, expando mais num livro que sairá, se Deus quiser, ainda este ano, chamado "Arame Farpado no Paraíso - o Brasil visto de fora e um pastor visto por dentro". O Brasil actualmente é o espírito da conspiração para matar Jesus feito país: as pessoas entregam-se ao ódio por não tolerarem que a bondade que julgam ter seja posta em causa. A comunicação entre brasileiros, no palco das questões políticas, é a triste defesa da razão de cada um sobre a falta de razão do outro. E, tragicamente, tantos cristãos evangélicos embarcam nessa cantiga odiosa. Reparem que não estou a dizer que, por exemplo, se fosse brasileiro não votaria Bolsonaro (graças a Deus, não tenho de me preocupar com isso). A questão não é essa. A questão não é tanto o mal das coisas em si, mas como as coisas estão a ampliar o mal em nós (Jesus explica isto em Marcos 7). E isto, em grande parte, aplica-se também aos Estados Unidos. E, mais, aplica-se, no fundo, a toda a comunicação feita na internet, sem o rosto sagrado do outro diante de mim e que facilita que o meu dedo prima o gatilho (logo, aplica-se também aos portugueses e a todas as pessoas no mundo).
Este texto tortuoso não deve ser usado para defender a neutralidade política ou o não-envolvimento cívico do cristão, mas deve ser usado para desistirmos de defendermos a qualidade do nosso melhor, esteja esse melhor na política ou noutro lado qualquer. Que haja uma reacção tão territorial de defesa de uma ideologia só significa que o nosso coração, amando o que nos parece bom na nossa identificação política, está pronto para se portar mal com qualquer pessoa que coloque isto em causa. É por isso que, ao terceiro capítulo do evangelho de Marcos, Jesus já está a ser tramado, e que tramados ficaremos pela aparente justiça própria que nos seduz em qualquer partido político.

sexta-feira, março 22, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Tenho a certeza de que não sou de esquerda há quase vinte anos. A ensaboadela ideológica que levei na Faculdade contribuiu para concluir que as minhas convicções progressistas tinham de ficar na adolescência mesmo. Como é previsível na imaturidade, passei de um extremo para o outro. Sobretudo na alvorada dos blogues, aí por volta de 2002, achei-me a sair do armário ideológico e pensei que o oxigénio mais limpo que tinha para respirar era ser de direita.

Preocupa-me hoje, em tempos de bipolaridades políticas, que tantos cristãos se afirmem de direita. Se, de facto, estou absolutamente convicto de que a esquerda e a fé em Cristo não combinam, isso não significa que o lar do seguidor de Jesus é a direita. Céus. É abrir a Bíblia e ver que Jesus era odiado por todo o tipo de pessoas, da esquerda à direita (se tivermos a flexibilidade de usar estes termos historicamente posteriores a circunstâncias anteriores). Uma coisa é os cristãos que acreditam na verdade de as Escrituras serem mesmo a revelação de Deus serem apelidados por muitos como "conservadores", "fundamentalistas", "reaccionários", ou outra palavra qualquer - esse é um problema de quem nos apelida, não nosso. Mas não é pelo facto de nos atirarem palavras que vamos encontrar casa nelas.

Não sou de esquerda nem de direita porque essas são palavras que não exprimem a fé que tenho em Jesus. Cristo perdoou o homem de esquerda que dentro de mim odeia a moral, e Cristo perdoou o homem de direita que dentro de mim idolatra a moral. Já me dei mal a tentar ser bom em qualquer dos lados. Sou cristão e pronto.

terça-feira, março 19, 2019

Ouvir

O segredo, segundo Jesus, para não andarmos ansiosos é desistirmos da beleza que encantou os nossos olhos de tomarmos o mundo como um palco da nossa qualidade. Se a vida depender do cuidado que temos, que grandes trevas serão! Vamos viver ansiosos e esmagados pela omnipotência que desejamos e não temos. O que Jesus diz é o oposto: a vida serve para reconhecermos que quem cuida é Deus. Se Deus cuida das coisas pequenas, quanto mais de nós, homens de pequena fé.

O sermão de Domingo passado, chamado "A ansiedade alimenta-se da auto-suficiência", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, março 15, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

No dia em que um evangélico se cala, está pronto para morrer. É certo que nos faz falta aprender a arte do silêncio também (e a mim em particular!). Mas um evangélico é obcecado pela(s) palavra(s) porque a palavra fez-se carne em Jesus e só assim podemos ser salvos.

Um elemento que nos distingue do catolicismo é precisamente este rigor teimoso na ordem das coisas: "a palavra fez-se carne". Uma igreja guiada por homens é da ordem de "a carne fez-se palavra". Isto fica meio filosófico e nem sempre dá para explorar completamente num sermão. Mas se um sermão não servir para falar desta ordem correcta, então de pouco servirá.

Somos raivosamente logocêntricos, como qualquer menino hebreu era ensinado a ser, reverenciando o nome e nunca a imagem. O nome representa o carácter. Este vídeo ilustra isto (para serem mais protestantes, assistam-nos de olhos fechados).

terça-feira, março 12, 2019

No Expresso




















Dá para discutir o que o Henrique Raposo escreveu no Expresso, mas concordo com a tese fundamental de o futuro precisar de uma liberdade radical. Por outro lado, o tique português não é aceitar essa liberdade mas normalizá-la canonizando-a. O mesmo já está feito com o Osiris - já foi oficialmente iconografado. A partir daqui é sempre a descer - com a preciosa salvaguarda de que o seu génio (a sua santidade) se tornou dogma. Nesse sentido, a FlorCaveira falhou, porque se limitou a adicionar estatuetas à capela e não a destruí-la.
Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Argumentos Divinos para Ganhar o Coração" e pregado pelo Filipe Sousa, pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, março 08, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

O segredo para ter uma visão superficial acerca de Jesus é evitar ler a Bíblia. Já estão a ver onde quero chegar: vivemos num mundo de opiniões infundadas sobre Cristo, porque pouco ou nada das Escrituras lê. Até para ter uma opinião, convém saber construí-la decentemente.

Uma das ideias típicas (e tontas) acerca de Jesus, para aqueles que tentam até manter uma perspectiva positiva acerca dele, é imaginá-lo uma doçura de homem, sempre pronto para espalhar positividade a todos à sua volta. Erro. Jesus viveu como um homem a sério, e não como um holograma de porreirismo. Jesus soube o que é sentir fúria por algumas pessoas.

O vídeo de hoje ilustra isto.

quinta-feira, março 07, 2019

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "A Batalha da Ansiedade" e pregado pelo Pastor Mark Bustrum, pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, março 04, 2019

Multidões


Videozinho de Sexta-Feira

Não é fácil de explicar em Portugal o que significa ser um cristão baptista. Durante algum tempo chamava o Martin Luther King para o assunto porque seria um exemplo de um baptista de que a maioria já tinha ouvido falar. Mas há baptistas de tantas formas e feitios que por vezes fica complicado ir mais fundo na identidade da denominação à qual pertenço (o próprio MLK era um baptista com posições teológicas bem diferentes das minhas).

Ainda assim, creio que se aquilo que nos dá nome não entrar na conversa, provavelmente vamos passar ao lado do essencial. Usando uma descrição teologicamente flexível, diria que um baptista é alguém que está obcecado por baptizar aqueles que querem serem baptizados. De facto, e apesar de todo o amor pelos nossos irmãos pedo-baptistas, esta parte final, do "aqueles que querem ser baptizados", é importante. Isto não significa que o mais importante num baptismo é o querer da pessoa, mas significa, pelo menos, que não encontramos nas Escrituras um baptismo onde o querer da pessoa não seja parte essencial do processo.

Posto isto, o vídeo de hoje ilustra o modo como a Igreja da Lapa rola. Só é preciso duas coisas: fé e água (muita). Ainda que no calor do sermão tenha dito que só era preciso água, tal é minha obsessão por ver pessoas baptizadas.

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Ouvir

1) A ansiedade é algo que pode ser descrito como uma doença de grande parte de nós hoje aqui reunidos.
2) A ansiedade, como doença nossa, manifesta-se indo a um ponto de domínio sobre nós.
3) Ficamos doentes com ansiedade, facto acompanhado e provavelmente alimentado pela diminuição do nosso desejo pelo Reino,
4) Parte da resposta de Jesus para a cura da nossa ansiedade é: desiste de estar ansioso.

O sermão de Domingo passado, chamado a "Epidemia da Ansiedade", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

O disco novo do Ruben Alves

Dar valor às palavras não é um mau hábito. Imaginem então o cenário para quem acredita que o mundo foi criado através da palavra: onde ela existir, qualquer universo pode ser inventado.

Dê-se um salto para a música e para a música sem palavra em particular. Quem é pai de crianças pequenas conhece provavelmente a experiência de colocar uma canção instrumental e rapidamente ouvir uma queixa, de que assim, sem ninguém a cantar, não tem piada. Eu tenho essa experiência com as minhas crianças e as minhas crianças nem sequer serão as mais analfabetas musicalmente - caramba, todas as quatro aprendem a tocar violino.

Mas a verdade é que eu mesmo devo assumir a infantilidade persistente de alguém que só começou a ouvir atentamente música sem voz ou palavras demasiado tarde. O certo é que agora tenho uma dieta: tento que de manhã só essa música seja a que ouço. A razão não é porque assim fico mais capaz de me concentrar no trabalho; a razão é porque assim fico mais capaz de me concentrar na música mesmo. Quando as palavras não facilitam na música o caminho, ele tem de ser feito à custa de uma atenção que funciona sem uma orientação prévia - temos de descobrir o nosso caminho na música.

Aqui há dois meses o Ruben Alves despejou no Spotify um disco. Digo despejou porque não encontrei aquele tipo de alarido promocional que hoje se tornou obrigatório, de cada vez que música é publicada. Como o meu ano de 2018 já tinha sido em grande parte musicado pelo disco anterior do Ruben, apressei o passo e pus-me a ouvir "O Mais Pequeno Espaço Apreciável De Tempo". Sem apresentações prévias e sem mapas - só eu e o disco. Ouvi-o num dia. Ouvi-o no dia seguinte. Ouviu-no no outro ainda. Em quase todos os dias de 2019 tenho ouvido este disco.

As canções deste disco têm títulos. Uma canção chama-se "Semente em Terra Firme", que evoca uma lição que Jesus ensinou acerca da produtividade da palavra. A palavra semeia-se e é suposto que dê fruto, ainda que a maior parte dos terrenos possam tal não conseguir. Neste sentido, há uma espécie de milagre que acontece quando a palavra é acolhida - há os tais universos novos que podem nascer. Que este prodígio da palavra aconteça num disco em que ela nunca é dita mas que é o ponto de partida para tudo, só confirma que há um silêncio que é necessário para que realmente comecemos a ouvir a música. Eu continuo a escutar obsessivamente "O Mais Pequeno Espaço Apreciável De Tempo" porque o que o disco não fala é também o muito que me mostra.


sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

O assunto dos pastores que são celebridades na era da internet dava pano para mangas. Não é por aí que me quero meter agora. O vídeo de hoje é para desanuviar - ontem li o Eclesiastes e, na sua aspereza, falou tanto comigo que me lembrei que também temos de saber rir da vida e de nós próprios.

Provavelmente, o melhor que temos a fazer em relação aos pastores que são celebridades é orar por eles. Entre os que mais me influenciam, o Tim Keller é obviamente um deles. Por isso, não há como negar que foi especial quando em Outubro passado falei com ele na assistência. Mas imaginem: se é óptimo quando os que admiramos nos elogiam, o que dizer de quando os que nos salvam nos aprovam? Keller é óptimo mas o meu Senhor Jesus é inultrapassável.

São menos de dez segundos de um vídeo que é uma brincadeira. Que possam servir para agradecermos a Deus por todos os pastores que são fiéis a Cristo no meio da celebridade que alcançaram, e para agradecermos a Deus por Jesus.

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Ouvir

Amas o que fazes? Jesus não está necessariamente a dizer que amar o serviço que temos se exprime em prazer constante mas, pelo menos, devemos conceber que há um nível prolongado de acreditarmos no que fazemos, mesmo que com custos pessoais. Assim sendo, se não amas o que fazes, devias começar a amar o que fazes, caso estejas com a atitude errada no trabalho certo; ou devias começar a fazer o que amas, caso estejas até com a atitude certa no trabalho errado. Na fé cristã a responsabilidade não joga contra o coração mas devem integrar-se.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Se a ideia de que todos somos filhos de Deus pode ter uma origem bem intencionada, talvez nos deixe, contraditoriamente, mais longe de experimentar mesmo um amor fraterno vindo de Deus, sobretudo nas circunstâncias difíceis. O ponto é este: se não reconhecermos Jesus como o Filho de Deus, sendo ele também Deus, a nossa relação com Deus vai depender das nossas opiniões e não da própria intervenção de Jesus no assunto. Há uma diferença entre acharmos que somos todos filhos de Deus porque sim, e acreditarmos que somos filhos de Deus porque Jesus tornou essa adopção um facto. Entre mim e Jesus, acho que a maior credibilidade está do lado dele.

Onde a nossa opinião é o essencial não é nada improvável que, em cenários mais complicados, sejamos tentados a pensar que, bem vistas as coisas, mais do que Pai, Deus é castigador. Se, no entanto, Jesus for a bússola para aquilo em que cremos, os cenários complicados são interpretados a partir da sua própria experiência - se no mais aterrador que Cristo viveu, não deixou de tratar Deus como Pai, a mesma esperança podemos acalentar. Deus é Pai até na dificuldade (haverá quem prefira dizer que é sobretudo na dificuldade que temos essa certeza).

Este vídeo ilustra isso.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Ouvir

Se os olhos bons são explicados no contexto do nosso deslumbramento com o mundo, então a bondade que podemos ter neles só pode estar baseada noutra coisa que não o que o mundo nos mostra e nos encanta: a bondade dos nossos olhos tem de estar em Deus. Ter olhos bons é depender de Deus para realmente ver este mundo.

O sermão de Domingo passado, chamado "Ter olhos bons num mundo mau", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Videozinho de Sexta-Feira

Domingo passado, ao pregar sobre o Sermão do Monte, lembrei que Jesus tanto nos avisa contra o mal dentro de nós, como contra o mal fora de nós. Nessa altura ocorreu-me uma ilustração talvez um pouco disparatada.

Por muito folclórica e primitiva que nos pareça a crença por trás das macumbas brasileiras que agora chegam às praias portuguesas, devíamos estar gratos: a feitiçaria tropical pode despertar muitos para a realidade de uma maldade espiritual além de nós, mas à qual podemos dar poder na nossa vida. Creio que é mais ingénuo pensar que tudo o que de mal existe no mundo se resume à soma das partes humanas.

Cristo salva-nos do nosso bem insuficiente, do nosso mal, do mal dos outros, de tudo o que pode ser bem intencionado mas não chega para resolver o assunto de uma vez por todas. Sou grato por um Salvador muito mais eficaz do que julgo, que me salva até dos perigos que estão além da minha capacidade de acreditar neles.

Nesse sentido, obrigado por agitarem espalhafatosamente o nosso cepticismo cínico europeu, macumbeiros brasileiros!

[As imagens usadas são retiradas do lendário filme/documentário de Benjamin Christensen, "Häxan", de 1922.]