sexta-feira, dezembro 19, 2014

Para o sermão deste Domingo
A reacção de Maria não é ao facto de lhe aparecer um anjo. A reacção de Maria é ao facto de, aparecendo-lhe um anjo, aparecer-lhe uma graça especial. Esta humildade de Maria é magnífica. Que Deus envie anjos é mais pacífico para Maria que Deus enviar anjos que digam que ela é especial. Para Maria parece impossível que ela possa ser especial.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

No seu coração o Pastor-de-Pijama é um grande rebelde
Lei de Deus. Eis três palavras que juntas têm pouquíssimo charme no mercado actual do dicionário. Pena é que boa parte desse cafonice colada a estas três palavras juntas passe também pela preguiça dos cristãos em pensar. Lei de Deus são três palavras que juntas deviam despertar o nosso desejo. Exagerando um bocadinho, diria que "lei de Deus" deveria ser uma expressão libidinosa para o cristão. Libidinosa no sentido em que a palavra libidinosa está associada ao desejo. Um cristão quando pensa na lei de Deus não deve sentir um turn off. Deve sentir um turn on. Os puritanos, claro está!, percebiam isto muito bem. E ajudam-nos muito, se nós formos corajosos ao ponto de querermos ser ajudados.
Os puritanos pensavam muito sobre a lei. Entre várias coisas concluiam, por exemplo, quatro coisas acerca da lei.
1) Que o pecado a transgride.
2) Que a morte de Cristo a satisfaz.
3) Que a justificação é o veredicto dela.
4) E que a santificação é o cumprimento dela.
Bestial! Os puritanos sabiam que o facto do Deus do Velho Testamento (e de toda a Bíblia!) ser um Deus de lei não era uma coisa má. Bem pelo contrário. Os Reformadores, antes deles, diziam o mesmo. Ora, é importante compreender a importância  dos Reformadores falarem sobre a lei porque frequentemente os Reformadores eram acusados pelos Romanos de serem contra ela (sob o pretexto que defender a justificação pela fé era promover uma fé sem lei). Ao mesmo tempo, e no outro extremo da balança, os antinomianos defendiam efectivamente que o cristão, sendo justificado pela fé, estava livre para não ter de a cumprir. Para que ninguém endoidecesse no meio da Reforma Protestante, os seus protagonistas entendiam a importância da lei. Sobre ela diziam que era essencial compreender os seus três usos. Vamos a eles.
O primeiro uso da lei pode ser chamado civil. Nesse uso, a lei serve para guiar a conduta dos cidadãos. O segundo uso da lei pode ser chamado evangélico. Nesse uso, a lei serve para conduzir os crentes da sua insuficiência moral à confiança em Cristo. O terceiro uso da lei pode ser chamado normativo e aplica-se exclusivamente aos crentes. Nesse uso, a lei serve de regra para que as vidas dos cristãos sejam vividas de uma maneira que agrade a Deus. Logo, num primeiro momento a lei coage, num segundo momento estarrece, e num terceiro requer obediência. Lutero e Calvino concordavam no primeiro e segundo uso. O terceiro não foi desenvolvido por Lutero. Assim, podemos ver que a acusação que Romanos faziam aos Reformados é injusta: a lei é algo bem positivo para os últimos.
Os Reformados não ficam com uma dicotomia de lei versus graça. O que acontece é mesmo o oposto: quem é graciosamente guiado pelo Espírito ganha uma amizade pela lei. Agradece-se pela lei porque o evangelho diz-nos que podemos cumpri-la com o poder de Deus em nós. A liberdade que Cristo nos dá não é uma liberdade da lei (a liberdade de já não termos de a cumprir), mas a liberdade do pecado e da morte. Jesus morre não para nos salvar nos nossos pecados, mas para nos salvar dos nossos pecados. O puritano Ezekiel Hopkins dizia: "a nossa obediência à lei é a única evidência sólida do direito que temos às promessas do evangelho." E Samuel Bolton: "a lei é abolida enquanto pacto para a nossa justificação, mas permanece como uma regra para a nossa obediência." A lei não serve para nos salvar mas serve para mostrar que somos salvos.
Deus aborrece sempre o nosso pecado, seja aquele praticado antes ou depois da nossa conversão. Isto porque, se a lei está baseada na imutável justiça de Deus, logo nunca perde a sua validade. A lei não serve só para mostrar que somos pecadores, especialmente antes de nos convertermos. A lei serve também para depois de nos convertermos, como parte da graça de Deus connosco. A suficiência da lei vê-se na sua exigência: é-nos pedido que ajamos de "todo o coração, alma, mente e forças (Lucas 10:27)". A lei tanto dá propósitos evangélicos como princípios evangélicos - as duas coisas colaboram para que almas sejam redimidas.
Joel Beeke e Mark Jones colocam as coisas assim: "Aqueles que dizem que o evangelho anula a nossa obrigação de obedecer à lei deveriam compreender que nada demonstra quanto Deus valoriza altamente a sua lei como o evangelho de Cristo, proclamando que Cristo foi enviado para satisfazer as exigências da lei por nós a seu próprio custo." Deixem-me simplificar: é um disparate um cristão sentir-se livre para não praticar a lei quando foi a lei que exigiu que Cristo viesse e, portanto, tornasse possível a existência de cristãos. Um cristão que relativiza a obediência é um cristão que que deita para o lixo o que permitiu a sua própria identidade. Um cristão que relativiza a obediência é um pateta que provavelmente não é cristão (eu disse que ia simplificar).
Atitudes práticas no final disto tudo. Devemos obedecer à lei mesmo quando o nosso coração não está lá porque na sua obediência frequentemente o nosso coração é lá acordado. Dava jeito alguns pastores-de-pijama (aquele género de pastores que pregam o conforto deitado) interiorizarem esta verdade antes de aconselharem os crentes a fazerem somente aquilo que já lhes está no coração. Seguirmos apenas os nossos sentimentos independentemente da lei também é um legalismo. E um legalismo que parte de um princípio ridículo que é achar que os nossos sentimentos são lugares à partida mais justos.
Isto não significa que se obedece à custa de um coração frio. Não. A obediência realmente evangélica é uma submissão cujo combustível é o amor por Deus. Da mesma maneira que um marido não abandona a mulher (e vice-versa) nos dias em que sente menos apaixonado por ela, não deixamos de fazer o que Deus nos pede para fazermos quando não nos apetece fazê-lo. Os puritanos percebiam isto muito bem. O amor que eles tinham à lei de Deus tinha o tamanho do Salmo 119.












[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On the Third Use of the Law", do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

terça-feira, dezembro 16, 2014

Ouvir
João Baptista não era dos religiosos nem dos revolucionários. João Baptista era de Cristo. Vivia de pouco porque tinha tudo o que precisava. Comia gafanhotos e mel porque tinha a barriga cheia do Espírito de Deus.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Já está nas bancas
A Revista Ler onde escrevo sobre Flannery O'Connor (Flannery, sempre a Flannery!) e o Profeta Jeremias:

Se os escritores sem fé escrevem para fintar a morte, os profetas do Velho Testamento escreviam abrindo-lhe os braços. (...) Devemos escrever para escapar da morte ou para lhe dar as boas-vindas?
 

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Conversas que mostram pessoas que são continentes
Nos últimos anos a teologia reivindicou a maior parte da minha leitura. Sinto remorsos pela lentidão com que leio clássicos. Quando há uns meses fui de férias para o Algarve peguei num dos que estava na prateleira - "The Portrait of a Lady" (dado pelo meu amigo Filipe Costa Almeida). O volume assusta um bocado e quem já leu o Henry James sabe que não o aguarda uma leitura de aventuras excitantes. Ou melhor, há excitação mas é de outra estirpe. Henry James é um filósofo que escreve romances. Do mesmo modo como há romancistas que escrevem filosofia. James tem um faro apurado para escrever circunstâncias que procuram mais do que mostram. Posso estar a ver mal as coisas mas para mim o James é um Proust que correu bem.
Um dos temas preferidos dos seus livros foi um dos temas da sua vida: um coração dividido entre a Inglaterra e a América. Em "The Portrait of a Lady" está cá isso também. Do que é que uma família britânica carece para alguma emoção na sua previsível rotina? De uma americana, claro está. E assim temos Isabel Archer, a personagem central. Isabel é uma prima que vem transformar a família Touchett. Apesar de lhe conhecermos o país de origem, não é possível mapear-lhe os passos. Isabel é um continente em si mesma. "«Well, I don't like originals; I like translations», Mr. Ludlow had more than once replied. «Isabel's written in a foreign language. I can't make her out. She ought to marry an Armenian or a Portuguese»." (pág. 47)
Ao contrário de muitos escritores que apresentam as personagens gradualmente, à medida que a acção decorre, James parece pôr de imediato toda a carne no assador. Nesse sentido ele não promete futuros efeitos-surpresa para prender o leitor. Essa é uma das características que acho verdadeiramente admirável em James: divertir-se nas primeiras dez páginas a querer fazer desistir boa parte daqueles que lêem os seus livros. Um grande escritor não deve ser reconhecido também no facto de enxotar leitores indesejáveis? Um grande escritor também é o convívio que não deseja que os seus livros obtenham. "An englishman's never so natural when he's holding his tongue." (pág. 106)
Henry James apresenta as personagens tão rapidamente e de um modo tão bem sintetizado em humor que parece que não vale a pena o livro passar dos primeiros três capítulos. Aliás, essa é outra das sensações que comprova a ética jamesiana: por que razão continuar a ler se nos parece que só o início já chega? Há momentos em que Henry James nos diz que não está interessado em ser lido, está interessado em ensinar-nos a ler. Não espanta que muitos possam achar a sua escrita presunçosa. Para mim até é presunçosa, de facto, mas é presunçosa da maneira certa. O leitor fica prematuramente convicto de que as personagens do livro servem mais de pretextos para James debitar a sua verve, como sacos de ironia e lições de vida numa frase apenas.
Por outro lado, os livros de James não pedem grandes circunstâncias para resolverem as personagens (as personagens não querem ser resolvidas). Desacelerando qualquer apetite épico, as personagens de James é que exigem circunstâncias à altura do seu carácter. O que faz todo o sentido se pensarmos que James foi um americano tornado inglês. Mesmo os eventos mais assinaláveis que acontecem a Isabel Archer não surgem com estrondo mas, antes pelo contrário, são referidos como quase notas de rodapé. O foco não é aquilo que acontece a Isabel, o foco é Isabel acontecer.
O que podia ser um equilíbrio complicado entre uma mestria crocante na descrição que o narrador faz das personagens e os diálogos entre elas, torna-se um dos triunfos totais de James. Se a qualidade aforística do narrador sobre as personagens é imbatível, os diálogos entre elas não ficam atrás. Com James a acção está tanto no que acontece nos momentos de ausência de conversa como nos momentos de conversa.
Um dos efeitos que Henry James me provoca não é necessariamente querer ler mais. Mas querer falar mais. E querer falar mais para, de alguma maneira, tentar reproduzir o prazer superior que as suas personagens retiram dos diálogos. Correndo o risco de soar catastrofista, não somos hoje todos um bocado analfabetos na arte de um bom diálogo? É tão raro participarmos de uma conversa bonita que me convenço que tantas solicitações para comunicar espalmaram-nos enquanto seres falantes. Precisamos de restituir às nossas palavras quotidianas uma qualidade litúrgica (I'm preaching already!).
Por outro lado, o parágrafo seguinte é brilhante mostrando o perigo de fazer da nossa interacção social a base da nossa identidade: "She was in a word too perfectly the social animal that man and woman arte supposed to have been intended to be; and she had rid herself of every remnant of that tonic wildness which we may assume to have belonged even to the most amiable persons in the ages before country-house life was the fashion. Isabel found it difficult to think of her in any detachment or privacy, she existed only in her relations, direct or indirect, with her fellow mortals. One might wonder what commerce she could possibly hold with her own spirit." (pág. 213 - uau! este excerto é um bocado a história do meu 2014, fugindo das ciber-distracções para ganhar algum comércio com o meu próprio espírito, mas divago...)
Isabel Archer é uma personagem inesquecível. Sei que entretanto Nicole Kidman a representou no filme sobre o livro. Deverei arriscar? Dificilmente o ecrã conseguirá fazer-lhe justiça quando as páginas a libertam tanto na nossa imaginação.




segunda-feira, dezembro 08, 2014

Ouvir
O amor de Deus é extravagante. O sermão do segundo Domingo do Advento, pregado pelo Pr. Jónatas Figueiredo ontem na Lapa, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Filmar que as trevas também existem na Europa
"O Tempo do Lobo" de Michael Haneke é um filme de terror em que os zombies estão vivos. E isto serve de pretexto para, mais uma vez, sublinhar a diferença de tratamento que América e Europa dão ao problema do mal. A tendência da primeira é carregar-lhe os traços, ao passo que a segunda os atenua. Isto não quer dizer que os americanos usam monstros nos seus filmes porque acreditam que o mal acontece fora dos homens. Mas parece que os americanos precisam de serem mais impressionados para se recordarem que são maus. O vilão têm de ter requintes de malvadez, o apocalipse tem de consumir muitos efeitos especiais, o mundo tem de acabar com estrondo. Já para os europeus o problema do mal filma-se optando pelo silêncio. Nesse sentido, os filmes mais assustadores feitos na europa tendem a ser quietos. Talvez porque a sensibilidade europeia em relação ao problema do mal genuinamente dispense o alarido. Creio que em termos práticos, e no meio de tanto sossego estético, a Europa corre o risco de adormecer para o problema do mal, eventualmente chegando a um ponto onde já não o reconhece sequer. Mas isso já são elaborações mais pessoais e que agora não interessam tanto. De qualquer modo, realizadores como Michael Haneke estão cá precisamente para salvar a honra do nosso continente no que diz respeito ao reconhecimento que o mal existe e merece ser tratado em filme.
"O Tempo do Lobo" é um filme tão forte na mesma medida que é um automóvel que se comporta melhor nas mudanças mais baixas. A primeira morte, logo no início do filme, mostra que Haneke não está interessado em filmar ao jeito de quem acende um rastilho. O suspense importa-lhe pouco porque a maior explosão é no filme um ponto de partida para a acção, e não o ponto final onde a acção deve culminar. Outro exemplo para esta força funda do filme é o facto das cenas nocturnas serem vistas pelo espectador de um modo realmente nocturno. Ao contrário da maior parte da indústria cinematográfica, especialista em iluminar a noite para que seja sempre clara para os olhos do espectador (umas das grandes fraudes da contemporaneidade - esconder o que é uma noite escura e por isso induzir as pessoas a não compreender espiritualmente a existência das trevas), Haneke filma a noite para que ela seja para nós como é na realidade: imperceptível. A família do filme, que deambula pela França rural, quando precisa de ver alguma coisa à noite, acende archotes ou fogueiras. Nós só vemos alguma coisa quando as personagens conseguem ver alguma coisa. O que no espectador se perde em conforto, ganha-se em ansiedade - o espectador não contempla a acção do lado de fora, vendo o que as pobres personagens não podem ver. A ansiedade de Haneke não é a ansiedade dos cheap thrills dos grandes estúdios (atenção: sou todo a favor das boas cheap thrills dos grandes estúdios). Mas é uma ansiedade que dispensa a espectacularidade. Provavelmente porque crê que a espectacularidade nos pode distrair do mais importante no problema do mal: o mal é impiedoso ao ponto de funcionar independentemente de nos impressionar. O mal é tão mau que não fica à espera que nos espantemos com ele. O mal é um funcionário competente que cumpre as suas obrigações mesmo que ninguém elogie o seu trabalho. O cinema europeu apanha melhor isto. O americano nem tanto.
Tentando dizer isto de outra maneira, Haneke quer que reconheçamos a presença do mal mesmo quando ela não lança foguetes. Para isso, precisamos necessariamente de nos envolver com o filme esquecendo a distância que temos com as personagens. Sei que soa a simplificação pouco eloquente, mas "O Tempo do Lobo" tem de ser mais vivido que apenas visto.
Dois exemplos disto mostram-se no modo como Haneke permite que o choro de crianças faça aquilo que geralmente o choro de crianças faz no mundo real - intromete-se. O choro das crianças em "O Tempo dos Lobos" atrapalha as cenas para nos maçar tanto num cenário apocalíptico como nos maça num cenário idílico. Haneke com isso quer dizer-nos que a distância entre o Paraíso e o Inferno não é assim tão grande e, por isso mesmo, opta por zombies que estão vivos. O que é monstruoso é muito mais parecido com a rotina do que podemos imaginar, diz-nos Haneke. E este é um dos seus trunfos. As premissas de "O Tempo dos Lobos" não são diferentes de todos os blockbusters sobre o fim do mundo, no entanto, nada é explorado da mesma maneira. Este é um filme tão chato como um filme francês sobre dramas proustianos porque Haneke quer-nos ensinar que o Armagedão não é necessariamente uma coisa por vir mas uma coisa que, se prestarmos atenção, já está a acontecer.
Eu, que gasto muito mais tempo com o cinema apocalíptico americano do que com o cinema europeu em geral, tenho de reconhecer que há opção ética preferível no último. Essa opção ética preferível tem a ver com o modo como o mal se filma. Haneke, filmando o mal, filma-o com pudor. Quem é baleado é representado na câmara apenas com salpicos de sangue no rosto da personagem ao seu lado; quem é abusado sexualmente é representado na câmara apenas ajeitando a saia depois desse abuso ser consumado sem ser mostrado, isto para referir apenas dois exemplos. Talvez force demasiado a barra com esta comparação, mas vejo vestígios de um sóbrio calvinismo cinematográfico com o qual os americanos deviam aprender mais. A impressão é importante no cinema mas não pode ser tudo. O yuck factor precisa de ser questionado como dispositivo emocional.
Precisamos de mais apocalipse no cinema europeu porque o apocalipse no cinema europeu nos mostra melhor que o dia-a-dia não é só rotina, é também ruína. Michael Haneke tem sido brilhante nesta tarefa.


quarta-feira, dezembro 03, 2014

O calendário como adoração
Hoje quando lia o Primeiro Livro dos Reis na Bíblia Arqueológica (uma Bíblia de estudo que recebi de amável presente de um grupo de jovens da minha igreja) descobri que quando Israel se dividiu entre Reino do Norte e Reino do Sul, dividiu-se também o modo como se contava o ano. O Reino do Norte começava o ano da Primavera (no mês de Nisan) e o Reino do Sul começava o ano no Outono (no mês de Tsiri). Lembrei-me de uma coisa que escrevi há três meses: "na minha opinião, quando Deus criou o mundo era Setembro. Setembro tem a luz suave dos começos. Começar o mundo na Primavera parece-me apressar as coisas para um clímax prematuro. Setembro dá-nos a tranquilidade de descer. O frio que está pela frente é mais pedagógico, para que quando o calor apareça de novo saibamos tê-lo como uma dádiva e não com indiferença."
Há uns Domingos o texto do sermão foi o Salmo 90 e reflectimos sobre a importância espiritual de saber contar os dias. Este tem sido um assunto muito presente ultimamente. Ainda mais agora que começámos a caminhada para o Advento. Para o cristão o tempo não é uma realidade neutra mas uma realidade que abraça o espiritual, e que é transformada por ele. É impossível viver neste mundo sem que digamos coisas acerca de nós através do modo como organizamos o tempo. Também é por isto que a preguiça é um pecado grave nas páginas da Bíblia (a preguiça trata o tempo como se não fosse tempo). E também é por isto que não descansar é um pecado grave nas páginas da Bíblia (não descansar trata o tempo como se não fosse tempo).
O Reino do Sul portou-se mal. Mas o Reino do Norte portou-se muito pior. Sem querer edificar teorias exageradas acerca do assunto, diria que aqueles que têm o coração mais inclinado para Deus (como David, e portanto parte da sua dinastia) provavelmente não querem viver o ano começando com facilidades. Há que começar com a exigência do Outono e do Inverno. A Primavera e o Verão são um louvor experimentado pelo trabalho que os antecedeu. Organizar o calendário também é matéria de adoração.


terça-feira, dezembro 02, 2014

Da audiência para o lar
Os puritanos são acusados de desenvolver pouco a doutrina da adopção. Será justo? É fácil achar que estes homens, com toda a reputação de frieza, não teriam grande vocação para assuntos que enfatizassem relações tão quentes como as de um pai e seu filho. Mas isto não é verdade, como veremos. Podemos confiar que os puritanos não eram pais a custo.
Existe uma coisa chamada ordo salutis. Está no latim, como dá para calcular. Quer dizer a ordem da salvação. Como tem sido dito nestes textos sobre os puritanos, eles eram especialistas em horas e cálculos. Não foram eles que inventaram estas coisas. Sempre existiram na cristandade. Significa que nesta ordem da salvação o Protestantismo tradicionalmente a coloca assim: primeiro a regeneração; segundo a justificação; terceiro a adopção; e quarto a santificação. Muito sucintamente, na regeneração temos uma nova natureza, na justificação temos um novo estado, na adopção temos uma nova posição (ou estatuto), e na santificação temos um novo carácter. Joel Beeke e Mark Jones escrevem: "Adoption is a richer blessing than justification because it brings us from courtroom into the family." Aquilo que parece distante, na expressão latina da ordo salutis, é um fenómeno de ternura: um cristão é uma criatura que sem dúvida passa pelo tribunal divino. Mas termina aconchegada na cama do melhor quarto da casa pelo juiz que agora é pai e lhe dá as boas noites.
A santificação é a prática dessa nova identidade de filhos de Deus por adopção que somos. A adopção não é esgotada nos aspectos forenses da justificação, antes acresce aspectos familiares à justificação. Deus não adopta ninguém porque tem de o fazer. Deus adopta alguém porque o quer fazer, porque ama esse alguém gratuitamente. Isto é tão mais importante porque os cristãos reformados enfatizam que não somos todos filhos de Deus. Somos todos criaturas dele. Mas filhos são apenas aqueles que são adoptados por Deus através da morte e ressurreição do Filho de Deus. Se todos fôssemos filhos de Deus isso dizia mais da indiferença de Deus connosco, do que de um amor verdadeiro que é intencional e concreto. O amor não é por inércia mas por iniciativa.
É importante perceber a adopção porque na adopção está toda a Trindade em acção: Deus Pai escolhe-nos e dá-nos privilégios de filho; Deus Filho ganha o direito a esses dons pela sua morte expiatória; e Deus Espírito Santo transforma-nos de filhos da ira em filhos de Deus. A filiação que a adopção permite deve ser o estado definidor de qualquer cristão. O cristão torna-se um embaixador da família de Deus nesta vida. O cristão tem de viver como alguém que honra o nome da sua família porque a sua família é a de Deus. É isto que torna especialmente sério o pecado da falta de amor por um irmão na fé. Quando não amamos um irmão na fé afirmamos que o Pai também não o ama. Porque demonstramos, sendo filhos do nosso pai, que o temperamente da nossa família é o do não-amor. A Bíblia diz que o mundo reconhecerá que somos cristãos quando nos amamos uns aos outros. Esta verdade tem tudo a ver com a questão da adopção.
É por sermos filhos de Deus que temos direito a herdar a criação divina. A natureza não é nossa mãe mas a herança que o nosso Pai nos deixou.
Como qualquer filho, temos responsabilidades com o nosso Pai. Os filhos muitas vezes fazem asneira na ausência do pai. Mas este Pai que é Deus nunca está ausente. Logo, temos outro enquadramento para o mal que fazemos. Este Pai tem maneiras de tratar os nossos erros como os nossos pais da terra não. Isso faz com que aspectos como a submissão a este Pai não sejam vistos como um peso mas como um alívio. A presença deste Pai torna-se sobretudo como algo que se quer saborear.















[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On Adoption", do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Ouvir
Uns acham-se melhores porque desprezar a festa do Natal é um crime; outros acham-se melhores porque participar da festa é uma hipocrisia. Ambos caem no erro que é fazerem de si próprios o centro da estação. O nascimento de Cristo é acerca de Cristo.
O sermão de ontem aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, novembro 28, 2014

O Advento pode começar














Já vimos o "Esqueceram de Mim".

quinta-feira, novembro 27, 2014

O Pastor e a Psicologia
[Hoje estive nas Jornadas do Serviço de Psicologia Clínica e Psicoterapias no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, numa conversa com a Ana Bacalhau e a Isabel Stilwell, moderada pelo Raul Melo. O texto seguinte serviu de base para a minha intervenção.]

Como os miúdos agora costumam dizer, eu e a psicologia estamos numa relação e ela é complicada. Por um lado, não é difícil olhar amigavelmente para um pastor (ou para um padre) e vê-lo como um fóssil de um proto-psicólogo. Para todos os efeitos, os pastores e os padres tentavam antigamente aquilo que agora parece trabalho dos psicólogos. Por outro lado, também não é difícil olhar menos amigavelmente para um pastor (ou para um padre) e vê-lo como uma relíquia incómoda de um tempo ultrapassado. Afinal, os pastores (e os padres) continuam a tentar aquilo que agora parece trabalho dos psicólogos.
Dou em exemplo pessoal bem recente. Há duas semanas uma senhora que frequenta a Igreja da Lapa dizia-me no final do serviço de culto que, uma vez que tinha voltado às consultas com o seu psicólogo, precisava desesperadamente de me ouvir enquanto psicólogo do céu (palavras dela). Aproveitando a presença de psicólogos, pergunto-vos nesta manhã: devo entender isto como um elogio ou como uma provocação?
Quero falar-vos dos puritanos. Hoje a palavra puritano tem muito má reputação e isso é uma injustiça. Resumindo muito, os puritanos eram sobretudo cristãos ingleses filhos da Reforma Protestante. Acreditavam que acreditar em Deus tinha consequências globais. Um crente era por natureza uma pessoa transformada pela sua fé. E uma pessoa transformada em tudo. No modo como agia e no modo como pensava. Os puritanos ficaram com a reputação de policiar o comportamento dos outros. Os puritanos deviam ter ficado, sim, com a reputação de policiarem o seus próprios comportamentos. O puritanos orgulhavam-se daquilo que hoje podemos chamar a disciplina da auto-suspeita. Os puritanos achavam que a pessoa que mais em causa me deve colocar deve ser eu mesmo.
Deixem-me dar um exemplo para defender uma tese. Hoje adoramos pessoas que sabem rir de si próprias. Os humoristas mais bem sucedidos são geralmente especialistas na arte da auto-depreciação. O Ricardo Araújo Pereira é em Portugal o melhor exemplo. Ora, esta moda da ironia em circuito interno vem sobretudo dos países anglo-saxónicos, países marcados pela influência decisiva dos puritanos. O Ricardo Araújo Pereira provavelmente não sabe mas não teria a carreira que tem se antes os puritanos não tivessem contribuído para acharmos bem sermos capazes de pensar mal de nós. Para que hoje ríssemos às gargalhadas de nós mesmos, foi preciso antes que os puritanos e outros encorajassem que chorássemos de nós mesmos. A piada irónica de hoje é a filha improvável de uma certeza antiga da nossa miséria espiritual.
O rigor dos puritanos consigo próprios inspira-me. Previne-me de caminhos demasiado rápidos na minha compreensão ou respostas demasiado fáceis para os meus comportamentos. Nesse sentido, os puritanos são o meu modelo preferido de psicologia. Os puritanos criam que a nossa mente não só exige cuidado como dedicação diária. Os puritanos faziam auditorias quotidianas às suas almas muito antes de parecer bem fazê-lo. E não ficavam dependentes de terceiros - eram consultas em que o médico e o paciente se fundiam na mesma pessoa. Era eficaz e económico.
Lá em casa existe um momento diário em que depois do jantar arrumamos a mesa e distribuímos Bíblias pelas nossas crianças (são quatro, três lendo já) e lemos juntos, cantamos juntos e oramos juntos. Chamamos-lhe o culto doméstico. Também memorizamos textos bíblicos. Um deles diz: "Examina-me, Senhor, e prova-me, sonda o meu coração e os meus pensamentos." Está no verso 2 do Salmo 26. Significa na prática que há cerca de três mil anos o rei judeu David valorizava a psicologia muito antes dela existir enquanto ciência. O judaísmo e o cristianismo não sobrevivem sem uma convicção firme na necessidade de termos uma disciplina de compreendermos primeiro quem somos. Os meus meninos, entre os dez e o quatro anos, já convivem com a psicologia muito antes de poderem vir a consultar um psicólogo.
Nestes exemplos que dei valorizei da maneira que me é possível as pontes entre um pastor e a psicologia. Claro que há partes onde me parece difícil ligar as duas margens do rio. Sobretudo porque a psicologia, parece-me, diverte-se num jogo de sacar do material de sempre, as pessoas, novos significados. É por isso que geralmente alguém que começa a ir ao psicólogo sente-se como o zelador de um hotel: tem a chave para todos os quartos. Este dispositivo é verdadeiramente inebriante sobretudo no seu início. Já o cristianismo quer sacar de velhos significados, pessoas novas. Na psicologia a pessoa, capaz de descobrir em si mesma o sentido, é a partir de como se comporta. No cristianismo a pessoa, dependente de Deus para se conhecer a si mesma, comporta-se a partir do que é. A imanência é da ordem do lúdico, porque reconfigura os significados incessantemente. A transcendência é da ordem do louvor, porque, tendo o significado fixo, reconfigura a pessoa em conformidade com ele. Dá para ver que as diferenças não são sem valor. Mas vale a pena que eu, enquanto pastor, aprenda com o psicólogo aquilo que é possível. E vice-versa.

terça-feira, novembro 25, 2014

Alexandra Solnado versus Tim Keller
Quais algumas das frases sagradas dos evangélicos? "Cristianismo não é uma religião mas uma relação." Um evangélico em Portugal é por excelência alguém que pega numa ideia feita e a desfaz (ou pelo menos, alguém que o tenta). Porque em Portugal um evangélico é alguém que é, não sendo. Como assim? Em Portugal um evangélico é alguém que tem de explicar que é cristão (como a grande parte dos portugueses ainda se pode considerar) não sendo um cristão (como a grande parte dos portugueses ainda se pode considerar). Por isso ser evangélico em Portugal dá muito trabalho. Ser evangélico em Portugal parece ilusionismo: "now you see, now you don't." Daí a ideia que ser cristão não é uma religião mas uma relação é uma ajuda eficaz. É preciso apresentar a fé na base do seu fundamento (ser cristão é primariamente uma matéria pessoal) e não na base da sua fama (ser cristão não é primariamente continuar a religião dos nossos pais e avós).
Este facto de relação aponta para aquilo que para um cristão evangélico é a centralidade de Cristo. Relação com Deus, encontro com Jesus, decisão por Cristo, todas estas podem ser expressões equivalentes na sua vontade de colocar Deus Filho como essência do que é ser cristão. Talvez entre evangélicos já tenha estado mais na moda falar em "encontro com Jesus" mas diria que devemos continuar agarrados à ideia, mesmo tendo em conta a superficialidade com que a expressão possa ser usada. A lógica é esta: "podes encontrar-te com muita coisa bonita de 2000 anos de Cristianismo, mas se não te encontras com Cristo, esquece". Por isso quero falar-vos de um livro excelente que é "Encounters With Jesus" de Tim Keller. A tónica deste livro continua sendo necessária.
Quem já leu Keller pode reconhecer o modus operandi dele: deslindar com a Bíblia problemas que aparecem fora dela. O resultado é conseguir ser tão profundamente bíblico ao mesmo tempo que cativa pessoas que não estão familiarizadas com a Bíblia (veja-se a facilidade com que se entra em "Falsos Deuses" independentemente de se ter ou não uma religião). Mas esse deslindar é geralmente feito, não pelos seus elementos mais óbvios, mas, antes pelo contrário, por aspectos que parecem secundários  até serem trazidos para a linha da frente pelo argumento sugerido. É comum os cristãos lerem o Keller e dizerem: "conheço tão bem este episódio da Bíblia e nunca o tinha entendido assim - uau!" Isto tem-lhe valido algumas críticas, por supostamente correr o risco de valorizar demais aquilo que não deve ser tão valorizado tendo em conta o assunto principal. E, a esse título, foi interessante ouvi-lo em Paris a dizer que haver um assunto principal num texto bíblico não significa que toda a atenção tem de ir para ele. Nota-se que Keller lê até aqueles que eventualmente não gostam de lê-lo. Mais um ponto a favor dele.
Em "Encounters With Jesus" o habitual dispositivo kelleriano funciona a todo o vapor. Lemos dez encontros de pessoas com Cristo nos evangelhos (principalmente no evangelho de João) para que, enquanto leitores, possamos também encenar um primeiro encontro com Cristo (no caso daqueles que não são cristãos) ou um novo encontro com ele (no caso daqueles que são). Em qualquer um destes encontros Keller diz-nos que há muito mais em Cristo do que nós julgamos, sejamos seus seguidores ou ainda não. Por isso Jesus pode ser encontrado literalmente por qualquer tipo de pessoa. "If Christianity was true, a well-lived life was not found primarily in philosophical contemplation and intellectual pursuits, which would leave out most of the people in the world. Rather, it was found in a person to be encountered in a relationship that could be available to anyone, anywhere, from any background (p. 3)."
Enquanto leitor, continuo rendido à profundidade teológica da escrita do pastor de Manhattan. Keller não sucumbe à simplificação emocional, o que seria fácil quando o ângulo é o encontro pessoal. Em Portugal a Alexandra Solnado dava-nos conta do que Jesus lhe dizia quando os dois se encontravam (com o revelador prefácio do Padre Carreira das Neves, homem de uma teologia tão flexível que dá para todo o tipo de rendez-vous religiosos). No final não saíamos a admirar Jesus tanto quanto admirávamos Alexandra Solnado (com tanta gente no globo e o Filho de Deus foi logo escolhê-la a ela!). Keller poupa-nos das fintinhas da auto-ajuda: encontrarmo-nos com Jesus é dar o destaque a ele. "If there's a God, you owe him literally everything. If there's a God, you owe him far more than a morally decent life. He deserves to be at the center of your life. Even if you are a good person but you are not letting God be God to you, you are just as guilty of sin as Nicodemus or the Samaritan woman. You are being your own savior and lord (p. 37)."
Encontrarmo-nos com Jesus é preciso. E qualificar esse encontro como um evento transformador em que a nossa vida passa a ser satélite da vida que encontrámos em Jesus. Há criaturas que vêem Cristo em torradas ou que o ouvem durante sessões de yoga. O problema desse Messias que é publicitado em encontros tão inusitados é que ele se revela um rotundo incompetente: as pessoas vão até ele sem que ele vá até às pessoas. Nada muda na existência quotidiana destes videntes contemporâneos. Ver Jesus é viver a partir dele. É, como os evangélicos costumavam repetir, "uma relação, não uma religião".


segunda-feira, novembro 24, 2014

Ouvir
Ninguém está naturalmente na igreja. Quem está na igreja está nela sempre por razões sobrenaturais.
O último sermão da série "Uma igreja livre com raízes" aqui (clicar em cima de aqui)

sexta-feira, novembro 21, 2014

A minha Marta de oito anos
Faço e toco música publicamente desde 1992 (baza fazer uma compilação janota em 2017 para comemorar 25 anos de rock'n'roll?). Lembro-me de ter para aí uns dez anos e os meus primos André e David interromperem uma brincadeira para quererem ver um programa de música na televisão (acho que o Vivamúsica, não tenho a certeza). E eu pensar, "um programa de música, qual o interesse?" Tudo mudou aí por volta dos doze, treze anos, quando o facto da minha irmã Rute, cinco anos mais velha do que eu, estar em plena adolescência mergulhada nos Bon Jovi, nos A-Ha e nas revistas Bravo, me fez ficar fascinado com aquele universo que até então me passava ao lado. A partir daí tudo mudou. A música passou a ser o meu amor mais fiel. Comecei a imaginar fazer música e ser reconhecido por isso. Comecei a fazer desenhos das bandas que ia ter antes ainda de saber tocar uma guitarra.
A música tornou-se um amor fiel porque a música me fazia sentir amado. Percebo bem o que o Lou Reed quer dizer quando canta que o rock'n'roll salva vidas porque o rock deu uma paixão à minha vida como nenhuma outra coisa até então tinha dado. Correndo o risco de soar piroso, o lema "Religião & Panque Roque" da FlorCaveira pôde ser usado naturalmente porque miúdos como eu sentiam que o Kurt Cobain tinha tanta importância espiritual como o Santo Agostinho. Com alguns anos de música este é também um consolo: saber que ela estará lá independentemente dos circuitos de reconhecimento ou ausência dele. Mais do que ser músico, sou um miúdo do rock'n'roll. Não é bem a mesma coisa.
A bênção que é o rock na minha vida é uma possibilidade constante de maldição (generally that's how it works). Porque o rock deu-me o chão para o meu melhor sprint. Algumas das conquistas mais saborosas existiram na minha vida através daquilo que o rock me permitiu. Habituei-me a pegar numa guitarra para afirmar-me. E isso é inebriante. A música tornou-se menos um prazer em si para ser um pretexto para que outros notassem que existo. Em boa parte surgiu um dilema (que ainda persiste): usarmos a música para nos realizarmos (o que não é mau) versus realizarmos música para que uso dela seja nós mesmos (o que não é bom).
Esta conversa para introduzir agora a minha Marta que hoje faz 8 anos. A minha Marta, como constantemente repito, é uma surpresa. A minha Marta na sua vida pequena traz vida nova à minha (como qualquer um dos outros meus filhos, mas ela de uma maneira muito própria). Uma das coisas que é uma novidade na minha Marta é a maneira como ela canta. A minha Marta canta de alegria. Isso, por estranho que pareça, é um uso da música muito pouco dominado por mim. Aos 37 anos ainda estou a dar os primeiros passos nessa disciplina de cantar a partir da alegria. Por exemplo, aos Domingos quando voltamos da igreja não é raro ela vir a cantar no carro, não para mostrar a voz, não porque ficou entusiasmada com um cântico novo que ouviu pela primeira vez, mas porque, suprema surpresa!, está alegre. Esta manifestação muito simples é uma verdadeira visitação de anjos para mim. É uma língua que desconheço mas que quero falar.
A minha Marta, entre outras coisas maravilhosas, tem-me ensinado aquilo que prego bastante do púlpito mas que nem sempre sei viver fora dele: Deus criou-nos para a alegria. A alegria é o meio e o fim da nossa existência. É o que nos faz caminhar e é o destino final. A alegria é afirmar na prática que nos sentimos pequeninos em relação à beleza das coisas e que isso necessariamente suscita uma resposta de nós. Por isso louvamos. Fomos criados para ter alegria em Deus que nos criou e nos deixarmos deslumbrar com as coisas que ele criou. A minha Marta tem-me trazido a ortodoxia cristã mais quotidiana. Quando canta não para se provar a si mesma mas quando canta porque acabou de provar que Deus é bom e por isso vai dar uso aos seus pulmões. Agradeço a Deus pela minha Marta e quero ser mais como ela.


quarta-feira, novembro 19, 2014

Uma contemplação pragmática
Neste mergulho progressivo nos Puritanos impressiona-me a profundidade teológica deles, completamente integrada numa doutrina que se viva na prática. Há uns anos se entrasse à bruta na literatura puritana provavelmente formaria uma opinião negativa, etiquetando-a de especulativa e de show off intelectual. Os Puritanos são, recordando o refrão do Sam The Kid, como o hip-hop - ou se percebe ou nem vale a pena tentar gostar. E é quando começam a sacar das calculadoras para apreciar a dimensão do que Deus faz que as coisas se tornam mesmo divertidas. A teologia puritana não é uma ciência exacta, mas não rejeita querer ser exactamente uma ciência na medida em que acredita que conhecer Deus pede pelo nosso cérebro todo e por muito mais.
Vamos a Cristo uma vez para a justificação. Mas vamos a Cristo vezes sem conta para a santificação. O que nos salva acontece de uma vez só, quando na nossa conversão somos declarados justos diante de Deus através do sacrifício expiatório de Cristo por nós. Mas a qualidade da nossa salvação é treinada através da santificação num aperfeiçoamento crescente. Para isso temos de ir constantemente àquele que permite que sejamos salvos, Cristo. Essa ida só é possível através do Espírito Santo, claro.
É preciso ter uma visão clara da meta da nossa santificação, para não perdermos tempo em lugares que nada farão por nós. Cristo é o único que importa para nos salvar mas também para continuar essa salvação em nós, na santificação. "Many people today are consumed with looking inward at their faith rather than outward, to the object of their faith", explicam Joel Beeke e Mark Jones. Para o grande John Owen um dos privilégios do crente nesta vida e na outra é contemplar a glória de Cristo. Logo, Cristo é a mira natural dos olhos de quem crê nele. E não é fantástico saber que nessa contemplação de Cristo somos transformados? Contemplar Cristo é uma tarefa bem prática na medida em que muda aquele que contempla. Uma contemplação pragmática.
Façamos uma pergunta bem pirosa à Daniel Oliveira: o que dizem os olhos daquele que contempla Cristo? Dizem que Cristo à direita do Pai é o terreno da nossa justificação e dizem também que Cristo em nós é a fonte dos frutos que acompanham a nossa justificação e a evidência da nossa união com ele. A fé compromete a pessoa total do crente à pessoa total de Cristo. Por isso uma das melhores definições do que está a acontecer quando alguém tem fé é um enamoramento por Jesus - vive-se de um modo em que ele é a nossa vida toda. É natural que uma pessoa que se tornou cristã pareça pirada aos olhos de quem não é cristão. Afinal há uma obsessão por existir em conformidade completa com a imagem de Cristo - a santificação quotidiana é isto.
Mas vamos até à origem da santificação. Se somos santificados é porque obedecemos a um padrão que começa em Deus e na sua personalidade. Somos chamados a ser santos porque ele é santo. Há duas coisas que decorrem do facto de Deus ser santo. A primeira é que isso significa que Deus é diferente daquilo que criou. Uma coisa é Deus, outra coisa é a natureza - Deus está separado da sua criação. A segunda é que não podemos chegar a Deus se não estivermos santificados. Estas duas coisas são muito importantes para uma época em que os homens ao divinizarem a natureza, acaba por se divinizar a si mesmos. Esta bagunça panteísta só é possível por causa de uma cegueira terrível à personalidade divina. "Those who have a weak view of God's holiness are prone to fashion God after their own image. We must return to the biblical view of God's holiness."
Não precisamos de ficar desanimados com a desproporção que nos separa da perfeição de Deus. Porque, graças ao que Cristo fez por nós, estamos num estado de perfeita santidade diante de Deus, ainda que não numa condição de perfeita santidade. Por isso a nossa santidade precisa de ser continuamente completada (1 Tessalonicenses 5:23) - há simultaneamente um já e um ainda não. Parte essencial deste processo é o arrependimento. O arrependimento é mais do que remorso. O arrependimento até pode começar com remorso mas não fica por aí. O remorso não tranforma uma vida, o arrependimento sim. O arrependimento não lamenta o mal apenas mas é uma mudança do pecado para a justiça. Santos que nunca se arrependem não são santos. Uma vida de muita santidade é uma vida de muito arrependimento.
Os cristãos evangélicos não têm nada contra exemplos de homens santos. Mas os cristãos evangélicos, muito diferentemente dos católicos romanos, sabem que é um desperdício gastar tempo vital olhando para homens santos quando Cristo é verdadeira fonte de santidade. Explico melhor citando Beeke e Jones: "In Christ we have not only a perfect example of a total life of true holiness, but he is also the source of our holiness. He makes believers holy." Esta convicção é o que faz que a justificação seja entendida de modo distinto entre reformados e romanos e também a santificação. Os homens santos valem a pena por nos indicarem o exemplo de Cristo. Um reformado tem sempre um problema com a religião popular católica porque ela tende a terminar nos exemplos humanos e não em Cristo. Muitos santinhos e santões nos corações das pessoas e muito pouco Cristo. Quantos mais santinhos e santões e quanto menos Cristo, menos santidade concreta.
Por outro lado, e para não parecer que um reformado não tem nada de bom para dizer acerca de Roma, os puritanos trazem-nos uma palavra que, em abono da verdade, não tem sido abandonada pela Igreja Católica Romana: mortificação. Um genuíno cristão vivifica-se e mortifica-se. Vivifica-se obedecendo a Deus, e mortifica-se matando o pecado. Evangélicos, quando foi a última vez que ouviram um sermão que usasse a palavra mortificar? Temos trabalho a fazer!
E ainda, para esclarecer que os puritanos, como qualquer razoável reformado, não propunham uma religião nova que começasse no Século XVI e XVII aquilo que tinha fica interrompido nos primeiros séculos de história da igreja. "In addition to reading and meditating on the Scriptures, the Puritans emphasized prayer and work (ora et labora) every bit as much as the ancient monastic orders of the pre-Reformation Church." A Reforma restaurou ao cristianismo medieval o sentido de santidade do trabalho comum. Libertou a devoção do mosteiro para o mercado. Isto teve muito impacto nas lojas mas também nos lares. Por exemplo, a pureza sexual que estava idealizada no celibato dos religiosos foi restabelecida no casamento. Os Puritanos viviam para ser santos porque a santificação é a preparação para o Céu. Quando não temos interesse em ser santos, revelamos que não temos interesse no Céu. Se não nos interessamos pelo Céu agora, sendo santos, não é depois que o vamos achar o máximo.













[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On Living In Christ" do calhamaço "A Puritan Theology", de Joel Beeke e Mark Jones.]

segunda-feira, novembro 17, 2014

Ouvir
Não é fantástico que, na hora de reflectir sobre a qualidade da sua vida, aquilo de que Moisés se lembra seja os seus pecados? Viver bem não é valorizar o bem que fazemos. Vivemos bem quando valorizamos o que Deus faz em nós, perdoando o mal que fizemos.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, novembro 14, 2014

Hipona


















Fez ontem 1660 anos que nasceu este homem que amo: Agostinho.
A vitória da Itália é a derrota da italiana
Os bons amigos não são só aqueles de quem gostamos. Os bons amigos são também aqueles que nos ensinam o gosto. O meu amigo Samuel tem sido esse bom amigo que também me ensina o gosto. Sobretudo no que diz respeito ao cinema. O Sami partilha comigo um gosto pelo cinema americano de acção e de terror, géneros pouco dados à erudição. Mas o Sami, que vai muito além desses géneros, tem-me levado ao cinema clássico, quer americano quer de outra parte qualquer do mundo. Como prenda de aniversário ofereceu-me sete filmes que vão fazer pelo meu aperfeiçoamento. Ontem vi o primeiro, "Senso" de Luchino Visconti. O meu desconhecimento sobre cinema italiano é grande (e imperdoável!). Só há 2 anos, por exemplo, e pela amizade do Sami, vi o Vittorio de Sica. "O Ladrão de Bicicletas" (como se perdoa alguém que só o vê aos trinta e muitos?) e o "Umberto D." Coisas maravilhosas.
Em "Senso" de Luchino Visconti uma das coisas mais interessantes é a luta dentro da cabeça da Condessa Serpieri. Podemos dizer que, para todos os efeitos, "Senso" é um filme de guerra onde as piores trincheiras são escavadas na personagem principal (a esta altura o mais fácil para mim é divagar sobre o modo como as mulheres italianas, por comparação com as portuguesas, parecem talhadas pelo Criador para um destino intensamente mais dramático e esteticamente esmagador - seria possível vermos uma portuguesa num papel semelhante sem parecer emproada?). A Condessa é alguém divida entre actos heróicos (colaborar com a resistência italiana contra o invasor austríaco) e actos vergonhosos (cometer um adultério com um Oficial Austríaco). À medida que o filme prossegue, prossegue também uma falência moral na Condessa. O Oficial Austríaco acabará por pedir à sua amante que o ajude a subornar um médico para que o declare incapaz para a batalha. Quanto mais a Condessa se revela torturada por se corromper progressivamente, mais o Oficial Austríaco se revela confortável na sua ausência de escrúpulos (pelo menos, até certo ponto). "Senso" mostra que geralmente o pecado cresce deitando fora todo o bom-senso. E que qualquer diva se pode apaixonar por um rafeiro.
Numa das primeiras cenas, aquela que mostra o desenvolvimento do romance num passeio que Oficial e Condessa dão pela noite veneziana, o Oficial cita um poema que revela que a paixão genuinamente arrebatadora ignora as suas consequências, que os amantes no Dia do Juízo Final não querem saber se lhes corresponde o céu ou o inferno, mas apenas da sua própria paixão. Esta alusão funciona no filme como um prenúncio. Há uma marcha das cenas pacíficas de Veneza ocupada para as cenas da preparação e eclosão da batalha nas planícies rurais. A guerra que acontece em Itália é a guerra que acontece no coração da Condessa. Mas, tal como na poesia citada, os amantes parecem indiferentes ao alistamento correcto. O bem e o mal, como o céu e o inferno, tornam-se paisagens que não são habitadas mas apenas décors para o romance. O genuíno romance rejeita a realidade.
Na arte romântica esta continua a ser uma questão de sempre: se os amantes criam uma nova lei para si, quem os poderá julgar? No caso de "Senso" esse julgamento não desaparece totalmente porque acontece dentro da consciência da personagem. Nesse sentido, a paixão romântica cava a sua própria sepultura. Quanto mais se entrega a uma norma criada por si mesma, melhor se apercebe que morrerá às mãos dessa mesma norma. A Condessa ama cada vez mais o Oficial Austríaco na mesma proporção que se detesta cada vez mais a si mesma. Essa é a razão pela qual as grandes paixões românticas pedem tanto o arrebatamento como a auto-comiseração. O romântico é o herói e o seu próprio carrasco, o chefe e o choninhas. No final, a vitória de Itália é a derrota da italiana.
Este fundo moralista de "Senso" é uma das suas vitórias. Creio que hoje os filmes perderam esta fibra moral. Não quero trazer a cantilena estafada do "hoje está tudo perdido". Mas a verdade é que o cinema parece ter ficado com satisfeito com mostrar e parece ter ganhado uma incapacidade de reflectir. Nada tenho contra o bom entretenimento fílmico. Todavia diria que grande parte do que acontece quando um filme nos arrebata passa necessariamente por uma emoção que tem o poder de nos transformar. E creio que qualquer emoção que nos transforma é por natureza espiritual, da ordem do que é bom, do que é moral, do que desejamos para nós. Para mim a magia de "Senso" é começarmos seduzidos por uma figurona feminina e terminarmos com misericórdia por ela. Estarei eventualmente a exagerar na minha leitura cristã das coisas, mas por mim é para isto também que o cinema serve. Percorre-se um trilho estético que traz uma ética. Admirável filme, Sami!


quarta-feira, novembro 12, 2014

Ouvir
O Pr. Daniel Lopes tem uma experiência única de aliar juventude à liderança de uma igreja com 100 anos. Pregou-nos sobre uma igreja livre com raízes. Ouçam o sermão aqui (clicar em cima de aqui).

terça-feira, novembro 11, 2014

Ainda sobre a partida do Pr. Oliveira
A partida do Pr. Oliveira é extraordinariamente pedagógica. Deixem-me começar pelo nível mais elementar e desinteressante. A partida do Pr. Oliveira é pedagógica a nível pessoal porque nos coloca no nosso devido lugar. Há uma tendência terrível na idade da comunicação massificada de querermos celebrar a vida de alguém não tanto pelo valor da vida que celebramos mas mais por aquilo que vamos dizer publicamente acerca dessa vida. Como se houvesse um desafio para o melhor texto partilhado na net sobre a morte de alguém. Mas um homem como o Pr. Oliveira deixou tantas histórias que a sua vida se democratiza de um modo que ninguém se arma em imperador. O Pr. Oliveira foi o meu líder espiritual dos meus 8 aos meus 22 anos. Baptizou-me. Ofereceu-me a Bíblia branca no meu casamento. Tenho tantas histórias com ele. Mas rapidamente nos apercebemos, no seu funeral apenas, que a fonte de experiências com ele é inesgotável. O Pr. Oliveira, imitando Cristo, deu a sua vida aos outros. E por isso os outros estão cheios de histórias dele. Ninguém tentará a melhor história porque ninguém cairá na asneira de sequer tentar insinuar que teve mais do Pr. Oliveira que todos os outros. O Pr. Oliveira teve uma vida tão rara de dedicação às pessoas que não ousaremos dar a entender que o Pr. Oliveira se dedicou mais a nós que aos outros.

Mesmo nestas últimas semanas de grande sofrimento físico as histórias multiplicam-se. Conto duas apenas entre várias que me impressionaram. A primeira, contada pela sua própria esposa, Irmã D. Lídia. Nos últimos dois dias o Pr. Oliveira já não conseguia falar. O seu mal-estar era evidente e só conseguia obter um pouco de alívio ouvindo aquilo pelo que os seus ouvidos sempre se deliciaram: a Palavra de Deus. Isto significou que a D. Lídia passava o tempo a ler textos da Bíblia e a cantar hinos. Sem interrupções. Claro que volta e meia tinha de parar porque estava exausta (até pelas noites seguidas que não dormia). O Pr. Oliveira não se ficava: imediatamente a cutucava para ela continuar. O Pr. Oliveira não pregava do púlpito. Pregava do peito. A Palavra foi o seu remédio a vida inteira. Quando estava são e quando estava doente.
A segunda história é daquelas raras no imaginário evangélico. Como os evangélicos são pessoas da sola scriptura, incutem uma reserva prudente a relatos demasiado epifânicos. Mas esta história é uma história do momento anterior à sua morte. Nos últimos dois, três dias, o Pr. Oliveira perdeu as forças de um modo que já nem conseguia puxar o lençol da sua cama para cima. Não conseguia beber. Não conseguia ir à casa de banho. Pouco antes do último suspiro abriu um sorriso rasgado (o Pr. Jónatas Figueiredo disse com razão que o Pr. Oliveira foi o homem mais fotogénico que conheceu porque nenhum retrato o registava sem o seu sorriso omnipresente). Abriu um sorriso rasgado e aplaudiu. Bateu palmas com as mesmas mãos que já não conseguia levantar. O Pr. Rui Sabino sugeriu no sermão que provavelmente viu o que Estêvão viu na hora do seu martírio: o seu Senhor Jesus na glória. E partiu em paz.
Esta é uma história que nos arrepia. E com toda a justiça. Perdoem-me a comparação desajeitada mas se os baptistas portugueses fossem o Vaticano o Pr. João Rosa de Oliveira rapidamente seria canonizado.

É fácil para pastores jovens na idade da internet irem buscar os modelos ao estrangeiro. No meu caso a influência recente do Pr. John Piper é fundamental. Mas a verdade é que é compreensível eu querer apanhar a onda do desejo de Deus deste pregador americano porque tive um pregador português que a surfou até ao fim. O hedonismo cristão (termo cunhado pelo Pr. Piper para resumir que Deus é mais glorificado quanto maior prazer temos nele) foi a vida do Pr. João Rosa de Oliveira. O Pr. Beto Marques resumiu na perfeição o Pr. Oliveira dizendo acerca dele ter sido o homem mais feliz que conheceu. Esta é a mais pura das verdades. A herança que nenhum dinheiro consegue comprar e que o Pr. Oliveira deixou a todos os que o conheceram foi uma alegria insuperável em Cristo. Até ao último fôlego o Pr. Oliveira não só falou de Cristo como quis mais dele. Foi um insatisfeito até ao fim porque sabia que o seu apetite só estaria saciado na presença do próprio Cristo. Por isso fez uma coisa que nunca tinha visto num funeral: escreveu uma carta às pessoas presentes na cerimónia fúnebre. Qual o resumo dessa carta? Que agora estava feliz, muito feliz, infinitamente feliz.

O Tiago Branco foi uma pessoa incrível nestes últimos anos de vida do Pr. Oliveira. Faço parte da mesma geração de jovens da Igreja Baptista de Queluz que o Tiago faz. Sou completamente parcial para falar do Tiago porque o Tiago é um amigo meu daqueles. Já no Verão contei uma história sobre o Tiago, no socorro que deu a um jovem que se atrapalhou no mar de Água de Madeiros. O Tiago está a terminar o curso de medicina depois de se ter formado em Química. O Tiago já fugia dos elogios que o Pr. Oliveira lhe fazia pela sua companhia constante em consultas, tratamentos e seguimento complementar que lhe prestava. Hoje voltou a fugir do elogio que lhe fiz pessoalmente. Mas o Tiago não pode fugir de um facto. Deus usou o Tiago para devolver numa pequena proporção ao Pr. Oliveira aquilo que o Pr. Oliveira fez aos outros durante a sua vida. O Tiago dedicou-se ao Pr. Oliveira num gesto de retribuição simples por toda a dedicação que o Pr. Oliveira nos deu. Isto é muito importante porque foi isto que o Senhor Jesus disse que ia acontecer entre os cristãos e que ia fazer levantar as orelhas dos que não crêem. Vocês vão amar-se e os outros vão dar conta e perceber que esta história do cristianismo é verdade. O Tiago Branco serviu de Pr. Oliveira ao Pr. Oliveira. Que tesouro. Tenho muito orgulho no meu amigo Tiago Branco e creio que ele me representou a mim e a toda a nossa geração nessa dedicação.

O Rui Sabino é o Pastor da Igreja Baptista de Queluz e um homem à altura da herança do Pr. Oliveira (e também da herança relevante do Pr. António Miguel Pires, que foi o sucessor do Pr. Oliveira). O Rui é também um amigo da minha juventude (os baptistas são meia dúzia de famílias). Quantos amigos da nossa juventude é que legitimamente podemos admirar? Não sei mas duvido que sejam assim tantos porque geralmente a intimidade previne grandes deslumbramentos com o que temos como conhecido. Acontece que o Rui é o jovem que já conhecia e muito mais. É um homem fiel à Palavra, corajoso e íntegro, firme e audaz. Deus tem uma soberania do mesmo tamanho do seu sentido de humor. O Rui veio ser o líder espiritual de uma igreja que conheceu perto sendo que hoje já não é o miúdo que Queluz via de cabelo comprido e com que as miúdas facilmente simpatizavam. Hoje é o pastor. Aquele que aponta para Cristo. A igreja precisava dele e é bom ver o rebanho apascentado.

Estas notas falam sobre homens. Não precisamos do sistema de quotas para as mulheres porque os cristãos não separam o que Deus junta. Mas dizendo isto quero notar o óbvio que nem sempre fica claro para todos. Não haveria Pr. Oliveira sem D. Lídia. Não haveria Tiago Branco sem Margarida. Não haveria Rui Sabino sem Adriana. O retrato do casal nestas notas ilustra perfeitamente o que quero dizer. Temos de tratar agora da D. Lídia.


Espreitem como foi há um mês



Já estamos a preparar o de 2015! O trabalho videográfico foi da Workmove.

segunda-feira, novembro 10, 2014

1934-2014
Descansa no Senhor o nosso querido e muito amado Pastor João Rosa de Oliveira. Coloquem nas vossas orações o consolo da sua esposa, Irmã D. Lídia.


sábado, novembro 08, 2014

Novembro na Lapa



Trabalho videográfico da Sara Falcoeiras.

quinta-feira, novembro 06, 2014

O nosso simpático pastor senhor Peacock
Esta é uma questão recorrente no meu ministério pastoral: até que ponto as minhas convicções doutrinárias reformadas atrapalham a centralidade de Cristo? Tentando despachar a questão em pouco tempo, direi que as minhas convicções doutrinária reformadas são a consequência da centralidade de Cristo e não a causa. Ou seja, e trocando isto por miúdos, o meu (tremam que vou usar a palavra monstruosa!) calvinismo existe por causa de Cristo ser o fundamento. Não sou (tremam que vou usar outra vez a palavra monstruosa!) calvinista para ter um Jesus à minha maneira mas sou (tremam uma terceira vez que vou voltar a usar a palavra monstruosa!) calvinista porque a teologia reformada é a que apresenta Cristo como central sem qualquer cedência às mariquices dos nosso tempos (disse-vos que ia trocar o discurso por miúdos). O cristianismo é acerca da liberdade total de Deus para ser o centro da história e a teologia reformada não pestaneja para afirmar isto. É dificíl? Certamente. Mas a Bíblia não é para os fracos de coração. Desde que Deus se revela em palavra escrita que há uma mensagem implícita a passar: essa mensagem é deal with it!
Tendo dito isto, não vivo para fazer calvinistas. Quantas vezes já o disse e escrevi antes? Por exemplo, quando alguém se junta à Igreja Baptista da Lapa certamente não tem de ser calvinista. Volto a repetir: o nosso JC é Jesus Cristo e não João Calvino. Quem se junta à Igreja Baptista da Lapa certamente tem de se reconhecer na sua Declaração de Fé, que sendo um documento humano é aquilo que serve para dizer que o caminho a fazer é determinado por Deus e pela sua Palavra. No dia em que o Pastor pregar um evangelho que seja estranho ao bíblico, àquele reconhecido na Declaração de Fé, fora com o Pastor. E fora com qualquer membro da Igreja. Quem manda na Igreja é Cristo e não os homens, venham eles com maiores ou mais pequenos emblemas teológicos.
Mas voltando à primeira questão diria que muitas vezes ela se me coloca de um modo injusto. Até porque constantemente falo e escrevo acerca do assunto. Deixem-me dar um exemplo. Imaginem que alguém me tinha dito que no último disco dos Altíssimos Arautos Atalaias (um nome inventado para uma banda inventada que supostamente é constituída por cristãos) se cantava acerca de que o adultério é bom. E imaginem que, sobre isto que me diziam, eu passava a dizer que ouvi dizer que os Altíssimos Arautos Atalaias cantam no último disco que o adultério é bom. E imaginem ainda que ao dizer isto a outra pessoa, ela me perguntava: mas já ouviste o último disco dos Altíssimos Arautos Atalaias? Pergunta à qual eu respondia: não, porque para mim chega dizerem-me que eles dizem e não preciso de confirmar nas próprias palavras dos Altíssimos Arautos Atalaias. Ora isto é o que muitas vezes acontece quando o assunto da teologia reformada aparece como se fosse um segredo trancado no cofre. O que a Igreja Baptista da Lapa prega não está disponível aos ouvidos de qualquer clique na página online dos sermões? (Aqui.) O que a Igreja crê não está disponível ao clique na Declaração de Fé do site? (Aqui.) Por isso valorizamos tanto a questão do escrutínio na nossa comunidade. Não queremos ter nada a esconder. O nosso negócio é Cristo. E Cristo pregado publicamente.
Esta voltinha toda para partilhar convosco um blogue que tenho mantido sossegado e que é um blogue de trabalho. Chama-se "Lendo as Institutas" (clicar aqui). Nele escrevo sobre as Institutas de João (ai, caramba, tremam pela última vez porque vou usar a palavra monstruosa!) Calvino. Na prática são fichas de leitura, não dão uma navegação muito agradável. Há mais de um ano que o mantenho. Nesse blogue cometo, parece, o supremo crime de ler este reformador e de tentar perceber aquilo em que ele cria. Estaremos nós preparados para avaliar um homem a partir das suas próprias palavras?


quarta-feira, novembro 05, 2014

Pedal de delay
Numa nota menos positiva diria que a música da conferência em Paris era desequilibrada. Era notável a heterogeneidade do grupo musical, mosaico bonito de ocidentais, africanos e asiáticos. Mas o estilo era bastante mais monocromático: o fatalmente omnipresente praise contemporâneo. Não quero com isto dizer que não há nada de bom na música cristã de adoração dita contemporânea. É verdade que só o uso da palavra contemporânea devia fazer soar o alarme. Eugene Ionesco dizia que a pessoa mais ultrapassada é aquela que se esforça por ser do seu tempo. Mas adiante. Nos últimos anos reconciliei-me com Michael W. Smith, assisti a um concerto dos Hillsong, e até fiquei fã de alguns dos hinos mais recentes do dito praise ("Christ Alone Cornerstone"!). Todavia quero deixar um recado a esta tribo.
Músico que tocas num serviço de culto: se te estás a esfalfar para soares a uma versão suburbana de segunda categoria dos Sigur Rós, Deus diz-te "pára!" Desliga o pedal de delay e respira fundo. Senta-te um bocado. Ouve-me agora com calma. O mais provável é que estejas mais absorvido com o que queres provar aos outros acerca da tua cultura musical pop do que pela tarefa de dirigires os outros no louvor ao Criador. Tira uma folga de seis meses da escala da tua igreja. Lê os Salmos durante esse tempo. Dá uma espreitadela ao requiem de Mozart. Traz novos mundos ao teu mundo islando-açucarado. Acredita!
Como é que este fenómeno se dava na conferência em Paris? A banda trazia novas versões de hinos clássicos que eram tão rebuscadas e exigentes que o tempo do canto era passado a atinar com a adaptação. No final não havia a conciliação melódica necessária para que nos conseguíssemos concentrar no objecto da adoração. Esse é o objectivo de adorar, não é? Foco para o que é adorado e não para a performance dos adoradores. Cantou-se o "How Great Thou Art" de uma maneira tão esquartejada em rodelinhas emo-hipsters que me senti capaz de roubar o machado e decapitar a vocalista. Estou a exagerar um bocadinho mas ficam com uma ideia.


terça-feira, novembro 04, 2014

Ouvir
A Reforma Protestante é importante porque nos aproxima de Cristo, não porque nos afasta dos outros.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, novembro 03, 2014

Keller e o kellerista
O ambiente de uma conferência europeia é diferente de uma conferência americana. Por um lado sinto-me mais em casa numa conferência europeia. Por outro não. Os europeus não têm aquele profissionalismo que geralmente nos sobressalta como a possibilidade de ser artificial, no qual os americanos são especialistas. Mas a ausência desse profissionalismo não é necessariamente uma virtude. Por sincera que seja a demonstração do desajeito europeu, há alturas em que gostávamos de maior mão nos acontecimentos. Tenho uma certa ternura pelo europeu do norte, alto e desengonçado, desconfortável no seu próprio corpo, que dirige um grupo de quinhentas pessoas sem saber o que fazer com as mãos. Cada segundo dele à frente do auditório parece um milagre. A qualquer momento pode ser que se desintegre mas, voilá!, permanece. Com toda a humilde beleza da cena, não tenho todavia no europeu o meu modelo de maestro. Prefiro algum risco de artificialidade mas com uma condução mais segura do programa. Sou, sem remorsos, um europeu americanizado. E com isto, não digo que a conferência correu assim, à ginga solta. No primeiro dia senti as coisas mais bambas mas de resto tudo seguiu o seu rumo. Formalmente foi muito boa. Formalmente e informalmente. Foi muito boa, ponto final.
Pareceu-me que os europeus, nessa contenção natural, desemocionam consideravelmente o ambiente de uma conferência. Não há grande show. O Tim Keller não era cercado por uma multidão de ouvintes ansiosos por um autógrafo num livro ou por uma fotografia (verdade seja dita que numa conferência americana, com o show mais assumido, é raro o prelector chegar a conviver no espaço dos espectadores). Fui fazê-lo, como é óbvio. E parece-me que fiz parte da excepção à regra. Quando chegámos na Segunda-Feira à belíssima Igreja Americana, junto ao Sena, vi-o a entrar e o meu coração bateu. Sim, sou um fanboy a sério. No segundo dia, passou por mim quando não contava com isso e não fui capaz de o abordar. Só na Quarta-Feira, e com a minha palpitação a disparar, fui ter com ele. Assumi o meu provincianismo e disse que queria o pacote completo: falar com ele, um autógrafo e uma fotografia. Ele respondeu amorosamente.
Explicava ao meu companheiro Rui Ribeiro que por trás deste saloiismo está uma vontade sincera de ser bom mordomo das oportunidades que Deus me dá. Não fiz o esforço de andar de avião para me armar em mete-nojo e não dizer pessoalmente ao Tim Keller a bênção que ele tem sido na minha vida, na vida de pessoas da minha igreja, e para muitos não-crentes que têm lido e apreciado o "Falsos Deuses". É nesse sentido que cada vez desconfio mais de uma reserva, ou mesmo humildade, europeia. Porque por trás dela pode existir um sentimento de superioridade moral.
Deixem-me dar um exemplo. Na minha experiência com crentes brasileiros todos assumem com muita naturalidade que é preciso tirar um retrato com alguém que conhecem e admiram. Claro que uma profusão de imagens pode gerar um folclore tão superficial como idólatra (saber retratar também passa por saber aquilo que não deve ser retratado). E, no meu caso, devo estar especialmente atento a esse risco. Mas a ausência de imagens pode vir de um lugar de igual ou pior vaidade. As fotografias com brasileiros ajudaram-me a tirar fotografias com americanos.
Agora menciono brevemente aquilo que os olhos não podem ver. Como Kellerista que sou, estou razoavelmente dentro do material. Grande parte das palestras que o Pr. Tim deu, já tinha alguma familiaridade com elas (sobretudo por conta desse importante manual eclesiástico que é o "Center Church"). Ainda assim, no que falou trouxe-me novidade e reflexão. Falamos de um homem que alia discernimento a ousadia como conheço poucos a aliar. Peço essas mesmas características para mim não para que seja mais parecido com o Tim Keller. Mas para que seja mais parecido com Cristo.


sexta-feira, outubro 31, 2014

Para o sermão de Domingo e porque hoje é dia da Reforma!
Estou convicto que há um equívoco grave a acontecer no contexto evangélico. Quando os evangélicos desvalorizam a ligação à Igreja em termos pessoais e em termos históricos, aceitam para si uma catolicidade coxa. Uma universalidade manca. Nenhuma igreja evangélica se pode orgulhar de, por causa da Reforma, poder fazer aquilo que lhe dá na gana. Porque desvalorizar a ligação à Igreja de todos os tempos é desvalorizar o valor da salvação de Cristo. Cristo salva pessoas desde que o mundo é mundo. E os evangélicos não podem aceitar um salto prático do primeiro ou segundo século para o século XVI. Celebrar a Reforma não é celebrar os Reformadores como os genuínos seguidores dos apóstolos. Celebrar a Reforma passa por, correctamente!, celebrar os Reformadores como esclarecedores providenciais da fé dos apóstolos. A fé de um evangélico é necessariamente católica. A mais católica de todas porque se centra em Cristo, o único que é capaz de salvar qualquer tipo de pessoa em qualquer tempo e em qualquer lugar. Ser reformado é defender a melhor catolicidade. Aquela que por ser fiel à revelação divina na Bíblia se coloca na posição de defender melhor o que Cristo deixou à igreja. O catolicismo confia na tradição da igreja para determinar a voz a Cristo na Palavra. A catolicidade confia que só o Cristo revelado na Palavra pode orientar a tradição da igreja. Somos católicos por causa da Cristo. É completamente diferente de acreditarmos em Cristo porque somos católicos. A Reforma fez-se para colocar estes pontos nos is.
Do mesmo modo como hoje tudo o que é antigo adquiriu um charme súbito, estou convicto que o catolicismo romano vai atrair cada vez mais evangélicos que não compreendam a sua alegada fé reformada. Do mesmo modo como hoje a moda manda homens de trinta anos albergarem barbas iguais aos seus tetravôs, o catolicismo romano ganha uma aura de cool pelo cheiro a antigo. Isto já começa a ser visível em muita juventude protestante, seduzida por práticas arcaicas porque, naturalmente!, se fartarm das igrejas com serviços de culto ocos dirigidos a powerpoints pirosos. A lectio divina parece fazer o que a batida reunião de oração espontânea não consegue. Mas temos de ver bem. O que se perde quando se perde a Reforma Protestante é aquilo que ela bem defendeu. A centralidade de Cristo. Deixem-me colocar as coisas de uma forma radical: se ainda não percebeste o que é a justificação pela fé, não és um evangélico. És apenas alguém que se tenta salvar a si mesmo de uma maneira romana dentro de uma igreja reformada.


A minha inesperada paixão por Paris
Não gosto de gostar de França mas Paris sabotou esta inclinação. Estive em Paris de Segunda-Feira a ontem, Quinta. Paris é uma cidade monumental. Foi feita num tempo (que levou muitos tempos) em que deixar-se encantar com a grandeza ainda não era um crime. Nesse sentido, e garantindo o meu apreço pela democracia, devo reconhecer que um sistema democrático dificilmente faz justiça a uma cidade imperial. Uma cidade imperial converge para um símbolo maior de majestade que a democracia não consegue oferecer. Não há realeza na maioria. Quando passeamos por Paris conseguimos imaginar a emoção de um desfile real e desejar ter lá estado. O triste progresso da extrema-direita em lugares como a França vem de uma saudade espicaçada pela monumentalidade das edificações parisienses que as urnas nunca conseguirão honrar no coração dos franceses. Não é só uma questão de clareza ideológica, é também uma questão de nutrição emocional de um povo.
Creio também que Paris transmite um qualidade urbana para a qual seremos chamados na Sião celeste. A Cidade das Luzes ensina-nos sobre a Cidade Eterna. Essa qualidade passa por apresentar a cidade como um lugar, que apesar de planeado pelo homem, consegue fazê-lo sentir-se pequeno. Paris dá-nos isto. O modo como foi edificada, nas suas praças e vias larguíssimas, põe o homem como participante (homens contruíram Paris) mas também como peregrino (homens construíram Paris para que outros homens dissessem: "nunca vi nada assim. Este lugar é novo para mim!").
Depois de visitar Paris é fácil compreender a vaidade francesa. Com uma cidade como Paris é absurdo brincarmos aos franciscanos. Ao mesmo tempo é fácil compreender o refrão da Amália ao cantar "Lisboa, não sejas francesa". Lisboa imita Paris no espaço que consegue. Não faz mal mas é preciso não exagerar. Lisboa será sempre maravilhosa por ser Lisboa, não tanto por querer ser Paris.
O meu companheiro Rui Ribeiro, que esteve comigo nestes dias na conferência City To City promovida pela Igreja Presbiteriana Redeemer do Pastor Tim Keller, foi perfeitamente predestinado para esta peregrinação. Imediatamente credenciou o seu passado de escuteiro e jogador de futebol americano para estabelecer: só não fazemos as distâncias a pé se a chuva ou o nosso corpo não permitirem. E eu pensei: perfeito!
Fomos parar a um hotel manhoso de duas estrelas, perto (percebemos depois) da Rua Pigalle. O quarto no terceiro andar era invadido pela luz neón do letreiro bem como pelo ruído do metro que aparecia à superfície bem à altura da nossa janela. Estávamos em Paris mas sentíamo-nos no Bronx. A coisa boa era que, decidindo nós evitar o infernal metro de Paris à hora de ponta, percorríamos o caminho de uma hora a pé até à Igreja Americana, onde era a conferência. Nesse percurso pedestre tínhamos um percurso teológico: vínhamos das ruas sinistras da Pigalle e do Moulin Rouge para a luz crescente e imponente do centro parisiense. A Madeleine (céus, a Madeleine!), o obelisco, a Praça da Concórdia, os Campos Elíseos, o Sena!
Numa manhã acabada de nascer apercebemo-nos da imponência de Paris. A magnitude da cidade é tal que até as condições atmosféricas têm dificuldade em fazer-lhe justiça. Neste caso, o nevoeiro tapara dois terços da Torre Eiffel. Quase que conseguíamos ouvir o clima a dizer à neblina: "Despacha-te a destapar a Torre que ainda não estamos a mostrar toda a cidade às pessoas que nela estão!" Paris convenceu-me. O que será do velho Tiago?


quarta-feira, outubro 22, 2014

O misterioso nadador da madrugada
Ontem consegui finalmente falar com o estranho homem que já tinha avistado uma meia dúzia de vezes a ir ao mar antes de mim. É preciso ter em conta que isto significa chegar à praia às sete da manhã ou antes ainda, no princípio do Outono, antes da hora mudar, quando o sol ainda não nasceu. Isto significa que em pura treva há alguém que sai da água quando me preparo para entrar. Sendo que significa também que, ao passo que eu dou um mergulho e saio, este estranho homem nada a sério. Entra no mar e dedica-se a braçadas vigorosas quando entrar no mar significa literalmente mergulhar na escuridão. Isto significa ainda que, para alguém medroso como eu, houve uns segundos ontem em que pensei que poderia estar na presença de um fantasma. Porque durante uns minutos, após ter visto este estranho homem a entrar, o perdi de vista. Foi nessa altura que pensei: "posso ter visto um fantasma." Pensei mais: "pode ser uma lenda de Santo Amaro de Oeiras: o misterioso nadador da madrugada." Para aqueles que achem estranho um cristão ponderar ter avistado um fantasma, relembro o episódio de Marcos 6 quando Jesus anda sobre o mar e os discípulos julgam-no um fantasma. Não seria eu o primeiro discípulo de Jesus a ter medo de um fantasma.
Mas, graças a Deus, não era um fantasma. Não só o estranho homem regressou do mar ao areal como consegui falar com ele. Como tinha referido há uns anos, há uma coloquialidade pronta entre pessoas que partilham hábitos incomuns. Se dois indivíduos albergam a mesma maluquice de entrar na água de madrugada, essa maluquice imediatamente se pode tornar uma comunhão oral. Essa é uma das coisas que se tem tornado uma oportunidade para mim, que apesar de tudo me sinto tímido e, por isso, não dado automaticamente a meter conversas com estranhos: uma semi-loucura assumida é um eficaz desbloqueador de conversas. Assim aconteceu. Troquei "bons dias" com o estranho senhor e ele revelou-se de uma grande simpatia. Tem uma pronúncia estrangeira e a conversa não chegou ao País dele ainda. Mas já permitiu que partilhasse a minha admiração pela ousadia deste estranho, e notável!, homem. Acabei por sair mais convicto de uma ideia geral que tenho sobre Portugal e os portugueses. Os estrangeiros têm mais facilidade em praticar aqui aquilo que os portugueses não praticam e talvez devessem. Há mar, há temperatura. Devia haver imersão no Oceano. Não é uma questão de obrigação. É uma questão de nos rendermos activamente ao prazer.


terça-feira, outubro 21, 2014

Ouvir
O que é positivo na presença de Paulo no Areópago de Atenas passa por ele apontar o que lá é negativo. Paulo não congratula o paganismo grego mas confronta-o.
O sermão de Domingo passado, o 3º da série "Uma igreja jovem sem ser juvenil, aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, outubro 20, 2014

Ser carismático como os Puritanos
Os Puritanos estavam obcecados com uma tarefa: louvar o Deus que é triuno. Não apenas louvar Deus. Mas louvá-lo demonstrando nesse louvor o facto de ele existir numa Trindade de pessoas diferentes num só mesmo Deus. O louvor prestado ao Deus cristão tem de ser necessariamente trinitário. Como é que isso se faz? Não é fácil resumir mas passa, necessariamente, por nos dedicarmos em cada gesto a reflectir que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
Os Puritanos eram cristológicos. Cristo é a chave de compreensão de tudo o que existe. Ele é a revelação de Deus Pai aos seus filhos. Ora, este Cristo chama todos os pecadores. O que é que isto significa? A chamada de Cristo pelos pecadores é universal. Todos se devem arrepender. Cristo oferece-se até aos que não sentem necessidade dele. Mas isto não significa que as pessoas vêm até Cristo a partir do facto da sua chamada ser universal. Como Joel Beeke e Mark Jones explicam: "A universal calling is not sufficient to draw people to Christ, but Christ does not stop at a universal call." Cristo não faz coisas em abstracto mas em concreto.
É possível irmos até Cristo porque: (1) Cristo quer que pecadores venham até ele, e (2) porque Cristo tem poder para salvar pecadores. Uma das forças da teologia reformada tem a ver com a sua ênfase preciosa, quando fala acerca da salvação, não no que os homens conseguem mas no que Cristo consegue. Não é muito mais reconfortante confiar na qualidade do trabalho de Cristo para a nossa salvação do que na qualidade da nossa escolha por ele? Cristo consegue o que nós não, e porque o Espírito Santo entra também em acção. O que nos leva a Cristo é a intervenção do Espírito Santo usando a Palavra de Deus, a Bíblia, para colocar fé no coração dos pecadores. Um pecador ter fé é um fenómeno sobrenatural que só é possível através de uma acção sobrenatural. Não somos cristãos porque tomámos uma decisão humana. Somos cristãos porque Deus fez um milagre divino em nós. A doutrina elevada dos Puritanos era uma prática carismática. Sem o Espírito Santo não há nada para ninguém. Os Puritanos tinham do melhor carismatismo que podemos almejar.
Vamos tentar colocar isto em pão, pão, queijo, queijo. Por um lado, os Puritanos ensinavam que devemos fazer tudo ao nosso alcance para irmos até Cristo. Por outro, explicavam que mesmo que façamos tudo ao nosso alcance, nunca conseguiremos ir até Cristo. É preciso o próprio Deus para irmos até Deus. É assim que se resolve o dilema prático. "Making a decision to follow Jesus is not what makes Christ's calling effective. The motion of our wills toward Christ results from a new creation by God in our souls."
Terminemos em ritmo trinitário, como começámos. "The Father is a willing drawer, the Son is a willing Savior, and the Holy Spirit is a willing enabler." Ou seja, todas as pessoas da Trindade trabalham no trabalho expiatório de Cristo.













[Escrito a partir do capítulo "The Puritans On Coming To Christ" do calhamaço "A Puritan Theology", de Joel Beeke e Mark Jones.]