quarta-feira, julho 18, 2018

Não sendo, é como se fosse da seita

[Comecei a escrever este texto em Janeiro. Hoje em dia demoro muito tempo a escrever alguns textos. Entretanto, a sua validade em termos de pertinência mediática, expirou. Mas não expirou a importância das coisas que estou aqui a tentar organizar no meu pensamento. Por isso, e como todo o atraso, leiam-no e façam por defender o mais importante: a nossa liberdade religiosa que é um modo de tornar a vida de todos mais livre, mesmo a dos não-religiosos.]

Em primeiro lugar, a razão porque não pertenço à Igreja Universal do Reino de Deus é a mesma porque não pertenço à Igreja Católica Apostólica Romana: as duas confiam que Deus dirige a Igreja fundamentalmente através de homens. No caso da primeira, fazendo uma mistura do que parece ser um princípio evangélico de autoridade da Bíblia com a importância de visões dadas por Deus aos líderes; no caso da segunda, fazendo uma mistura da autoridade da Bíblia com a tradição, representada na autoridade eclesiástica (e no Papa em particular). Quer a IURD quer a ICAR confiam, ainda que através de estilos diferentes, que a voz do líder é a voz de Deus. Neste sentido, elas são próximas e, consequentemente, distantes da tradição reformada protestante. IURD e ICAR são igrejas mais optimistas no processo de confiarem na liderança do que as igrejas evangélicas.

O que crê um cristão evangélico como eu? Crê também que Deus usa as autoridades eclesiásticas mas que elas não estão ao nível da autoridade da Bíblia. Simplificando muito e usando uma dicotomia que me parece razoável para os efeitos desta distinção breve: interpreta-se o que as autoridades eclesiásticas podem e devem ser a partir da Bíblia, e rejeita-se a ideia de que são as autoridades eclesiásticas que interpretam o que a Bíblia é e deve ser. Por muito que possa custar admitir, quer Edir Macedo quer o Papa Francisco desempenham para os seus rebanhos um papel de guia que nunca um pastor evangélico como eu deve desejar. Não sou neo-pentecostal nem católico romano porque tenho a Bíblia como o guia suficiente e eficaz para a minha fé, a uma escala que o catolicismo e a IURD não concebem para si. Os homens são importantes mas, à semelhança do princípio que já temos no Velho Testamento (e, portanto, no Judaísmo), submetem-se à palavra escrita. Reduzindo ainda mais o argumento: para a tradição hebraica, neste sentido continuada no protestantismo: a palavra vale sempre mais do que as pessoas.

Logo, se o meu propósito é apreciar os riscos da liderança da IURD em derrapagens perigosas expostas pela comunicação social, creio que é íntegro dizer que o princípio que leva ao despiste pode também afectar o motor da Igreja Católica Romana (não deixa de ser curioso o debate actual numa comunicação social mais inteligente e internacional acerca do rapto de um menino judeu chamada Edgardo Mortara no Século XIX, porque tinha sido baptizado secretamente por um padre, rapto esse apoiado pelo Vaticano de então e ainda hoje defendido por muitos católicos romanos). A partir do momento em que cabe a homens ter uma palavra última acerca do que o cristianismo realmente é, papel esse que se sobrepõe às afirmações claras das Escrituras, está criada a possibilidade de haver adopções ilegais no Portugal do Século XXI e de raptos na Itália do Século XIX. Será assim tão diferente a raiz da questão?

Em segundo lugar, lamento a pressa da comunidade evangélica portuguesa em vir a público afirmar que a Igreja Universal do Reino de Deus não faz parte da Aliança Evangélica Portuguesa. É um facto: a IURD não faz parte da AEP e, parece-me, justificadamente. Os princípios da IURD, como já mencionei, não assentam num princípio de autoridade e suficiência das Escrituras. Mas o problema não é esse. Pior do que a IURD querer passar por evangélica é os evangélicos não quererem ter nada a ver com a IURD. Como assim?

Creio que pior do que a IURD querer ser evangélica é os evangélicos não quererem nada com a IURD, porque aumenta um problema pior e mais grave que afecta evangélicos oficiais e não-oficiais que é uma escassa liberdade religiosa em Portugal. Ou seja, a pressa dos evangélicos em dissociarem-se da IURD é mais parte da doença do que da cura. Em Portugal, e aceitem a minha simplificação, a Igreja Católica Romana possui o monopólio da respeitabilidade religiosa. Este país que tem quase 900 anos continua a ter dificuldade em realmente respeitar outra religião que não seja aquela que participou no processo da sua origem. É certo que não éramos portugueses se o Papa não nos tivesse permitido ser (porque era assim que a política funcionava então), mas isso não deve significar que quase nove séculos depois só a religião do Papa possa ser respeitada - e infelizmente é isto que, em grande escala, continua a acontecer em Portugal.

Não vi uma única das reportagens da TVI porque, como regra geral, não confio na cultura religiosa dos jornalistas portugueses. Sei que é uma generalização mas creio-a profundamente justificada pela realidade. Do mesmo modo como não confio na cultura religiosa dos jornalistas que escrevem sobre o suposto ultra-conservadorismo católico romano numa capa recente da Visão, não confio na TVI para mostrar a realidade da IURD. Não me entendam mal: se a TVI descobriu um caso de polícia, parabéns! Bom trabalho. Metam os vilões no xilindró. Mas a questão é que quando a TVI descobre um caso de polícia na IURD o resultado prático é muito maior do que aquele que se situa nos tribunais judicais: nos tribunais da opinião pública toda a expressão religiosa não-católica fica pintada com as cores berrantes da "seita".

Sei por experiência que, de cada vez que a comunicação social vai falar sobre a IURD ou qualquer outro movimento mais excitado para os tristes padrões lusitanos, é de mim também que estão a falar. A prova é que os evangélicos passam a vida a justificar-se nas manhãs seguintes às noites em que reportagens destas passam na TV. Por isso quero dizer aos meus irmãos evangélicos: não julguem que pelo facto de a IURD não fazer parte da AEP, nós estaremos a ser poupados de alguma coisa. Aliás, é precisamente este esquema de "querer ser poupado" que deve ser denunciado e combatido. Nós evangélicos temos de perder o instinto imediato de, diante da exposição de qualquer falcatrua feita por uma minoria religiosa como nós somos, dizermos: "nós não somos desses!" Permitam-me ir mais longe: tirando as falcatruas, quero que me ponham no mesmo saco da IURD e de qualquer outra minoria religiosa olhada com suspeita.

Bandidagem é para ir para a prisão. Mas aquilo que é considerado esquisito em termos de religião é a casa em que habito no meu país. Não me interessa se os lumes da opinião pública se acendem agora contra a IURD ou mais tarde contra o Opus Dei (uma espécie de excepção dentro do catolicismo no que diz respeito à sua conturbada relação com a comunicação social) - se há um povo a ser queimado por não encaixar na religião respeitável da maioria, contem-me com ele. Se o facto de a minha moradia destoar do bairro participa no processo de ter menos liberdade, então podem crer que a prisão de uns hoje será a minha prisão amanhã. Logo, neste circo à volta da IURD o pior que acontece não é bandidagem dos pastores - é a redução real do já escasso respeito que os portugueses dão às minorias religiosas.

Em terceiro e último lugar, a preocupação de todos os evangélicos e de todas as pessoas de bem, tenham uma identificação religiosa ou não, é nestes momentos colocarem-se prioritariamente do lado da liberdade religiosa. A devida prisão para os bandidos não pode falar mais alto do que a liberdade dos crentes e é isso que não deixa de acontecer no imaginário português - "estas igrejas são todas uma quadrilha". Poucas ou nenhumas vozes se têm preocupado em levar o cartaz correcto para a manifestação. O povo alinha mais facilmente no linchamento de uns trafulhas do que na protecção de um direito. O mesmo povo que volta e meia gosta de nas redes sociais meter a frase de Martin Niemoller: "Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar."

Esquisitões da IURD: quando vierem para vocês, quero estar convosco. Antes de ser português, sou provavelmente da seita.



terça-feira, julho 17, 2018

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O sermão de Domingo passado, chamado "Adulterar no Coração", pode ser ouvido aqui.

Nas bancas

T. S. Eliot e Ezequias são exemplos na tarefa de tentar pôr a casa em ordem diante de um fim certo. O que pode ser salvo só se salva com a ajuda preciosa das lágrimas, que podem ir onde a força política não chega. Do mesmo modo como Eliot sabia que a cultura só sobrevive com culto, Ezequias arrancou vida à sepultura com chorosa oração. Pólis e prece: redima-se assim o Ocidente e qualquer outro canto terrestre. Faltam lágrimas aos nossos políticos e falta política às nossas lágrimas.

Na revista Ler. Comprem e leiam!


quinta-feira, julho 12, 2018

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O sermão de Domingo passado, chamado "Jesus chama-nos à amizade e à reconciliação com todos?", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, julho 04, 2018

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O sermão de Domingo passado, chamado "Os homicídios que não cometi mas confesso", pode ser ouvido aqui.