quarta-feira, novembro 22, 2017

Ouvir

Alguém que não se quer expor à disciplina da Igreja é alguém que na realidade não quer fazer parte dela, ainda que possa não ter consciência disso. Alguém que nunca confessou pecados à igreja (ou em privado a um dos seus membros) é alguém que está numa posição assumida de imaturidade e medo e, como tal, incapaz de exercer uma responsabilidade espiritualmente consistente na Igreja.

O sermão de Domingo passado, chamado "Qual é a responsabilidade do membro de Igreja?", pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, novembro 16, 2017

Um sermão salivado

Dois mil e dezassete também vai ficar para a minha história como um dos anos em que, à boleia dos 500 anos da Reforma, tive de gastar muito tempo a dizer mal do catolicismo. O meu dizer mal do catolicismo tenta ser o mais fraterno possível, tendo em conta as circunstâncias possíveis. Para tentar resumir coisas que também são complexas, diria que, apesar de acreditar que Cristo pode salvar dentro do catolicismo, o catolicismo é um sério obstáculo a que Cristo salve. Se assim não pensasse, naturalmente seria católico romano (e, provavelmente, dos católicos romanos mais chatos que podem imaginar).

Mas neste texto quero começar por dar a mão à palmatória e concordar que o catolicismo tem alguma razão quando critica o excesso de individualismo protestante. É verdade que eu não acredito que a ligação à Igreja (como ela é entendida por Roma) é a ligação a Cristo. É possível estarmos na Igreja de um modo que não é igual a estar em Cristo - Lutero tinha razão quando descrevia a coisa em termos de "Cativeiro Babilónico da Igreja". Mas tenho de concordar com os católicos romanos quando eles olham para os evangélicos como uma anémica demonstração da importância que Cristo dá à Igreja. Nós, evangélicos, estamos tão preocupados com a salvação do indivíduo que esquecemos que essa salvação individual serve um propósito colectivo que é sermos Igreja. A Igreja não é uma extra dado a quem é salvo: a Igreja é a razão para que fomos salvos.

Logo, uma das tristezas de pregar o evangelho no Século XXI a uma Igreja Evangélica é ter de lhe lembrar a importância da Igreja. Se a vida cristã for um parque aquático evangélico, a soteriologia é aqueles incríveis escorregas labirínticos em que as pessoas fazem fila para andar, e a eclesiologia é um lava-pés. Os evangélicos, balofos em insistir na salvação pessoal, acham que a Igreja e o modo como ela funciona é à vontade do freguês porque não é assim tão importante. Quero aumentar ainda mais a minha acusação aos meus irmãos evangélico: nós não amamos a Igreja. Nós separámos tanto a salvação individual do seu destino colectivo que aturamos a Igreja como uma fatalidade burocrática. Nesse sentido, quero elogiar os católicos romanos (os sérios, óbvio): ao menos para eles a Igreja vale alguma coisa.

Uma das maneiras mais pelintras que os evangélicos têm de não amar a Igreja é preferirem falar em reino de Deus, como se reino de Deus e Igreja fossem realidades concorrentes. Pior ainda: há evangélicos que preferem falar em reino de Deus como quem insinua que quem fala em Igreja permanece numa espécie de farisaísmo, obcecado em regras e regrinhas para pesar o povo de Deus. Eles, pertencentes a uma elite de iluminados que vai onde os burros dos institucionais não chegam, vêem o mundo a três dimensões onde os outros vêem a preto e branco. Os evangélicos, guiados por este triste desfile de visionários auto-diplomados, vive a Igreja sem amor e compromisso, relativizando a pertença a uma comunidade local de carne e osso. É sempre mais fácil ser fiel a um amor platónico. Preferir falar do reino de Deus em vez da Igreja local é optar por pornografia em vez de dormir com a mulher. Fui duro no que disse? Acho que sim.

Isto para chegar ao último sermão da série de eclesiologia que estamos a dar na Lapa. Não é revelador que os sermões mais duros que tenha pregado nos últimos anos sejam acerca de defender a importância da Igreja diante da minha Igreja local? Conseguem topar alguma aparente contradição nisto? Nem tanto, se tivermos em conta o triste desamor que as igrejas evangélicas foram ensinadas a sentir pela Igreja nas últimas gerações. Sim, as igrejas evangélicas foram ensinadas a não amar a Igreja e a prova disso é que quando um pastor prega o valor da Igreja e o modo como a Palavra ilumina o seu funcionamento, ele parece um monstro. Mas, azar. Deus não me chamou para pregar o evangelho do "Jesus salvou-me e a Igreja é um ketchup que, se eu quiser, acrescento ao meu hamburger". Não. Deus chamou-me para pregar o evangelho de Jesus que produz uma comunidade de pessoas chamada Igreja que nem as forças do Inferno conseguem destruir. Porque prego Cristo, prego a Igreja.

Se há uns meses escrevi acerca de "Pastores que são Papas", agora fui ao outro lado da questão. Com alguma justiça o Paulo Pascoal e o João Saramago, pastores meus amigos, tinham dito que a maior dificuldade nas igrejas baptistas não é pastores déspotas mas pastores gato-sapato. Apesar de achar que as duas coisas não são mutuamente exclusivas, concordo com a crítica do Paulo e do João. Este sermão chama-se "Não tires a coroa ao pastor" e, sim, é a partir da Bíblia. Basicamente, o que o apóstolo Pedro nos ensina é que a Igreja precisa de pastores como um reflexo de precisar de Jesus. O modelo que serve para os pastores é o modelo de Jesus. Pela negativa, podemos aplicar esta lição sabendo que uma Igreja que desvaloriza o papel dos pastores, desvaloriza o próprio papel de Jesus.

Este foi um sermão que preguei a cuspir-me, a babar-me, e a urrar feito um cão raivoso. Não preguei ferozmente a importância dos pastores porque sou pastor. Céus, não! É o contrário: a importância dos pastores só faz com que eu, pastor, tenha de viver em temor e tremor. Não estou atemorizado porque vou dar contas do meu pastorado a uma geração de cristãos que desvaloriza o papel do pastor; estou atemorizado porque vou dar contas do meus pastorado ao Pastor Supremo que se chama Jesus Cristo. Mas esse temor só me faz querer ser sério com a importância que os pastores têm na Palavra.

Sei que estou a simplificar muito mas simplificar muito também é necessário quando se prega o evangelho. Topem esta simplificação: no meio baptista em Portugal há pouco respeito pela Igreja e há pouco respeito pelo pastor. Boa parte dos pastores vivem como empregados mal pagos de congregações caprichosas e sem fé, que lhes fazem a cabeça em água pela cor da carpete e pelo vaso de flores do átrio de entrada. Ao mesmo tempo, tento evitar a auto-comiseração de vir para a internet dizer que a minha vida de pastor é difícil porque, se precisar de me queixar, é a Deus e não ao ciber-pardieiro das redes sociais. E sei que, comparando com heróis da fé espalhados pelo mundo neste tempo, a minha vida não é difícil.

Dito tudo isto, deixo o sermão para ouvirem. Não tirem a coroa ao pastor. Amem a Igreja. Corram para o rosto de Cristo.

terça-feira, novembro 07, 2017

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Enquanto bebia cerveja a Palavra fez tudo", pode ser ouvido aqui.

É um sermão duro e arriscado. Ficar firme na palavra nunca foi fácil.

terça-feira, outubro 31, 2017

Como 500 anos da Reforma não é todos os dias

Tomem (aqui) um texto sobre o assunto no Observador. "Se um português quiser entender melhor o mundo à sua volta, precisa de conhecer a Reforma Protestante. Vai entender melhor a cultura americana que lhe moldou os gostos, vai entender melhor a euforia religiosa que varre a América do Sul, África e Ásia (em números bem superiores do que o islamismo), e vai entender também melhor o seu próprio catolicismo em Portugal. A pior maneira de honrar a memória de Lutero é torná-lo mais um a dizer mais do mesmo. Quem o quiser ler sairá a ganhar, ainda que abocanhado por aquele alemão irrequieto." Agradeço ao meu cunhado Rúben Oliveira e ao meu primo Timóteo Cavaco, verdadeiros maratonistas na ingrata corrida da história religiosa em Portugal, sem os quais este texto não existiria assim. Vistam o vosso fato de Lutero e bom Halloween!

quinta-feira, outubro 26, 2017

Ê, Outono abençoado!


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O sermão de Domingo passado, chamado "O Rei e o Reino são muito maiores do que julgamos", pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, outubro 19, 2017

Comer bem e viver melhor

Vejam a experiência do Pedro Barroso para que a vossa fé melhore a vossa mesa.

O que é que uma igreja rezingona e calvinista

Tem a aprender com uma Hillsong? Numa hora e meia pode haver respostas.

Olhem aqui

Este Rick Rubin a dar uma lição de produção musical, a pretexto da gravação do novo disco do Lipe. Tudo graças ao Martim.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Ouvir (e ver)

O sermão de Domingo passado, chamado "Jesus saca mais do arrependimento do que um cobrador dos impostos", pode ser ouvido (e excepcionalmente visto) aqui.

Um pouco do Fim-de-Semana Cheio na Lapa

Visto pelos olhos de quem visita (neste caso, do meu amigo Martim).

Of course


quinta-feira, outubro 05, 2017

A não perder

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "Só se ganha quando a chamada é estranha", pode ser ouvido aqui.

O Velho Arsenal


A FlorCaveira e o site brasileiro Scream & Yell têm o privilégio de publicar hoje “O Velho Arsenal dos Lacraus”. Este disco é uma comemoração de quase 25 anos de rock'n'roll: as dez canções vão desde 1993 até agora, incluindo como extra a versão original do “Queluz Está a Arder” (porque há clássicos que não são possíveis de aperfeiçoar). A capa, inspirada num livro de motoqueiros negros de Nova Iorque, usa uma fotografia fantástica da Catarina Limão. Podem ouvir no site da Scream & Yell, Spotify, na Apple Music e nas plataformas digitais do costume (em breve estará no YouTube e no Bandcamp). Aí em baixo têm um texto explicativo de um quarto de século a pôr fogo no pano. Espalhem o amor!

***

Se olharmos para os Lacraus de uma maneira estreita, podemos dizer que eles começaram há dez anos quando pela primeira vez usaram o nome para participarem na compilação da FlorCaveira chamada “Cinco Subsídios para o Panque-Roque do Senhor”, juntamente com os Pontos Negros, Samuel Úria & as Velhas Glórias, Borboletas Borbulhas e Jerusalém. Desde essa ocasião voltaram a participar noutra compilação chamada “A FlorCaveira em Frequência Modulada” de 2007, e editaram o disco “Os Lacraus encaram o lobo” em 2011, numa edição da FlorCaveira com a Valentim de Carvalho.

Mas acredito que a maneira certa de olhar para os Lacraus não é esta maneira estreita. Se olharmos para os Lacraus de uma maneira larga podemos dizer que eles começaram há vinte e cinco anos. Foi em Dezembro de 1992 que na Igreja Baptista de Queluz se juntou um grupo de quatro adolescentes para ensaiarem três canções que deveriam apresentar no Acampamento Baptista de Fim de Ano de 1992, em Água de Madeiros (na zona de Leiria). Desses quatro adolescentes, três tocam neste disco dos Lacraus que agora ouvem. É um quarto de século a fazer música juntos.

 Os Lacraus, vistos desta maneira larga, são um punhado de amigos que, sob nomes diferentes (já lá vamos!), não desistem de tocar. O primeiro grupo que os juntou teve uma duração curta - chamava-se Parakletos (que quer dizer “Consolador” em grego - é uma mania evangélica a de dar nomes a bandas a partir de termos no hebraico ou no grego) e nele estavam eu (o Cavaco), o Tiago Ramos, o Miguel Sousa (o Guel) e o Tiago Branco. Pouco depois, logo no início de 1993, os Tiagos começavam outra banda, à qual se juntava o Miguel Ferreira (que tocava com os Damaged Fan Club - um grupo com algum reconhecimento na cena do rock underground lisboeta da altura), chamada Metanóia e que pudesse servir para fazer “música mais pesada”. Afinal estamos a falar dos anos da vigência Nirvana, do álbum negro dos Metallica e dos últimos estertores dos Guns'N'Roses. Os Tiagos não queriam apenas ter uma banda evangélica em que a recepção fosse garantida junto de outros evangélicos (como os Parakletos asseguravam) - os Tiagos sentiam-se punks e queriam ter uma banda punk.

Também em 1993, os Parakletos acabariam por receber mais dois músicos e, à boleia deste acréscimo, mudar o seu nome para H.Pos (para fazer o trocadilho com “agape”, a palavra grega para um dos tipos de amor bíblico). Eram eles o Jorge Viegas e o João Leal, que solidificam instrumentalmente um grupo mais talhado para os eventos do contexto evangélico. Esta banda duraria até 1998. Entretanto, os Metanóia também não ficaram como começaram. Em 1994 passam a ser Catacumba, com um som mais virado para o trash metal e o hardcore (os Ratos de Porão tinham entrado na nossa vida para mudá-la para sempre). Tinha saído o Miguel Ferreira e entrado o Emanuel Conde e o Ricardo Oliveira. Já em 1996, em febre ska/punk, o nome passa a ser Bible Toons - é durante esta fase que conseguem organizar uns quantos concertos na cave da Igreja que se tornam memoráveis e razão para marcarem a escassíssima paisagem musical de Queluz. Como Bible Toons perdem o Emanuel Conde mas ganham o Carlos Rodrigues e o Miguel Sousa (que também tinha passado a querer “música mais pesada”).

Já em 1998, e com os músicos na Faculdade, sentem pressão de um nome intelectualmente mais sólido: com muita inspiração vinda da audição atenta dos Heróis do Mar (uma banda maldita durante a década de 90) passam a chamar-se A Instituição e o som torna-se mais próximo de um punk mais maniento e menos adolescente. É desta época os concursos musicais (com um primeiro lugar no Festival de Música Moderna de Corroios de 1998), mas também será pouco depois que o combustível que turbinava o sonho da banda da adolescência chega ao fim. Num ensaio inglório de 1999, A Instituição termina tentando ensaiar uma canção que apropriadamente se chamava: “A Instituição é uma banda sem futuro” (o cinismo pós-moderno tinha substituído o panfletarismo religioso).
Mas ainda no finalzinho de 1999, a paragem não conseguiu ser duradoira. Eu junto-me ao Guel e cravamos o adolescente de 14 anos, Filipe Sousa (primo do Guel e do Ricardo Oliveira) e o João Eleutério para fazermos Guel, Guillul & o Comboio Fantasma. A primeira canção será precisamente a canção que tinha tentado reanimar A Instituição, agora com um novo nome e letra: “Queluz Está A Arder”. Esse seria também o título do primeiro disco, gravado logo no Dezembro próximo. E é desta inesperada ressurreição que vem um padrão hoje tão próprio da FlorCaveira (editora que começaríamos precisamente nesse ano de 1999): às vezes é preciso uma aparente derrota para as coisas voltarem ao sítio certo.

O disco “Queluz Está A Arder” dá um tom fundamental a tudo o que seria o futuro da FlorCaveira. Não tanto pelo som mas mais pela atitude: falar muito a sério ou falar muito a brincar; gravar com o que se tem à mão; e crer sem reservas que o que estamos a fazer é definitivamente mais urgente de ser feito do que aquilo que os outros estão a fazer (isto não significa que não gostamos do que os outros fazem, simplesmente não nos parece o que mais precisa de ser feito). A editora torna-se tanto uma família como uma ideologia. Estão nela aqueles que cresceram juntos no sentido de a criar, como poderão vir a estar juntos nela outros que assumam os seus dogmas. E seria isso que viria a acontecer, nos inesperados e loucos anos de 2007, 2008, 2009 e 2010 quando, à boleia de um talento mais depurado dos Pontos Negros (a banda adulta do adolescente Lipe do Comboio Fantasma), a crítica nacional descobriu a FlorCaveira e dela fez uma improvável sensação.

Antes de dar o salto para 2017, vale a pena dizer que dez anos antes os Lacraus tinham sido a banda criada para tentar canalizar os espíritos do Comboio Fantasma, parados desde 2003. Os Lacraus tiveram mil e uma formações. Foram eu e o Guel sozinhos (numa espécie de Black Keys); foram eu, o Guel e o Ricardo; foram por vezes eu, o Guel, o Ricardo e o Filipe; e, como formação mais clássica, foram eu, o Guel, o Ricardo e o Ben (que substituiu o Lipe, quando ele se quis dedicar aos Pontos) - foi destes quatro que saiu em 2011 o disco “Os Lacraus encaram o lobo”.

Em 2017 os Lacraus são menos as suas formações concretas e mais aquilo que, no meio delas, teima em persistir: um grupo de família e amigos. Neste disco que agora escutam, os Lacraus são eu, o Guel, o Ricardo, o Lipe, o Tiago Ramos e o João Eleutério. A coisa bonita é que nestes seis tipos está reunida quase a totalidade d'A Instituição/Bible Toons (falta o Carlos Rodrigues) e está totalmente reunido o agrupamento conhecido por Guel, Guillul & o Comboio Fantasma. Foi também esse embalo de nos vermos novamente todos juntos que contribuiu para que tirássemos um tempo para irmos às cassetes e aos velhos CDs escolher uns quantos números do passado que mereciam ser regravados com a ternura dos (quase) quarenta. Quando já se toca há quase um quarto de século, já não é preciso arranjar grandes pretextos - é fazer e pronto.

Este disco reúne canções deste período de quase 25 anos de música. E isso diverte-nos. Geralmente os discos de 25 anos de carreira são discos de êxitos conhecidos por toda a gente. Connosco isso é impossível porque sempre andámos nos subterrâneos musicais. Temos tido aqui e ali um ou outro vislumbre daquilo que é a música recebida por massas (mais o Lipe com os Pontos Negros), mas, passado este tempo, não estamos assim tão distantes do lugar onde começámos. E isso não nos sabe mal. Se soubesse, não teríamos energia para regressar a canções antigas.

Tentámos ir buscar um pouco de tudo e por isso diz-nos muito ter, por exemplo:

- uma gravação do “Joãozinho” (uma canção que imita em modo teen-evangélico os Nirvana imitando os Vaselines), que fez parte da primeira maquete dos Metanóia, em 1993. Caramba, nada se perde - tudo se transforma!

- Por outro lado, o “Não sei” foi gravada aqui numa versão menos pop-punk nineties como era a original, de 1997.

- A partir daí nota-se como o Comboio Fantasma apurou os exageros para uma fórmula que, estando ainda de pés no punk, já se sentia confortável no good old rock'n'roll. O “Eram três”, de 2000, foi provavelmente a primeira canção mais clássica que gravámos, que tanto dava Velvet Underground como Tom Petty.

- Depois, a canção “Há sangue na tua t-shirt” já é da pena dos Lacraus, no período de início do uso do nome, por volta de 2005 (e incluída na tal mítica compilação “Cinco Subsídios para o Panque-Roque do Senhor”).

- Seguem-se depois três canções que, tendo integrados discos meus a solo, mereciam um tratamento mais springsteeniano: a “Da Fuga para a Mágoa”, que tinha sido um outtake do “V”, agora rebaptizada para “Só os anjos dançam contigo em segredo”; a “Os rapazes do Pouco Fazem Fogo”, originalmente do disco “Amamos Duvall”; e “Pousaste os Auscultadores”, do primeiro disco da Xungaria no Céu, originalmente cantada pelo Alex D'Alva Teixeira.

- Aproveitámos para juntar uma canção nova, “Sacode o Pó das Tuas Asas”, já que Bruce tinha sido invocado.

- Como extra, incluímos o nosso clássico dos clássicos, impossível de ser regravado e, por isso, na sua imperfeita versão original perfeita: “Queluz Está a Arder”.

Como título deste disco indica, este é um velho arsenal. Não deixa de ser curioso que os nossos parceiros de guerra sejam a revista Scream & Yell. Não quero teorizar muito sobre esta mudança de mira para o Brasil - aconteceu assim porque tinha de acontecer. Mas gostava de pensar que, por barulhentas que sejam as nossas armas, ainda conseguem fazer algum fogo. São vinte cinco anos de explosões. Deus é bom e, por causa de Cristo, o Espírito ainda queima. See ya in the pit.

Tiago Cavaco.

quinta-feira, setembro 28, 2017

Resolvi concluir por agora o trabalho deste canal de YouTube

No vídeo explico porquê. Não o faço sem tentar alguma compensação: há uma canção nova dos Lacraus para um disco que amanhã sai em colaboração com o site Scream & Yell. Agora só dá Brasil. Ouçam que o rock 'tá forte. Talvez regresse para uma segunda temporada. Para já, deixo-vos com os violinos dos meus rapazes, envergando corajosamente um clube ontem deixado no chão. A vida é assim. Continuem a orar por mim.

Ouvir

O sermão de Domingo passado, chamado "A bênção das orações não respondidas", pode ser ouvido aqui.

Se é para ir à tv falar de religião

Então que se fale que elas não são todas o mesmo.

segunda-feira, setembro 25, 2017

Os evangélicos são os pretos do cristianismo (ou “Falta uma voz no ar”; Texto VIII do livro ambulante “Arame Farpado no Paraíso”)

Este é um livro sobre uma viagem ao Brasil. E é curioso que tenha sido necessário ir ao Brasil para compreender um pouco melhor uma das doenças europeias (e ocidental) que é a da repugnância intelectual causada pelo movimento evangélico. Faço então agora um à parte no relato da viagem para tocar neste assunto.

Um dos meus autores católicos preferidos é o G. K. Chesterton. Aliás, um dos meus autores preferidos é o G. K. Chesterton, ponto. Quando mais ou menos há quinze anos o descobri houve em mim uma euforia. Por um lado, o Chesterton servia para dar mais explicação ao meu passado de ser fã do C. S. Lewis. Isto porque em grande parte o Chesterton funciona como uma espécie de proto-Lewis, no seu carácter britânico de defesa da fé nas altas e modernas ondas do Século XX. Por outro lado, o Chesterton servia para eu querer dar-me às explicações a que um cristão se deve submeter no Século XXI. O facto de o Chesterton ser mestre de paradoxos parecia-me a única via possível para tornar o cristianismo intelectualmente respeitável no ambiente de hoje. Claro que é neste segundo ponto que a minha perspectiva mudou.

Se é certo que continuo a ser super-amarrado no Chesterton, não olho mais para a arte dele nos paradoxos como a âncora para o meu barco. Deixei de acreditar que a única maneira de ser intelectualmente respeitado enquanto cristão é à custa dos paradoxos chestertonianos. Não me entendam mal: creio que o paradoxo é das coisas mais incontornáveis do cristianismo. O meu ponto não é esse, de abandonar a importância do paradoxo. O meu ponto é o de reconhecer que o que me fazia adorar os paradoxos do Chesterton não era a vontade de render-me ao cristianismo, deixasse-me o cristianismo mais ou menos respeitado intelectualmente. O que me fazia render aos paradoxos do Chesterton é que, no meio de tão talentosa capacidade de drible à custa do paradoxo, a finta funcionava a favor de impressionar e não de convencer. E, passados uns anos após a minha euforia chestertoniana, considero que o cristianismo tem mesmo de convencer e não somente impressionar. Já não interessa só a fintinha talentosa que os paradoxos do Chesterton fazem; interessa-me mesmo que algum golo se marque.

Com isto quero fazer uma provocação aos amantes de Chesterton, como eu: gostariam tanto dele se, sem o artifício agudo dos paradoxos, ele dissesse o que diz sem as apuradas fintas retóricas? Sei que posso ser acusado de exageradamente separar a forma do conteúdo nesta pergunta, como se o modo de dizer não fosse parte do que se diz. Mas, de facto, creio que o ponto forte de Chesterton é também o seu ponto fraco (aliás, como uma verdadeira antropologia bíblica geralmente indica): Chesterton é melhor a ser defensor do cristianismo do que a defender o cristianismo, if you know what I mean. E acelerando protestantemente um pouco mais a minha acusação, diria que Chesterton é melhor a trabalhar as palavras do que a trabalhar a Palavra - já pensaram no escandalosamente pouco que o Chesterton fala da Bíblia?

Esta já longa introdução serve para, ao regressar ao meu amado Chesterton, recordar a sua história de conversão ao catolicismo. O coração do Chesterton, sendo inglês, era todo a favor da Irlanda. O Padre John O'Connor, que o recebeu na Igreja Católica Romana, era irlandês. Quando a cerimónia que marcou a chegada de Chesterton ao catolicismo se deu era 1922 e a pequena igreja que albergou o momento, em Battersea, não passava de uma cabana com tecto de lata. Para o efeito do argumento deste texto, Chesterton converteu-se à confissão cristã que mais lhe parecia do lado de fora das glórias do mundo (no texto “Why I Am A Catholic” ele explica essa antítese católica ao mundo em termos de o catolicismo ser mesmo maior que o próprio mundo). Mas o que interessa aqui reter é que para Chesterton era valioso pensar que, em grande parte, o catolicismo funcionava como antídoto para o mundo (ideia recorrente na sua obra, especialmente em títulos de clássicos como “What’s Wrong With The World”, “Disparates do Mundo” na velhinha versão portuguesa).

Há cem anos o catolicismo facilmente era acusado de ser ultrapassado e anti-moderno. No fundo, não era uma acusação completamente desprovida de razão, na medida em que Roma olhava para a modernidade sob assumida suspeita. Também era a partir deste ambiente que o protestantismo, por oposição, funcionava como religião com aparente maior espaço para o progresso. É verdade que na complexidade protestante havia espaço para afirmações tão ou mais “anti-modernas” como o catolicismo (a polémica fundamentalista estava a chegar, na década de vinte), mas, no geral, e no ambiente britânico em particular, era sob os católicos que caía a aura de religião retrógrada. E, Chesterton, sem vergonha, saía triunfantemente à rua para defender as razões porque se tinha tornado católico (o texto “Why I Am A Catholic” é fundamental). O mundo ia numa direcção e Chesterton, o católico, ia noutra.

O que talvez não se imaginasse há cem anos é que décadas depois as coisas mudassem, mudança essa simbolizada no Concílio Vaticano II. Simplificando coisas que acarretam complexidade, diríamos que o Vaticano II transforma a anti-modernidade romana. O catolicismo decidiu abrir-se ao mundo e dificilmente o imaginário chestertoniano, em que a Igreja funciona como remédio para as doenças dele, se pode aplicar com a mesma facilidade agora. Continuando o catolicismo a ser diverso, ele traz consigo, no entanto, uma vontade formalmente declarada de caminhar de mãos dadas com o mundo. Sem querer ser polémico, diria mesmo que essa vontade de abertura ao mundo chega ao ponto de, por vezes, ser complicado perceber onde Igreja Católica Romana e o mundo podem divergir. Resumindo: quem diria que a Igreja do remédio chestertoniano para os males do mundo chegaria umas décadas depois à Igreja do Papa que “quem sou eu para julgar alguém?”

E, no entanto, eis que o catolicismo renasce como porto de novas conversões, inclusive de ex-evangélicos. Claro que existe muita carapuça para nós, evangélicos, enfiarmos, sobretudo na nossa estúpida rasura eclesiológica e histórica. Todavia, o argumento fundamental deste texto é a observação da mudança de lugares entre protestantismo e catolicismo, cem anos depois da conversão de Chesterton à religião dos pobres, ignorantes e irlandeses. Isto porque, sem dúvida, os lugares mudaram. Hoje é o protestantismo (que não separo do movimento evangélico) que se tornou a religião dos pobres, ignorantes e, se quisermos, dos irlandeses de todo o mundo. O movimento evangélico é hoje o catolicismo de há cem anos; a Igreja que, por representar os desvalidos do mundo, tende a repugnar os cristãos em progresso, os intelectualmente respeitáveis e os esteticamente esclarecidos. Os evangélicos são os pretos do cristianismo e, nessa condição de discriminação global, são também o seu futuro (e uso o termo preto sem qualquer receio de ser tomado como um racismo, porque tem o propósito contrário, de defender os que estão na cauda do mundo - enfim, uso o termo preto como o Caetano Veloso faz). Eu tenho muito orgulho em ser evangélico e um dos pretos do cristianismo. Por ser evangélico no início do Século XXI, estou num lugar parecido onde estava o meu querido Chesterton há cem anos, ao converter-se ao catolicismo.

Na eleição doida que foi a presidencial norte-americana que nos deu Donald Trump, houve por parte da campanha de Hillary Clinton a tentativa de influenciar os sectores democratas católicos a seu favor. À custa de umas Wikileaks ficámos a conhecer uma correspondência entre John Halpin, John Podesta e Jennifer Palmieri, responsáveis pela candidatura Clinton. Escrevia Halpin que havia muitos conservadores que se tinham tornado católicos romanos recentemente, provavelmente atraídos pelo pensamento sistemático, ao que Jennifer responde: “Calculo que eles pensem que é a religião politicamente conservadora mais socialmente aceitável. Os seus amigos ricos não compreenderiam se se tornassem evangélicos”. Ao que Halpin riposta: “Excelente ponto. Eles podem atirar termos como ‘tomístico’ e 'subsariedade’ e soar sofisticados porque ninguém sabe de que raio estão a falar”. Estas palavras, sendo usadas por pessoas interessadas em manipular convicções religiosas para objectivos eleitorais, são bem reveladoras. Conversões ao movimento evangélico não casam bem com poder e com sofisticação intelectual.

E, no entanto, o movimento evangélico cresce como nenhum outro movimento religioso. Uma parte do mundo olha para isto como uma epidemia de lepra cerebral. Eu, um dos evangélicos que no mundo quase nada sofre em comparação com tantos dos meus irmãos, gostaria de não desmobilizar. Leprosos foram doentes com oportunidades únicas de intimidade com o nosso Senhor. Desta trincheira não devemos arredar.

Em Portugal os evangélicos são provavelmente a religião que mais pode ser achincalhada sem que ninguém levante ondas. Os intelectuais e a esquerda no geral conseguem, à nossa custa, afirmações xenófobas e discriminatórias impensáveis se fossem dirigidas a outra qualquer confissão, que ninguém se dá ao trabalho de valorizar porque não chegamos aos corredores do poder. Dou exemplos simples: o Presidente Mário Soares chamou-nos fanatizados e ninguém mexeu palha. O primeiro-ministro José Sócrates chamou aos seus oponentes calvinistas e ninguém palha mexeu. Principalmente na esquerda (mas na direita também) a mensagem é simples: podemos pontapear impunemente os evangélicos à vontade porque na opinião pública eles já estão no chão. Somos a religião das empregadas brasileiras, dos pastores que vêm da América Latina para sacar dízimos, dos fundamentalistas que levam a Bíblia à letra porque são ignorantes, etc. Somos a religião dos maus e não a dos bons. Não vale a pena doirar a pílula.

A mim próprio, vejam-me a sina que me foi dada!, há quem me considere um evangélico intelectualmente respeitável - há quem queira fazer de mim “um evangélicos dos bons”. Deus me livre de ser contado entre os sãos. Eu não quero ser um evangélico intelectualmente respeitável. Odeio evangélicos intelectualmente respeitáveis e estou-me nas tintas para o vosso respeito. Eu sou um dos pretos do cristianismo mesmo, dos da religião da vossa empregada brasileira, como os que vos querem sacar os dízimos, que vos pregam literalismos Domingo sim, Domingo sim. Eu, como o Chesterton quis ser há cem anos, sou da fé da escória do mundo. Sou dos da lama. E temos visto Cristo fazer coisas incríveis a partir dela.

Os evangélicos que se tornam católicos fazem paradoxalmente o percurso inverso ao do Chesterton, que de um contexto protestante se tornou católico. Os evangélicos que se tornam católicos fazem-no porque o catolicismo, nas suas estetizações diversas, lhes dá a credibilidade cultural que o protestantismo hoje não lhes permite. O protestantismo continuará a crescer precisamente por não precisar da credibilidade do mundo. O protestantismo é hoje o chestertonianismo mais credível. Quando mais chestertoniano sou, mais evangélico permaneço.



sexta-feira, setembro 22, 2017

Imagina que o teu pastor

Escondeu de ti que foi punk rocker...

TEXTO VII - EM PLENO NORDESTE TROPICAL OUVIU-SE O “CASTELO FORTE” DO LUTERO [do livro ambulante “Arame Farpado no Paraíso”]

“Onde se conta de como São Paulo nos derruba e de como o nordeste brasileiro pode ser um oásis teológico”

Com todas estas coisas não tive oportunidade de passear por S. Paulo. Depois da actuação na Sensorial Discos, o melhor que conseguimos foi, graças à paciência e generosidade do Pr. Valter Reggiani, que não só me recebeu em sua casa como na sua igreja, e como ainda me acompanhou ao concerto, atravessar de carro a Avenida Paulista. E que avenida! À falta de melhor referência, era como se estivesse numa Manhattan tropical. São Paulo é uma cidade realmente esmagadora.
Não se pode passar por uma cidade como São Paulo e não sentir um atropelo. É uma cidade imensa que passa por cima de nós de uma maneira que não saímos ilesos. Apesar de ter visto pouco, fui pisado por muito. Quero regressar a São Paulo.

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Na Igreja Batista Reformada de S. Paulo conheci um casal vindo do contexto judeu messiânico. Neste caso, um rabi convertido ao cristianismo. Em Portugal não há casos assim, que conheça. Também, vale a pena dizer que em Portugal os poucos judeus que há pouco acreditam em Deus. Ou seja, Portugal tem essencialmente daquele tipo de judeus teologicamente liberais que na prática equivalem acreditar na Torah a acreditar no Gato das Botas. Portugal é teologicamente tão pobre que nem do povo mais privilegiado do mundo, o judeu, se consegue sacar um centímetro de fé verdadeira.

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Depois de S. Paulo, Fortaleza era o próximo ponto de paragem. Depois de um Domingo preenchido na Igreja Batista Reformada de S. Paulo, com sermão de manhã e sermão de noite, esperava-me uma noite de pouco sono para acordar às quatro da manhã e seguir para o aeroporto em Congonhas. O Pr. Valter Reggiani conduziu-me até lá e fui surpreendido por uma coisa que não sabia existente, só possível numa mega-cidade como São Paulo: trânsito antes das seis da manhã. Ainda assim, deu para chegar ao aeroporto às seis da manhã.

Como já disse antes, sou um nabo diplomado, incapaz de me safar sozinho. Imaginem-me a chegar a um aeroporto e ter de me desenrascar a embarcar num avião. Cometi um erro logo aí. Em vez de despachar a minha mala, levei-a para a zona do embarque. É verdade que achei estranho o facto de ser o único naquela área com uma mala do tamanho da minha. Mas a verdade é que os senhores que tratavam de verificar as bagagens de mão, não me impediram de entrar com aquela mala imprópria. No raio-x apitou a minha mala porque levava uma faquinha de manteiga, que a Rute tinha juntado aos petiscos que escondeu na minha bagagem. Mas quando mostrei, não se opuseram.

Foi preciso chegar perto de uma pessoa com mais critério que eu, que neste caso era o Sérgio Moura, da Editora Vida Nova (que publicava três dos meus livros), para que entendesse que tinha cometido um erro ao não despachar a mala no lugar certo. O Sérgio começou a averiguar se seria necessário voltar atrás ou se daria para despachar na porta de embarque. Disseram-lhe que a segunda seria possível. Mas o Sérgio não evitou uma nota irónica, ao ver o senhor do aeroporto que pegar nela na zona de embarque com um ar pouco orientado, e comentou que provavelmente eles a iriam perder. Dito e feito. Quando chegámos a Fortaleza, assim tinha sucedido e a mala tinha ficado no Rio, onde fizemos uma escala (vi o Rio de Janeiro apenas à distância).

Essa questão das escalas foi outra para a qual não estava preparado. Estupidamente prevendo as minhas deslocações com as dimensões portuguesas, idealizei que cada viagem que fizesse dentro do Brasil fosse directa. Burro. Em todas tive de fazer escalas. O que significava que na prática a quantidade de voos duplicava. Para quem não gosta de voar, isso não é animador. Valia-me agora o facto de estar acompanhado pelo Sérgio. O Sérgio foi uma excelente companhia. O Sérgio é um conversador muito agradável, um bom apresentador do Brasil para quem não conhece, alguém que se oferece para resolver problemas quando eles aperecem, entre outros aspectos. A minha estadia no Brasil foi melhor graças ao Sérgio Moura. Recebi dele muita paciência e generosidade.

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Continuando na lógica saloia do português, pensava em Fortaleza como um Algarve brasileiro: praias e turistas num certo sossego veraneante. Céus. Fortaleza tem mais de dez milhões de habitantes. Um Algarve brasileiro é maior do que Portugal inteiro. Neste caso em particular, e já do avião, dava para ver que Fortaleza é uma grande cidade mesmo. O facto de ter praia e turistas não diz tudo sobre ela, apenas uma pequena parte.

Eu e o Sérgio fomos recebidos pelo Pastor Cleyton Guedelha e o Pastor Irenildo. O primeiro era o responsável pela igreja onde iria falar à noite, a Igreja Batista de Parquelândia. O segundo é um dos melhores contadores de história que já ouvi. Foi ele que me respondeu à pergunta que averiguava acerca de quanta seria a população de Fortaleza respondendo que setenta por cento eram bandidos. Depois explicaram que na imensidão que o Brasil é, há um lugar especial para o sentido de humor nordestino - é tão leve quanto auto-irónico.

O certo é que Fortaleza é das cidades mais perigosas do mundo e considerada a mais perigosa do Brasil. Agradeço por me ter apercebido melhor desta realidade posteriormente, depois de ter deixado a cidade. No entanto, houve um momento único em que, quando o Pr. Irenildo nos conduzia do hotel para a igreja onde daria a palestra, lhe perguntei, ao ver uma equipa policial bem apetrechada de armas junto de um semáforo, se era normal as autoridades envergarem sempre aquele tipo de apetrechamento. Ao qual me respondeu que todos os dias agradecia a Deus quando chegava a casa. O modo como disse isso foi naturalíssimo. Depois explicou, sempre com um sorriso nos lábios, que a coisa mais vulgar em Fortaleza era precisamente estar parado no trânsito junto a um semáforo e aparecer uma mota com alguém armado que aponta o revólver e leva o que quiser. Não é raro morrer gente no processo. Como podem imaginar, o Pr. Irenildo explicou isto quando estávamos precisamente parados num semáforo. Ele continuava a sorrir ao contar isto. Eu também sorri mas foram os nervos que me fizeram sorrir. Apeteceu-me dizer-lhe que ele podia ter deixado aquela história para outra altura.

Esta é uma das características interessantes dos brasileiros. Os brasileiros estão tão habituados à violência que só podem falar dela com naturalidade. Não gostar de falar de um assunto é geralmente um luxo de quem julga que o pode evitar. Os portugueses preferem não saber do risco que correm porque talvez assim não precisem de lidar com ele. Para os brasileiros o risco é omnipresente e por isso talvez seja melhor lidar normalmente com ele. Fale-se dele, ria-se dele, lide-se com ele. O Pr. Irenildo era um contador de histórias brilhante também por ser capaz de pegar no medo e rir dele. No fundo, também é uma espécie de coragem.

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O augúrio do Sérgio Moura concretizou-se. À chegada a Fortaleza a minha mala extraviou-se. Para castigo do seu mau presságio, teve de ser o Sérgio a tratar do assunto. Como não sou um viajante assim tão experimentado, ainda não me tinha acontecido ter a bagagem extraviada. O sentimento não é agradável. Ficámos na expectativa que chegasse durante a tarde. Nada. Ficámos na expectativa que chegasse ao início da noite. Nada. Ficámos na expectativa que chegasse durante a madrugada. Nada. Ficámos na expectativa que chegasse na manhã seguinte. Nada. Comecei a ficar preocupado e triste. Quando se sente falta de casa, até uma mala faz diferença. Ainda bem que tinha a gravação de uma entrevista em vídeo durante essa manhã - por estar ocupado, não fiquei a deprimir no hotel.

Essa entrevista era com o Yago Martins. Nem vou tentar fazer justiça à importância do Yago nestas linhas porque não conseguiria. Sem ele, não teria chegado ao Brasil. O Yago é um miúdo de vinte e poucos anos que hoje é um justo fenómeno público teológico. Com o Filipe começou há uns anos um canal de YouTube chamada “Dois Dedos de Teologia” que, entre outras conquistas, deu a uns quantos brasileiros um interesse genuíno pela Igreja da Lapa e pelos meus livros. Eu, que sou estranho para o meu país, sendo ainda mais estranho para o Brasil, sou lá beneficiado pela característica brasileira que tenho repetido nestes textos que é a generosidade. O Yago é casado com a Isa, que também já conquistou o coração da Família Cavaco. Sentir os ossos do Yago num abraço foi um dos prodígios da minha viagem ao Brasil.

A noite anterior, na Igreja Batista de Parquelândia, tinha sido uma grande experiência. Coloquem-se no meu lugar: estou no Brasil para lançar três livros mas, como é óbvio, para a esmagadora maioria sou um ilustre desconhecido. É verdade que a conferência em que estava inserida a minha palestra contava com o Franklin Ferreira no terceiro e último dia, facto que atraía muita gente. Ainda assim, quem se dispõe a ouvir um portuga anónimo? Foi aí que, uma vez mais, me apercebi que as minhas categorias portuguesas não faziam sentido no contexto brasileiro.

A Igreja Batista de Parquelândia rapidamente se encheu, com talvez três centenas ou mais de pessoas dentro do salão, mais um grupo de mais de cem pessoas a assistir num pátio externo da igreja, por uma tela instalada para o efeito. Assim em traços gerais, eu falava para quase meio milhar de pessoas, sendo que a maior parte eram jovens. Tal e qual: segunda-feira à noite, perto de meio milhar de jovens ouve um pastor português desconhecido falar sobre meio milénio de um evento no Velho Continente. Se isto dá para reproduzir na própria Europa? Dificilmente.

Esta coisa fantástica só pôde acontecer comigo porque há um país chamado Brasil onde se vivem coisas impensáveis no meu. Durante décadas o Brasil foi campo missionário norte-americano e, no contexto reformado no geral e presbiteriano em particular, houve um investimento em receber alunos brasileiros em boas universidades evangélicas americanas. Adicione-se a isto o inesperado vigor da vaga calvinista dos últimos dez anos e podemos encontrar um quadro que, sendo inesperado, está relacionado com boas práticas de um passado recente. Para que haja casas cheias e sedentas de ouvir falar sobre eventos europeus com meio milénio, que nem à Europa interessam, foi feito muito esforço norte e sul-americano.

Agora imaginem o momento em que, antes da palestra começar, se levanta o coral da Igreja Batista de Parquelândia e canta em plenos pulmões o “Castelo Forte” do Lutero. As minhas pequenas categorias europeias foram pelos ares. Quem no mundo está a valorizar a herança religiosa germânica são pequenas multidões de latino-americanos. Já pensaram nisto? A Europa bem pode deitar para o lixo o melhor do seu passado que haverá quem no hemisfério sul o aproveitará. Mais ainda: a Igreja Luterana alemã pode ser a anedota que é, que consiste basicamente em não acreditar em nada daquilo em que Lutero acreditava, que não há problema: we will always have Fortaleza! A Europa bem pode apodrecer em versões maricas e pós-modernas daquilo que foi uma revolução chamada Reforma Protestante, que a América Latina, bem acompanhada por África e Ásia, ainda agora se juntaram à festa. Lutero está morto e enterrado na Alemanha mas eu vi-o bem vivo nas gargantas daqueles nordestinos. Fiz um esforço para não chorar porque tinha de falar àquela multidão logo de seguida.

***

O tema da palestra era “Ser Católico Sem Ser Romano - como a Reforma Protestante não nos tira da Igreja Universal”. Levava receios de que o assunto pudesse ser demasiado denso para as preferências que associava a um poiso turístico. Uma vez mais, a minha ignorância confirmava-se. Quando acabo de falar havia espaço para perguntas colocadas pela assistência. A primeira não podia ser mais surpreendente. Um jovem, aí na casa dos vintes anos, queria saber a minha opinião acerca de casos como o do Scott Hahn.

Scott Hahn? Estão a fazer-me uma pergunta sobre o Scott Hahn no solarengo nordeste brasileiro? Na minha geografia intelectual um caso sobre o Scott Hahn dificilmente chegaria ao interesse do nordeste brasileiro, quanto mais ao seu conhecimento. E para aqueles que não conhecem o Scott Hahn, eu dou uma ajuda. O Scott Hahn foi um pastor presbiteriano que há umas décadas se tornou católico romano. Escreveu um livro a contar essa improvável conversão que se chama “Rome, Sweet Home” (a versão portuguesa chama-se “Todos Os Caminhos Vão Dar A Roma”) e desde então tornou-se uma das vozes mais destacadas a defender sobretudo entre os protestantes norte-americanos a necessidade da conversão ao catolicismo. Além do caso do Scott Hahn, aconteceu na década passada também o do Francis Beckwith que era o presidente da Evangelical Theological Society, entre outros possíveis de mencionar.

Como sou abençoado por ter amigos que são bons católicos romanos, sendo um deles o Filipe Costa Almeida, há uns anos recebi dele como presente este livro do Scott Hahn. Ou seja, quando a pergunta nordestina chegou inesperadamente, eu estava protegido pelo facto de ter lido o livro. E, portanto, tinha algo para dizer sobre o assunto. Não correu mal. Mas toda a minha presunção de achar que o nordeste brasileiro não estaria interessado no assunto “Ser Católico Sem Ser Romano” tornou-se mais uma a ser arrasada. O nordeste brasileiro não só está interessado no assunto como já está dentro dele. Se alguém estiver atrasado, será o lugar de onde vim - a Europa.

Nunca em Portugal conheci outro evangélico que tivesse dentro da história do Scott Hahn. Nesse sentido, os evangélicos portugueses têm décadas de atraso em relação ao nordeste brasileiro. Teológica e culturalmente falando, Portugal tem muita sopa para comer para poder estar ao nível que encontrei em Fortaleza. Por exemplo, a Igreja Batista de Parquelândia, que me recebeu para esta série de conferências, tinha a sua própria escola teológica, chamada Charles Spurgeon (os brasileiros pronunciam “espurgeon”, o que não deixa de ser engraçado). O que isto quer dizer é que não somente o Brasil tem igrejas em cidades, além da capital, que estão vivas em iniciativas próprias que oferecem conhecimento bíblico profundo, como começam a oferecer um circuito crescente em que um teólogo, vindo de fora, pode ser recebido, ouvido, compreendido e colocado em causa pela via do diálogo. Muitas das vozes teológicas no contexto reformado norte-americano têm passado por Fortaleza. Há muitos lugares do mundo onde isto está a acontecer? Duvido.

E aqui quero fazer um à parte para, de seguida, falar desta questão associada à conversão ao catolicismo romano de evangélicos proeminentes. Fica para o texto seguinte.


quarta-feira, setembro 20, 2017

Constituir família

É a suprema rebeldia.

Ouvir

Que o ridículo não te impeça de lutar pelo que é justo.

O sermão de Domingo passado, chamado "Afogado, ridículo e incapaz", pode ser ouvido aqui.

ARAME FARPADO NO PARAÍSO Texto VI - “Uma Tarde na Sensorial Discos”

“Onde se entende que no Brasil teologia não tem de ser palavrão e se conta de uma tarde maravilhosa na Sensorial Discos”

Depois de cinco dias passados em S. José dos Campos, viajei para S. Paulo. Não sem alguma ironia, uma das estradas que usámos chamava-se Ayrton Senna. Fui levado por uma carona do Irmão Bené, que me acompanhou numa hora de conversa maioritariamente teológica. Como de há uns anos para cá parece ser a regra, o assunto era calvinismo. Em casa da família Reggiani, que me acolheu em S. Paulo, o assunto continuou. A família Reggiani é constituí­da pelo Valter, marido e pastor da Igreja Batista Reformada de S. Paulo, e Lenice, sua esposa. Fiquei num apartamento bonito e moderno.

***

Passei um Sábado e um Domingo com a Igreja Batista Reformada de S. Paulo. Foram dois dias intensos e preenchidos. Não fui para o Brasil passar férias. Logo às 9.30h da manhã de Sábado, já estava com a igreja num breve pequeno-almoço seguido de um período de palestra e oportunidade para perguntas e respostas. No Brasil pode chamar-se “café teológico” a um evento deste género. Só uma cultura muito menos cínica do que a europeia consegue usar um nome destes sem receios. Creio que se fosse em Portugal, o “café” ainda passava mas o “teológico” levaria pancada. No ambiente intelectual europeu, a teologia parece um luxo. Como na Europa é suposto não acreditar assim tanto nas propriedades da teologia, um café teológico seria algo parecido com um chá com unicórnios.

Mais uma vez, o Brasil leva vantagem. No Brasil a teologia não tem de ser palavrão. A juventude acredita em teologia e não a tem como um cemitério. Em Portugal os pastores evangélicos mais populares fazem carreiras de desacreditar a teologia, como se ela fosse o refúgio dos fariseus (graças a Deus, a popularidade de um pastor evangélico em Portugal é quase zero). Claro que os pastores evangélicos que em Portugal fazem carreira de desacreditar a teologia não entendem que, com isso, praticam uma das formas mais insuportáveis de farisaí­smo que é o de acharem que atingiram um estado de perfeição tal que já não precisam de teologia. Ou seja, a teologia só pode ser tornada um mal por quem se considera acima dela, qualitativamente superior - este era precisamente o problema dos fariseus do tempo de Jesus. Os fariseus não eram hipócritas porque tinham a teologia numa importância acima deles. Antes pelo contrário, os fariseus eram hipócritas porque tinham a teologia dominada pela sua prática, convictos de que ela servia para confirmar a qualidade que eles mesmos julgavam possuir. Por isso mesmo, Jesus diz no sermão do monte que o segredo não é desvalorizar os fariseus mas viver com um valor superior ao deles. O problema não é os fariseus levarem a lei demasiado a sério; o problema é não a levarem a sério. É daí­ que vem o “ouviste o que vos foi dito; eu porém vos digo” de Cristo. Jesus não está a abandonar a velha teologia mas a cumpri-la.

Imaginem a minha surpresa por encontrar um auditório de cerca de uma centena de pessoas prontas e dispostas para me ouvir. Uma boa parte sabia quem eu era e veio de propósito (proporcionalmente falando, foi S. Paulo a cidade que mais trouxe pessoas que já me conheciam), mas outra nem por isso. Quer uma, quer outra, foram de uma grande generosidade para mim. E esse é um dos aspectos chocantes da minha viagem. Quando somos recebidos de uma forma que não merecemos, entramos numa produtiva crise interna.

A importância desta viagem ao Brasil é que, em grande parte e por causa do bem que por lá me fizeram, foi agitado aquilo que de mal existe em mim. É sempre assim: o bem luta contra o mal. Não dá para sermos expostos à  qualidade de Deus sem que aquilo que é mau em nós não se sinta ameaçado. Esta viagem ao Brasil foi também uma bênção porque chocalhou coisas dentro de mim que nunca tinham sido colocadas a mexer. A minha tese é bem simples, quanto a isto: se vais ser exposto a uma quantidade superior de generosidade, então provavelmente vais ser corrigido e transformado.

A questão é que, ao contrário do que gostamos de dizer acerca de nós próprios, não somos as criaturas abertas à constante mudança, como alardeamos. A transformação é dura. A transformação é uma coisa maravilhosa mas é uma coisa difícil. Logo, quando há a possibilidade de ser transformado, há também a possibilidade de sofrer por conta da dor que acontece quando o bem desaloja o mal. O bem desalojar o mal implica sofrimento. Neste caso, a generosidade brasileira implica colocar em causa a minha falta de generosidade, enquanto português que sou (e com isto não quero sugerir que os portugueses sejam necessariamente menos generosos - eu sou).

Creio que, no momento em que esta generosidade me alcançava, não me apercebia dos seus efeitos mais profundos. Aliás, meses depois, ainda estou a ter uma perspectiva bem limitada das mudanças que esta viagem permitiu. Mas diria que o coração aberto com que fui ouvido ofereceu um exemplo para que o meu coração se abrisse mais também. Claro que é fácil dizer que ter o coração tão aberto também pode dar resultado a desastres, como, por exemplo, o Brasil ser um país cheio de charlatães. É vero: os charlatães têm no Brasil carreiras impressionantemente bem-sucedidas. Mas agitar a possibilidade de aparecerem intrujões como pretexto para continuarmos avarentos é um truque demasiado fácil e com resultados tristes na nossa vida. Muito do que de bom não nos acontece é porque nós mantemos uma postura de desconfiança que na prática impede de vivermos num mundo que, apesar de todas as coisas más, é ainda governado por Deus e pela sua boa vontade. A generosidade brasileira parece-me ter uma origem nuclear: Deus existe e eu conto com a chegada dele através da vida de outras pessoas.

Aquelas pessoas que me ouviam partiam do princí­pio que eu seria aquele que se apresentava. É um pastor de Portugal, certo? Por que razão não haveríamos de o querer ouvir? É um pastor de Portugal, certo? Por que razão não há-de ele pregar a palavra, se esse é o trabalho dele? É um pastor de Portugal, certo? Por que razão não há-de ele abençoar-me? Esta forma de pensar está tão distante da minha que fico envergonhado. A verdade é que vivo em clima constante de desconfiança. E se é certo que há uma santa desconfiança que cada cristão deve praticar, desconfiança essa dirigida contra nós próprios, por outro lado tem de haver uma confiança de que Deus está no rumo das operações ao ponto de poder ouvir outros em boa-fé. Depois, ouvindo-os, certamente devo avaliá-los segunda a palavra de Deus, que é o critério mais firme para apurar a verdade das coisas. Se for caso da pessoa que eu ouço ser um vendedor da banha-da-cobra, aí­ que seja civilizadamente corrido a santo pontapé. Mas se não for, a generosidade do início pode continuar a ser a generosidade do fim.

***

Ao início dessa tarde em São Paulo consegui encaixar uma pequena actuação musical na Sensorial Discos, na Rua Augusta. Foi uma tarde bem simples e bonita. Não teria acontecido se o Marcelo Perdido, um músico brasileiro que tinha passado um tempo em Portugal e que conheci por intermédio do meu amigo Silas Ferreira, não se tivesse juntado a outro Marcelo, o Costa, da revista online Scream & Yell, para concretizarem tudo isto. Logo por isso, a actuação antes de ser um pequeno concerto, já era um pequeno concerto mas no sentido de amizade. Eu concertei-me com estes dois Marcelos e o resultado foi uma breve tarde musical.

A Sensorial Discos é uma loja que vende música, sobretudo em vinil. Tem bar e o ambiente é acolhedor. Ao balcão estava o António que foi um anfitrião amável. Fui muito bem recebido lá. Quando cheguei pedi para usar a casa de banho que estava pichada de slogans revolucionários (a polí­tica no Brasil não dá para discussões serenas). Pensei que eu talvez fosse a voz mais conservadora que alguma vez espalharia por ali o seu som. E isso continua a ser um dos aspectos que torna o rock'n'roll realmente interessante: não pertence a nenhuma ideologia polí­tica. Rock de esquerda é tão absurdo como rock de direita (como é absurdo rock cristão). Mas é verdade que, por haver um consenso preguiçoso generalizado acerca de se esperar progressismo dos artistas, aqueles que não o sejam sentem-se sempre em maior rebeldia. O manifesto liberal da casa-de-banho só tornou mais punk que um cristão conservador pudesse cantar naquele lugar. Independentemente dos slogans de esquerda da casa-de-banho, a Sensorial Discos recebeu-me como se fosse família e isto é o mais importante. O rock deveria continuar a ser assim.

O público não era muito mas a emoção sim. Estariam cerca de vinte pessoas a ouvir, se tanto. Entre elas estava o Pr. Valter Reggiani, que me acompanhou durante todo o dia. Fiquei tocado por aquele gesto simples e hospitaleiro. Deve ter sido a primeira vez que, acompanhando um pastor convidado na sua igreja, foi parar a uma rebelde loja de discos de vinil. Estavam também alguns amigos que já tinham estado durante a manhã na Igreja Batista Reformada, como o Anderson, a Ingrid, o Lucas e a Júlia. Estava também o Bruno Capelas, que uns anos antes me tinha feito uma entrevista muito boa para a Scream & Yell. E estava ainda o Rodrigo Russo, um rapaz brasileiro de S. Paulo que trazia um dos meus discos em vinil, o “V”. O Rodrigo deixou-me quase sem fala quando contou que dois anos antes, quando estudava na Inglaterra, foi de propósito a Portugal para assistir a um concerto que dei com o Manuel Fúria e com o Samuel Úria no Musicbox em Lisboa.

Talvez seja do facto de tocar poucas vezes ao vivo, mas nunca tinha pensado que num concerto banal que dou pode estar alguém que fez um grande caminho para lá chegar. Fico envergonhado ao pensar na possibilidade de ter tido uma postura pouco séria em alguma das minhas actuações no passado, não honrando o esforço que pessoas tenham feito para irem ouvir-me. Na verdade, nunca pensei que a minha música e a dos meus amigos pudesse arrancar um gesto de tanta dedicação em alguém. Se alguém que está a ler estas palavras já alguma vez um esforço para me ouvir para depois ter recebido uma prestação fraca da minha parte, o meu pedido de desculpas. Foi preciso o Rodrigo de S. Paulo para entender isto.

O Marcelo Perdido tocou antes de mim. Ele é bom. A música dele é simples e eficaz. Usou uma canção como bandeira de uma causa pró-Lula mas até isso soube fazer com gentileza. O Marcelo soube colocar o ní­vel onde ele deveria estar. Aquela era uma tarde para se ouvirem canções de pessoas que estão mesmo ao pé de nós, como se estivessem lá em casa na nossa sala-de-estar. Por isso mesmo, tentei fazer o mesmo. Tenho de confessar que gostei de tocar. Já uns dias antes tinha tocado quatro cações minhas para os estudantes do Seminário Martin Bucer. E o certo é que em quase 40 anos de vida, nunca senti tanto prazer em dizer o que as minhas canções dizem. Na maior parte da minha vida musical, tive uma relação meio conturbada com o acto de tocar as minhas canções. Por um lado, gosto do show envolvido, do in-your-face da minha música, do efeito-choque. Mas por outro, e por limitação do meu talento e capacidades, e também por preguiça em ensaiar, quando toco estou meio ansioso para acabar aquilo. Nunca fui um músico elogiado pela minha interpretação.

Mas nos últimos dois anos, e sobretudo pelo efeito do disco “Bairro Janeiro”, onde falei do coração como nunca tinha feito antes, ganhei uma fé nas minhas canções. Acredito agora nelas. Acho que elas dizem coisas que valem a pena ser ditas. E essa convicção levou a que acreditasse na voz que tenho para dizê-las como nunca antes acreditei. Hoje gosto de me ouvir dizer as letras que canto. Isto assim à primeira vista pode parecer pretensioso mas encaro-o como uma conciliação necessária entre a pessoa que cria uma coisa e o uso público que essa criação terá depois. Sinto-me mais em paz com a possibilidade de fazer música. E encaro o fazer música como um propósito que Deus me deu. Esse propósito será menos avaliado pelo sucesso que alcança (que é pouco, de facto), e mais pelo facto de mo ter sido dado por Deus. Ou seja, principalmente faço música porque Deus me permitiu fazê-la, e não tanto porque ela alcança muito nos outros. Antes de fazermos algo por causa dos outros, devemos fazê-lo por causa de Deus.


segunda-feira, setembro 18, 2017

“ARAME FARPADO NO PARAÍSO” TEXTO V - “FAZER O CAMINHO SEM CAIR DO CAVALO”

“Onde se refere que o Diabo conduz nas estradas brasileiras, e onde se exprime que o Brasil idolatra a alegria onde a Europa idolatra a consciência”

Depois de dois dias no Hotel Ibis de S. José dos Campos, em frente a um shopping que envergava uma enorme bandeira brasileira (expliquei à Família Ferreira que em Portugal apenas edifícios governamentais ou de carácter mais institucional exibem bandeiras - nós temos dificuldade em misturar país e negócios, o que talvez explique as nossas crises económicas - se bem que as crises do Brasil também não se resolvem pelo facto de terem grandes bandeiras nacionais em shoppings…), segui para cinco dias no sítio (e agora quero dizer sítio no sentido de quinta mesmo) do Seminário Martin Bucer, onde uma semana intensiva de estudos acontecia. O Seminário Martin Bucer trabalha com alunos que algumas vezes ao longo do ano se reúnem para semanas intensivas, não sendo um seminário tradicional onde os estudantes de teologia estão a viver. O sítio era uma quinta não muito grande mas bonita, com espaço para campos desportivos e piscina (só lá mergulhei no último dia).

A estrada para lá chegar era indescritível. Em Portugal creio que já não existem estradas assim. O sítio, apesar de estar junto à cidade, exigia mais de meia-hora para lá chegar por conta do tempo de percorrer aquelas vias lunares. Duas coisas mais devo referir acerca daquela estrada. Quando, no dia em que deixei o sítio para ir para S. Paulo, fui conduzido pelo irmão Bené (de Benedito), ele disse-me que aquele tipo de estrada é geralmente o lugar ideal para raptos, porque não há grande escapatória possível. Este é um dos aspectos que os brasileiros não conseguem entender sobre os portugueses. Geralmente um português é informado acerca do perigo de uma circunstância após essa circunstância ter chegado ao fim. Os brasileiros, provavelmente por estarem bem mais mergulhados em circunstâncias onde o perigo raramente chega ao fim, sentem-se completamente descontraídos para falarem sobre o perigo quando ele ainda permanece. Na prática, não têm grande alternativa. Não foi a única vez que coisa semelhante aconteceu, de eu ser informado acerca dos riscos de uma situação enquanto ela ainda não terminou (mais à frente, quando falar sobre Fortaleza, volto a outro exemplo).

A segunda coisa que vos queria dizer sobre aquela estrada de S. José dos Campos é que numa manhã, quando ia gravar videograficamente umas aulas no estúdio usado pelo Seminário Martin Bucer no centro da cidade, passámos por um cruzamento que tinha uma espécie de altar improvisado por uma manifestação de macumba. A verdade é que já vi coisas parecidas na praia de Santo Amaro de Oeiras, em Portugal. Mas agora via no lugar original e recordava-me que no Brasil os espíritos não são coisas do passado. No Brasil os espíritos vêm até ti no meio do trânsito e é melhor que te desvies deles. O C.S. Lewis dizia com razão que o estratagema preferido pelo Diabo é convencer as pessoas que ele não existe - mas no Brasil o C.S. Lewis não diria nada de especial porque quase toda gente está careca de saber que o Diabo é tão real que parece omnipresente. No Brasil vais na estrada e tens de ter cuidado para não pisares os altares dele.


***

Quando alguém pensa em Brasil, não pensa em teologia. Mas é um erro. Na semana que passei com estudantes do Seminário Martin Bucer, em S. José dos Campos, fiquei surpreendido com as conversas que tive. Aliás, vou mais longe e digo que Portugal, na sua migalhez, não tem como chegar ao nível teológico do Brasil nas próximas décadas. E quando em falo em nível teológico, falo da teologia como uma convicção suficientemente séria ao ponto de transformar a vida daqueles que a ela se dedicam. Porque se estivermos a pensar em teologia como uma disciplina incapaz de mudar a vida daqueles que a estudam, aí sim, certamente que Portugal está cheio de teólogos.

Portugal tem teólogos a mais, da perspectiva que são pessoas dadas a abstracções que não beliscam um milímetro das suas vidas práticas. O que não falta são teólogos católicos romanos cheios de poesia gingona que serve para tudo sem servir para grande coisa (por seu lado, o meio evangélico nem um teólogo consistente consegue gerar). Debitam tiradas supostamente existencialistas acerca de perplexidades diante da condição humana, e das interpelações do divino, entre outros bocejos que passam por densidade psicológica. Geralmente a imprensa portuguesa gosta de padres assim, porque em grande parte funcionam como garantia de que podem ser lidos e ouvidos sem correr o risco de colocar algo estrutural em causa. A imprensa portuguesa permite a existência de religiosos desde que a religião permaneça inexistente - nos nossos dias baralhados, há vários deles. Mas não é deste tipo de teologia que falo.

A teologia de que falo é aquele conhecimento de Deus que altera a nossa vida - é o Deus de Abraão, Isaque e Jacob a mudar a vida ao teólogo Moisés dando-lhe uma nova profissão de libertador. E isto porque, no caso do Deus de Abraão, Isaque e Jacob, que é Pai, Filho e Espírito Santo, só se existe na medida em que se faz alguma coisa acontecer. De teologia deste Deus, graças a ele!, o Brasil tem muito. Deixem-me dar um exemplo. Os estudantes do Seminário Martin Bucer com quem conversava entregavam-se a tentar compreender como é que a Europa podia ter tão pouca fé. Como já falei anteriormente, falta no geral mais memória histórica a um país tão adolescente como o Brasil. Mas a adolescência brasileira compensa quando não permite que alguém, estudando Deus, se isente de ser colocado em causa por ele. A adolescência histórica brasileira é espiritualmente mais produtiva do que a experiência esclarecida europeia por esse princípio que assume que, se o assunto é Deus, o resultado é transformação.

Numa das ocasiões em que conversava com os alunos do Seminário Martin Bucer, colocámo-nos numa espécie de jogo que servia para tentar compreender a razão porque os erros europeus são uns e os brasileiros são outros. Influenciado pela leitura de “You Are What You Love”, do James K. A. Smith, lembrei que uma tarefa fundamental de um cristão é descobrir os ídolos da cultura que habita. E aqui quero fazer uma pausa para dar uma perspectiva elementar sobre a tese de Smith. Ele diz que precisamos fazer uma exegese dos rituais que observamos - olhar para o nosso ambiente com olhos apocalípticos. E aqui olhos apocalípticos não significa saber o futuro. Erradamente percebemos a literatura apocalíptica bíblica como um acesso fantástico ao futuro. O professor norte-americano explica: “A literatura apocalíptica tenta fazer-nos ver os impérios que constituem o nosso ambiente, para que os vejamos como eles realmente são”. Olhar apocalipticamente não é uma questão de prever, mas uma questão de desmascarar. É preciso ver através. Nós precisamos de aplicar isto mesmo à nossa época.

Quando o Apóstolo João recebe a visão do Apocalipse, que deu origem ao último livro da Bíblia, mais do que prever o que estava para acontecer, ele adorava o verdadeiro Deus enquanto denunciava os erros dos impérios que se levantavam contra ele. O Apocalipse é fundamentalmente um livro de louvor porque só através do louvor nós podemos conhecer o Deus real que se distingue de todos os falsos deuses. Neste sentido, podemos ir um pouco mais longe e afirmar que a verdadeira teologia é um acto de adoração, porque é só quando conhecemos o autêntico Criador que, por comparação, detectamos as marcas de quem tenta uma versão ilegal da criação. Todo a genuína adoração é um distanciamento consciente das suas falsas versões. Os judeus sabiam isto bem no primeiro mandamento que, começando pela negativa - “não terás outros deuses diante de mim”, pressupunha o conhecimento de qual deles é o certo. E nós, os cristãos evangélicos, seguimos este ritmo hebraico.

Logo, os líderes espirituais só podem liderar espiritualmente quando possuem uma consciência dos falsos deuses à sua volta. E como o Pr. Tim Keller explica com talento em “Falsos Deuses”, os piores ídolos não são desejos de praticar o mal, mas a nossa paixão por coisas boas que se torna a razão última da nossa vida. Ou, usando a linguagem do Catecismo New City, “idolatria é crer nas coisas criadas em vez do Criador”. Voltando a James K. A. Smith: “Os pastores precisam de ser etnógrafos do dia-a-dia, ajudando os paroquianos a ver o seu próprio ambiente como formador e, demasiadas vezes, deformador”. Se tivermos pastores que são cegos aos ídolos da sua cultura, temos pastores que entregam as suas ovelhas aos lobos.

Esta volta toda para regressar ao ponto em que estávamos, da conversa com os alunos do Seminário Martin Bucer. Perguntei-lhes assim: “Se tivessem de dizer qual o maior ídolo dos brasileiros, que ídolo seria esse?” E não tive de esperar muito para ouvir o Samir Mesquita acertar na mouche: “a alegria”.

***

É possível a alegria ser um ídolo? É possível uma coisa boa como a alegria tornar-se uma coisa má? Claro que sim. Um duplo “claro que sim”! O Diabo especializa-se precisamente nesta suave degeneração das bênçãos que Deus nos dá. O talento de Satanás não é criar coisas. Satanás não tem poder para criar nada. Satanás apenas tem poder para pegar nas coisas criadas e adulterá-las ao ponto em que de frutos saborosos elas passam a frutos podres. A natureza do pecado não é essencialmente criativa mas essencialmente degenerativa. Na Bíblia o único que cria é Deus. Satanás é o especialista em macaquear criação. Mas quem macaqueia criação, não cria - quando muito, finge que cria. E a idolatria é um fingir que se cria, através de alguma coisa que não é Deus a tentar passar por ele.

Por isso mesmo, o truque da idolatria não é parecer coisa má, mas parecer coisa boa. Logo, não é de estranhar que o mal que há em nós, perversamente ajudado pelo Diabo, seja capaz de tornar uma coisa boa como a alegria numa coisa má - num verdadeiro ídolo. A existência do povo brasileiro é a prova provada de que uma bênção como a alegria pode ser tornada numa maldição. O Brasil está tão fascinado pela alegria que esquece que ela é uma dádiva de Deus, e não o próprio Deus. De tão obcecado pela alegria, o Brasil faz da dádiva o doador, outra definição possível para a idolatria. Que a alegria é boa, ninguém deve duvidar. Mas quando o brasileiro vive para ser feliz, ele obriga Deus a reduzir-se a uma das bênçãos que de Deus vem. Só que acontece que Deus é sempre maior que as bênçãos que dá. As bênçãos são o que vem de Deus. Não é Deus que vem das bênçãos. Viver obcecado pela alegria é esperar que da criação nasça um criador. Como a Bíblia diz, é pegar um pedaço de madeira e esculpi-lo com todo o rigor para que se chegue a um ponto que o resultado seja um deus. Pode haver muito talento na navalha, mas não dá para sacar o Deus verdadeiro de um pedaço da sua criação.

Entender que um dos grandes ídolos da cultura brasileira (se não o maior) é a alegria também é mais fácil tendo em conta que na Europa tudo é diferente. Nessa mesma conversa com os alunos do Seminário Martin Bucer, sugeri que um dos grandes ídolos de Portugal, por contraste com o Brasil, é o da consciência. Neste sentido, a consciência é um ídolo que pode se encontrado um pouco por toda a Europa. Matthew Arnold diz em “Culture and Anarchy” que a ideia principal da cultura grega é a espontaneidade da consciência (e daí o herói grego), ao passo que a ideia principal da cultura hebraica é o rigor da consciência (daí o santo judeu). De uma forma ou de outra, a Europa volta-se para dentro de si mesma enquanto as outras culturas saem lá para fora para curtir a vida.

No caso português, esta idolatria da consciência vê-se na conclusão que é tirada de que a pessoa virtuosa é a que tem noção da realidade à sua volta. Quem não tem consciência da realidade está numa posição de infância moral e não merece grande confiança. Logo, a seriedade pesa mais do que a alegria (ainda que as conclusões a que se chega com a nossa seriedade possam ser pouco sérias). Noutro sentido, as pessoas alegres são olhadas com desconfiança porque, provavelmente, ainda não atingiram a devida consciência da realidade à sua volta. Gosto de ilustrar isto com uma pequena história pessoal.

Há uns anos, quando estávamos a abrir uma igreja nova em S. Domingos de Benfica, tínhamos uma vizinha no andar de cima do pequeno salão onde nos reuníamos. Como podem imaginar, o equilíbrio entre o som provocado pelo cântico dos hinos e a sala de estar da D. Alice (nome fictício) era delicado. A nossa liturgia, à falta de isolamento acústico eficaz, entrava pela casa dos nossos vizinhos mesmo que eles não quisessem ir assistir ao culto. O resultado é que a nossa relação complicou-se. Num dos momentos de diálogo mais tensos a D. Alice disparou que a nossa fé não deveria ser séria tendo em conta “que as pessoas saem da igreja a rir”. Para a D. Alice, enquanto símbolo do Portugal católico, sair da igreja a rir era uma blasfémia - religião não combina com riso. Numa versão mais secularizada, podíamos dizer que, para os portugueses, ter noção da realidade implica sabermos que ela não está para alegrias. O mundo é fundamentalmente trágico (e aqui recordamo-nos de Miguel de Unamuno e “Do Sentimento Trágico da Vida”).

O que faz uma cultura que se convence que a existência é essencialmente trágica? Uma cultura que se convence que a existência é essencialmente trágica tende a sobrevalorizar traços de carácter como a introspecção, a prudência, a desconfiança, a suspeita. Qualquer gesto que pareça mais exuberante sugere inconsciência, falta da devida adequação à realidade. Se a esta equação europeia adicionarmos valores especificamente portugueses, chegaremos à saudade e, no pior das hipóteses ao fatalismo. Portugal não é um país fatalista porque tem uma paixão por finais infelizes. Portugal é um país fatalista porque sinceramente crê que finais felizes são finais fingidos. O final feliz é um sobrenatural para o qual Portugal não tem o luxo da fé.

Nos últimos anos, com a imigração brasileira em Portugal, o choque cultural vê-se em todo o lado. Sobretudo na questão religiosa. As igrejas evangélicas são vistas como um exotismo típico dos brasileiros, pessoas suficientemente ingénuas ao ponto de acreditarem ainda tão inocentemente na religião, e numa religião evangélica em particular ainda mais delirante no seu optimismo. O mesmo se aplica, com outros graus, aos norte-americanos. O cristianismo evangélico é para a Europa uma espécie de resistência ao mundo moderno, uma fé com características tão fora-deste-mundo que para serem aceites a pessoa tem mesmo de deixar de querer fazer parte dele. Para os portugueses, os brasileiros podem dar-se ao luxo de serem evangélicos porque ainda estão numa fase adolescente em que não perceberam o mundo como ele é realmente é. Os brasileiros podem ser alegres, pensam os portugueses, porque a alegria só dura enquanto não se caiu na real (usando uma expressão das telenovelas brasileiras). Mais dia menos dia, vai acabar.

A verdade é que a minha viagem ao Brasil fez-me entender que se, sem dúvida, o ídolo brasileiro é o da alegria, o fatalismo português é um ídolo tão ou mais vesgo no modo como olha para o universo. Na idealização portuguesa da consciência, nós fazemos daquilo que é supostamente trágico uma razão para não vermos mais além. Dizendo de um outro modo mais bruto: nós, portugueses, temos um medo sincero da alegria. E a minha tese é que o medo sincero que temos da alegria tem a ver com a suspeita que também albergamos, ainda que inconfessada, de que se a alegria nos contagiar, a nossa vida mudará. E nós portugueses, e como já disse antes, fugimos da mudança porque a mudança parece uma perda da nossa identidade. Para uma cultura que sobrevaloriza a consciência, a mudança é um passo em direcção do absurdo: a pessoa sabe lá em que estado é que vai regressar da alegria?

A ironia é que uma parte do que torna hoje o cristianismo arriscado é precisamente esta ligação à alegria. O cristianismo, ao oferecer alegria a quem crê, parece mandar para o lixo os últimos séculos de árdua conquista de consciência. A Europa pensa que valores como o pensamento científico, o Estado moderno e o direito à cidadania fundada no princípio do indivíduo, só se atingiram porque tiveram de ser arrancados das mãos da religião. Por isso mesmo, a Europa, tão esclarecida na sua modernidade, entra em crises de negação sempre que o presente lhe dá resultados opostos às suas previsões secularizadas. Mais ainda. A Europa, sempre que invadida por imigrantes que, como brasileiros ou outros povos do mundo não-europeu, lhe trazem religião de volta, julga que corre o risco de voltar à escuridão da Idade Média, controlada tiranicamente pela Inquisição. Acontece que a realidade é mais complicada do que a simplificação laica que a Europa aprecia.

***

Durante a semana que passei no Seminário Martin Bucer, em S. José dos Campos, reparei que tinha uma pequena alergia a manifestar-se na pele, junto ao meu pulso esquerdo. Um dia depois tinha alastrado um pouco, à zona do cotovelo. No outro, já quase chegava ao ombro e tinha chegado também ao braço esquerdo. A Marilene deu-me um creme e um comprimido que comecei a tomar, até ao fim da semana. Isto aconteceu na segunda-feira. De facto, na sexta, quando me preparava para ir para S. Paulo, a alergia tinha recuado. Pensei: está resolvido.

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Durante a semana no sítio do Seminário Martin Bucer, apareceu uma cobra junto ao corredor dos quartos onde os homens dormiam. Não a vi na ocasião, só mais tarde fotografada pelo telemóvel do caseiro, o Irmão Edvânio. Ele tentava ver que tipo de cobra era. Numa pesquisa na internet, a aparência dela combinava com uma qualquer das mais venenosas e perigosas. Ora, a facilidade com que um brasileiro diz que matou uma cobra que pode ser das mais mortíferas impressiona sempre um português. Fiquei a saber que enquanto dormia podiam rastejar criaturas que numa trincadinha me enviariam de volta ao Criador. A partir desse dia passei a olhar sempre para baixo da cama antes de me deitar, e para dentro dela, não fosse ter uma serpente no quente dos meus lençóis.

O Brasil é um país onde a natureza te pode matar de um modo mais constante e criativo. Não nos deve admirar que a crença em Deus se torne, consequentemente, mais natural. Se vivemos vidas muito protegidas da possibilidade de a natureza dar cabo de nós, vamos passar a pensar que não há assim tanto do qual nos devamos proteger. Pessoas que se protegem precisam mais de ajuda. Deus é mais útil para quem pode ser trincado pela natureza. Por outro lado, a ecologia desses lugares também se torna menos fantasiosa. O planeta é fantástico mas é melhor ter cuidado com ele.


sexta-feira, setembro 15, 2017

ARAME FARPADO NO PARAÍSO TEXTO IV - FUI PARA UM PAÍS DO TAMANHO DE UM CONTINENTE

“Onde se tenta explicar que as dificuldades brasileiras (e norte-americanas) em compreender um lugar velho como a Europa, e onde se lamenta o medo que os portugueses têm da mudança”

Portugal é uma migalha insignificante quando comparado com o Brasil. O primeiro lugar onde cheguei, São Paulo, faz por muitas vezes o nosso país inteiro. Logo, qualquer equivalência directa entre um e outro torna-se complicada. Ainda assim, gostava de tentar uma. Há quem estime que os evangélicos no Brasil comecem a chegar perto de 30% da população - imaginem perto de sessenta milhões de evangélicos brasileiros. Se estimada assim, a população evangélica brasileira é quase seis Portugais. É muito povo.

O que acontece num universo religioso destes é que há de tudo. Há literalmente de tudo no mundo evangélico. Há luteranos que acreditam em coisas (espécie há muito morta e enterrada na Europa) e há alucinados que mal se distinguem do animismo africano. Ora, não dá para aplicar a moral portuguesa à matéria do Brasil. Portugal teria de deixar de ser Portugal para realmente compreender alguma coisa sobre o Brasil. Nesse sentido, o Brasil estará sempre além do nosso alcance. Se o alcançámos no passado, conseguimo-lo do modo provavelmente mais fácil que foi o físico. Ao nível espiritual o Brasil continua por ser descoberto pelos portugueses - é um universo extra-terrestre para nós.

Na psicadélica heterogeneidade evangélica brasileira, todos têm espaço para o seu próprio planeta dentro daquela galáxia. Os pentecostais têm impérios, os carismáticos têm impérios, os baptistas têm uns reinos jeitosos, e até os reformados arranjam umas naçõezitas. Qualquer empreendimento religioso tem pernas para andar no Brasil. Não querer compreender isto é não querer sair de Portugal. O Brasil é em termos religiosos uns Estados Unidos mais relaxados - há sempre espaço para mais uma igreja. Claro que tem a ver com o facto de ambos serem países novos e não terem os traumas históricos da Europa. O que quero salientar é que o mundo religioso brasileiro, correspondendo à juventude da própria nação, ainda é um universo em expansão. Espiritualmente falando, o big bang acabou de acontecer no Brasil.

Imaginem-me a percorrer a Avenida Andrómeda e imediações em S. José dos Campos. Ao início é divertido porque a pessoa ainda tenta contar todas as igrejas evangélicas que vê. Mas a determinada altura torna-se impossível. São tantas e algumas parecem até repetidas. Nesse avistamento só há uma regra: há sempre mais uma igreja por avistar. O país é enorme, o espaço geográfico também, e o espaço dentro das pessoas possível de ser ocupado pela religião idem aspas aspas. That’s Brazil - you stop counting.

Há algumas consequências disto. Primeiro, vou falar de uma consequência disto nos brasileiros, de cada vez que têm de pensar numa realidade religiosa diferente da sua. Os brasileiros têm dificuldades em compreender um mundo mais velho do que o mundo deles e que, portanto, tenha traumas religiosos (os norte-americanos têm o mesmo problema connosco). Para um evangélico brasileiro a Europa precisa muito do evangelho porque não o conhece. Num certo sentido, concordo - de facto, a Europa não conhece realmente o evangelho. Mas noutro sentido, tenho de discordar. Porquê? Porque o facto de a Europa não conhecer o evangelho se deve precisamente ao facto de ela presumir que o conhece bem. Ou seja, o secularismo pós-cristão europeu, podendo ser sentido em algumas elites intelectuais brasileiras, é ainda um conceito difícil de ser compreendido pela maioria dos evangélicos brasileiros.

Os brasileiros, demasiado jovens na sua história e na sua relação esperançosa com a fé, têm dificuldades em compreender uma cultura que tem séculos de relação com o cristianismo. Nesse sentido, os brasileiros têm dificuldades em compreender lugares onde o cristianismo chegou há milénios. A lente que os evangélicos brasileiros tendem a usar para compreender a fé só consegue olhar para o cristianismo enquanto fenómeno ainda fresco. Acontece que a necessidade que a Europa tem de ser evangelizada parte de um pressuposto completamente diferente que é o de ser uma terra onde o cristianismo é tido como uma coisa velha.

Uma das maneiras que usava para, em conversas com os seminaristas da Escola Teológica Martin Bucer, explicar esta diferença era dizer-lhes que no Brasil o peso está no futuro. Até num país cheio de crises, como o Brasil é, nota-se que as pessoas apostam sempre no futuro. Estava lá quando estalou o escândalo da manipulação fraudulenta das carnes (googlem, minha gente) e o que disse ao pessoal é que, se alguma coisa parecida acontecesse em Portugal, o país cometia suicídio colectivo. A política brasileira parece uma comédia pós-apocalíptica e mesmo assim o povo não desiste do final feliz. Na Europa é diferente. Até se o filme for um musical divertido, as pessoas não esperam que tudo acabe bem.

Na Europa o peso está no passado. Na Europa o que é bom é o que aconteceu, não o que pode vir a acontecer. A glória é sempre antiga. Esperar glórias futuras é visto na Europa como um perigo, o tipo de alucinação que alimentou visionários perigosos como Hitler. Sonhos políticos na Europa só merecem suspeitas. Somos um povo velho e cínico. O brasileiro pode dar-se ao luxo de abrir o coração e ter esperança no meio do caos. O europeu cala-se e, se se sentir à vontade, então abrirá a boca para partilhar as vísceras num murmúrio sem fim (pelo menos o europeu português).
Logo, onde no Brasil (e nos EUA) Deus pode ser uma categoria de liberdade, relacionada com a opção religiosa que eu vou tomar, crendo ou não, na Europa é uma categoria de trauma. Mesmo que o europeu não creia, ele vem necessariamente de famílias que creram. Assim, meter Deus numa conversa na Europa, assim sem mais nem menos, é como um estranho começar a falar connosco na rua sobre aquela tia com quem o nosso pai tem problemas há anos. Não é uma conversa que abre caminhos; é uma conversa que revela as estradas bloqueadas na nossa vida.

A segunda consequência da dimensão interminável da religião no Brasil tem a ver connosco, portugueses. O que os brasileiros sentem em excesso, por serem um país jovem, nós praticamente nada sentimos. Dou um exemplo. Alguns brasileiros com quem conversei um pouco mais sobre Portugal regressaram até mim para uma nova conversa, agora num tom mais emocionado. Vinham comovidos com o que tinham ouvido sobre o meu país e não raramente tinham lágrimas nos olhos. Traziam uma vontade de ser ajuda para o meu país, equacionando até a possibilidade de virem morar para Portugal. Foi como se naquele momento assistisse em directo ao que acontece antes de os missionários brasileiros chegarem a Portugal. “Então é assim que a coisa acontece!”, apeteceu-me dizer.

Como não esperava por aquela emoção sincera que eles me traziam, ficava meio sem jeito diante das lágrimas deles. Olhem a ironia: é mais fácil para um brasileiro chorar por Portugal do que para um português. E este é o nosso tipo único e exclusivo de patriotismo lusitano, um patriotismo que tenta permanecer emocionalmente distante da pátria. Ou, visto de outro modo, um patriotismo que só se sente patriota quando o distanciamento está em cena. Talvez esta última seja uma maneira mais acertada de olhar para aquilo que no imediato parece uma indiferença dos portugueses em relação a Portugal. Ao dizer isto nem debato o uso da palavra patriotismo por ela ser olhada com desconfiança por tantos. Para efeitos da minha experiência, assumo a palavra sem grandes exegeses. O ponto que quero estabelecer é que fiquei comovido (da maneira portuguesa, é claro!, bem contida e silenciosa) pela comoção que o meu país arrancava aos brasileiros.

Seja como for, a migalha portuguesa não pode separar-se do pão brasileiro.

***

O português olha com desconfiança para a disponibilidade do brasileiro em tomar decisões que mudam radicalmente a sua vida. Iria mais longe e diria que o português (e o europeu no geral) tem a mudança em baixa conta. Para nós, europeus, mudar é sinal de imaturidade. A nossa desconfiança com a mudança é especialmente visível na religião. E o contexto particular do catolicismo português torna tudo ainda mais intenso nestes domínios. É certo que o catolicismo chegou a Portugal antes de Portugal ser Portugal. E contribuiu para que qualquer expressão religiosa diferente fosse vista como um pedido de cidadania estrangeira. Na nossa pequenez, ser português é necessariamente ser católico romano e qualquer mudança do catolicismo para outra coisa qualquer assume o lugar de uma disfuncionalidade.

Mudar, um fenómeno muito mais tranquilo para a cultura de um país espaçoso ou recente, é um suicídio intelectual para um país pequeno. Um país pequeno como Portugal subsiste em grande parte precisamente no facto de todas as pessoas serem conhecidas umas das outras. Um país pequeno não é muito diferente de uma aldeia. Nessa lógica, é imperativo que as coisas permaneçam as mesmas, porque qualquer alteração substancial corre o risco de tornar a aldeia mais parecida com a cidade, onde ninguém se conhece. Apesar de ser politicamente correcto as pessoas afirmarem-se abertas à mudança, em Portugal as pessoas só mudam se tiverem a garantia que no essencial tudo se manterá igual.

Uma das razões que também contribui para que o protestantismo evangélico permaneça estranho em Portugal é a da dimensão mínima do país. O trabalho que uma pessoa tem para se reconfigurar socialmente por causa da conversão ao protestantismo é de tal modo despersonalizador que qualquer cidadão mais satisfeito na sua estabilidade pessoal foge de conhecer outras realidades religiosas. Uma conversão ao protestantismo significa uma mudança realmente considerável e uma mudança realmente considerável lança-nos para a possibilidade de nos tornarmos irreconhecíveis por aqueles de quem dependemos de confirmação civil. Num país grande como o Brasil (e os EUA) as pessoas sentem-se livres para mudar de religião porque o mundo é um sem-fim de novas decisões que tomamos sem termos de nos conformar aos apertados critérios da aldeia. A pessoa que se sente livre para mudar crê sempre num mundo maior do que a pessoa que receia a mudança. Nesse sentido, o mundo português é irremediavelmente minúsculo quando comparado com os dos brasileiros e isso atesta-se nas questões espirituais.

Reduzindo tudo isto à sua tese mais nuclear, o que digo é que um país realmente aberto à mudança é um país onde a diversidade religiosa é intensa. Se a diversidade religiosa não é intensa, é sinal de que um país não é realmente aberto à mudança. Agora, arranjem os sociólogos de que precisam para corroborar esta coisa óbvia. Em Portugal o protestantismo é fraco porque o medo da mudança é forte.


quinta-feira, setembro 14, 2017

Onde explico

porque gosto de fazer parte dos maus, dos evangélicos de má fama.

quarta-feira, setembro 13, 2017

Uma pequena maravilha chamada “Ajudar a cair”

Injustamente, não criei uma oportunidade para escrever sobre o livro “Esse Cabelo” da Djaimilia Pereira de Almeida. Gostei muito dele. Entre outras razões, porque gosto de escritores jovens a assumirem o risco de escrever sobre a sua experiência. É uma característica menos comum numa cultura mediterrânica, onde o estilo biográfico do norte protestante parece sempre um capricho de quem se tem em demasiada boa conta. É um erro pensar assim (mas sobre isso leiam o “Cuidado com o Alemão” quando falo sobre o registo pessoal literário que varreu o mundo à boleia da Reforma - e tolerem este deselegante momento de publicidade privada mas também vivo do que escrevo). A Djaimilia, junto com o Bruno Vieira Amaral (e, noutro sentido, o Henrique Raposo), representam uma nova geração de escritores portugueses que, antes de tiradas existencialistas disfarçadas de observações quotidianas, mete em letras o passado que viveu (as tiradas existencialistas até podem lá continuar mas estão já num contexto diferente). Um pouco mais de anglofilia numa mesa que antes era mais francesa. Isso parece-me óptimo.

É verdade que ainda existia em “Esse Cabelo” um rasto de pegadas de teoria literária, num ou outro momento mais ‘meta’ que por vezes abrandava o ritmo da escrita. Mas quem lia concluía sem reservas que, ao primeiro livro, a Djaimilia mostrava que dificilmente não seria considerada das melhores escritoras actuais de língua portuguesa. Se cada língua é uma filosofia, a Djaimilia usa o português para nos mostrar que provavelmente alguns dos seus pensamentos só poderiam acontecer no nosso idioma. E tudo isto tem ainda mais graça se pensarmos que “Esse Cabelo” é também acerca de uma portuguesa que parece forçada a provar que também pertence a Portugal.

Há agora um segundo livro da Djaimilia. Chama-se “Ajudar a cair” e é edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos (será que temos aqui uma nova regra no apropriado reconhecimento dos novos escritores, que é a de necessariamente terem de publicar pela FFMS, como provam a Djaimilia, e, entre outros, os já mencionados Bruno e Henrique?). É um livro muito breve (como geralmente são os da Fundação) e muito bonito (e, caramba!, barato - por três euros e quinze cêntimos é vosso no Pingo Doce mais próximo). De facto, é um grande livro. Tem em concentrado a graciosidade de “Esse Cabelo” e uma leveza própria do fôlego de uma grande escritora. Acredito que é dos melhores livros que poderão ler nestes e nos próximos tempos.

“Ajudar a cair” conta sobre as pessoas que vivem no Centro Nuno Belmar da Costa, instituição pertencente à Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa. No meio do trânsito de muitas cadeiras de rodas, encontramos neste livro uma reflexão sobre uma das perguntas mais importantes de sempre, à qual Jesus acedeu nas Escrituras: “quem é o meu próximo?” Do mesmo modo como o Mestre fez, respondendo em forma de parábola (neste caso, a do bom samaritano), também a experiência dos residentes do Centro exerce na Djaimilia o poder de olhar com mais atenção para o que nos cerca. Saber quem é o meu vizinho é ter uma perspectiva mais realista acerca de quem sou. Boa parte do nosso receio em lidar com os nossos vizinhos, no ritmo rápido e impessoal das nossas cidades modernas, é uma fuga inconsciente de descobrirmos coisas acerca de nós que preferimos não reconhecer.

Os residentes do Centro Nuno Belmar da Costa, em Nova Oeiras, exprimem-se em sons berrantes onde não se sabe dizer “se alguém está feliz ou a ser atacado” (pág. 13), o que no primeiro encontro com eles provoca sempre um sobressalto. A Djaimilia, que experimenta servi-los na rotina do Centro, vai, no entanto, além dos primeiros sustos, em direcção a uma delicadeza que se vê na proximidade: “poucas vezes o olhar destes homens e mulheres está tão desamparado como quando elevados alguns centímetros pela grua [usada para todo o tipo de tarefas de apoio] (…) São poucos centímetros, mas o olhar é o de pender sobre um precipício” (pág. 26). São as nossas próprias categorias de identidade que ficam baralhadas nesta entrada de Djaimilia no Centro: “na posse de um corpo saudável é tentador imaginar que o nosso corpo é indistinguível do das pessoas que amamos. A vida é mais dura do que esta ideia (…) Se alguma coisa distingue [os residentes do Centro] parece ser a maneira como estes se encontram cativos da condição de serem estranhos em todo o lado, ainda que no seu bairro (pág. 29 e 30). Chegar próximo é sempre enfrentar a estranheza.

“O que conto neste livro tão curto, para ser lido depressa, são coisas que levam muito tempo a acontecer (…) Certas coisas comovem-nos pela maneira como, escusando-se a nós, nos tiram do caminho” (pág. 89 e 90). Estas são duas razões excelentes para ler “Ajudar a cair”: a primeira é que, na sua brevidade, o estrilho dos residentes do Centro espanta-nos mesmo; a segunda é que somos recordados que o encontro do nosso próximo, ou do nosso vizinho, implica sempre um desvio que, podendo assustar, nos dá o destino a que, alinhadinhos, nunca chegaríamos. O livro da Djaimilia é um reconhecimento corajoso que a dureza da vida não serve para nos afastar dos outros, antes pelo contrário. É uma pequena maravilha.

[Como nota adicional, aproveito para dizer que todo o ambiente de “Ajudar a cair” é literalmente meu vizinho, porque vivemos perto do Centro e dos seus residentes. Há dez anos que convivemos com um bairro diferente por conta da história contada pela Djaimilia. Por saloio que soe, este é também um livro que nos faz sentir orgulhosos da nossa vizinhança. O lançamento do livro, numa tarde de início de Setembro à sombra da omnipresente buganvília do Centro, foi dos momentos mais inspiradores deste Verão da Família Cavaco.]