Quinta-feira, Maio 23, 2013

Dar trabalho
Sei do privilégio que me assiste: sou pago para ler e falar do melhor livro do mundo. Recebo um salário para me dedicar à Bíblia porque quem me paga esse salário gosta tanto de a ler como eu. Aliás, além de gostar reconhece que essa colecção de textos é o testemunho credível do que permite a salvação das nossas almas. É assinalável. Tenho uma profissão no facto de trabalhar para que os espíritos das pessoas não morram. Desempenho um serviço tão humano como qualquer outro mas que creio fundado numa realidade sobrenatural. Ser Pastor é bom.
E podemos pensar que difícil é ter outra profissão. Uma em que somos pagos apenas para desempenhar uma função que não tenha presunção de salvar a alma a ninguém. E frequentemente quando pensamos assim damos por nós desanimados com a tarefa que nos cabe. Com a vocação que seguimos. Com a possível e aparente inutilidade a longo prazo do nosso ofício. Ainda que o registo de entusiasmo possa ser variável, entre momentos em que amámos o nosso trabalho e momentos em que o odiámos. E este raciocínio pode ser encontrado em muitas pessoas dentro da igreja. E é tão mais grave porque, a rigor, é incorrecto. Não existem profissões que não tenham resultados eternos.
Este continua a ser um assunto tão actual agora como foi no momento em que Deus deu o primeiro trabalho a Adão - em Génesis 2:19, dar nomes aos animais. Não é um acaso que tantas perguntas continuem a ser feitas por tanta juventude nos seus vintes e trintas na igreja local à qual pertenço acerca de encontrarem um sentido para profissões que lhes parecem desligadas de qualquer propósito cristão. Terminar a licenciatura pode representar o primeiro tropeço no caminho de conseguir fazer alguma coisa dela num mundo que talvez se tenha convencido demasiado facilmente que a ponte entre estudo e realização pessoal se fazia pavimentada na escolha do curso certo. Há aqueles que estão satisfeitos por trabalharem no que estudaram e até os que estão satisfeitos por não trabalharem no que estudaram. E há os insatisfeitos por uma coisa e pela outra. E, além das várias combinações possíveis deste fenómeno, existem na comunidade que integro na Lapa empresários, artistas, engenheiros, escritores, actores, designers, educadores, consultores, informáticos, entre tantos outros, um bocado à nora de como devem juntar a fé ao trabalho.
O livro do Tim Keller ajuda a lembrar isso. Isso de que não existem profissões que não tenham resultados eternos. De que na ligação trabalho e fé só há uma posição do botão: on. "Every Good Endeavour" saca o título ao parágrafo de apresentação que John Coltrane deu à sua obra-prima "Love Supreme" para confirmar que o Criador até por solos de saxofone se interessa. E para não deixar dúvidas dispara logo à página 33: "A job is a vocation only if someone else calls you to do it and you do it for them than rather for yourself." Ou seja, uma das primeiras lições de perceber o que o trabalho é passa por reconhecer que em último grau não é acerca de nós que o fazemos. "The Bible begins talking about work as soon as it begins talking about anything - that is how important and basic work is." Sem trabalho ninguém se orienta. Porque "work has dignity because it is something God does and because we do it in God's place, as his representatives." A esta altura Keller ainda vai apenas no Génesis por isso podemos imaginar que o caminho até ao Apocalipse apenas marca fundo que não há maneira do trabalho não ser um assunto divino.
É costume dizer que Lutero civilizou a fé (acho que era Unamuno que insistia nisto). Isto é, tornou sagrado o que até então era considerado profano. A repercussão da Reforma foi imensa para uma cultura que deixou de pensar que trabalhos religiosos eram os do clero. Tudo ficou mais misturado mas ao mesmo tempo mais arejado de dicotomias que na realidade eram gregas e nem tanto bíblicas. Os Protestantes não trabalham para se salvarem (a tese de Weber) mas não se sabem salvar sem trabalharem (a tal herança grega que o Catolicismo perpetuou que na Igreja Primitiva fazia que Paulo fosse mal visto por fazer tendas e que na Idade Média colocava os crentes a acharem que as coisas só podiam ser santas se molhadas com água benta). E isto não torna os Países de maioria cristã evangélica livres da tensão entre fé e trabalho. Ela continua aí porque nem todo o trabalho é bom e porque a fé empalidece quando ele aparece como ídolo. Num tempo que anda às voltas com só ser aquilo que se faz ou, no seu oposto, fazer qualquer coisa independentemente do que se crê, o livro de Keller é uma ajuda excelente.


Quarta-feira, Maio 22, 2013

Carlos
Anteontem quando passeava com o meu Caleb de três anos pelo centro de Oeiras parei para espreitar a Igreja Católica. À saída uma senhora nos seus setentas meteu conversa com ele e abençoou-o bem (em nome de Deus), abençoou-o mal (em nome da Nossa Senhora) e perguntou-lhe o nome. Ao que respondi: "Caleb". A senhora: "Carlos?" E eu: "Não, Caleb. É um nome da Bíblia, do Velho Testamento." E a senhora: "Ainda por cima..."

Terça-feira, Maio 21, 2013

Ouvir
Nesta comunidade a importância que colocamos no estudo da Bíblia afirma que confiamos não nas nossas capacidades intelectuais mas nas capacidades do Espírito Santo. Numa igreja o uso do neurónio é sempre pentecostal.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Maio 20, 2013

O Miguel Esteves Cardoso nunca me salvou a vida
Tenho uma relação complicada com o Miguel Esteves Cardoso. Céus, não nos conhecemos e não tenho talento para sequer almejar a uma interacção pessoal com ele. A relação complicada que tenho com o Miguel Esteves Cardoso tem a ver com apreciar-lhe a inteligência ao mesmo tempo que tendo a resistir ao fenómeno que gerou. E isto talvez nem seja inteiramente justo com o Miguel Esteves Cardoso porque o que mais me irrita é o Miguel Esteves Cardoso que vejo nos outros. Ou seja, grande parte da relação complicada que tenho com a pessoa Miguel é o facto de encontrar um Miguel pouco razoável amado por todas as outras pessoas.
Muitas vezes penso que a minha geração gosta do Miguel Esteves Cardoso pelas razões erradas. Dou um exemplo: as pessoas enternecem-se com a entrevista do Presente que o MEC deu à Fátima Campos Ferreira por causa de todas as outras entrevistas do Passado. As pessoas suportam hoje o Miguel a falar sobre Deus e Santo Agostinho porque o Miguel durante décadas falou sobre fornicação e cocaína. Aliás, o título do último livro ("É Linda a Pu*a da Vida") é mais uma manifestação do dispositivo que é concedido ao Miguel: suportem-me como conservador na medida em que escrevo como um libertino. Se o Miguel começasse a carreira hoje com esta conversa seria rápida e impiedosamente incluído na mesma cela de João César das Neves.
Atenção que quando escrevo isto não malho no Miguel mas numa admiração que têm por ele que acho perversa. Porque é uma admiração que se fica pela casca, pela forma estouvada do que diz, sem ir ao conteúdo, ao que ele está efectivamente a dizer. A conversa com Fátima Campos Ferreira faz numa metade de hora um percurso notável em direcção ao que realmente importa (novamente pelo mérito do Miguel porque continua a dar-me ideia que a Fátima Campos Ferreira ouve os seus entrevistados sem grandes vestígios de compreender o que eles dizem). Apesar de algumas inconsistências lógicas (o Miguel percebe tão bem o quão sobrenaturalmente fantástica é a vida mas desliga-a da acção directa de Deus, por exemplo) a maneira corajosa e generosa como aproveita os assuntos (e os endireita) e discorre sobre eles é um verdadeiro privilégio televisivo (aliás, cheguei a esta entrevista porque o meu amigo da música, José Camilo, se lembrou de mim por causa do Miguel falar de Agostinho). Na prática isto significa dois punk rockers a verem tv por causa de um elemento teológico - só o Miguel proporcionaria o fenómeno. Não temos como agradecer-lhe.
Escrevo isto para malhar nas pessoas que fazem do talento do Miguel uma razão não para serem mais inteligentes mas para serem mais condescendentes. E isto perturba-me porque em muito sinto que encaixo em alguns dos rótulos que o Miguel usa e sei que as pessoas que me aturam com esses rótulos também me aturam de uma maneira parecida que aturam o Miguel. Explico. O Miguel é um gajo conservador de quem se pode gostar porque parece esteticamente liberal. Também há gente que tem um bocadinho de pachorra para mim porque eu sou o Pastor do Rock (um rótulo péssimo, bem sei). Na prática significa que nós nos vamos safar porque a causa nos serve a nós e não nós que servimos a causa. E significa também que vamos receber elogios dos nossos adversários pelas razões erradas: não porque respeitam as nossas posições diferentes mas porque as nossas posições estão o suficientemente abafadas pelos nossos hábitos que lhes parecem comuns. É uma palmada nas costas dada com um punhal.
O pior é que muitos julgam-se tolerantes porque até acham piada ao Miguel Esteves Cardoso que é um tipo conservador. Quando na verdade só acham piada ao Miguel Esteves Cardoso porque em muito ele não é assim tão conservador. As consequências do efeito Miguel nos partidos conservadores em Portugal é terrível. O CDS tornou-se um partido que tenta apelar a novos conservadores desde que não sejam assim tão conservadores (a liberdade de voto para a votação da semana passada é um atestado de óbito moral ao partido). A maior admiração que eu posso ter ao Miguel não é achar que ele me serve de colete à prova de balas junto de quem está no outro lado da batalha ideológica. É aplicar a ele aquilo que ele sempre tão bem fez aos outros: crítica.

Quarta-feira, Maio 15, 2013

A Religiosa Timidez Portuguesa


[Este texto foi a minha intervenção numa palestra sobre a espiritualidade dos Portugueses que aconteceu nesta Segunda na Universidade Lusófona. Não o segui à risca mas fica aqui o registo.]

O resultado não pode ser grande coisa quando centramos a tese de um texto num título de um livro que não lemos. Mas há cerca de um ano quando o Seminário Teológico Baptista de Queluz me convidou para uma sessão em que falasse da minha apreciação sobre os portugueses e a religião senti abrigo no que José Gil tão bem sintetizou acerca de nós na frase: "Portugal, hoje - o medo de existir". Apesar da Providência ainda não me ter permitido um contacto com a teoria central de Gil no seu volume, houve um eco imediato na Bíblia.
Ora nas Escrituras a timidez não aparece como feitio mas defeito. No texto do Evangelho de Marcos 4:40 Jesus está a bordo de um barco que sobrevive com dificuldade a uma tempestade no mar. O que faz ele durante o temporal? Naturalmente dorme. Não queiramos imaginar o cansaço de alguém que é Deus e homem ao mesmo tempo. É uma coisa sobrenaturalmente séria e não é qualquer onda que a interrompe. Naquela ocasião já os discípulos estão em pânico quando forçam que o seu Mestre faça alguma coisa além de dormir. Jesus desperta, repreende o vento e diz ao mar: "cala-te, aquieta-te." E o vento aquietou-se e houve grande bonança. O Filho de Deus ralhou aos elementos e censurou os discípulos: "Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé?" Na Bíblia a timidez é uma falha de convicção em Deus. Podemos ir mais longe: na Bíblia é uma falha de carácter se partirmos da convicção que Deus existe. Se a realidade está sustentada em Deus então a timidez é uma alienação cognitiva. Por isso o texto mostra Jesus possivelmente mais irritado com os homens do que com as condições metereológicas.
O dicionário que consultei dá-nos uma definição mais livre de conotações religiosas: falta de desembaraço e acanhamento. E isto pode sublinhar a ideia de Gil, de um País pouco aberto ao exterior, pouco desenvolvido (e desenvolto) e de fraca dinâmica interna. Se isto for algo possível de generalizar acerca dos portugueses é, na minha opinião, absolutamente justo de generalizar quando à atitude dos portugueses face à religião.
Uma das relações mais difíceis de resolver para um cristão evangélico em Portugal é com o Catolicismo. Afinal mesmo que a nação já não registe os abismais noventa por cento de há uma década, o certo é que um cristão evangélico quando se apresenta tem neste País de rapidamente clarificar que não é da IURD, não é Testemunha de Jeová e não é Mórmon. Ou seja, numa enorme quantidade de pessoas a simplificação ainda passa por: ou se é católico, ou se é ateu, ou se é de uma seita. É árduo para um evangélico relacionar-se com o Catolicismo quando o Catolicismo ainda parece deter o monopólio nacional do que pode ser uma religião respeitável. E isto pode levar a que muitas vezes os evangélicos acabem em simplificações tão injustas quanto as que sofrem, sendo cegos para o facto de também o Catolicismo passar hoje por algumas experiências de discriminação. Este País já não é assim tão a preto e branco.
Veja-se o caso do Catolicismo na comunicação social. As vozes católicas que na generalidade são mais toleradas na comunicação social aparecem sancionadas por não serem assim tão católicas. Os Padres que escrevem no Público ou no Diário de Notícias são aqueles que conseguem fazer uma carreira escrita de serem católicos que criticam o Catolicismo. Por outro lado, um dos sinais de maior vitalidade do Catolicismo cresce hoje em Portugal por uma serena mas concretizada reconquista estética. Não foi casual que quando Bento XVI esteve há três anos connosco animou a Igreja a um anúncio que apelasse à beleza. Num País tímido o que é belo pode compensar mais do que é verdadeiro.
No caso do cristianismo evangélico, pela sua própria dispersão e pequenez estatística, talvez seja mais complicado sugerir uma perspectiva consistente (até porque sou evangélico). Mas diria que aquilo que foi outrora uma fidelidade essencialmente fundamentalista é hoje uma abertura a namoros mais progressistas. Os cristãos evangélicos, que até nasceram em Portugal com uma experiência de intervenção na imprensa escrita, passaram as últimas décadas em retirada da cultura. Hoje, na ânsia de recuperarem algum tipo de relevância, tentam reorganizar uma voz sua, que estabeleça uma ponte entre os seus modelos estrangeirados (aqueles que nos evangelizaram eram sobretudo americanos e brasileiros) e os do nosso próprio País. É complicado porque um evangélico é em Portugal um semi-português na melhor das hipóteses. Talvez isso o faça oscilar entre uma residual timidez patriótica e um descaramento artificial que lhe chega de fora.
Por último, vale a pena dar uma palavra acerca do universo não-religioso, pelo menos no modo como e relaciona com o universo religioso. É costume dizer que nas sociedades ditas pós-religiosas o mais difícil não é a hostilidade contra a fé mas a indiferença. E não é injusto dizê-lo. Por exemplo, o filósofo ateu do momento é um homem que suavizou a veemência de Dawkins, Hitchens ou Harris. Alain de Botton dizia que o mais desinteressante que poderia ser discutido acerca de uma religião era saber se era verdadeira. Provando que a indiferença foi elevada a superação filosófica e que o compensa é pensar sem tirar consequências. No caso português, diria que essa indiferença já existe mas que ainda assim perde para a timidez. Claro que fundamento em boa parte a minha convicção na minha experiência pessoal (e não há nada como ter passado a última década com responsabilidades eclesiásticas junto de vizinhos de fé desconhecida). Os condóminos que partilham residência junto a igrejas evangélicas só com dificuldade conseguem aplicar-lhes a palavra igreja. Quantos de nós, cristãos evangélicos, não somos questionados se cremos em Cristo? Claro que podemos dizer que o problema se resume a ignorância. Ignorância geral e sobre religião em particular. A minha convicção é, todavia, que a ignorância portuguesa sobre religião é uma declinação dessa condição espiritual de timidez. Dava-nos jeito uma tempestade no mar que acordasse este País litoral.

Terça-feira, Maio 14, 2013

Ouvir
Jesus não se senta ao lado direito do Pai a descansar de 33 anos de vida e cerca de 3 de duro ministério. Provavelmente ligamos pouco à ascensão porque ligamos pouco ao que a ascensão implica. E a ascensão implica autoridade.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Maio 13, 2013

Na nossa casa
Quem abre a porta são os mais pequenos.


Sexta-feira, Maio 10, 2013

Duzentos
Vergonha: fez 200 que Kierkegaard nasceu e eu calado como um rato. Não é exagerado dizer que houve tempos que Kierkegaard era uma espécie de santo padroeiro deste blogue, uma presunção mas sincera. Até porque nos primeiros tempos dos blogues Kierkegaard era um nome relativamente pouco evocado (a rigor, continua a ser). Talvez também por isso, era fácil para mim tentar colar a dispersão das coisas que escrevia a um travo diarístico que seguia nos próprios Diários do dinamarquês (livro que comprei há perto de 10 anos, que está na mesinha de cabeceira e que ainda não acabei de ler).
Há um cliché acerca de Kierkegaard ao qual é difícil escapar: é um filósofo fácil de gostar quando somos adolescentes (este texto é talentoso a falar disso: http://www.aeonmagazine.com/world-views/julian-baggini-i-love-kierkegaard/). Mas Kierkegaard faz muito mais do que desconversar, um dos hábitos que em boa parte dos pós-modernos passa frequentemente por filosofar. Não nego que curtia que fizesse pouco da complexidade inchadona do Hegel, que malhasse sem intervalo nos confortos da Cristandade e que nunca tenha ultrapassado o desgosto amoroso da juventude. Nestas três coisas, e apenas para comparar, diria que hoje continuo a curtir malhar em metafísica alemã (sobretudo quando vem em forma de liberalismo teológico), passei a ser menos dado a curtir críticas genéricas à Cristandade (por achar que num mundo dito pós-religioso é muito ténue a diferença entre malhar na Cristandade e malhar no Cristianismo), e ganhei francamente pouca pachorra para os desgostos amorosos (é aquela parte que, reconheço, me custa hoje quando leio Kierkegaard - dá vontade de dizer-lhe: man, get over it!).
Mas mantem-se o meu amor pelo filósofo dinamarquês. Amo o seu existencialismo calvinista (que é a minha maneira de descrever que a subjectividade só interessa quando tira rendimento da nossa relação com Deus, a outra é pura e simplesmente narcisista e enfadonha - e não podia ser mais indiferente aos elogios que Kierkegaard recebe por supostamente ser o primeiro filósofo existencialista - estou convencido que Kierkegaard não suportaria a auto-comiseração niilista que lhe reclama herança). Amo a sua radicalidade devocional (tudo tem a ver com Deus e o que não tem a ver com Deus, esquece). Amo a sua embirração com o artifício escolástico (se a religião começa a ficar demasiado lá em cima não vale a pena). Entre outras coisas. Kierkegaard merecia que esta data tivesse sido comemorada condignamente. Com, pelo menos, um jantar em que todos os presentes levassem calças curtas, uma fotografia de uma ex-namorada para queimar e uma Bíblia. Será que ainda vamos a tempo de o fazer mesmo que atrasados?

Quinta-feira, Maio 09, 2013

Dalva
Sejam pacientes com a minha nota paternalista: eu já sabia tudo o que este vídeo transmite quando fiz deste miúdo o meu baixista em 2010. Agora tento contentar-me em limpar-lhe o pó das sandálias.



E claro que o trabalho de realização do Ben Monteiro seria razão para outra insuportável nota paternalista.

Terça-feira, Maio 07, 2013

Ouvir
Se queremos testar o nosso amor por Jesus não é preciso teorizar muito, apenas obedecer-lhe.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Maio 06, 2013

A inconsequência de "Incondicional?"
A partir de quantos exemplares vendidos podemos dizer que um livro é sensação entre os evangélicos portugueses? Talvez quando passa a chegar a não-evangélicos mas nesse caso estávamos a falar de um Planeta pouco habitado porque nos últimos anos só me lembro de um ("A Cabana", uma coisa tão massivamente aplaudida quanto apalermada). Talvez uma resposta mais prática seja dizer que um livro é sensação entre os evangélicos seguramente quando a edição em português consegue trazer impressas as recomendações de pastores estrangeiros mas também de pastores portugueses.
A Letras de Ouro tem feito um trabalho notável. Em meia-dúzia de anos rompeu o tédio das editoras institucionalmente ligadas às denominações evangélicas para lançar no mercado evangélico e secular (os livros das Letras de Ouro estão nas livrarias habituais) títulos que vão desde a Teologia, ao infantil, passando pelo mui-meritória ficção religiosa nacional. A Letras de Ouro parece-me a única editora evangélica portuguesa que quer os seus livros lidos mas também falados. Sou parcial porque já tive o privilégio de participar no lançamento de um livro da Letras de Ouro e porque tenho desenvolvido uma grande admiração pela editora e pelo Pedro Martins que a conduz.
Parte do sucesso da Letras de Ouro tem sido um investimento sério nos livros que edita, destacando-se provavelmente "Incondicional?" de Brian Zahnd. Quando foi lançado no ano passado mereceu um evento próprio que juntou os pastores eminentes que o recomendam. Isto é tão raro, lançar oficialmente livros estrangeiros, como relevante. Mostra que mais que há uma estratégia além de simplesmente despejar nas prateleiras das lojas. Também por esta razão "Incondicional?" merece louvor. Faz parte de uma editora com uma filosofia e, parece-me, tem atingido com distinção os seus objectivos. A prova é que ainda há poucas semanas a Letras de Ouro trouxe a Portugal Brian Zahnd para uma campanha que entusiasmou os leitores que desde há um ano lhe podem ler este título. A Letras de Ouro está a mostrar como é o futuro quando se trabalha bem.
Creio que outra razão do sucesso de "Incondicional?" passa pelo seu assunto. O livro dedica-se ao tema do perdão e não há muitos assim. Uma das reacções mais comuns à sua leitura tem sido perguntar como é que um tema tão essencial ao cristianismo ande longe da reflexão dos cristãos. O que me parece uma generalização justa. Falando apenas na minha experiência recente, têm sido poucas as oportunidades de ir mais fundo. Quando há cerca de um mês falava do texto de Colossenses que íamos tratar no sermão, acerca do perdão, o Pedro Martins sugeriu-me a leitura do livro, que prontamente me facilitou. Estou-lhe agradecido.
"Incondicional?" atinge com distinção o objectivo de alarmar para o seu tema. "Se o cristianismo tem a ver com alguma coisa é com o perdão" avança logo à página 15. E seria perfeito se nessa mesma página inicial não mostrasse logo que neste livro o grande trunfo anda lado a lado com a sua grande derrota. A primeira frase de "Incondicional?" é a do seu próprio epitáfio, um prenúncio de que a óptima tarefa do autor fica imediatamente comprometida com a simplificação violenta em que assenta: "O Cristianismo ocidental precisa de uma actualização." Ou seja, num assunto em que valia a pena aprofundar "Incondicional?" vai preferir o tal alarme e escolher buzinar em vez de explicar. Claro que entendemos a preocupação de Zahnd: ele crê que o Cristianismo ocidental precisa de ser actualizado porque anda a esquecer o perdão. E não é uma tese necessariamente absurda mas torna-se mais difícil de compreender quando o seu detentor se mostra mais perturbado pela fé dos que o cercam do que disposto a fazer pedagogia acerca dela. "O que hoje passa por mensagem cristã surge como algo de decrépito e desgastado" escreve ainda na tal primeira página 15 com aquele tom algo alucinado dos fundadores de novas religiões que começam sempre de declarar óbito às antigas. Com isto não digo que Zahnd tem esse propósito mas que lhe usa o tom, usa. No que diz respeito ao modo como escreve, Zahnd alienou-me às primeiras linhas. Mas insisti. Não devemos julgar um livro pela sua capa e pelas suas primeiras linhas, quis pensar.
Zahnd arranjou um dispositivo que aplica quase sem excepção ao longo dos dez capítulos: conta uma experiência extrema de perdão (vítimas do Holocausto confrontando-se com nazis, João Paulo II perdoando o turco Agca, Nelson Mandela, uma cristã amish perante um massacre na sua comunidade, entre outros) e a partir daí coloca-a em contraste com o cristão predominante no mundo Ocidental. Em jeito de ilusionista amador proclamando "now you see, now you don't" - os exemplos-choque mostram perdão, todos os outros do "Cristianismo sub-padrão pós-Constantino" não (esta designação é todo um programa ideológico de caricatura histórica). Para além de ser um dispositivo intelectualmente raso não evolui ao longo do livro. Ou seja, ficamos à espera que o raciocínio siga para as suas implicações mas Zahnd recusa sair do conforto do seu maniqueísmo.
Dou alguns exemplos deste maniqueísmo: se estamos a falar de perdão podemos perguntar acerca do seu alcance. De como se vai aplicar o princípio que se enuncia. Como deve relacionar-se a prática que os cristãos fazem do perdão com o modo como vivem em sociedade? Zahnd menciona Agostinho e a Guerra Justa mas fá-lo em apenas três linhas (pág. 135). As certezas que tem acerca do malefício dos comentadores norte-americanos conservadores (Ann Coulter, Sean Hannity e Rush Limbaugh, na página 184) é feita com a mesma determinação com que não ousa ir mais fundo em qualquer sugestão consistente de como o perdão da igreja se deve relacionar com a justiça da polis. O sermão do monte, que Zahnd declara como a obra máxima de Jesus (por que escolher o sermão do monte e não qualquer outro discurso de Jesus?) e que diz ser esquecido pelos intelectuais do cristianismo ocidental (Zanhd não deve morar no mesmo Ocidente que eu), pode ser pura e simplesmente aplicado aos sistemas judiciais dos cristãos? O autor defende a amnistia como uma disposição genérica para o juízo? Como se processará a relação entre Estado e Igreja? Zahnd defende o quê concretamente em relação a estas questões? Por que é que quando refere Bonhoeffer a criticar justamente a apatia da cristandade europeia não refere também que Bonhoeffer foi condenado à morte por ter participado numa tentativa de assassínio de Hitler? Não deveria Bonhoeffer simplesmente perdoar Hitler? Se o perdão incondicional é a marca de água do cristianismo então como relacioná-lo com a existência do Inferno? Se "o caminho de Jesus é sempre a via do perdão" (como afirma repetidamente) então como devemos lidar com todos os textos bíblicos que afirmam que Jesus voltará para julgar os vivos e os mortos? Quererá isso dizer que Jesus perdoará toda a Humanidade e que ninguém será condenado? Será que o perdão aplicado indiscriminadamente não redunda em pura indiferença? O castigo é incompatível com o perdão? A morte de Cristo na cruz significa que Deus leva a justiça a sério ou que simplesmente abdica dela num mundo em que todos falham? Estas foram apenas algumas perguntas que me ocorreram e que o livro não me respondeu ou respondeu debilmente.
Termino notando o que Brian Zahnd nunca perdoa ao escrever "Incondicional?": o status quo (expressão que enxameia todo o volume e que desisti de contar o número de vezes que ocorre), o pentecostalismo no qual cresceu, o país ao qual pertence (os EUA). Pelo menos com estes três o autor parece não querer aplicar o remédio que apregoa. Eu, que não sei se à vista de Zahnd poderia ser visto como pertença do status quo, que não sou pentecostal mas baptista, que não sou americano mas português, senti-me parte dos atingidos pela escrita pontiaguda deste apóstolo radical do perdão. Fiz questão de me achar na última página mesmo quando me senti perdido à primeira. Aguentei aquele estilo característico de algum pós-fundamentalismo evangélico que agora quer impressionar por citar o maior número de autores não-cristãos (o name-dropping como beatitude no lugar que antes quase só permitia ler a Bíblia). Muitas das queixas de Zahnd serão certamente justas e um combustível válido para procurar respostas maiores do que as que nos ofereceu. O melhor que Brian tem a fazer não é abandonar o assunto do perdão mas dedicar-lhe melhores livros.


Terça-feira, Abril 30, 2013

Ouvir
Por causa da centralidade de Cristo somos nós quem se reconhece parte dos rostos humanos de uma igreja local, e não a igreja que é escolhida em função do nosso rosto.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Abril 29, 2013

"Judeus Errantes" de Joseph Roth
Familiarizei-me com a expressão "judeu errante" quando o Pacheco Pereira a trouxe para a blogosfera em 2003, quando dava conta das suas inúmeras viagens. Dez anos depois leio "Judeus Errantes" de Joseph Roth, acabado de sair pela Sistema Solar. E é como se só agora compreendesse realmente o que Pacheco Pereira queria dizer. Um dos riscos da nossa época é olhar para a errância como um fenómeno de turismo, perdendo o significado da peregrinação. A popularidade da palavra "caminhada" talvez traduza uma saudade que sentimos por um tipo de viagem que nos leva a outros lugares além daqueles que parecem esgotar-se na fotografia da praxe. O livro de Joseph Roth ajuda-nos a recordar a errância como uma categoria espiritual. E isto a partir da experiência dos judeus da Europa oriental.
Não conhecia bem Joseph Roth e não conhecia bem os judeus orientais. Gostei de ambos. À medida que Roth e os judeus orientais se chegam ao Ocidente, apega-se-lhes a memória ao leste. Este leste é uma identidade assinalavelmente distinta daquela dos judeus do Ocidente. Não há saudades da pobreza e da sujidade que lá passavam mas há saudades daquilo que lhes dava sentido além dessa pobreza e sujidade. E isso é essencialmente a sua fé. Esta fé, por comparação, faz parecer os judeus do Ocidente quase pagãos. O leste torna-se também uma resistência religiosa.
Não é surpresa dizer que os cristãos evangélicos tentam ser os melhores herdeiros dos judeus. Talvez por isso sejam criaturas mais patéticas que os cristãos católicos. Os cristãos católicos são gregos em termos de temperamento ao passo que os evangélicos são mais dados ao ridículo porque o ridículo está por todo o lado na vida dos judeus da Bíblia. Esta tese que abraço encontro-a em muitas linhas de Roth: "Ao rezar, [os da cidadezinha judia] indignam-se contra Deus, clamam ao céu, queixam-se do seu rigor e, na casa de Deus, procedem contra Deus, para depois reconhecerem que pecaram, que todos os castigos tinham sido justos e que querem ser melhores. Não há nenhum povo que tenha esta relação com Deus. É um povo antigo e conhece-O há já muito tempo! Experimentou a sua enorme bondade mas também a sua fria justiça, pecou frequentemente e expiou amargamente os pecados e sabe que pode ser castigado, mas jamais abandonado (páginas 52 e 53)."
Ler os "Judeus Errantes" de Joseph Roth é compreender um bocadinho melhor um dos acontecimentos mais tristes da História (o ambiente pré-Holocausto) mas é também compreender um bocadinho melhor um dos acontecimentos mais felizes da História: Deus não abandona aqueles que ama.

Quarta-feira, Abril 24, 2013

A cama de grades do Caleb
Esta semana trocámos a cama de grades de madeira do Caleb por uma maior e aberta. A emoção dele foi tal que, quando o novo lugar de dormir chegou durante a manhã, transferiu os seus brinquedos para lá e plantou-se voluntariamente no sítio que mais evita até que chegue o primeiro momento de recolhimento obrigatório (a sesta). Se vivêssemos mais a Norte do País, junto a Paços Ferreira – a capital do móvel, poderíamos ter na mudança constante da mobília do quarto dos miúdos a solução para o problema de não quererem deitar-se. Ou isso ou eu tomar o assunto nas minhas mãos e tornar-me carpinteiro. Afinal também foi a profissão do Senhor.
Falo sobre a cama de grades de madeira do Caleb porque acredito que pode ser uma imagem da tarefa de educação dos meus filhos. O Caleb vai fazer três anos em Maio e não me importava que todos os desafios futuros da sua educação se resolvessem com a facilidade com que se troca de cama. Seria um sinal de que pouco mais me seria exigido do que acomodá-lo em lugares à medida do seu tamanho. Uma questão de fita métrica e caixa de ferramentas. Nessa perspectiva educar um filho seria sobretudo um exercício de contê-lo no espaço apropriado. Ora, acho que parte da educação que devo dar-lhe passa também por isto (e os Céus conhecem as dificuldades que por vezes tenho em conter o meu Caleb), mas vai além. Muito além.
Tenho estado a escrever falando apenas em mim e no Caleb. Mas a minha família tem mais a Ana Rute, a minha mulher. O casamento tornou a conjugação do verbo no singular numa realidade colectiva (quando falo em mim, falo em mim e na Ana Rute). E a minha família tem mais a Maria. A Maria vai fazer 9 anos em Maio. E a minha família tem mais a Marta. A Marta vai fazer 7 anos em Novembro. E a minha família tem mais o Joaquim. O Joaquim vai fazer 6 anos em Novembro. E acho que estão todos (pelo menos hoje quando saí de casa éramos seis ao todo, acho). Resumindo, tenho algum trabalho pela frente no que diz respeito à educação dos meus filhos.
Deixem-me mencionar uma dimensão negativa da educação dos filhos, a partir da figura da cama de grades de madeira do Caleb. Por pouco atraente que soe, os pais também são chamados a colocarem os filhos em lugares que os isolem do mundo exterior. Da mesma maneira que a cama de grades de madeira serve para impedir que o Caleb caia dela, somos chamados a educar os nossos filhos impedindo-os de estarem em lugares nos quais ainda não têm maturidade para andar. Sei que hoje estamos todos um bocadinho inclinados para gostarmos de ser os pais que confiam no discernimento dos filhos mas a verdade é que a Bíblia antes de nos ensinar a confiar no discernimento dos nossos filhos assusta-nos para a tarefa de lhes passarmos algum. E é impossível ser bom pai sem proibir. Por amar o Caleb é que também lhe coloco grades na vida.
Mas, graças a Deus, a educação dos filhos tem uma dimensão positiva. Muito positiva. Como explicar o orgulho meio tolo de apreciar o primeiro sono do Caleb na cama sem grades? Como justificar que o meu peito tenha inchado na primeira manhã em que chegou junto a mim tendo saído da cama pelo seu próprio pé? O sabor de vitória nos meus lábios fez daquela caminhada do meu mais pequeno uma maquete do momento em que, se Deus permitir, há-de tirar a carta de condução. Somos também chamados a educar os nossos filhos permitindo-lhes irem a lugares onde nunca andaram antes. E nessas ocasiões sabemos que podemos confiar no discernimento dos nossos filhos porque, pela graça do Senhor, conseguimos passar-lhes algum. E é impossível ser bom pai sem permitir. Por amar o Caleb é que também lhe retiro grades na vida.
Não é casual que as árvores, que me fornecem a matéria para as camas de grades dos meus filhos, sejam ao mesmo tempo um símbolo da vontade que Deus teve para a sua Criação: o crescimento. E da mesma maneira que o Senhor nos chamou a cuidar da Criação, chama-nos ainda mais a cuidar do crescimento do ponto máximo dela: os nossos filhos. É nele que colocamos a nossa esperança de vermos as nossas crianças darem passos seguros até nos lugares onde tantas vezes os adultos caem.

[Este artigo foi publicado no último número da Revista Lar Cristão.]

Terça-feira, Abril 23, 2013

Ouvir
No cristianismo falar da fé não é uma questão de génio mas de genuflexão. O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Abril 22, 2013

Uma mulher a pôr os homens em ordem na Igreja
Eu é que andei distraído. Ler Dorothy Sayers pela primeira vez aos 35 anos é daquelas coisas que pura e simplesmente não devia ter perdão. Mas finalmente deitei mão a "Letters To A Diminished Church" que colecciona textos sobre o cristianismo. Como o próprio título indica, a mensagem agregadora é precisamente essa, da necessidade da Igreja se deixar de delicadezas que a enfraquecem. Dorothy Sayers é daquelas escritoras que reclama mais virilidade para a fé. Ou seja, é uma mulher que também quer que os homens sejam homens. É impossível não querer ouvi-la.
Dorothy Sayers tem muito em comum com amigos dela. Respirou do cachimbo de C.S. Lewis e bebeu da cerveja de Tolkien. O que significa que também recebeu parte da herança de Chesterton. Por isso pratica a mesma modalidade de defesa do cristianismo em regime de imaginação e intrepidez. Com estes britânicos não há um único segundo de tédio. O leitor fica simultaneamente mais devoto e divertido.
Nestes 16 textos há uns quantos que se destacam. "The Dogma Is The Drama", "Creed Or Chaos?" e "Why Work?" são provavelmente os meus preferidos e passam pela centralidade  e criatividade da doutrina, pelas consequências irracionais de uma sociedade sem credo, e pelo sentido e sabor do trabalho. São assuntos que tanto assustam descrentes quanto crentes. Aliás, na escrita de Sayers há uma revolta maior com os cristãos preguiçosos do que com os pagãos cépticos. Talvez porque Sayers escreve primeiramente para quem não está a ir à igreja ao Domingo. Não está interessada em pregar ao côro.
Dorothy Sayers construiu a sua carreira a escrever sobretudo histórias de crime. Porque é cristã no território do diabo faz-nos lembrar Flannery O'Connor. Usa um tipo de humor semelhante tão leve quanto grave. Que pode fazer as primeiras baixas precisamente em cristãos sem graça nem volume. "If the pious are the first to be shocked, so much worse for the pious - others will pass into the kingdom of heaven before them (...) Surely it is not the business of the Church to adapt Christ to men, but to adapt men to Christ." Mas sem dúvida fará baixas também entre os ímpios. "It is a great mistake to present Christianity as something charming and popular with no offense in it. Seeing that Christ went about the world giving the most violent offense to all kinds of people, it would seem absurd to expect that the doctrine of his person can be presented as to offend nobody." É melhor vestirmos os coletes à prova de bala.
Descobri na internet uma imagem de Sayers onde surge graficamente canonizada. Apesar de ser Protestante (e Sayers também, era anglicana) não me parece mal esta iconografia. Até merecia um lugar privilegiado numa parede de nossa casa. Sinto-me refrescado à sua sombra.


Sexta-feira, Abril 19, 2013

Homosexual Marriage Is Oppression On Gays

[No blogue We're Not Portugal]
 
The first reason why I’m against the so-called homosexual marriage is a christian one: marriage in the eyes of God happens only between man and woman. But there’s a non-christian reason to why I’m against homosexual marriage: marriage between a man and a man or between a woman and a woman forces them to behave heterosexually. And, in that sense, homosexual marriage is a kind of oppression on gays.
Ask a homosexual that has lived the crazy San Francisco seventies if he liked the eighties compulsive arrival of condoms. Nowadays he’ll use them because it prevents greater dangers. It’s something tolerated but never desired. Because condom forced a crazy lifestyle in a not-so-crazy fashion. Homosexual marriage is definitively different from condoms but, in my perspective, follows the same path - toleration of homosexual lifestyle as long as they behave.
We have bright homosexuals opposing homosexual marriage at the same proportion we have dumb christians supporting it. Generally it boils down to monogamy. Why was homosexuality portrayed as a perversion (and a dangerously exciting thing) during the History of the World? Because it could function as an activity practiced within marriage. Homosexuals were outlaws, not refugees. And their charm came out of that too. Homosexual marriage tends to ‘heterosexualize’ homosexuals, giving them something that never belonged to their DNA: monogamy. And I see the proof resting on the fact that unfaithfulness is what in the Bible can get heterosexuals out of marriage, while faithfulness is what naturally homosexuals are claiming so they can be in. However, they’ll have their citizenship broadened and their fun tightened.
Dumb christians support homosexual marriage trying to look progressive while casting the oldest of institutions. If the point is fraternity with the revolution, why not go all the way and get rid of the whole thing? What about our non-married heterosexual brothers? Don’t they deserve the same love from the Church? If we’re into the affirming business let’s not deny the marriage happening when there’s none, in the prestidigitation mode so dear to people inside the cultural conversation.
Monogamy will look good for gays if it surfs on sentimentality. That’s what’s happening culturally. Maybe the ones who have more experience on monogamy (the heterosexuals) could do our homosexual friends a favor and tell them to keep pure from it. Carl Trueman gets it talking about “one of the supreme ironies of the contemporary politics of homosexuality.  A movement originally built upon the idea of transgression, the breaking of taboos and the crossing of boundaries has become one of the most intolerant and conformist movements ever to emerge within liberal democratic societies.” Monogamist homosexuals are the worst kind of persecution over gays. Free them!

Quarta-feira, Abril 17, 2013

Ouvir
Dorothy Sayers dizia que se os pastores se refreiam de dizer coisas que podem ser mal entendidas então vão acabar a nunca dizer alguma coisa que valha a pena ouvir. O prazer desta igreja também está no perigo que ela abraça.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Abril 15, 2013

História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo
[Full disclosure: sou amigo do Henrique Raposo. Lê-lo de coração aceso não deve impedir-me, ainda assim, de ter a cabeça ligada.]

Quando estive no lançamento da "História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo" levávamos os miúdos e por isso o tempo teve de ser dividido entre tomar conta deles na secção infanto-juvenil e tentar escutar alguma coisa da apresentação do livro. Talvez por causa disso não consegui sentir-me muito atraído pelo que os convidados disseram, que me pareceu um bocado fechado nos debates internos da ciência política. Mas cravei o livro ao Henrique porque o Henrique não escreve para aquecer. Ou seja, não é preciso ser sociólogo ou historiador para perceber que quando o Henrique pensa, quer ir a algum lado.
O Henrique aproveitou o formato curto (e muito bem esgalhado pela Guerra & Paz para esta colecção) para uma reflexão sobre o nosso Século XX. Traz cinco teses que apresenta de uma maneira razoável (isto é, com factos). Bem sabemos que apresentar teses de maneira razoável (isto é, com factos) é hoje um desporto tão radical quanto suspeito diante daquilo que me parece ser a Academia (se podemos em paz de consciência chamar Academia aos nossos pensadores fica para outra ocasião). E, aqueles que já conhecem o Henrique, sabem que isso não o dissuade. Pelo contrário, diverte-o. Por isso a adicionar ao facto do Henrique apresentar teses de maneira razoável está o de o fazer com divertimento. O que me parece duas excelentes razões para ler livros. Neste domínios o Henrique anda meio sozinho, creio. O que o destaca.
Salazar não era uma criatura da igreja. Portugal não precisou de Mário Soares para entrar na Europa. Os portugueses ficaram mais ricos durante o Estado Novo. A esquerda também era colonialista. Álvaro Cunhal venceu. Estas são as cinco teses que o Henrique apresenta aparentemente como provocação, na convicção que são prováveis (que se podem provar, não que têm probabilidade de acontecer). No meu caso, destas cinco teses apenas a primeira e a última me seriam familiares, não porque estudei os assuntos mas porque basta ser Protestante em Portugal para entender que a relação do Estado (seja novo ou velho) com o Catolicismo tem mais de conveniência que de convicção, e porque basta não ser de esquerda em Portugal para entender que o poder de Cunhal não precisou de ser político porque se tornou, na imaginação das pessoas, moral. Mas mesmo nestas duas teses aprendi que me fartei. Quanto mais nas outras nas quais era ignorante.
Por último, o Henrique aponta uma palavra para classificar o percurso de Salazar e de Soares, como as duas figuras essenciais do nosso Século passado. Esta palavra revela o talento do Henrique, porque mostra que estudar serve para apresentar teses de maneira razoável (isto é, com factos) mas também para compreender. Quando o Henrique classifica o percurso de Salazar e de Soares com a palavra ambiguidade mostra, a meu ver, que compreendeu bem estes homens mas que compreendeu bem este País. Mais dois ou três Henriques a explorarem o tema da ambiguidade portuguesa e eu prometo que começo a interessar-me por ciência política.


Sexta-feira, Abril 12, 2013

Forma de Vida
A Forma de Vida é uma revista online esplêndida. Desde o nome, à aparência, ao conteúdo. Junta nomes como a Carla Hilário Quevedo, o Miguel Tamen, Abel Barros Baptista, entre outros. Foi-me dado o privilégio de participar no número 2, acabado de sair. Escrevi a partir de um texto do primeiro número pelo Alberto Arruda. Fui atrás dele continuando a falar de Mateus 26, quando Pedro trai Jesus.

O triunfo de Jesus pede a presença de algumas derrotas. E a derrota presente nesta traição de Pedro (que permite um eco mais subtil mas também mais chocante da outra traição anterior, de Judas) mostra que traem os maus mas traem os bons também. É igualmente por isso que a salvação de Jesus é graça e não apenas conquista por uma mera demonstração de poder divino sobre-humano. Porque os melhores discípulos fazem coisas parecidas com as dos maus discípulos. O cristianismo ajudou o mundo a compreender que a primeira democracia é a da infidelidade.

Vão até (clicar em cima de lá) e usufruam da Forma de Vida.

Quinta-feira, Abril 11, 2013

Ouvir
Se a nossa experiência do amor não passa também pelo perdão é provável que seja completamente estranha ao amor que a Bíblia fala.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Quarta-feira, Abril 10, 2013

O português atira-se ao Brasil

Quando era miúdo havia duas colunas na minha relação com o Brasil. A primeira era a omnipresença de Brasil na TV portuguesa. Nos anos 80 a telenovela da Globo que passava à noite parava o País e quem não a visse era um eremita. A segunda era a presença frequente de missionários brasileiros nas igrejas baptistas portuguesas. Uns poucos viviam cá e pastoreavam, outros mais passavam e pregavam em púlpitos como os da minha igreja suburbana em Queluz, a poucos quilómetros de Lisboa. Essas duas colunas seguravam o edifício. Crianças como eu gostavam do Brasil porque viam telenovelas (por estranho que pareça, não havia grande condenação ética ao conteúdo delas nas igrejas onde cresci) e conviviam de vez em quando com missionários brasileiros (curiosamente, os que condenavam eticamente e de um modo mais claro o conteúdo das telenovelas que os crentes portugueses consumiam sem grande preocupação). Estrelas das telenovelas brasileiras eram recebidos pelas massas como reis. E pastores brasileiros eram recebidos pelas igrejas evangélicas como reis também. Mas na década de 90 esse amor pelo Brasil mudou nas crianças como eu que agora eram adolescentes.
Essa mudança não foi violenta mas gradual. No início da década de 90 os portugueses começam a conviver com os brasileiros já não como visitantes ocasionais. Um grupo pequeno deles decide viver cá. E continua a ser muito bem recebido porque vem com empregos de boa reputação. Sobretudo publicitários e dentistas. O Brasil, sendo um País mais pobre que Portugal, sempre teve melhor show e melhores dentes. Daí que essas profissões acolhessem pessoas que vinham com experiência e conhecimento (é verdade que do pouco que sei sobre odontologia, lembro que o reconhecimento dos dentistas brasileiros teve alguns problemas burocráticos mas, ainda assim, concretizou-se). Mas o cenário mudou com o avançar da década. No final dos anos 90 a emigração brasileira aumenta vigorosamente e já não traz profissionais qualificados. Os brasileiros que chegam já não dão mais ritmo às nossas tevês ou mais claridade às nossas bocas. Agora estão cá para limpar as nossas casas e nos servirem à mesa. E com essa transformação muda também o coração daqui em relação a lá. Se somarmos a isto o impacto negativo na comunicação social lusitana da chegada da Igreja Universal do Reino de Deus, temos uma alteração definitiva nos braços que os portugueses abriam para os brasileiros (isto porque a IURD se destacou por comprar alguns antigos e importantes espaços de cultura que estavam arruinados para se tornarem igrejas - algo saudavelmente legal mas que causou um estrondo nas emoções do País e que pode ser aferido se googlarem por "Reino de Deus e Coliseu do Porto"). A partir do momento em que o Brasil passou a oferecer empregadas domésticas, trabalhadores de restaurantes, cabeleireiros, prostitutas mais sofisticadas e pastores evangélicos (sei que soa meio rude essa lista mas é verdadeira) o charme de antigamente tornou-se quase lepra. O Brasil deixou de ser chique em Portugal para ficar brega.
Sei que simplifico mas dou um exemplo pessoal. Tenho uma irmã mais velha 5 anos. Aliás, tenho essa irmã mais velha cinco anos e outra mais nova quinze minutos. Mas Deus quis que essa irmã mais velha fosse a última a casar de nós os três. Durante o tempo em que os mais novos já tinham casado e ela não, eu, como irmão metido, aconselhava-a acerca do tipo de homem que devia arranjar. Imaginam a dica que eu dava? Basicamente era: "mana, podes arranjar qualquer um desde que não seja brasileiro." Isso é algo que admito sem orgulho (hoje não diria um disparate desses) mas que espelha bem o que ainda é um sentimento de muitos portugueses. E de muitos portugueses evangélicos. Que sentiram que tiveram de tirar do trono o Brasil mas que ainda não conseguiram despedir completamente o país-irmão do coração. Na minha opinião, os crentes portugueses têm a alma dividida em relação aos seus irmãos brasileiros. Se antes os recebiam com passadeiras vermelhas, agora são profundamente desconfiados deles (aliás, os portugueses são desconfiados por feitio). E creio que deveríamos ser nós, os cristãos evangélicos, a melhorar a hospitalidade aos cristãos brasileiros. E essa hospitalidade pode melhorar por, pelo menos, duas vias. Uma que creio negativa e outra que creio positiva (como bom calvinista, começo pela negativa).
Vou usar apenas algumas imagens simplistas que existem na cabeça de muitos portugueses para ilustrar uma maneira como não devemos receber os nossos irmãos brasileiros. Os irmãos brasileiros são maioritariamente mais animados e prontos que os portugueses. Quando chegam à igreja antes de pensarem em reverência (uma coisa mais europeia) pensam em alegria (uma coisa mais sul-americana). Por isso em menos de um fósforo os brasileiros estão a dirigir a música e a testemunhar fervorosamente nos cultos portugueses. É muito agradável ao início mas quando os ritmos se desacertam (e, acreditem, vão desacertar-se) os portugueses acham os brasileiros pouco sérios e os brasileiros acham os portugueses muito mortos. Na prática significa menos brasileiros nas igrejas portuguesas e muitas igrejas brasileiras em Portugal. Logo a pedagogia negativa que ofereço é: oferecer prematuramente responsabilidades na igreja aos nossos irmãos brasileiros não é saber hospedá-los, é na prática despedi-los. Temos de ter um olhar bíblico que se torne um olhar cultural. A extroversão brasileira não é um dom do Espírito. É um meio e não um fim. O mesmo se aplica à reserva portuguesa. Se são os brasileiros que chegam a Portugal, naturalmente terão de ser eles os primeiros a darem sinais de contextualização. Os portugueses devem ser firmes para não permitirem que os próprios brasileiros construam na sua híper-actividade uma reputação de falta de firmeza na fé. É útil esta pedagogia negativa na nossa hospitalidade.
Mas devemos sobretudo enfatizar a pedagogia positiva no modo como recebemos os irmãos brasileiros. O Brasil fez pelo Portugal evangélico o que só os Estados Unidos como País rivalizam. Devemos muito do que somos ao esforço missionário brasileiro. Começarmos por reconhecer isso é um passo enorme. Da mesma maneira como me ofende o sentimento anti-americano nos cristãos evangélicos portugueses, ofende-me o sentimento anti-brasileiro. E sei do que falo porque já pratiquei abundantemente os dois pecados. Como podemos falar mal das mãos que nos alimentaram? Os evangélicos portugueses têm de ser os primeiros a darem o exemplo de hospitalidade aos brasileiros porque sem eles não seriam os mesmos. Não temos nada a ganhar se acharmos que já não temos nada a aprender com os nossos irmãos brasileiros. E vice-versa. Agostinho, falando da Trindade, explicava-a também em termos de memória, inteligência e vontade. Olhar para o passado é apenas um pequeníssimo contributo para que haja futuro para a presença de brasileiros em Portugal. Porque muitos caminhos se podem abrir a partir do momento em que há memória. Se nós, os portugueses, quisermos ser inteligentes, que procuremos a vontade que encontramos nos nossos irmãos brasileiros. Este texto não tem pretensões de análise profunda com grandes alicerces espirituais em dados antropológicos. Que sirva pelo menos para tirar países do trono porque essa é a maneira de logo, logo os tratarmos como escravos.

[Este texto foi uma encomenda da revista IPródigo. No final apercebemo-nos que o contexto era demasiado restrito para ser compreendido no Brasil. Deus permita que seja compreendido em Portugal.]

Segunda-feira, Abril 08, 2013

Ebert
Os últimos dias têm sido de mortes (como todos). Hoje foi Margaret Thatcher. Há um par de dias foi o filho do Pastor Rick Warren. E na semana passada o Roger Ebert. Sobre este último gostava de dizer que, apesar de não ser um seguidor rigoroso, volta e meia ia ler-lhe as críticas. Uma das coisas que gostava muito no Ebert era o facto de escrever com entusiasmo acerca dos géneros que são considerados menores. Ebert falava de terror e acção sem ter medo que lhe roubassem a carteira profissional. Claro que não é o facto de ver muito que nos faz ver o que vale a pena mas quando se vê muito acaba por se dizer também que ainda vale a pena ver. Gostava de ler o Roger Ebert porque ele me fazia sentir que o cinema ainda está vivo até nos sítios que são dados como mortos. De algum modo, e permitam-me a comparação forçada, era um crítico crente na ressurreição permanente do que criticava.
Tube



A tal família dos três rapazes, três raparigas e uma gata preta está aqui no youtube (com soluços).

Sexta-feira, Abril 05, 2013

Man
 












Momento nº1 - andar de bicicleta em 1996 no pinhal de Leiria cantarolando "Sou como um rio" para terapia de um adolescente com demasiado espaço para a introspecção. Momento nº2 - o de anteontem, como o retrato mostra. Man, às vezes ainda não acredito na vida que tenho.

Quarta-feira, Abril 03, 2013

A preparar o sermão de próximo Domingo
O perdão não existe para impedir que haja queixas. O perdão existe para resolvê-las. Por isso fica implícito que é normal que entre cristãos queixas existam. Do mesmo modo que fica implícito que essas queixas devem ser resolvidas pelo perdão. E a base desse perdão não é uma qualquer: devemos praticá-lo porque foi o mesmo que Cristo fez connosco. Dito de uma forma muito bruta: quem não quer perdoar então que não seja cristão.

Terça-feira, Abril 02, 2013

Ouvir
Para os gregos o resto mundo era bárbaro, para os judeus o resto do mundo era gentio. Na fé cristã já não há piso para essas fronteiras.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

Segunda-feira, Abril 01, 2013

Miguel Ângelo
É impossível ter vivido a última década do século passado em Portugal sem ter esbarrado na popularidade dos Delfins. A maioria de nós tem um disco deles sem que se lembre de o ter comprado. E esta é uma das maneiras de aferir o verdadeiro sucesso de uma banda - a participação individual inconsciente num movimento colectivo. Há poucos nomes da música portuguesa que tenham atingido este patamar.
Claro que com esta entronização massiva veio também o embalo oposto. No final dessa mesma década os Delfins tornavam-se uma piada fácil para a nova geração de humoristas portugueses, que se limitava a dissociar pavlovamente o nome da banda a qualquer tipo de critério audiofónico esclarecido. Ainda hoje se sentem os efeitos desta bipolaridade ficando a música quase sempre para segundo plano.
Lembro-me de gostar do "Desalinhados", descurtir à grande a fase mística seguinte, render-me ao efeito Resistência, fazer pouco do takeover comercial do "Caminho da Felicidade" (porque já tinha a mania que era punk nessa altura, apesar de cantarolar "Sou como um rio"), e surpreender-me com uma actuação da "Sharon Stone" no Herman. Os Delfins chegavam ao fim sendo uma banda menos ouvida e mais sentida como um desconforto. Apesar da minha própria apreciação deles ser irregular, sempre me pareceu que reduzi-los a uma punchline era demasiado gratuito. Hoje conheço razoavelmente bem a discografia dos Delfins e, mark my words, aprecio-a. Deram-nos algumas das grandes canções pop das últimas décadas. Agora mandem a jazz police prender-me que eu não me importo.
Conheci o Miguel Ângelo por volta de 2005, 2006, creio. Quando uma das bandas da FlorCaveira foi tocar ao Lótus Bar, em Cascais. O Miguel era um dos donos e era genuinamente interessado em ouvir o que de novo se andava a fazer. Tivemos uma grande conversa e foi a primeira vez que me apercebi do amor incondicional que o Miguel tem à música. Quando anos mais tarde li o livro dele, "Um Lugar ao Sol", fiquei convencido que antes de ser uma estrela o Miguel é um ouvinte. É essa dedicação que faz com que o Miguel possa ser encontrado nos concertos mais improváveis sem se preocupar com o seu incómodo lastro de popularidade. O Miguel é dos poucos músicos em Portugal que realmente está cá pelo rock'n'roll e que dá corpo à teologia do Lou Reed que declara que é ele, o rock, que salva vidas. Isso fez com que nos voltássemos a cruzar por volta do boom da FlorCaveira na imprensa em 2008, 2009, e que a partir daí nos tornássemos mais próximos.
Em 2011 os Lacraus tiveram uma ideia para um teledisco que envolvia o Miguel Ângelo tornar-se um assassino que esquartejasse o Nuno Markl. Nem um nem outro pestanejaram e deram-nos, perdoem-me a imodéstia, um dos maiores telediscos da música portuguesa. Mais de uma vez o Miguel se juntou em palco aos Lacraus para cantar "Um Peito em Forma de Bala", o que era um privilégio duplo porque crescemos a ouvi-lo e dava-nos uma oportunidade de irritar saloios porque sabemos que a figura do Miguel é uma blasfémia para os saloios que se armam em puristas do punk (e nós amamos irritá-los).
Esta Quarta-Feira vai acontecer o contrário. O Miguel convidou-me para cantar uma música com ele no concerto que vai dar no CCB. É de uma grande generosidade até porque serei uma perfeita desconhecida e desengraçada figura em palco. A ironia feliz é que em níveis de popularidade absolutamente opostos quer ele, quer eu, sabemos que é apenas rock'n'roll. E gostamos.


Sexta-feira, Março 29, 2013

Hoje estamos juntos às 20h na Lapa
Para recordar a morte do nosso Senhor. São bem-vindos (aqui).
Estavas lá?


Quarta-feira, Março 27, 2013

Livros (Tolentino, Henry James, Packer e Martyn Lloyd-Jones)
Em nenhuma parte a Bíblia nos diz que temos de ser amigos de toda a gente. Diz uma coisa distinta, que devemos amar os nossos inimigos. Na prática significa que somos chamados a amar pessoas que não gostamos. A ironia é que a influência da Bíblia ajudou a que o amor se tornasse uma palavra incontornável, mesmo para os que não crêem em religião alguma. E essa ironia continua no facto de, ao vivermos numa cultura tão marcada pela ideia de amor (nenhuma outra no mundo é tão obcecada pelo tema), parecer que de repente a amizade se tornou uma coisa de segunda categoria. O livro de José Tolentino Mendonça, "Nenhum caminho será longo", parte desta estranheza. "Cada vez menos se sabe do que falamos quando falamos de amor (...) Quase por automatismo adoptamos o vocabulário do amor, que corre o risco de se tornar uma gramática sonâmbula." E parte muito bem, com a tarefa de acordar os que dormem em pé.
O inglês é mais pegajoso que o português no que diz respeito ao uso da palavra amor. No inglês ama-se uma pizza tão facilmente como se ama um filho. No português mede-se mais antes de dizermos amor, o que não é sinónimo de se amar menos em português do que se ama em inglês. A maneira como se usa a palavra amor talvez funcione como termostato espiritual de uma língua, ou pelo menos de um temperamento. E essa avaliação ganha mais pertinência se juntarmos ao debate a amizade. Até porque o contexto das chamadas redes sociais tem banalizado a palavra amigo. O livro do José Tolentino Mendonça põe-nos a pensar na importância das palavras bem como na importância do que sentimos a partir delas. Vale muito, muito a pena.


















A Assírio & Alvim pertence agora à Porto Editora mas, graças a Deus, o Manuel Rosa continua tão irrequieto quanto antes. Viva a Documenta! Viva a Sistema Solar! A mesma excelência de edição permanece, indo dos mesmos rigores de catálogo, passando pela irrepreensibilidade gráfica e acabando no critério da escolha dos autores.
"O Mentiroso" de Henry James é um livro pequeno e crocante. É verdade que a crocância de Henry James apela a mastigações mais lentas porque o que interessa é o que acontece dentro das personagens e não tanto o que acontece fora delas. Mas James entusiasma-me onde nunca Proust me entusiasmou, talvez porque não faça da interioridade (detesto a palavra) um pretexto para a meta-história - simplesmente aí coloca a acção (bottom-line: a escrita de James tem uma acção que até pode ser interna, mas está lá). "O Mentiroso" mete um pintor a ter de lidar com uma antiga apaixonada que entretanto se casou. Agora cabe-lhe pintar o retrato do tal marido. Tudo pode dar certo neste livro e dá mesmo.


















 Os Puritanos são os maiores, capítulo trezentos e noventa e um. No meu último aniversário a minha mulher ofereceu-me dois volumes dos Puritan Papers. Os Puritan Papers reúnem o material de umas palestras anuais em que participavam teólogos protestantes ingleses eminentes como J.I. Packer e Martyn Lloyd-Jones. Os temas eram sempre familiares à memória dos puritanos (e isto durante a década de 60 onde as modas andavam noutra) mas não só. Os dois volumes que li trataram de assuntos como Calvino e o Calvinismo, arminianismo, presbiterianismo, a Igreja de Inglaterra e sua história, a relação do protestantismo com o passado, e a vida de alguns pregadores célebres como Whitefield, Spurgeon, entre outros. A leitura é diversa e a virtudes desta colecção é dupla por mostrar os afectos de quem escreve e apresentar os assuntos que são escritos. Eu, que já era fã de Packer e Lloyd-Jones, tive uma introdução deles a temas com os quais não estou assim tão familiarizado. Sobretudo Packer tem uma análise tremenda para em pouco conseguir expor as linhas-mestras sobre os assuntos em reflexão. Aprende-se muito com os Puritan Papers.


Terça-feira, Março 26, 2013

Ouvir
Encontrarmo-nos agora com Cristo, graças à ressurreição que nos preparamos para celebrar, é o que nos permite desejar coisas que por enquanto nos parecem improváveis e desinteressantes. Se não nos sentimos capazes de buscar o que está alto, deixemos que o alto nos busque a nós.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).