segunda-feira, maio 02, 2016

O Bairro Janeiro no Público



Uma surpresa vinda do Brasil


O Yago Martins e o Felipe Cruz têm um programa no Youtube que mostra que a teologia só é chata para gente chata. E não é que dedicaram 17 minutos a falar sobre os meus Sermões Contra a Preguiça? É verdade. Verifiquem. Se não puderem ler o livro, ficam com o essencial dele neste vídeo.

Obrigado pela vossa generosidade, Yago e Filipe. Um abraço forte para vocês!

quinta-feira, abril 28, 2016

Um Fim-de-Semana à FlorCaveira: os palcos nobres e os palcos nulos





terça-feira, abril 26, 2016

Ouvir

É possível quem prega ter os seus sermões preferidos? Creio que sim. O de Domingo passado tornou-se especial para mim que o preguei. Porque é a partir de uma longa lista de pessoas, o que parece um ponto de partida chatíssimo. Porque é acerca do valor que as palavras e os nomes têm no cristianismo. Porque Deus enviou uma ilustração apropriada para o sermão através de um susto que apanhámos com a nossa Maria na sexta-feira.

O sermão chamado "Deus ama listas" pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, abril 25, 2016

Num dia histórico, um texto sobre a ignorância televisiva da história

Vi há uns dias uma reportagem que a Sic fez chamada "Uma Questão de Fé", onde pegava na ideia de sermos ou não um país católico. A premissa é boa. Pegar numa convicção generalizada - "Portugal é um país maioritariamente católico" - como base de um trabalho de reportagem pode resultar num belo pedaço de informação. Se nossa a comunicação social nos servir peças que aumentam o nosso conhecimento e que, por isso, contrariem algumas das ideias feitas, óptimo - é sinal que temos media que ajudam esta coisa de sermos civilizados contrariando a ignorância. A reportagem da Sic começou bem.

Acontece que a reportagem da Sic só começou bem. A partir do momento em que saiu para explorar a boa premissa que tinha ("será que Portugal é mesmo um país maioritariamente católico?"), a reportagem atirou-se a si mesma para a valeta. Não sei quem a assinou (não prestei atenção) e, por outro lado, até prefiro não saber. Pode ser um(a) colega meu/minha da Faculdade, do curso de Ciências da Comunicação da Nova e, mal por mal, se for esse o caso, prefiro a imparcialidade do desconhecimento do autor. Por outro lado, quero manter uma apreciação justa, quando tudo em mim se automatiza para que seja arrasador na crítica que vou fazer.

Para justificar que a reportagem se tenha atirado a si mesma para a valeta, tenho a necessidade de dizer duas coisas. A primeira é uma espécie de regra para qualquer iniciativa de trazer conhecimento numa área onde ele é pouco. É natural que quando não conhecemos uma coisa e ela nos é apresentada, a estranhemos. O que é novo em grande parte é estranho. Isto pode ir desde a matemática, à Coca-Cola, aos discos dos Velvet Underground. Logo, a melhor apresentação de uma coisa que não conhecemos não me parece ser enfatizar desnecessariamente a sua estranheza. Enfatizar desnecessariamente a estranheza de uma coisa que não conhecemos é, de certa maneira, contribuir para que não a queiramos conhecer. A estranheza, se for a qualidade destacada no processo de conhecer alguma coisa, é meio caminho andado para nos cortar o interesse por ela. Seja a matemática, a Coca-Cola ou os discos dos Velvet Underground.

Quando trago conhecimento numa área onde ele é pouco, devo conter os efeitos retro-activos da estranheza, preferindo abrir o caminho para o contexto. Olhar para o ambiente das coisas ajuda-nos a percebê-las melhor, mesmo quando elas não nos atraem. É por isso que, quando ensinamos alguma coisa que no imediato gera alguma estranheza, contextualizá-la pode ser o segredo para lhe vermos uma pertinência que a nossa primeira reacção não nos dá. Nem que seja para que no final, estando o assunto mais contextualizado, possamos ter uma relação de recusa informada dele.

Ora, se o assunto é "será que Portugal é mesmo um país assim tão católico?", não devemos duvidar que a ideia generalizada de nos termos como país maioritariamente católico assegura que, diante qualquer expressão religiosa não-católica, a estranheza será o mais fácil. Ou seja, esta reportagem é daqueles casos em que, independentemente do rigor da sua construção, há um efeito de estranheza que está garantido. Mais ainda: se o efeito de estranheza nos espectadores for confundido com informá-los, este tipo de reportagens é um sucesso garantido. Aliás, é por isso que no nosso país estas reportagens são cíclicas. Elas não são cíclicas porque nos informam - elas são cíclicas porque o efeito de estranheza que provocam é infalível e porque esse efeito é vendido como informação. Sejam estas reportagens sobre Testemunhas de Jeová na TVI, sobre neo-pentecostais na Sic, ou sobre curandeiros na CMTV.

Portanto, há esta primeira coisa que devemos entender: não estamos a ser informados quando confundimos estranhar uma coisa com entender uma coisa. Só por isto, a reportagem da Sic torna-se um belíssimo mau exemplo. Sei que não terá sido esse o objectivo, mas foi assim que me pareceu o resultado final. A reportagem da Sic mistura pastores evangélicos (uns quantos), com pastores quase-evangélicos, com pais de santo, com cientologistas, com pregadores de rua, com pais que perderam as filhas para o extremismo islâmico, numa barafunda daquelas que quando acontecem de certeza que as pessoas se juntam à volta para ver. Passamos de uma igreja evangélica que faz reuniões no Tokyo do Cais do Sodré (do meu amigo Mário Rui), para um português desdentado onde baixam espíritos brasileiros (não é meu amigo mas podia), a uma velocidade tal que eis-nos sentados numa versão carrocel-xunga da BBC. O pior no final não é saírmos chocalhados com tanta aparente maluquice. O pior é no final confundirmos esse achocalhamento com informação.

A inclusão de um leque tão largo de expressões religiosas numa só reportagem, em vez de mostrar que a religião é assunto que nos merece a complexidade, acaba a sugerir que a religião se limita a uma mesma maluquice que gera manifestações diferentes. Acredito que não era esse o objectivo dos jornalistas da Sic. Mas será que eles se deram ao trabalho de visionarem a reportagem com pessoas que, tendo uma maior cultura religiosa, lhes pudessem mostrar boas objecções à edição feita? Qual a política de supervisão de conteúdos que a redação da Sic tem?

Então como é que se faz uma reportagem séria sobre religiões minoritárias? Sugiro uns quantos cuidados. Para já, diminui-se o raio de alcance. Se quiser mostrar tudo, vou acabar a mostrar nada. Logo, não vale misturar alhos com bugalhos como se fosse tudo a mesma coisa. Vamos passar a ter uma coisa mais sóbria mas mais pertinente também. Depois, tendo escolhido um grupo reduzido de religiões minoritárias, explica-se de onde surgiram, mostrando os porquês e os comos. Querer dar conhecimento sobre, por exemplo, o movimento evangélico encharcando as pessoas em imagens dos seus serviços de culto mais excitados, é o mesmo que querer explicar as regras do futebol mostrando apenas imagens de jogadores e adeptos a celebrar golos. Por emocionante que a montagem possa ficar, não é assim que se deve fazer. E nesse sentido, deixem-me ser duro.

Jornalistas da Sic: esta reportagem foi uma boa tentativa mas não é assim que devem fazer. Por exemplo, querem apresentar o movimento evangélico? Façam um trabalho mínimo de pesquisa (nem que seja a partir de uma vista de olhos rápida na Wikipedia) mostrando por que razão a discussão sobre a justificação pela fé se tornou tão incontornável na Europa no fim da Idade Média. Pelo caminho, acabarão a entender porque o debate de a pessoa saber se se salvava por se manter ligada institucionalmente à Igreja em Roma, ou se se salvava por se poder manter ligada a Cristo independentemente da ligação institucional à Igreja em Roma, mudou não somente a religião europeia mas a própria Europa. Neste sentido, creio que o maior problema dos jornalistas da Sic não foi mostrar que percebem pouco de religião. O maior problema dos jornalistas da Sic foi mostrar que percebem pouco de história.

Por fim, há ainda dois detalhes na reportagem que merecem uma referência. Esses dois detalhes revelam um esquema ínvio da reportagem. Um deles é um tom de: "eh pá, já que demos nas vistas despejando aqui tanta aparente maluquice não-católica, talvez seja melhor arranjarmos alguma maluquice católica para não nos acusarem de parcialidade." E toca a filmar a capela da Santa de Arcozelo para equilibrar os valores de estranheza. O outro detalhe é a música final no plano onde aparecem os créditos. A escolha da música é toda uma religião em si mesma: o Tom Waits cantando o "Chocolate Jesus" sob a imagem de um crucifixo num automóvel agitado ao sabor do trânsito. Parece haver um credo da reportagem que reza que, tal como o Tom Waits canta sobre alguém que escolheu o seu Jesus preferido na forma de um chocolate numa loja de doces, a religião é um apetite que cada um mata como quiser. Este final é especialmente difícil de engolir porque corresponde a agitar a água do capote depois de se ter feito a dança da chuva. Depois de uma reportagem em zoom apertado sobre as esquisitices da religião, os seus autores atiram um muito pós-moderno: "quem sou eu para julgar?" Isto, crendo eu que não foi premeditado, cheira a cobardia intelectual.

A segunda coisa que vos queria dizer (segunda, depois de este texto todo?) é: sei do que falo quando escrevo sobre esta reportagem. Trabalhei mais de dez anos a fazer um programa televisivo sobre igrejas evangélicas ("A Luz das Nações" na RTP2). Deixem-me dizer-vos que até para mim, orgulhoso evangélico que sou, era difícil fazer um programa de televisão que conseguisse fugir de sublinhar a estranheza. Há evangélicos de tantas formas e feitios que os próprios evangélicos se estranham uns aos outros. Tendo em conta que o protestantismo (termo que uso como sinónimo do movimento evangélico) é por natureza mais extrovertido que o catolicismo (tem a ver com a tal questão da justificação pela fé), não há como fazer a quadratura do círculo. Os evangélicos têm de saber viver bem com o facto de não serem compreendidos. O que não têm é de viver bem com o facto de não serem bem compreendidos sob o pretexto de serem bem compreendidos. Perceberam a diferença? Uma coisa é que não nos compreendam quando fomos representados justamente. Outra completamente diferente é que não nos compreendam quando fomos representados para que não nos compreendessem.

A reportagem da Sic "Uma Questão de Fé" pode garantir audiências, mas informação nem por isso.


sábado, abril 23, 2016

Não quero que vos falte nada



Com horinhas e tudo para saberem dos cantores da vossa preferência.

quinta-feira, abril 21, 2016

Three brief thoughts on the City To City European Conference in Lisbon

[O saloio veio cheio de vontade de comunicar com os novos amigos europeus. Perdoem o inglês e bear with me.]

1. We need to listen to each other. I spent some time talking to two hungarian brothers. I asked one of them about his thoughts on the refugee crisis. Sometimes we are not ready to listen when words are not comfortable. He was careful and sincere and he did not make things easy for me. He treated me like an adult and shared that, as a christian, he and his christian brothers have to deal with a complex situation. Modern Europe is self-righteous about opening her borders to everyone. Russia is proud and hoping that the european civilization she despises will fall because of the refugee crisis. Pray for the refugees and don't forget to pray for Hungary and Russia too.

2. Greek people talk and feel like portuguese people talk and feel. We are not about having questions answered like our brothers in northern Europe. We are more about being suspicious when there's an answer for everything. It's true that we get in trouble a lot because of that - look at our economies. But at the same time, I would say that we can help our northern european brothers when right now their best shot at sharing christianity seems to come out empty. Because Reformed Christianity never arrived to southern europe, we're used to being a minority - which will be very helpful for every christian in the west.

3. Casa da Cidade did a great job opening its church to make the conference work. They have a solid culture of serving people. Me and the guys that came from Igreja da Lapa were inspired and desiring to learn more from them. Thank you, Pastor João Martins!



terça-feira, abril 19, 2016

Ouvir

Envolvemos aqueles que não crêem no processo de continuarmos a crer? Conseguimos tirar proveito da existência dos que não crêem? Somos espiritualmente humildes com os não-cristãos?

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

terça-feira, abril 12, 2016

Estreia

[Pediram-me que desse um breve testemunho na Conferência Europeia do City To City. Foi a minha estreia a falar em inglês. Fica o texto que serviu de base à minha intervenção.]


I'm Tiago, I'm 38 years old and I pastor a baptist church in Lisboa. We call her Igreja da Lapa. Whenever missionaries come from outside Europe and visit us, I always say three things. First: welcome! Second: the Bible says God wants to save europeans. And third: that happens slowly.

It's very important to explain that we, europeans, are not simple people. We are not better than other people because of that. And we are not worse than other people because of that, either. It's just the way we are and it has to do with our history. But Jesus Christ has grace enough for us.

Even when Tim Keller writes a masterpiece like “Center Church”, we, europeans, have to say: “It's not that simple, Tim”. And we make our own edition of “Center Church” with european people adding: “It's not that simple, Tim”. This fact helps to explain why things happen slowly in Europe.

We, europeans feel suspicious when things look simple. Because we feel like life is not simple. That's why our intellectuals are especially hard to understand. Because being hard to understand feels more in tune with life itself. If someone comes from the outside making things look simple, in the back of our minds we'll say: “this person does not understand existence”.

So it's hard sharing the gospel in Europe. God is not an easy thing to talk about. You can talk about God in other places of the world and people will feel free or liberated. You talk about God in Europe and it feels heavy, like having to deal with a painful family subject. This doesn't mean that the Holy Spirit will not work here. But it means that He will work here probably in a different way than He works in other places. And we should be following the Holy Spirit when we share the gospel. There is no other way.

So, to make things even more complicated, I am a portuguese evangelical christian. Being a portuguese evangelical christian is almost a contradiction. It's seems like a contradiction because the Roman Catholic Church was in Portugal even before Portugal was Portugal. Being a portuguese without being a roman catholic is like a bug in your system - everything looks like it's going to shut down. So, every portuguese evangelical christian is only semi-portuguese. Sting used to sing that he was a legal alien, being an “englishman in New York”. It's not that different from being a portuguese evangelical christian - we are legal aliens. We exist but we don't belong.

Great opportunities come out of being a legal alien. You can get away with things that normal humans can not. Because you don't belong, you are more willing to take risks. Remember, they can never put you out if you never fit in. In that sense, I believe that a country like Portugal can be a terrific place to share the gospel. If the gospel means depending on a higher power, you don't need to be in line with the civil powers of your land to share it. If we are talking about sharing Christ when you feel out of step with the world, I guess portuguese evangelical christians can help. We're very good at being ok with not being understood.

But there's a problem too. Sometimes we are excessively ok with not being understood. We can even get to the point of loving not being understood, and we can even get to the point of not caring about not being understood. And when that happens, you're not behaving like a christian anymore. You are starting to feel superior in the way you live out your faith. And that is a very spiritually dangerous place. If we are talking about only sharing the gospel when you feel out of step with the world, I guess portuguese evangelical christians can be a great example, which is not necessarily a good thing.

So, it's a good thing being a portuguese evangelical christian because you don't have an easy mainstream religion. But it's a bad thing being a portuguese evangelical christian if that means not caring for those in the mainstream.

Eight years ago we began a new church here in Lisbon. After five years, we went on with that new church merging her with a old dying church, at the other side of the city. Right now, we are a kind of a false old church. When we want to feel respected, we say we have 86 years old, which is technically true, because having more than 8 decades is a lot for a protestant church in Portugal. When we want to feel free, we say we began our thing less than a decade ago. We can have them both. We have a largely young fellowship of people, having a good number of twenty and thirty somethings, with lots of kids. We've been gathering more than a hundred people each sunday, which is a very encouraging figure for a portuguese standard.

Portugal, like Europe, is changing a lot. We are not a deeply catholic country like we have been before. Most of the people will still present themselves as roman catholics, but serious and committed roman catholics are a minority within catholicism. One good thing about nominal christianity is that it is very easy to beat. Nominal christianity is intellectually and emotionally weak. Thus, it's hard to feel atracted to nominal christianity. When you meet a nominal christian you know he is closer to leaving christianity than he thinks. Which, in the long run, means that as nominals get out, you can get a better perspective on what real christianity is.

As a church, we walk away from being hostile towards serious catholicism because serious catholicism also tries to walk away from nominal christianity, like we do. That does not mean that we are not very upfront about our protestant convictions. But it means that we choose nominal christianity as a greater enemy to our faith, also because even in evangelical circles you can find nominal christianity. Being very anti-catholic is a very common thing for portuguese evangelical christians that right now doesn't help them sharing the gospel outside the very small protestant environment.

As a church, Igreja da Lapa is traditional inside and punk rock outside. Some of us grew up in the 90's Lisbon suburban punk scene and we are still trying to keep things real. We don't try to be rock'n'roll during the service because being rock'n'roll is generally a very american way of doing religion. America is a young continent and still feels like a teenager about its faith. In Europe, being weird will only make things unnecessarily hard for you. We're ok not being understood, but let's not lose perpective on the people we are trying to reach. So, our services are pretty traditional and they can feel foreign to people outside the evangelical community, but foreign in a way they can expect. We prefer to be strangely traditional than traditionally strange.

It's on the outside that we will feel free to try different things. We make records and we write books that are available in regular shops. We are not having loads of people coming from the outside. Remember, this is still Europe. But we are asking God to make us more available there, in that very, very large space where the gospel still feels dangerous, alien and, hopefully, continues to be good news. Probably it will happen slow. And what's the problem if that is the way God wants to save europeans?

Please pray for us.



Ouvir

Esdras e Neemias são livros muito modernos.
1 - parece que já não é tanto Deus que tem um povo, mas mais um povo que tem um Deus.
2 - os actos já parecem ser mais das pessoas que acreditam, do que propriamente de Deus.
3 - parece que os governantes humanos mandam mais que Deus.
4 - já é possível não ver Deus nos seu actos e é normal não acreditar nele.
5 - há uma transição da era da profecia para a era da pregação e parece que já não é Deus que nos manda trabalhar, mas somos mais nós que pedimos que Deus trabalhe.
Mas, apesar disto tudo, Deus está a trabalhar mesmo quando parece que não faz nada.

O sermão pode ser ouvido aqui.


sexta-feira, abril 08, 2016

O sermão do monte vai dar cabo da tua vida

Uma razão porque confio que Jesus é Deus é porque Jesus se comporta comigo como um Deus. Ele diz-me coisas que seriam insuportáveis de ouvir a um ser humano. Mas se ele for Deus, como acredito que ele é, posso ter algum consolo. Este consolo não significa que as coisas insuportáveis que ele me diz se tornam maravilhosas de ouvir. Mas significa que, sendo Jesus um Deus para mim, posso sentir-me consolado porque o poder de suportar as coisas insuportáveis que ele me diz vem dele mesmo.

Não quero ser irritante ao generalizar mas é insuportável que não saibamos lidar com coisas insuportáveis. A nossa tendência é querer tirar de Jesus o que nele nos parece insuportável porque assim já o podemos suportar. O pior é que se só lidarmos com Jesus quando o conseguimos suportar, significa que obviamente ele deixou de ser um Deus para nós - arranjámos nós uma maneira de sermos maiores do que ele.

Cristãos que nunca se zangam com Cristo são uma raça que devemos evitar. Não devemos confiar neles. Cristãos que se sentem sempre a amar Cristo são os mais perigosos de todos. Cristãos que lêem a Bíblia e ficam à rasca - essa é a equipa de que quero fazer parte. Dou um exemplo.

Ontem li este texto no sermão do monte, em Mateus 7:6:

“Não deis aos cães o que é santo nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas. Para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” Baza ler o texto com alguma racionalidade e concluir coisas?

Três.

1. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor. Aos cães não devemos dar o que é santo, bem como aos porcos não devemos dar joias.

2. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor estraga as coisas valiosas que lhe são dadas. Os cães e os porcos pisam as pérolas e as coisas santas que recebem.

3. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor acaba por voltar-se também contra quem lhe deu as coisas valiosas. Os cães e os porcos, depois de pisarem as pérolas, dilaceram quem as deu.

São palavras duríssimas. E difíceis de encaixar com um evangelho de graça que, pelo menos a determinada altura, supõe sempre que quem não reconhece o valor está a receber algo valioso. Afinal, o evangelho alcança-nos quando, num certo sentido, ainda somos cães e porcos. Como lidar com esta aparente contradição?

Como avaliaremos quem é o cão e o porco quando, se formos sinceros connosco e com o evangelho de graça que nos alcançou, a determinada altura também nos sentimos como cães e porcos? A quem pregaremos e a quem deixaremos de pregar se num certo sentido todos são cães e porcos?

Tenho de ler muito mais a Palavra e depender do Espírito para, quem sabe, ter uma resposta melhor para estas perguntas. Tenho de receber de Deus o poder dele, através do Espírito Santo, para lidar com este texto que me parece insuportável. Uma coisa é certa: se Jesus não quisesse que lidássemos com estas palavras, não as teria dito e o Espírito Santo não as teria preservado nas Escrituras. Ter fé também é isto. E a cambada de cristãos armados em hippies que dizem que o sermão do monte é que é a cena, pensem duas vezes antes de se meterem com pólvora desta. O sermão do monte vai dar cabo da tua vida.

quinta-feira, abril 07, 2016

Nas bancas

Já está nas bancas a Revista Ler onde escrevo sobre John Updike e o profeta Obadias (não é esse do livro do Velho Testamento, é o outro). Goes like this:

Na Europa, há casos em que a qualidade de um escritor cresce na medida inversa à quantidade de vezes que aparece em capas das revistas. Portugal também demonstra este fenómeno nos escribas-ermitas. Estes escribas-ermitas têm o condão de serem bem sucedidos na literatura do mesmo modo que um extremista é bem sucedido no terrorismo: poucas são as fotografias que lhe conhecemos. Aliás, há quem ache que só os escribas-ermitas são dignos do ofício literário que exercem, lançando uma suspeita para qualquer um que consiga dar-se a convívios além das letras.





quarta-feira, abril 06, 2016

Ouvir

Temos de ter muros. Oramos pelo nosso governo. Mas o Estado não manda na Igreja. Quem manda na Igreja é Jesus Cristo.

segunda-feira, abril 04, 2016

Insistir

Entretanto meteu-se a Páscoa e houve lutas que ficaram meio paradas. But we're not down, we're not down. Lembram-se daquele desgraçado cartaz que está espalhado por todo o concelho de Oeiras? Pois bem, recebemos duas respostas, uma do Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Oeiras informando-nos que dariam "conhecimento das preocupações que nos expressa ao Teatro Independente de Oeiras", e outra da Assembleia Municipal informando-nos que a nossa "mensagem foi apresentada na reunião de líderes dos grupos políticos municipais e, como tal, tomaram os grupos políticos conhecimento da mesma". Não quero ser injusto com a atenção que nos deram, mas tendo em conta que o número de cartazes na rua aumentou, insistimos.

Como não estamos aqui para fazer vida fácil a quem torna mais difícil a educação dos nossos filhos, gostava de pedir que se dessem ao trabalho de assinar esta petição (clicar em cima de "assinar esta petição"). Pode não servir para tirar esta tristeza das ruas. Mas que sirva para não nos tornar indiferentes à formação e integridade dos nossos mais novos (e, já agora, dos mais velhos também). Obrigado!

sábado, abril 02, 2016

Falta menos de um mês! Agenda com este evento!




quinta-feira, março 31, 2016

Ouvir e ver

Desta vez não vão querer perder o sermão porque dá para ver e tem os baptismos no final.


sábado, março 26, 2016

Um texto pascal a malhar no "Aleluia" do Miguel Esteves Cardoso

Mantenho a minha tese: começasse hoje o Miguel Esteves Cardoso a sua carreira e teria o mesmo grau de charme público do João César das Neves. Reafirmo a minha tese: não fosse o Miguel Esteves Cardoso o Quixote da cópula, coca, e calão da era Reagan portuguesa, e não rachava lenha nos corações da elite dita intelectual que nos calha em sorte.

O texto que o MEC escreve hoje no Expresso, dedicado ao chamada Sábado de Aleluia, é uma prova da minha tese que a sua eficácia literária se constrói na proporção inversa ao desejo dos seus leitores extraírem (ou quererem extrair) algum significado do que escreve. Se não, vejamos o seu final (googlem-no para o lerem na íntegra).

"Não acreditar em Deus - aos olhos de Deus, caso Deus exista e tenha olhos - não pode, por definição divina, prejudicar quem não acredita. Todas as crenças - desde o nada ao Deus omnipotente - começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não. Nem Deus nem a verdade têm alguma coisa a ver com isso: esse isso que somos nós. O Sábado de Aleluia não compromete. Ou só um bocadinho. O que importa é sabermos manter estas distinções e não nos deixarmos levar por tudo o que nos apaga."

1. Na prosa Cardosiana uma boa parte do segredo passa pelos parêntesis ou pelo que se escreve entre os tracinhos. MEC não brilha especialmente na solidez das suas ideias mas no modo como, quando dá um ar de ter alguma, rapidamente aproveita a ocasião para desabafar. MEC é um orador brilhante quando espirra, não quando tenta convencer alguém da pertinência do seu discurso. Neste texto isto vê-se no "caso Deus exista e tenha olhos". A maior parte dos seguidores de MEC excita-se com as entrelinhas porque as entrelinhas são perceptíveis como as linhas não são. O resto do texto avança sem que se perceba o que MEC está a querer dizer (who cares?) mas o fundamental é o sorriso desenhado pela possibilidade de Deus ter olhos.

2. Portugal ama prosadores como MEC porque eles encarnam o velho intelectual corpulento mas agora com uma roupinha moderna. Como fomos um país tragicamente poupado da Reforma Protestante, continuamos mais seduzidos pela representação simbólica que propriamente pelo significado dos símbolos (em boa parte, chega-nos a eucaristia principalmente porque não a entendemos). Percebemos que um intelectual é preciso para nos dizer coisas que nos escapam, mas em vez de nos interessarmos pelas coisas que efectivamente nos escapam, ficamos contentes por saber que o intelectual está lá para desempenhar esse papel, indiferente ao facto de se fazer entender. Por isso, Portugal continua a respeitar pessoas que se especializam em falar sem serem entendidas, porque dessa indecifração nasce um sentimento de conforto por alguém estar a fazer uma coisa que reconheço que tem importância, ao mesmo tempo que não preciso de me sentir especialmente virado para ela.

3. Segundo MEC, "não acreditar em Deus não pode, por definição divina, prejudicar quem não acredita". A esta frase Jesus chamaria na semana santa um figo que, irritantemente, não dá para ser trincado. Mas dá vontade de querer trincar a frase, nem que seja porque nos demos ao trabalho de lê-la. E dá vontade de dizer, sem querer ser demasiado chato (porque ser chato é na ética MECiana o derradeiro pecado imperdoável): "ó Miguel, já agora podias explicar melhor por que estás tão seguro do que acabaste de dizer? Explica lá de onde tiraste a ideia que não acreditar em Deus não prejudica quem não acredita." Mas, lá está, sabemos que a estética literária em causa é circular e intransponível: a partir do momento que o leitor de MEC queira tirar sentido do que leu, acabou de revelar que não está à altura de ler o autor. E lá voltamos ao ponto 2.

4. A seguir, lemos que crer no nada é o mesmo que crer no Deus omnipotente. A sério? Isso só poderá ser se, na prática, o nada e Deus forem a mesma coisa. Se o nada for zero e Deus for Deus, como se pode dizer que acreditar em nada é o mesmo que acreditar em Deus? Ah, mas espera aí: esta afirmação está entre tracinhos. É daqueles desabafos onde o MEC brilha, por oposição a querer dar-se ao trabalho de fazer algum sentido. E, como já vimos, é aqui que realmente ele se destaca. Significando isto que a maior parte das pessoas desistirá de ser consequente com o que a frase quer dizer mas sairá reconfortada por ter ouvido que acreditar em nada e em Deus é a mesma coisa.

5. Mas a tal frase que embrulha o que vimos escrito dentro dos tracinhos, diz-nos "todas as crenças começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não." Eu estou a tentar reprimir o meu grau de cinismo. Não é fácil. Mas só consigo sentir vontade de escrever: uau. O Público não me orienta uma colunazinha para tentar umas coisas parecidas? No primeiro texto escreveria, como primeiro pastor evangélico a ter uma coluna no Público, assim: "Todas as crenças começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não."

6. Mas a revelação moral é guardada para o remate. Ou não fosse o MEC um anglófilo, sucker por punchlines. "Nem Deus nem a verdade têm alguma coisa a ver com isso: esse isso que somos nós." Como crente, me confesso: é isto que me deixa louco pelos descrentes eruditos, esta mistura de "nem penses nisso mas se quiseres dou um jeito". A rejeição dos dogmas embrulhadinha noutro, bastante rarefeito e legitimado pela condescendência típica de um existencialismo doméstico. Até a música da frase, ressoa: "esse isso que somos nós". É quase litúrgica, pelo modo como nos coloca como árbitros últimos dos assuntos pelos quais Deus se interessa ou não. Nós, auto-divinamente homologados, é que sabemos. Deus não tem nada a ver com o que somos e com o que acreditamos. Posso ouvir um amém?

7. Por fim, em glória verbal, o assunto que dá título ao texto desce para coroar a tese (?) que serviu de pretexto. "O Sábado de Aleluia não compromete. Ou só um bocadinho." Tem graça porque o esquema não deixa de ser religioso. A suposta lógica do que MEC escreve nunca chega propriamente a envolver-nos, vai apenas ao ponto de nos aparecer, como numa visão beatífica. Aqui está ela, olha já foi embora outra vez! O que é que aconteceu mesmo? Não sei, mas que foi do caraças, foi. "O que importa é sabermos manter estas distinções e não nos deixarmos levar por tudo o que nos apaga." Não é? Acho que sim... Espera! Acho mesmo! Este MEC é incrível.

Uma boa Páscoa, pagãos!



sexta-feira, março 25, 2016

O rastilho da semana santa - o que fazer com o Jesus que nos derruba, nos desmascara, nos manda adorá-lo, e nos humilha?
João 18:1-19:42

Durante esta semana olhámos para alguns objectos retirados de episódios vividos por Jesus na semana antes de ser crucificado. Por cada um desses objectos, um desafio é-nos colocado.
O primeiro objecto é uma das mesas dos cambistas que foram expulsos do Templo de Jerusalém por Jesus (Marcos 11:15-19). Jesus derrubou as mesas dos vendilhões para lhes mostrar que adoravam os seus negócios em vez de adorarem Deus. Os comerciantes vendiam coisas no Templo porque não percebiam que o mais valioso era Deus.
O segundo objecto é o figo que ficou por trincar, na figueira que parecia ter fruto (Marcos 11:12-14). Da mesma maneira como Jesus esperava um louvor verdadeiro no lugar onde o louvor deve existir - o Templo, Jesus esperava fruta boa do lugar onde ela deve existir - a figueira. A figueira acaba amaldiçoada e seca por Jesus porque o fruto não se finge, trinca-se.
O terceiro objecto é o perfume esbanjado no jantar em betânia, pela mulher (que seria Maria, irmã de Marta e Lázaro) que unge os pés de Jesus (Marcos 14:3-9). Se o nosso louvor não cheira, esquece. Se o nosso louvor não é caro, esquece. Se o nosso louvor não chateia os sensatos, esquece. Jesus elogiou o perfume derramado para deixar claro que ou o nosso louvor nos põe em órbita de Cristo, ou limitamo-nos a usar o nome dele para nos louvarmos a nós próprios.
O quarto objecto é a bacia que Jesus usou para lavar os pés dos discípulos (João 13:1-20). Jesus teve um gesto destes com pessoas que discutiam entre si para provarem que eram melhores que as outras. Jesus foi humilde com gabarolas. Jesus não lavou os pés dos discípulos pela nobreza moral deles. Jesus lavou-lhes os pés na bacia porque lhes faltava nobreza moral.
O primeiro objecto lembra-nos que Jesus nos derruba. O segundo objecto lembra-nos que Jesus nos desmascara. O terceiro objecto lembra-nos que Jesus manda-nos adorá-lo acima de tudo. O quarto objecto lembra-nos que Jesus nos humilha. O que se faz a alguém que manda abaixo o nosso negócio mais bem sucedido? O que se faz a alguém que revela que nos tornámos bons a fingir que somos bons? O que se faz a alguém que nos exige louvor acima de tudo aquilo que já amamos? O que se faz a alguém que não alinha connosco em discussões sobre superioridade moral? O que se faz a quem nos derruba? O que se faz a quem nos desmascara? O que se faz a quem nos manda adorá-lo? O que se faz a quem nos humilha? O que se faz com este Jesus?
Há o risco de, pelo menos, termos vontade que essa pessoa deixe de existir na nossa vida. Há o risco de, podendo contribuir para que ela desapareça da nossa frente, prefiramos que ela morra em vez de que ela viva. Foi isso que a multidão preferiu e provavelmente seria isso que preferiríamos também.
Mas há uma outra maneira de olharmos para este homem, para este Jesus. O que fazer, se esse alguém que nos derruba o negócio mais bem sucedido conseguir, através desse derrube, abrir-nos a porta para adorarmos o que é maior ainda que o nosso negócio mais bem-sucedido? O que fazer, se esse alguém que nos desmascara conseguir, tirando-nos a máscara, fazer-nos saborear uma bondade acima daquela que fingimos? O que fazer, se esse alguém que quer que o adoremos acima de tudo nos mostrar que nele podemos ter um amor maior que todos os outros nossos amores? O que fazer, se esse alguém que é humilde connosco para nos mostrar que somos maus, não desiste de nós quando nós já desistimos de todos? A alternativa pode ser adorá-lo como o Deus que ele diz que é. Que Deus nos ajude nisso.



quinta-feira, março 24, 2016

O rastilho da semana santa - as mãos de Deus nos pés dos homens

O Padre António Vieira é daqueles portugueses que todos os portugueses deveriam ler ao longo da vida. Vou mais longe e declaro que o Padre António Vieira chega para Camões, Fernando Pessoa e Saramago juntos. Venham eles que o Padre arruma-lhes as botas. E defendo isto, mesmo tendo em conta que uma pessoa tão genial como o Padre António Vieira foi muito pouco inteligente quando falava dos calvinistas. Ninguém é perfeito.

O Padre António Vieira escreve um sermão que é o Sermão do Mandato onde usa esta expressão excelsa para descrever a lavagem que Jesus fez aos pés dos discípulos: "as mãos de Deus juntas com os pés dos homens". As mãos de Deus nos pés dos homens. Não há melhor que isto.

É preciso ter em conta o contexto. Este é o último jantar de Jesus com os discípulos. É uma daquelas ocasiões em que se fala com o coração, em que tudo o que é dito tem muita importância. A conversa tanto passa por declarações de amor como passa por declarações de traição iminente - como se sobrevive a uma refeição destas?

Vale a pena lembrar que se calcula que antes de Jesus ter lavado os pés dos discípulos, houve entre eles uma discussão inacreditavelmente estúpida: quem era o maior deles (Lucas 22:24-30). Quem é que sente vontade de lavar os pés a pessoas que vivem a tentar provar aos outros que são as mais importantes? No entanto, é neste grau de provincianismo que os discípulos andam e são servidos por Jesus. Jesus não vem ao nosso encontro por causa da nossa nobreza moral. Jesus vem ao nosso encontro porque nos falta nobreza moral.

A semana santa, quase a acabar, é pólvora. Ela não é um programa de recompensa a homens bons. A semana santa serve para dizer que maus somos todos, até os que andam no melhor caminho que é seguir Jesus. Jesus também lava os pés dos seus discípulos como símbolo que não é a sujeira do nosso carácter que o vai impedir de se sacrificar por nós. Aliás, é a sujeira do nosso carácter que torna pertinente que ele se sacrifique por nós. Precisamos de ser salvos e os nossos pés sujos apenas sublinham a mensagem.



quarta-feira, março 23, 2016

O rastilho da semana santa - o perfume esbanjado no jantar

Semana santa a meio e Jesus vai jantar a Betânia. Aliás, Jesus estaria a usar Betânia como hospedagem, o que significa que faria todos os dias, por causa do caminho para Jerusalém, pelo menos doze quilómetros (quando foi a última vez que fizemos 12 quilómetros a pé?). A meio do jantar, uma mulher (que muitos teólogos identificam como Maria, irmã de Marta e de Lázaro) faz o impensável: unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo, enxuga-os com o seu cabelos, e enche a casa toda com o cheiro do bálsamo. Numa comparação simplista, diria que isto é o equivalente a, a meio de uma semana enlameada de tropa, termos um tratamento no spa mais caro da cidade. Digamos que vem a contra-ciclo.

Uma pessoa sensata diz: que desperdício. Que esbanjamento sem sentido. Que exagero. Com tanto mundo para salvar, Jesus vai aceitar uma enormidade pessoal destas? Vamos ensinar a esta mulher uma lição de sensibilidade social e canalizar este orçamento para o combate à pobreza. Espera: Jesus vai dizer alguma coisa... "Pobres? Sempre os terão convosco e podem fazer-lhes bem quando quiserem. Já comigo, nem por isso." O quê? Jesus acabou de dizer mesmo o que acabei de ouvir? Não pode...

A semana santa não está cá para nos tranquilizar. Os acontecimentos da semana santa servem para nos pôr os nervos em franja. Esta mulher dá-nos um exemplo para recordar. Somos chamados a um louvor que deve ser avaliado em odor, orçamento e ousadia. Se o nosso louvor não cheira, esquece. Se o nosso louvor não é caro, esquece. Se o nosso louvor não chateia os sensatos, esquece. Ou o nosso louvor nos põe em órbita de Cristo, ou limitamo-nos a usar o nome dele para nos louvarmos a nós próprios. Não há meia medida possível.

Não é por acaso que é este evento que no evangelho de Marcos serve de gatilho a que Judas venda Jesus por trinta moedas. O lucro que Judas vai buscar por trair o Mestre é o que acontece sempre que rejeitamos louvá-lo. Podemos queixar-nos da imposição da dicotomia mas segundo a Bíblia só temos mesmo duas possibilidades diante de Cristo: ou o louvamos ou tentamos sacar da existência dele um lucro para nós. A mulher seguiu o louvor e Judas seguiu o lucro.

Como cristão, uma das minhas actividades preferidas tem de ser esbanjar em Cristo. Não levem a mal o meu exagero mas é mesmo assim: com Cristo não quero estar com tretas. Numa Europa assustada com o fundamentalismo religioso, sei quanto afiado pode parecer o meu discurso. Mas o meu Deus é Cristo e não a Europa. Sei que grande parte das vezes a censura ao excesso do meu louvor virá até daqueles que também se dizem religiosos. Afinal foram discípulos que censuraram este esbanjamento. Mas quero estar-me nas tintas para o lucro. É no louvor que tenho os verdadeiros resultados que se podem medir em odor, orçamento e ousadia.



terça-feira, março 22, 2016

O rastilho da semana santa - o figo por trincar

Nem sempre é fácil alinhar cronologicamente os acontecimentos da semana santa. Estima-se que antes de Jesus ter purificado o Templo, expulsando os vendilhões, se deu o episódio da figueira. Este episódio da figueira é um figo! Perdoem-me a piada pouco imaginativa mas há sabor que chegue nele.

Por um lado, é perigosamente divertido o que aqui acontece: Jesus tem uma das atitudes menos ecológicas da sua carreira. Aliás, podemos mesmo dizer que por duas vezes Jesus usa o seu poder divino para fazer milagres que não melhoram a vida a ninguém. O primeiro milagre que Jesus fez que não melhorou a vida a ninguém foi a expulsão dos demónios para os porcos na zona de Decápolis. Foi um milagre de percentagem zero de ecologia. O segundo milagre que Jesus fez e não melhorou a vida a ninguém é precisamente este da maldição da figueira. Também é um milagre de percentagem zero de ecologia. Quando quer, Jesus sabe que ver coisas arruinadas também pode ter graça. Neste caso, lá se foi a figueira.

Mas como podemos imaginar, Jesus não se armou em vândalo. O texto diz que Jesus estava mesmo à espera de sacar um figo daquela figueira e foi da sua pura frustração que a amaldiçoou. Há uma mina cheia nesta passagem. Uma das joias é entender que o facto de Jesus ser Deus não desrespeitava o facto de ser homem e, portanto, ter um conhecimento limitado de algumas coisas. Outra das joias é descobrir que o que irrita solenemente Jesus é o facto de a figueira aparentar ter figos, mostrando folhas - o que significa que Deus não tem pachorra para fingidos. Ou seja, o pior não é passar fome. O pior é passar fome quando nos prometeram que íamos comer à grande.

Por estas razões, este episódio da figueira é gémeo do episódio das mesas derrubadas no Templo. Jesus não suporta fraudes. Da mesma maneira como esperava um louvor verdadeiro no lugar onde o louvor deve existir - o Templo, Jesus esperava fruta boa do lugar onde ela deve existir - a figueira. O que é que acontece com tudo o que macaqueia a virtude que na verdade não tem? Acaba ou no chão ou seco.

A semana santa é pólvora. Jesus mais do que nunca mostra os dentes. E é porque Jesus quer trincar alguma coisa de consistente que age da maneira como o texto bíblico nos mostra. Estes episódios de ímpeto do Messias são episódios de apetite. Deus está vivo e encarnado. Tem fome, esperneia e parte coisas. Jesus quer fincar os maxilares na nossa vida. Que frutos decentes temos para lhe saciar a fome?



segunda-feira, março 21, 2016

O rastilho da semana santa - a mesa

Não é difícil que o cristianismo seja tido como uma religião de desapego em desapego, até ao clímax final em que morremos porque já nada mais tem valor para nós se não uma existência espiritual. Acontece que isto não é cristianismo. E por estarmos na semana antes da Páscoa, vale a pena estar atentos a algumas coisas que aconteceram com Jesus na semana antes de ser crucificado.

Jesus não foi crucificado por ser um idealista. Jesus foi crucificado por ser um realista. Jesus não foi crucificado por gostar de ser pisado pelos outros, sem reagir. Jesus foi crucificado porque é ele que um dia será o juiz de todos e a reacção a isto é que disparou a sentença de morte que recebeu. Logo, a chamada semana santa não é uma semana em que Jesus vai pulando de nenúfar em nenúfar, armado em proto-Ghandi da Palestina. A chamada semana santa é uma semana em que Jesus desancou gananciosos no Templo, é uma semana em que quer trincar figos que lhe escapam, é uma semana em que discute cara a cara com os fariseus, é uma semana em que enche a barriga em Betânia, e é uma semana em que faz questão de pôr as mãos nos pés dos discípulos para os lavar.

Jesus não morreu como consequência de ser um homem que se foi apagando pelo facto de as suas utopias não se cumprirem. Jesus morreu por ter nas suas mãos cada segundo do destino da vida de todas as pessoas. É este tipo de poder que nos faz querer matar alguém. Não queremos matar tipos mortiços armados em filantropos. Queremos matar homens que se dizem à estatura de deuses porque são pessoas assim que colocam em causa o modo como vivemos.

O objecto para reflectirmos hoje é uma mesa. Uma mesa direitinha e organizada, reflexo de uma grande negócio que nos corre à maneira. Uma mesa que é o orgulho da nossa vida, tão riquinhos que nos sentimos. Uma mesa que de tão bonitinha que é, a levámos para o Templo como símbolo do melhor que há em nós. As pessoas no Templo, impressionadas por a vida nos correr de feição, ao olharem para a nossa mesa, passaram a aceitar-nos lá e dão um espaço especial para a nossa mesa. A mesa do nosso negócio é tão bem sucedida que já se confunde com a nossa adoração. Quando pensamos em adorar, é a partir da mesa do nosso negócio que o fazemos. Somos uns adoradores impressionantes, porque a nossa mesa não engana ninguém - quem poderá colocar em causa que vivo segundo a vontade de Deus se o negócio me corre tão bem?

Entra Jesus. Jesus? Nem temos tempo de perceber bem quem ele é porque quando damos conta a nossa mesa está estatelada no meio do chão. O melhor que fizemos na vida está no tapete agora. E o homem que o fez, em alucinação total, segue a derrubar o melhor que aqueles que estão ao nosso lado também fizeram com a sua vida. Quem é que vai parar esse louco? Alguém tem de parar esse louco. Eu quero matar o louco que acabou de mandar abaixo o negócio mais lucrativo da minha vida, ainda por cima um negócio aprovado pela minha religião. Eu quero matar Jesus. Ele é um tipo perigoso mas vai ver a desforra que lhe espera.

Um tipo perigoso que tem a mania que é Deus. Só alguém que se julga Deus pode pegar no melhor que consegui com a minha vida e dar-se ao luxo de dizer que não vale nada. A semana santa não é um passeio no parque. A semana santa é um rastilho prestes a chegar ao fim. No final só pode dar estrondo do grande.



quinta-feira, março 17, 2016

Mais um vídeo

Esta semana só dá vídeos bonitos. Vejam a Igreja da Lapa a caminho da Páscoa.

quarta-feira, março 16, 2016

Novo single do novo disco

Eis o segundo single do novo disco: "Karaoke no mundo das trevas". Vão precisar de o ver pelo menos duas vezes. A primeira é para ouvir a letra e a segunda é para rir das fotografias. As imagens têm cerca de 20 anos (algumas têm mais, algumas têm menos). Quem realizou o teledisco foi o Tiago Ramos, que é a pessoa a quem dedico esta canção.

O Tiago Ramos é o meu companheiro musical mais antigo. A letra da canção fala do assunto. Tenho amor pelo meu amigo Tiago e esta canção é uma maneira tosca mas sincera de lhe dizer isso. Também aproveito para agradecer aos outros companheiros, o Ricardo, o Manel, o Carlos, o Miguel, e os outros que assistiam aos nossos ensaios e concertos - sou muito grato a Deus por vocês.

O Tiago espalhou uma data de fotografias antigas na mesa da casa dele e fez uma espécie de mistura de plano-sequência com aqueles mosaicos fotográficos dos discos antigos de hardcore. No final, aparecemos como estamos hoje, para darmos um ar da nossa graça actual. Acho que em comparação com o passado, não estamos assim tão mal.

O disco "Bairro Janeiro" sai no dia 30 de Abril num concerto de oito horas na Flur (do meio-dia às oito da noite, que os nossos horários são amigos das famílias), onde vão tocar muitos amigos, desde o Rui Pregal da Cunha (a representar os heróis que tínhamos há vinte anos) ao Filipe Sambado (a voz mais excitante que aí anda na nova música portuguesa - mark my words!). Em breve ponho o cartaz, que estou a acabar de desenhar.

See ya in the pit.

terça-feira, março 15, 2016

Ouvir

Quem reage com mais intensidade a Jesus não são os seus amigos mas os seus adversários. No caso dos discípulos, há mesmo um ritmo molenga, em contraste com a energia dos que não gostam de Jesus.

O sermão de Domingo passado, chamado "O problema é querer entrar a ganhar", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, março 09, 2016

É simples e bonita a capa do novo disco

terça-feira, março 08, 2016

Ouvir

O problema de Jesus não foi ter chateado os romanos por se ter metido com César. O problema de Jesus foi ter chateado os judeus porque se ter metido com o Deus deles. Jesus não morreu na cruz por ter sido um grande homem; Jesus morreu na cruz por se ter feito igual a Deus.

O sermão de Domingo passado, chamado "Continuamos a querer matar Jesus", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, março 07, 2016

Um texto que também é uma carta aberta aos responsáveis cívicos do Concelho de Oeiras

Ser um bom comediante é ser um bom político. Um bom número cómico pode ter um efeito tal que a nossa vida em sociedade muda. É a minha convicção que, quando no final dos anos 90 o Herman José inventou o Diácono Remédios, Portugal passou a ser outro. Hoje ninguém quer fazer figura de Diácono Remédios. Ninguém quer armar-se em ofendido em questões de moral sexual porque quando alguém se ofende em questões de moral sexual há uma grande parte da população portuguesa que reage como estando na presença de um Diácono Remédios. E, como nós sabemos, o Diácono Remédios era um hipócrita, um homem com responsabilidades religiosas que passava a vida a implicar com a suposta indecência dos outros quando ele, na prática, era o mais malicioso de todos. Sei que muitos ao lerem este texto me podem encaixar na figura do Diácono Remédios. E, se querem que vos diga, não é isso que me vai impedir de o escrever. O que está em causa neste texto vale mais do que o prejuízo de poder ser posto ao nível de uma caricatura do Herman José.

Chamo-me Tiago Cavaco, tenho 38 anos e vivo em Oeiras. Cresci com os meus pais e duas irmãs, uma cinco anos mais velha e uma quinze minutos mais nova. Eu e a minha mulher temos duas meninas e dois meninos. Profissionalmente sirvo uma igreja que semanalmente junta um pouco mais de uma centena de pessoas, sendo que perto de 40 delas estão abaixo dos 16 anos. Por estas razões, os assuntos da educação no geral e da formação específica para a sexualidade são constantes na minha vida.

Como é fácil antecipar, ocupar funções de alguma responsabilidade na formação de crianças pede que as esclareçamos acerca de como a vida é, e não apenas acerca de como gostávamos que a vida fosse. Neste sentido, não é possível uma educação dos mais novos que lhes esconda as coisas más que existem, como as agressões que podem sofrer, agressões essas que também podem ser trazidas por adultos. Educar responsavelmente pede hoje, como em qualquer época da história mas talvez com mais ênfase, uma compreensão e prevenção do abuso sexual.

Uma das regras fundamentais na formação dos mais novos acerca do abuso sexual é que eles entendam o seu corpo como um espaço sagrado. O que é que isto quer dizer na prática? Seja a que pretexto for, os meus filhos e os menores que participam da vida comunitária da igreja que sirvo (a Igreja da Lapa em Lisboa) aprendem que ninguém deve tocar neles sem permissão, sendo que há lugares do seu corpo que nem com permissão podem ser tocados. Apesar de nem sempre ser fácil explicar às crianças os porquês destes princípios, elas tendem a integrá-los como naturais ao desenvolvimento de uma personalidade autónoma e responsável. Por exemplo, eu e a minha mulher nunca precisámos de descrever uma violação às nossas meninas para elas tomarem o corpo que têm como um espaço que devem proteger e estimar.

Acreditar que o nosso corpo é sagrado nem sempre é fácil numa sociedade que alberga diferentes compreensões acerca dele. Mas, felizmente, numa democracia como a portuguesa, o caminho tem sido, apesar de tudo, promissor para pais de crianças como nós. O cuidado com o corpo que ensinamos aos nossos filhos é geralmente correspondido pelo cuidado que o próprio Estado também encoraja aos seus cidadãos, sobretudo aos de idade menor. No geral, sentimos que as autoridades cívicas estão connosco na tarefa de educar e proteger os nossos filhos.

É aqui que entra o assunto do lamentável cartaz de uma encenação a acontecer no palco do Teatro Independente de Oeiras. Vou ficar-me pelo adjectivo lamentável porque gostaria de manter o tom deste texto o mais objectivo possível. Neste cartaz, uma mulher aparece tapando simultaneamente os órgãos sexuais de dois homens, despidos, um à sua esquerda e outro à sua direita. Se nesse tapar lhes toca ou não, não é claro. Nesse sentido, não posso afirmar que o que está a acontecer naquele cartaz é uma actividade sexual. Mas não me parece descabido dizer que essa actividade sexual pode, pelo menos, ficar insinuada. Podemos pôs as coisas pela negativa e reconhecer que se o cartaz não quisesse de modo algum sugerir qualquer actividade sexual, provavelmente vestiria os actores e não colocaria as mãos da actriz ao nível dos seus órgãos genitais. Por outro lado, o título da encenação é “H2M1, Parte 2 - Conversas do pirilau”, sendo que a palavra “pirilau” aparece graficamente como uma correcção de outra que começaria por C e acaba em O. Fica à imaginação do espectador acertar no original.

Este cartaz encontra-se espalhado pelo concelho de Oeiras, culminando, para os efeitos deste texto, num lugar querido da nossa família: a Biblioteca Municipal. É rara a semana que não levo os nossos quatro filhos à Biblioteca, algumas vezes mais que uma vez. Na última vez que lá estivemos, lá estava a publicidade às “Conversas do pirilau”. Ou seja, a Biblioteca Municipal de Oeiras serve os seus leitores também convidando-os para “Conversas do pirilau”, facto mais estranho por geralmente não ser possível conversar dentro de uma biblioteca, mas divago. Indo ao que interessa: este texto serve para pedir que se retire este cartaz da exposição pública a menores de idade. Porquê? Porque creio que este cartaz impede alguns princípios valiosos de educação sexual responsável e autónoma que desejamos na formação dos mais novos.

Sigam por uns instantes a minha linha de raciocínio, por favor. Se as nossas crianças aprendem que ninguém tem a permissão de tocar no seu corpo, e que, consequentemente, ninguém pode obrigá-las a tocarem no corpo de outros, o que faremos com esta imagem que, pelo menos, pode sugerir uma mulher que de uma vez só manipula os órgãos sexuais de dois homens, que parecem divertidos com a ideia. Claro que, admitindo que a imagem tal sugere, poderemos dizer que provavelmente está em causa uma relação consensual entre três indivíduos adultos (partindo do princípio que a mulher pediu para fazer isto e que dos dois homens recebeu um sonoro sim). Mas mesmo que assim seja, significa que é útil que às crianças que vêem o cartaz esteja pronto um esclarecimento minimamente satisfatório acerca de relações sexuais consentidas, que neste caso envolvem logo três pessoas. É para o Município de Oeiras este um plano pretendido, escrutinado e aprovado para formar e proteger os seus cidadãos de menor idade, este de entrar num assunto destes a pretexto de uma imagem destas? Por outro lado, e tendo em conta que a sugestão supostamente inocente de manipulação de órgãos sexuais masculinos é um dos pretextos mais recorrentes para o abuso sexual, é este o melhor início de conversa? Até que ponto é que uma imagem desta espalhada por todo o concelho não antecipa sem precaução e desequilibra o programa pedagógico que as entidades de ensino querem promover acerca da educação sexual? Ou é apenas indiferente?

Colocando a questão de uma maneira bem simples e pessoal: o Teatro Independente de Oeiras não me ajuda a mim nem à minha mulher quando sugere graficamente aos nossos meninos que talvez não haja assim tanto problema em eles meterem as mãos nos órgãos genitais de homens, mesmo quando são educados que nem eu, enquanto pai, nem os seus irmãos alguma vez podem pedir-lhes semelhante gesto. E por que estou convicto do facto que essa ideia, podendo não ter sido planeada, é pelo menos sugerida? Pelos comentários que tive de ouvir dos meus filhos acerca do cartaz. Para eles não restou sombra de dúvida que aquilo que o cartaz sugeria ia contra as precauções que recebem dos seus encarregados de educação. Alguém pode dizer que o problema é meu e da minha mulher, e da maneira como educamos os nossos filhos. Mas como nós pode haver muitos mais pais e muitos mais filhos. O que pergunto é: pais como nós não têm o direito cívico de sugerir restrições para o modo como imagens destas são espalhadas pelas ruas? Creio que sim. Que nós, e eventualmente muitos outros, temos esse direito.

O que pedimos não é censura. Este cartaz pode ser mostrado em contextos determinados, da mesma maneira como em nossa casa temos livros e filmes que intencionalmente não mostramos aos nossos filhos, por não os acharmos apropriados ao seu estado de desenvolvimento. No entanto, que este cartaz esteja espalhado por todo o Município parece-nos uma agressão à liberdade de cidadãos que, em virtude da sua idade, não têm de saber já distinguir completamente e com maturidade um acto sexual consensual de um abuso sexual. Não espalhar publicamente imagens destas não é tirar liberdade, é dar mais àqueles que mais dela precisam. Partir do princípio que as crianças já têm de perceber como adultos imagens destas pode ser um acto de indescritível violência sobre elas, e, creio, um contributo acidental para a sua fragilidade diante de abusadores sexuais. Pode ser exagero meu, mas creio que em muitos países democráticos isto poderia valer demissões das pessoas responsáveis. Seria interessante que aqui valesse, pelo menos, a atenção de o retirar dos olhos dos que estão ao nosso cuidado. A imposição de imagens de carácter sexual sobre menores também não pode constituir uma violação?

Gostaria de não ter de mudar a opinião que tenho tido até agora, de que as autoridades cívicas estão connosco na tarefa de educar e proteger os nossos filhos. Mas não me parece que o Município de Oeiras tenha demonstrado, através deste cartaz, que reflectiu responsavelmente na promoção e formação para a liberdade e auto-determinação sexual dos seus cidadãos mais novos.

Atenciosamente,

Tiago Cavaco e Ana Rute Cavaco.

quarta-feira, março 02, 2016

Sofrer pelo que acreditamos não é uma história da carochinha nem acontece só na Coreia do Norte

Eclesiastes 9:17: "As palavras dos sábios ouvidas em silêncio valem mais do que os gritos de quem governa entre tolos".

Na quarta-feira da semana passada publiquei um texto que tinha escrito dois dias antes, na segunda, mal tinha acabado de ler o "Alentejo Prometido". Quando o coloquei no facebook os primeiros comentários informaram-me que havia uma reacção pública a crescer por causa de um vídeo-excerto de uma programa da Sic Radical onde o Henrique Raposo resumia em poucos minutos algumas das teses centrais do livro (que o Henrique e a televisão não são um casamento feliz aprendi da boca do próprio Henrique). A partir daí fiquei atento ao fenómeno e vi formar-se uma onda assustadora.

Sinceramente, e como sou amigo do Henrique, tenho vivido isto quase com o coração nas mãos. A pensar: se é com o Henrique, qualquer dia pode ser comigo. E não é só com o Henrique, é com a família dele - pessoas que habitam no nosso amor. Nem de propósito, tinha pregado uns dias antes um sermão chamado "Ser Felizmente Odiado", cuja ideia central é que não é possível querer estar bem com Jesus ignorando as consequências do mal que muitos lhe querem. Não é que a meio da semana chego a receber uma mensagem que não sendo hate-mail, era de alguém que malhava em mim por me associar ao Henrique? Ora, se por ser amigo do Henrique recebo mails desagradáveis, imaginem o que me pode acontecer por ser ainda mais amigo de Jesus.

Sofrer pelo que acreditamos não é uma história da carochinha nem acontece só na Coreia do Norte. É hoje, aqui e agora. O exemplo da polémica à volta do Henrique é apenas uma pequena demonstração disso. Não há soluções políticas para o ódio porque o problema é espiritual: somos naturalmente maus e com a conjugação certa de ignorância e má vontade, a coisa vai dar sangue. Não é este o drama fundamental do cristianismo? Deus tenha misericórdia de nós.

Em Outubro passado a igreja que sirvo publicou um livro chamado "Ter Fé na Cidade". Convidámos quatro amigos desta igreja - amigos - que têm passado por nós e contribuído para que a vida da nossa igreja seja melhor. Uns são mais para a esquerda, outros são mais para a direita. Todos eles escreveram pequenos textos que, de uma maneira ou outra, testemunhavam que a fé pode conviver bem com a liberdade. Um desses amigos chama-se Nuno Markl, outro chama-se Anabela Mota Ribeiro, outro chama-se Samuel Úria, e outro ainda chama-se Henrique Raposo. Se querem queimar ou rasgar os livros a este último, podem juntar o livro da nossa igreja à colecção que para nós será um orgulho.



terça-feira, março 01, 2016

Ouvir

Quem se sente à vontade para dizer: “eu, ao contrário do jovem rico, sei resistir muito bem à tentação de colocar aquilo que tenho acima daquilo em que creio”? Neste sentido, somos todos jovens ricos.

O sermão de Domingo passado, chamado "Quando ser bom é mau", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Um dos livros do ano acabou de ser publicado e vocês não devem hesitar

Comecemos pelo princípio. Em primeiro lugar, vocês compram o "Alentejo Prometido" por três euros e quinze cêntimos no Pingo Doce, o que significa que na próxima vez que forem às compras, podem levar literatura sem dar conta disso, entre as minis de Super Bock e as caixas de Nespresso.

Em segundo lugar, aviso que não sou um leitor imparcial. Aliás, a minha religião não me permite acreditar na existência de leitores imparciais. Na minha religião crê-se no pecado original que, trocado por miúdos, significa que there's no such thing as leitores imparciais. Só há leitores pecadores, uns mais que outros. Ora, como leitor pecador que sou, aviso já que esse efeito do pecado na leitura de "Alentejo Prometido" pode ser amplificado por ser amigo do Henrique. Sou amigo do Henrique. E o Henrique é um amigo  meu que, ainda por cima, admiro. Logo, li este livro que é escrito por um autor que é meu amigo e que, ainda por cima, admiro. Esqueçam leituras imparciais da minha parte.

Em terceiro lugar, livros como "Alentejo Prometido" tenho lido poucos. Livros portugueses, escritos por portugueses, que querem pensar sobre o que é que significa ser português. A minha escassa cultura não me dá grandes referências nas gerações anteriores, mas na minha geração este negócio tem começado a aparecer em pessoas como o Henrique e o Bruno Vieira Amaral. Aproveito para dizer que o Henrique e o Bruno estão a fazer uma coisa que acho mesmo nova entre nós. Confesso, mesmo que isto soe saloio, que gostava de ser metido na mesma equipa do Henrique e do Bruno. Essa é uma equipa que miúdos que escrevem sobre Portugal não pertencendo às linhagens de quem se espera que escrevam sobre Portugal. O equipamento do Henrique e do Bruno é da cor dos bairros suburbanos onde cresceram. Eu, por ser um miúdo suburbano, sinto-me a jogar em casa quando os leio. E torço por eles. Eles são como eu (pelo menos, quero acreditar nisso).

Em quarto lugar, o Henrique (como o Bruno) só sabe fazer sociologia se fizer também biografia (por exemplo, em "Alentejo Prometido" há uma passagem acerca da estrada onde o Henrique tinha medo de andar de bicicleta que se vai revelar o lugar de onde saiu o assassino de Sidónio Pais - é um trecho brilhante). Que se dane o pudor porque Deus criou-nos pessoas e não funcionários. O Henrique começa e acaba "Alentejo Prometido" a falar sobre ele mesmo. Eu, nem meia-dúzia de livros da colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos li, mas fico numa brasa das boas quando vejo o Henrique, tal como o Bruno em "Aleluia", a dar literatura pura e dura a pretexto de "retratos da fundação". É este o caminho e é no Pingo Doce que se vai fazer a revolução literária - também quero ter livros no super-mercado!

Em quinto lugar, o Henrique não usa factos para encaixar opiniões prévias. Há um trabalho sólido de consulta e de análise que dá espinha às frases mais aventureiras do Henrique. O Henrique faz a ideologia da verdade, por muito incómodas que estas duas palavras sejam no nosso ambiente intelectual. Por outro lado, o facto de o Henrique não querer ser chato com factos, faz com que acabemos com um livro que efectivamente nos informa mas que também nos encanta. É assim que se faz.

Em sexto lugar, deixem-me abreviar muito muito muito, em dez pontos, as teses que me pareceram centrais no "Alentejo Prometido":
1) Alguns dos supostos pesadelos culturais serviram de sonhos para muitos (a liberdade chegou para muita gente à boleia da Guerra Colonial e da migração).
2) A ignorância da juventude sobre o passado é um dos sintomas mais claros do nosso atraso cultural.
3) A verdadeira opressão alentejana, antes de ser política, era moral ("o que oprimia as mulheres do campo não era a magra jorna, era o facto de serem encaradas como meras extensões privadas das casas senhoriais", pág. 40).
4) A migração para a capital não tem de ser uma história de desenraizamento, pode ser ser uma história de liberdade ("a cidade e a fábrica significaram uma nova dignidade pessoal", pág. 41). E os alentejanos sobretudo migraram, não emigraram.
5) A ética de trabalho alentejana não é uma vitória mas uma rendição às condições implacáveis da natureza ("o alentejano só podia ser escravo da natureza e, tragicamente, acabou por desenvolver uma cultura que eleva essa escravatura ao estatuto de imperativo moral", pág. 65).
6) Logo, os alentejanos não olham para sua terra como a oportunidade de uma história, mas apenas como o encerramento dela.
7) Esta aridez espiritual do Alentejo também é resultado de ele ser a nossa Austrália ("povoado com o refugo do norte", pág. 56), território onde a ordem ficou por entrar.
8) A ausência de Deus no Alentejo está combinada com a ausência de um passado que ofereça uma história ("o alentejano não está ancorado a um passado familiar e não navega em direcção a um conceito redentor de futuro", pág. 62).
9) A cultura alentejana não integra o conceito de família ("além de desconfiar dos vizinhos, do Estado e da Igreja, o alentejano desconfia da própria família. O estado da natureza está no sangue", pág. 77), e velhos deprimidos não querem precisar de depender de filhos capazes de os ajudar.
10) O suicídio é uma consequência natural para quem nasce num lugar que não tem como sua terra, para quem trabalha como resultado de uma maldição da natureza, para quem Deus não desce cá abaixo, e para quem não se sente inspirado para construir uma história ("a cultura alentejana não tem palavras que permitem a contestação moral do suicida", pág. 84).

Em sétimo lugar, este pequeno livro (107 páginas) fulgurante devia ser lido por todos: políticos, pastores, profissionais, desempregados, jovens, velhos, rapazes e raparigas. Porque é do nosso país que trata. Que o leiamos como o gesto patriótico possível, até porque o Henrique o acaba reconhecendo que a terra que lhe pertence é mais aquela que vem da escolha do que propriamente da raiz. Se formos portugueses à boleia da liberdade que temos para isso, já é excelente.



terça-feira, fevereiro 23, 2016

Ouvir

Se nunca sentiste que pessoas passaram a gostar menos de ti porque gostas de Jesus, das duas uma: ou és um cristão muito imaturo ou, pior ainda, não és cristão.

O sermão de Domingo passado, chamado "Ser Felizmente Odiado", pode ser ouvido aqui.